terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Lobisomem do Cariri

A lenda do lobisomem tem origem provavelmente na Europa do século XVI, embora traços do personagem  apareçam em alguns mitos da Grécia Antiga. Do continente europeu, espalhou-se por várias regiões do mundo. Chegou ao Brasil através dos portugueses que colonizaram nosso país, a partir do século XVI. Este ser sobrenatural possui um corpo misturando traços de ser humano e lobo.
De acordo com a história, um homem foi mordido por um lobo em noite de lua cheia. A partir deste momento, passou a transformar-se em lobisomem em todas as noites em que a Lua se apresenta nesta fase. Caso o lobisomem morda outra pessoa, a vítima passará pelo mesmo feitiço.

Estrada Barbalha Crato - 1962 (foto IBGE)

No Ceará, aqui e ali aparecem histórias dando conta do aparecimento de estranhos personagens, geralmente associados ao lendário lobisomem, que assustam as populações de pequenas localidades. Em 2008, na zona rural de Tauá, um “lobisomem”  furtava ovelhas e arrombava residências na região.  Era descrito por testemunhas como um individuo meio homem e meio lobo, que emitia ruídos estranhos e arrastava correntes. O delegado da cidade chegou a registrar dois Boletins de Ocorrência, feitos por moradores que viram a aparição. 
Uma das histórias de lobisomem mais conhecidas é a de Vicente “Finim”, morador do Cariri que, segundo a lenda, virava lobisomem nas noites de quinta para sexta-feira. Segundo a história, quando uma mulher tem sete filhas e o oitavo filho é homem, esse menino será um lobisomem. Também o será, o filho de mulher amancebada com um padre. Sempre pálido, magro e orelhas compridas, o menino nasce normal. Porém, logo que ele completa 13 anos, a maldição começa. Na primeira noite de terça ou sexta-feira, depois do aniversário, ele sai à noite e vai até um encruzilhada. Ali, no silêncio da noite, se transforma no “tal bicho” pela primeira vez, e uiva para a lua. 


Prédio da Prefeitura de Barbalha anos 50 (foto IBGE)

No caso de Vicente Finim, cujo nome verdadeiro é Vicente Araújo, a maldição de virar lobisomem lhe foi imposta porque ele teria de provocado o assassinato de sua mãe. A lenda conta que Vicente, ao levar o almoço do seu pai que trabalhava na roça, comeu a carne no caminho e disse que teria sido um homem que estava com sua mãe. O velho voltou para casa enciumado e matou a esposa à facadas. Ao morrer, a mãe de Vicente Finim teria deixado à maldição, dizendo que a pessoa que levantou aquele falso, ia ser transformado em lobisomem.
Daí em diante, toda terça ou sexta-feira, ele corria pelas ruas ou estradas desertas com uma matilha de cachorros latindo atrás. Nessa noite, ele visitava, sete partes da região, sete pátios de igreja, sete vilas e sete encruzilhadas. Por onde passava, açoita os cachorros e apagava as luzes das ruas e das casas, enquanto uivava de forma horripilante. Antes de o Sol nascer, quando o galo canta, o lobisomem volta ao mesmo lugar de onde partiu e se transforma outra vez em homem. Para quebrar o encanto, era preciso chegar bem perto, sem que ele perceba, e bater forte em sua cabeça. Se uma gota de sangue atingir a pessoa, ela também vira o bicho.


Praça Filgueiras Sampaio, em Barbalha,  década de 50 (foto IBGE)

A história de Vicente Finim correu o mundo, fazendo medo a crianças e adultos. Entrou para o folclore regional, foi contada em versos pelos cordelistas. Ele morreu em 1985, no Sítio Cabeceiras, Município de Barbalha, negando as acusações. Mas nas entrelinhas deixava uma dúvida. Confessava que gostaria muito de namorar e trocava o dia pela noite à procura de um amor proibido.


Fonte
Diário do Nordeste 20.08.2006

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