segunda-feira, 30 de maio de 2011

As Irmandades Religiosas no Ceará

 
Foto do livro Ceará Terra da Luz 

No período colonial, as irmandades religiosas tinham uma grande influência na vida da população. Tendo origem nas confrarias da Europa medieval, consistiam em associações religiosas de leigos, cujo propósito era cultuar um santo através de procissões, festas, construção de templos, prática de caridade. 
Também se responsabilizavam pela assistência social e pelos enterros dos seus associados – que se davam no interior das igrejas.

procissão das candeias em Juazeiro do Norte 
(foto do livro Ceará Terra da Luz)
Uma das maiores preocupações do homem no período colonial era com a morte, pois as pessoas sem posses acabavam sendo sepultadas nos campos e areais, enquanto os membros das confrarias eram assistidos por seus pares, que davam assistência a órfãos e viúvas, cuidavam do funeral e rezavam pela alma do falecido.
Existiam irmandades apenas de brancos, as de brancos e pretos, outras de pardos e algumas, mais raras, só de pretos, compostas quase sempre de escravos e de ex-escravos. As reuniões das confrarias, contudo, acabavam sendo também espaço de congraçamento social, pois possibilitavam contatos entre as pessoas para conversar, rever e fazer amigos, inteirar-se das novidades, e praticar outras ações, que fugiam a rotina do dia a dia. 
As irmandades, em razão da escravidão e das diferenças sócio-econômicas, funcionavam como entidades de classe, no sentido do termo. Congregando de inicio, pessoas da mesma cor, havia as Irmandades nobres como a do Carmo, a de homens pretos como a do Rosário, e uma de São Francisco para os mulatos.


As Igrejas do Rosário e do Carmo são algumas da igrejas de Fortaleza construídas por Irmandades religiosas

No que tange às irmandades no Ceará, era também objetivo de quase todas, a assistência aos irmãos mal sucedidos nos negócios ou com problemas financeiros. Destas, a mais preocupada com a assistência social, teria sido a Irmandade do Santíssimo Sacramento da cidade de Aracati, que recomendava insistentemente a aquisição de meios para instituição de um Montepio que teria por fim socorrer de preferência as famílias dos confrades que venham a cair em indigência.
Algumas irmandades como a dos Homens Pretos eram abertas à participação de mulheres, enquanto outras, a exemplo da Irmandade do Santíssimo eram formadas apenas por homens. A devoção ao Rosário da Virgem Maria possivelmente chegou ao Ceará com os negros vindos com os primeiros colonizadores. Entre os templos erguidos por essas irmandades está a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Fortaleza.
A Irmandade mais antiga do Ceará, seria a da cidade de Russas, fundada em 1728.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
As Irmandades Religiosas no Ceará Provincial, de Eduardo Campos         

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Ocupação Holandesa no Ceará


os fortes foram construídos para vigiar o oceano e defender o local de invasores estrangeiros

Entre 1630 e 1654 os holandeses dominaram o Nordeste. 
Seus objetivos, formulados pela Companhia das Índias Ocidentais eram, sobretudo, de controlar a região produtora de cana-de-açúcar, além de, explorar a terra em busca de outras riquezas. 
Assim, após fracassarem  na conquista da Bahia (1624-25), dominarem Pernambuco (1630), estenderam seus domínio para outras capitanias como Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. 
A ocupação do Ceará pelos flamengos visava igualmente ao estabelecimento de um posto de apoio logístico para conquista do Maranhão (que também despertava interesse dos holandeses), bem como a manutenção da capitania de Pernambuco, à medida que se afastavam cada vez mais os portugueses dos centros produtores de açúcar. 
Havia, ainda, interesses na extração de produtos minerais, principalmente sais, âmbar e especialmente prata, que supunham, fosse abundante no Ceará. 

enseada do Mucuripe, local de desembarque dos holandeses

Em outubro de 1637, 126 homens, comandados  por George Gartsman desembarcaram no Mucuripe, dirigindo-se para o forte do Siará em companhia de diversos índios, em plena animosidade com brancos portugueses.  
Os indígenas buscaram essa aliança com os holandeses como uma tática, para manterem suas terras, e se livrarem das opressões impostas pelos lusitanos. O forte português ocupado por apenas 33 soldados sob as ordens de Bartolomeu Brito, logo caiu, ante a força do ataque dos holandeses. 
Estava desfeito o império luso no Ceará, ainda que temporariamente.  
No forte conquistado, ficaram 45 homens liderados por Hendrick Van Ham, enquanto Gartsman conduzia os portugueses prisioneiros para o Rio Grande do Norte. Posteriormente, em 1640, o comando do forte passou para Gedeon Morris de Jorge, um dos grandes estrategistas da ocupação holandesa no Ceará. 

Barra do Ceará, local da construção do Forte de São Sebastião

Os holandeses, no entanto, logo perceberam a inexistência de atrativos econômicos na terra, ainda que tenham explorado áreas salineiras – usando mão-de-obra indígena escrava.  A reação indígena foi contundente diante dos maus tratos: em 1644 invadiram e destruíram o Forte de São Sebastião, trucidando todos os holandeses.
 Cinco anos depois os holandeses retornaram ao Ceará, agora sob o comando de Matias Beck. Essa segunda invasão ocorreu num momento de decadência  do domínio flamengo no Nordeste, verificando-se mesmo em Pernambuco, violenta insurreição. 
Portanto, necessitando de recursos, trataram de reconquistar o Ceará, novamente em busca das ricas minas de prata.
Matias Beck buscou uma reconciliação com os indígenas, dando-lhes muitos presentes. Mandou erguer na Colina Marajaitiba, às margens do Riacho Pajeú o Forte de Shoonenborch, cujo nome era uma homenagem ao governador do Brasil-Holandês. 
Os holandeses passaram os cinco anos seguintes procurando minérios em terras cearenses – em Itarema, na Ibiapaba e em Maranguape, mas não obtiveram sucesso com essa empreitada. 
Com a seca de 1651-54 e, principalmente, com a rendição holandesa em Pernambuco, o forte cearense ficou quase esquecido.  Os índios locais, incitados por nativos fugidos de Pernambuco, passaram a se indispor com os holandeses e a não mais aceitar a presença de qualquer branco na terra. 

Mapa de Matias Beck "Planta do Forte Schoonenborch da Bahia de Mucuriba e do Monte Itarema, situados no Ceará, aos 28 de abril de 1649. (arquivo Nirez) 

Por esse motivo, chegaram a matar alguns soldados e a sitiar o Forte Schoonenborch.  Finalmente, conforme o acordo de rendição entre flamengos e lusitanos, em 1° de junho de 1654, Matias Beck e seus soldados deixaram pacificamente o Ceará.  
Ao mesmo tempo os portugueses, através de um novo capitão-mor, Álvaro de Azevedo Barreto, retomaram a colonização, começando por mudar o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.
Em 1656, o Ceará foi desligado do Estado do Maranhão, ao qual estivera sujeito desde 1621 e passou a ser subordinado a Pernambuco, situação que se manteria por 143 anos, até 1799, quando a capitania ganhou autonomia.  

fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Colonização do Ceará: a Expedição de Martim Soares Moreno

Vista da Barra do Ceará vendo-se à margem do rio o Forte São Sebastião, desenho de 1645, de Frans Post.

Martim Soares Moreno nasceu em Portugal e chegou ao Brasil em companhia de Diogo Botelho, oitavo Governador-Geral do País.  Logo aprendeu a língua dos nativos e assimilou seu modo de viver, conquistou-lhes  a  confiança e por extensão, a amizade. 
 Tenente da guarnição do Forte dos Reis Magos,  Soares veio ao Ceará para combater os franceses, que estavam estabelecidos aqui.  Soares Moreno procurou garantir sua posição erguendo uma paliçada a titulo de fortificação. Corria o dia 20 de janeiro de 1612, quando batizou o forte com o nome de São Sebastião. 
Religioso, ergueu uma ermida em louvor a Nossa senhora do Amparo.  Um sargento e dezesseis soldados eram a guarnição do Forte. 
 Em 1613 foi convocado para combater a França Equinocial, no Maranhão, ao lado de Jerônimo de Albuquerque, que já havia se destacado na conquista do Rio Grande do Norte. Em Jericoacoara os portugueses construíram um forte de madeira que chamaram de Nossa senhora do Rosário, como base de operações, sendo Soares Moreno enviado para espionar as posições francesas no Maranhão.


          Forte São Sebastião, na Barra do Ceará em 1612 
                                     
Enquanto isso, em Jericoacoara  os portugueses enfrentaram e resistiram  a ataques promovidos por índios  e por piratas franceses comandados por Du Pratz.  Este procurara também, sem sucesso, conquistar o Fortim de São Sebastião, na Barra do Ceará.  
Após vários incidentes,  Moreno voltou ao Ceará, desta vez em definitivo, em 1621, agora como capitão-mor, titulo dado pela coroa portuguesa em reconhecimento aos serviços prestados. Moreno reencontrou o forte de São Sebastião quase destruído. 
Os soldados maltrapilhos, com soldos atrasados, e sofrendo constantes ataques de índios hostis. Remodelou-se então o que foi possível, tentando-se dinamizar a economia local e dando inicio a criação de gado vacum e o cultivo de cana de açúcar. 
Nos anos seguintes tornaram-se constantes os apelos de Martim Soares Moreno às autoridades lusas no sentido de obter ajuda para viabilizar a colonização. Tudo em vão. 
Em 1631, terminando seu período de dez anos como capitão-mor, cansado da falta de recursos, e da pouca atenção da Metrópole, retirou-se definitivamente do Ceará. Foi para Pernambuco combater os holandeses que então ocupavam o Nordeste. Depois, em 1848, já velho, partiu para Portugal. 
Nunca mais retornou ao Ceará.


a escultura de Corbiniano Lins que se encontra na Avenida Beira-Mar, representa a união de Martim Soares Moreno com a índia Iracema

Mesmo assim Martim Soares Moreno é considerado por parte da histografia conservadora como o fundador do Ceará, sendo homenageado como o guerreiro branco Martim no livro Iracema, de José de Alencar, de 1865. A obra está ligada à corrente literária  do romantismo do século XIX  e ao processo de construção da identidade  nacional brasileira. No Romance – do amor de Martim e Iracema nasceu Moacir – o primeiro cearense – ou seja, o índio idealizado, aculturado, aliado do colonizador. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cococi – Uma Cidade Fantasma no Sertão dos Inhamuns



O Sertão dos Inhamuns fica  na fronteira Oeste do Estado, em pleno semi-árido, na faixa sub-equatorial que serve de intervalo entre a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica;  é reduto da cobertura vegetal da caatinga, tanto arbórea quanto arbustiva.
A região é geologicamente denominada de Depressão Sertaneja.
 É  formado pelos municípios de Aiuaba, Tauá,  Arneiroz, Parambu, Catarina e Saboeiro. 

vídeo feito pela Tv Jangadeiro


Cococi  é um distrito de Parambu distante 63 km da sede  e a cerca de 450 km de Fortaleza.
No século XVIII  foi onde se estabeleceu o clã dos  Feitosa, uma rica família vinda da bacia do Rio São Francisco. A cidade nasceu dentro de uma enorme fazenda da família, que doava os terrenos aos moradores.  Ainda hoje para chegar à localidade, é preciso abrir meia dúzia de porteiras.

antiga casa do Major Feitosa  (imagem: blog de altaneira)

Nos anos 50, Cococi passou de distrito a município, mas a administração da cidade teria cometido irregularidades na aplicação de verbas destinadas ao município.
Conta-se que durante a gestão do Major Feitosa, (no seu segundo mandato e o terceiro do Município),  o prefeito  teria recebido verbas para realizar investimentos na cidade, mas  utilizou o dinheiro para compra de gado.

imagem: camocimonline


O fato chegou ao conhecimento do governo federal, à época ditadura militar, que, em 1968, optou pela extinção do município, voltando a ser distrito. Revoltada com a decisão do governo, a família Feitosa decidiu deixar a cidade que acabou se tornando economicamente inviável. 
Pouco a pouco os outros moradores também foram se mudando para outros municípios.
Hoje apenas três casas ainda tem moradores, com 9 pessoas que vivem sem água, sem energia elétrica, isolados e esquecidos.

foto:blog amorsemlimite

A casa mais imponente, hoje, abriga só os morcegos. Mas, uma construção resiste ao tempo: a igreja. Uma vez por ano a Matriz é ponto de encontro dos antigos moradores e descendentes que chegam para celebrar a padroeira e relembrar o passado. 



 igreja matriz (foto: blog de altaneira) 


A solidão é ainda maior á noite, onde a total escuridão esconde as marcas de um passado que foi povoado de esperanças e apagam as lembranças de uma cidade que perdeu tudo, até mesmo sua identidade. 

terça-feira, 17 de maio de 2011

A presença da Igreja Católica no Ceará

A Igreja católica fez-se presente no Ceará desde as primeiras tentativas de conquistas da terra. Algo compreensível, afinal a colonização portuguesa era legitimada pelo Papa e estava ligada a necessidade de expansão da fé católica. É sintomático que uma das tentativas  de conquista do território cearense tenha sido encabeçada por dois jesuítas, Francisco Pinto e Luis Figueira, em 1607. 
Em 1611, outro colonizador – Martim Soares Moreno – trouxe consigo o padre Baltasar João Correia, erguendo ao lado do forte de São Sebastião, na atual Barra do Ceará, uma pequena ermida de taipa, dedicada a Nossa Senhora do Amparo. Sem muito êxito na sua missão, o religioso retirou-se por volta de 1615.
Eram poucos os clérigos - sobretudo nos momentos iniciais da colonização - que tinham interesse em vir para o Ceará, terra muito pobre, habitada por índios selvagens e homens rudes, muitos dos quais criminosos, todos vivendo maritalmente com as índias. Além disso, a remuneração era baixíssima. Sofrendo privações, mal pagos, e hostilizados pelos índios, colonos e militares, os padres passavam pouco tempo a frente da paróquia cearense.  
o mapa representa o contato dos silvicolas com a natureza primitiva, com árvores, rios, pássaros e o solo, antes da chegada dos europeus que mudaram a face desta terra. 
Uma das ordens religiosas que se fez presente no Ceará no período colonial foi a dos franciscanos, que passaram a entrar casualmente no Brasil a partir da segunda metade do século XVI, mostrando interesse pela catequese dos indígenas. 
Os frades franciscanos introduziram uma novidade em termos de trabalho missionário, as santas missões ou missões itinerantes, isto é, a ação religiosa realizada por padres que visitavam de tempos em tempos, as vilas e os povoados do interior para pregar, confessar, rezar missas, etc. Isso permitiu uma aproximação maior dos frades franciscanos com a população mais humilde, que passou a se identificar com eles.
A Ordem dos Jesuítas também fizeram presença no inicio da colonização. Catequizavam os índios para convertê-los ao cristinianismo.  
 Entre outras coisas, os franciscanos andavam a pé (e não conduzidos por escravos como normalmente faziam os demais religiosos), trabalhavam ao lado dos sertanejos nas construções comunitárias (como capelas, cemitérios), ainda que fossem acompanhados e servidos por cativos.  
Os franciscanos estabeleciam as santas missões em um local por cinco a doze dias. As viagens não eram previamente planejadas, os missionários iam para onde fossem convidados – pelo vigário da localidade, pelo capitão da vila, por um poderoso fazendeiro. 
Quem os convidasse deveria pagar a viagem, a alimentação (geralmente carne seca e farinha) e fornecer hospedagem para toda a comitiva. Tal forma de evangelização tornou-se um sucesso, fato comprovado pelo expressivo número de pessoas que, andando a pé ou a cavalo, cantando ladainhas e benditos, seguiam os padres nos deslocamentos de uma região para outra.
Nas santas missões os franciscanos ouviam confissões, faziam pregações, condenavam os amancebados, os hereges, os adúlteros, os protestantes, os judeus, as bebidas, e tudo que era contra as leis de Deus. 
Passavam uma ideia de conformismo ante as diferenças sociais. Os pobres deveriam aceitar sua situação como uma condição imposta por Deus e respeitar o alheio. Mas os homens de posse deveriam praticar a caridade para obter a salvação eterna. Havia uma grande insistência quanto a proximidade do fim do mundo e dos tempos – só aqueles que seguissem a Igreja católica se salvariam, pois os demais queimariam no fogo do inferno. 
Impunham ainda uma visão penitencial do mundo, da necessidade de sacrifícios e sofrimentos para purgar os pecados e alcançar a graça divina. Essa visão penitencial influenciou bastante o catolicismo dos sertões nordestino ao longo dos séculos. 
Curiosamente havia nas santas missões todo um clima de festa, desde a chegada dos missionários, recepcionados por grande número de cavaleiros em procissão, até a pomposa festa de encerramento, no último dia da missão. 
Os moradores de uma fazenda eram solitários, os vizinhos mais próximos viviam a quilômetros de distância, devido ao tamanho dos latifúndios. Por isso, a visita dos missionários possibilitava esses momentos de sociabilidade sertaneja, alegres encontros e atividades de lazer, fé e diversão. 

fonte: 
História do Ceará, de Airton Farias

domingo, 15 de maio de 2011

Beberibe


O município de Beberibe localizado no litoral leste do Estado do Ceará, fica a cerca de 75 km da capital Fortaleza. Tem uma população de 49.311 habitantes (IBGE-2010) numa área de 1.624 km².
O Distrito foi  criado com a denominação de Beberibe, pela lei provincial nº 2051, de 24 de novembro de 1883, subordinado ao município de Cascavel. 
Foi elevado à categoria de município e distrito com a denominação de Cascavel, pela lei estadual nº 1153, de 22 de novembro de 1951, sendo desmembrado de Cascavel.
De acordo com divisão territorial datada de 18 de agosto de 1988, o município é constituído de 6 distritos: Beberibe, Itapeim, Parajuru, Paripueira, Serra do Félix e Sucatinga.







A cidade de Beberibe está localizada nas terras de sesmarias concedidas ao capitão Domingos Ferreira Chaves, Manuel Nogueira Cardoso, Sebastião Dias Freire e João Nóbrega pelo capitão-mor Tomás Cabral de Olival, em  16 de agosto de 1691.
Conta a tradição, pelo testemunho de seus antigos habitantes, que nos primeiros anos do século passado houve um naufrágio de uma embarcação portuguesa  naquelas paragens, da qual  era passageira dona Maria Calado.  Fervorosa devota da Sagrada Família, a portuguesa fizera uma promessa de que, se chegasse à terra com vida, nos destroços do navio que lhe serviam de sustentáculo sobre as ondas, mandaria levantar, no ponto em que aportasse, uma capelinha sob a invocação de Jesus-Maria-José.
A mulher aportou às praias do Morro Branco e ali adquiriu terras que confinam com a meia légua do rio Pirangi-norte-sul e ainda entre o rio Choró e a barra da lagoa do Uruaú.  Ali fixou  residência e mandou  construir a capelinha de sua promessa.
Mais tarde Lucas Brasileiro Ferreira de Araújo, neto de Baltazar Ferreira, dono do sítio Lucas, nome primitivo do distrito de Beberibe, quando da criação do município de Cascavel, levantou outra capela, sob o mesmo orago, em frente à sua residência na cidade de Beberibe.
Anos depois, o coronel Raimundo José Pereira Leite, homem rico de Cascável, sobrinho e genro de Baltazar Ferreira do Vale, do sítio Lucas, fez uma grande reforma na capela, que foi ampliada e transformada em Igreja Matriz. 

Igreja Jesus, Maria José



Cidade com forte apelo turístico,  extensa rede hoteleira e grande oferta de equipamentos de turismo e lazer, Beberibe atrai um grande número de visitantes, além de empreendedores interessados em se estabelecer comercialmente no local. Com estas características  necessita manter rígido controle no combate  a exploração desordenada de recursos naturais, a ocupação irregular de sítios e áreas protegidas, a gestão adequada do lixo e resíduos gerados por visitantes e turistas, dentre outras providências. 
  
 A retirada de areia das falésias para uso no artesanato é um dos problemas ambientais do local, assim como  as inscrições nas falésias decorrentes da atividade turística desordenada.
os passeios  em veiculos motorizados na área de dunas, utilizados em larga escala, prejudicam o ecossistema e representam uma ameaça a fauna  do lugar. 



O Estado do Ceará localizado no semi-árido, com sérios problemas de estiagem e secas periódicas,  tem como maior patrimônio (talvez o único) a sua bela paisagem natural.  A preservação ambiental não é uma opção, é uma questão de sobrevivência. 

Fonte: IBGE
fotos: arquivo do Blog 

sábado, 14 de maio de 2011

Escravidão e Abolicionismo no Ceará - Parte 3/3 (Final)

A idéia emancipacionista começou a ganhar corpo a partir de 1879, quando os preços dos escravos estavam em baixa, e os proprietários andavam as voltas com as dificuldades e custos de manter os cativos, em conseqüências da seca que durara até aquele ano.  
Surgiu então uma forte campanha articulada por segmentos médios, intelectuais, burgueses e até oligarquias rurais, todos contagiados pelo ideal liberal e civilizado europeu, onde há décadas o capitalismo condenara o sistema escravagista.
Dessa forma, em 1879, em comemoração ao oitavo ano da Lei do Ventre Livre, surgia uma pequena organização chamada Perseverança e Porvir, fundada por jovens de boa condição financeira, quase todos ligados ao comércio de Fortaleza, como José do Amaral, Manuel Albano Filho, Alfredo Salgado e outros. 
No final de 1880, os membros da Perseverança e Porvir fundaram uma nova entidade a Sociedade Cearense Libertadora, a qual se juntaram como sócios João Cordeiro, Isaac Amaral, Antonio Bezerra, Pedro Artur de Vasconcelos, José Teles Marrocos, Justiniano de Serpa, Pedro Borges e outros. 
A Sociedade Cearense Libertadora lançaria em 1881 o jornal O Libertador, com o objetivo de mobilizar a opinião pública em prol da causa abolicionista. Os periódicos A Constituição, Pedro II e Gazeta do Norte passaram igualmente a simpatizar com a bandeira da abolição, enquanto o jornal O Cearense, a combatia.
O libertador foi fundado em 1° de janeiro de 1881 como órgão da Sociedade Cearense Libertadora. Surge em consequência de uma intensa campanha abolicionista que se desenvolve a partir do inicio da década e torna-se vitoriosa em 25 de março de 1884. Chamava a atenção por ser bem redigido e pela boa aparência gráfica.
 
Jornal Pedro II que representava o Partido Conservador era  simpatizante da causa abolicionista
Em 1882, indivíduos que consideravam as práticas da Libertadora Cearense “radicais” e defendiam explicitamente a abolição “sem perturbação da ordem moral ou econômica no seio da família ou da sociedade”, fundaram o Centro Abolicionista, do qual faziam parte nomes como Guilherme Studart (mais tarde Barão de Studart), Júlio César da Fonseca e João Lopes Ferreira Filho.
Houve também um grupo só de mulheres, fundado em 1883, presidido pela sobralense Maria Tomásia Filgueira Lima. Os caixeiros (empregados do comércio) fundaram naquele mesmo ano o Clube Abolicionista Caixeiral, tendo à frente Antonio Papi Junior. Também em 1883, os estudantes do Liceu, Ateneu Cearense, Instituto Cearense de Humanidades e de outros estabelecimentos organizaram a Libertadora Estudantil.
No geral essas entidades promoviam reuniões as quais não passavam de encontros públicos de setores da sociedade, que através de festas, quermesses, e bailes arrecadavam fundos para alforriar cativos – a maioria mulheres e crianças, enquanto os homens permaneciam escravos em atividades mais pesadas – em pomposas cerimônias sob discursos e efusivos aplausos e pouco resultado prático.
A campanha abolicionista acabou atingindo os segmentos sociais mais humildes. A participação popular ficou evidente nos episódios do ano de 1881.
Sendo a condução dos negros escravos aos navios feita com o uso de jangadas, um grupo de abolicionistas – tendo à frente Pedro Artur de Vasconcelos e José do Amaral, arquitetaram o plano de convencer os jangadeiros a não mais realizar o trabalho. 
Obtiveram de imediato, a adesão do negro alforriado José Luis Napoleão e de Francisco José do Nascimento (o Dragão do Mar), figuras influentes entre os trabalhadores da praia.
Na manhã de 27 de janeiro de 1881, os jangadeiros se negaram a conduzir alguns negros cativos para o vapor Pará. 
Estátua de Francisco José do Nascimento no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
A noticia se espalhou pela cidade e, logo mais de 1500 pessoas de todos os segmentos sociais afluíram ao porto. Os escravocatas, sob vaias, ofensas e muito irritados, usaram de todos os artifícios – desde ameaças até a oferta de dinheiro – para convencer os homens do mar a embarcar as “peças”. 
Mas os jangadeiros permaneceram irredutíveis. Os negociantes chamaram a polícia, mas esta pouco pode fazer, pois não podia obrigar homens livres a trabalhar. 
Três dias depois, em 31 de janeiro de 881, nova luta. O vapor Espírito Santo tenta levar 38 escravos para o Sudeste do Brasil. Mais uma vez os jangadeiros recusaram-se a fazer o embarque. Uma multidão agora de três mil pessoas presta-lhe apoio, com aplausos e incentivos. 
Jangada do Dragão do Mar - neste porto não embarcarão mais escravos - 1881 (arquivo Ah, Fortaleza!) 
Após muitas discussões, ameaças, vaias e palavrões, os negros não foram embarcados. Naquela noite os abolicionistas colocaram fogo onde estavam trancafiados os cativos e os ajudaram a fugir.
Em 30 de abril de 1881, negociantes interessados em reabrir o porto de Fortaleza para o tráfico interprovincial tentam embarcar alguns escravos, contando inclusive com um forte aparato repressor – 210 homens armados. 
Compareceu pessoalmente à praia o recém-nomeado chefe de polícia, Torquato Mendes Viana, o qual teria chegado a afirmar dias antes que ou os escravos embarcariam ou correria sangue!  Os abolicionistas soltaram panfletos intitulados Pois Corra Sangue, incitando os defensores da causa a impedirem o embarque. Cerca de seis mil pessoas se reuniram na praia, gritando o lema de não se embarcam mais escravos no Ceará.
Em outubro de 882, José do Patrocínio, então conhecido nacionalmente como Marechal negro ou Tigre da Abolição, veio do Rio de janeiro visitar o Ceará para incrementar a mobilização. Foi recebido festivamente, sendo dele a autoria da alcunha de Terra da Luz, atribuída à província.
Painel na entrada da cidade de Redenção - CE, primeiro núcleo urbano do país a libertar os escravos
A 1° de janeiro de 1883, com a presença de José do Patrocínio, Acarape, passou para a história do país como o primeiro núcleo urbano a libertar seus escravos. A vila, por isso, mudou seu nome para Redenção.
Desse modo, a 25 de março de 1884, no 60° aniversário da Constituição do Império e no dia da Anunciação da Virgem Maria – realizou-se em Fortaleza, uma grande festa  para celebrar oficialmente o fim da escravidão na província do Ceará. 
Fortaleza Liberta - quadro de autoria do cearense José Irineu de Sousa, retrata a solenidade de libertação dos escravos de Fortaleza em sessão realizada no salão nobre da Assembléia Provincial (acervo Museu do Ceará)
Livro de Prata  oferecido pelos portugueses residentes em Fortaleza e utilizado na sessão da abolição da escravatura (acervo Museu do Ceará)
Estima-se que existiam naquela data cerca de 16 mil escravos. Após os fogos de artifício, gritos, lágrimas e tiros de canhão, a multidão que compareceu à Praça castro Carrera (Praça da Estação), ouviu quando o presidente da província, Sátiro de Oliveira Dias, concluiu seu discurso anunciando que a província do Ceará não possuía mais escravos.  
O pioneirismo cearense teve imensa repercussão no Brasil, influenciando a campanha abolicionista do Amazonas e das fronteiras do Uruguai.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias 
Revista Fortaleza, fascículo 11

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Instalação da Vila de Fortaleza

A decisão de instalar a vila em Aquiraz não foi das mais acertadas. 
Em agosto de 1713 os índios atacaram aquela comunidade ocasionando muita destruição e morte – cerca de 200 pessoas  perderam a vida –  levando muitos habitantes a buscarem proteção dos ataques no fortim de Nossa Senhora de Assunção.  Dos ataques dos índios Paiacus e Anassés, só escapou quem fugiu para Fortaleza. A ofensiva levou os próprios integrantes da Câmara, os chamados camareiros, a mudarem de ideia. Passaram então a defender que a sede da Vila do Ceará deveria ficar em Fortaleza.
Mapa do litoral do Ceará  de 1629
Contrariado com a situação, o rei de Portugal, D. Manuel, em vez de simplesmente transferir a sede da vila, mandou criar outra. Assim, a 13 de abril de 1726 foi instalada a vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, a segunda do Ceará,  pelo capitão-mor Manuel Francês. A motivação para a instalação desta segunda vila foi o de incentivar o desenvolvimento da capitania.
Mesmo depois da criação da vila de Fortaleza, conservou-se o pelourinho de Aquiraz, ficando cada câmara com seu espaço de poder. Fortaleza passou a ser a sede da Capitania com status de capital e Aquiraz, sede da Ouvidoria da Vila, como autoridade máxima da justiça.
Os Limites entre as duas vilas cearenses, São José de Ribamar do Aquiraz e Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção eram estabelecidos pelo riacho Precabura: o que ficava a leste do riacho até Aracati ou Mossoró, era Aquiraz; o que ficava a Oeste até a Ibiapaba, era Fortaleza.
Planta da Vila de Fortaleza feita pelo capitão mor Manuel Francês (Arquivo Nirez) 
 É dessa época, mais ou menos, a primeira planta da capital cearense, descoberta pelo historiador Padre serafim leite e publicada no 3° volume de sua História da Companhia de Jesus no Brasil.
Mesmo assim, a Vila de Fortaleza, longe dos sertões, da pecuária, continuaria sendo por mais de um século, um mero aglomerado sem sustentação econômica ou expressividade política, permanecendo assim até as primeiras décadas do século XVIII.
A chegada do primeiro governador só aconteceria em 1799. Onze anos depois, segundo os registros da época, o aglomerado tinha cerca de dois mil habitantes.
A lenta projeção política da vila só começou com a emancipação do Brasil de Portugal, em 1822. Durante o período monárquico, que vai até 1889 (ano da Proclamação da República), o Brasil vive uma fase de concentração politica. É dessa época a criação das províncias do Império brasileiro, entre elas, a do Ceará.
Fortaleza acaba se beneficiando com o fato. Por ordem de D. Pedro I, a vila é elevada à categoria de cidade, no dia 17 de março de 1823. Passou a se chamar fortaleza de Nova Bragança, depois voltando à denominação anterior. A situação de estagnação de Fortaleza só começou a ser superada em 1866, quando a cidade passou a ser  o principal centro coletor de algodão, couro, açúcar e café do estado.  Nessa época o algodão produzido no interior atingia os maiores preços no mercado internacional, por causa da suspensão do fornecimento do produto dos Estados Unidos – mergulhado na Guerra de Secessão – para a Inglaterra.

 História Abreviada de Fortaleza e Crônicas sobre a Cidade Amada, de Mozart Soriano Albuquerque
História do Ceará, de Airton de Farias
Revista Fortaleza, fascículo 4 

sábado, 7 de maio de 2011

Bandeira do Ceará

A Bandeira do Estado do Ceará foi criada em 25 de agosto de 1922, quando o Presidente Justiniano de Serpa baixou o Decreto n° 1971, instituindo oficialmente o símbolo estadual. 
O modelo criado era idêntico à bandeira nacional, substituindo-se o globo azul por um branco no qual figurava as armas do estado. 
A bandeira havia sido criada pelo comerciante João Tibúrcio Albano que, ao hastear a Bandeira do Maranhão, terra natal de sua esposa,  em sua residência, achou por bem ladeá-la com a Bandeira do Ceará. Mas como esta não existia,  ele resolveu a situação colocando a bandeira nacional com o escudo do Ceará no lugar do globo azul.
Em 1937, com o golpe de Getúlio Vargas que instituiu o Estado Novo, foram fechados  a Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal, além de ocorrerem mudanças nos governos estadual e municipal.
O então governador Francisco Menezes Pimentel  permaneceu no cargo porque deu apoio ao novo governo, mas na condição de Interventor. Os Estados e Municípios não podiam ter hinos, bandeiras, escudos ou armas, sendo os únicos símbolos, os nacionais.
Os símbolos só voltaram a serem usados 10 anos mais tarde, a partir de  23 de junho de 1947, quando a Assembleia Legislativa promulgou a nova Carta Constitucional do Estado Ceará.  Essa nova Constituição foi a primeira após a ditadura Vargas e também a primeira do pós-guerra.
A Bandeira do Ceará foi modificada  em 1° de setembro de 1967, por sugestão  do historiador Raimundo Girão através da Secretaria de Cultura do Estado  e sancionada pelo  governador Plácido Castelo.  Pela lei 8.889, foram definidas as dimensões da Bandeira do Ceará e alteradas as armas nela contidas, sendo retirados os ramos de café e algodão. 

O verde e o amarelo da bandeira cearense retratam as matas e as riquezas minerais. O farol, a jangada e a carnaúba simbolizam, respectivamente, Fortaleza, o cearense e o extrativismo vegetal.  

Nirez

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Criação de uma Vila no Ceará

Vista da Barra do Ceará vendo-se à margem do rio o Forte de São Sebastião. Desenho atribuído a Frans Post, 1645 (arquivo Nirez)
Por ordem régia de 13 de fevereiro de 1699, a Coroa determinava a criação de uma vila no Ceará – a de São José de Ribamar – cuja localização foi motivo de muita controvérsia.  Com a instalação da vila, a sociedade civil (basicamente os grandes proprietários de terras) passou a participar da administração da capitania.  
Até a criação da vila a administração da capitania era feita  por três instâncias de poder: o capitão-mor  governador, a ouvidoria e a câmara de vereadores.
Os capitães-mores governadores recebiam instruções verbais de Pernambuco e concentravam todo o poder nas mãos. Eram arbitrários e provocavam inúmeros conflitos ao intervir  e perseguir outras autoridades.  
Os Ouvidores tinham a função de fiscalizar a administração e aplicar a justiça na capitania. O ocupante do cargo deveria ser formado em Direito e era nomeado pelo rei para um período de três anos.  
A Ouvidoria Real da Capitania do Ceará foi criada apenas em 1723, com sede na Vila de Aquiraz. Até então as pendências judiciais e administrativas eram resolvidas pelos Ouvidores de Pernambuco ou da Paraíba. 
As Câmaras detinham funções de ordem econômica, administrativa, econômica, policial e judiciária, como fiscalizar a construção de estradas, pontes e calçadas, regulamentar as feiras, os mercados e o trânsito, a arborização das ruas e praças e outras atividades relacionadas com o bem comum.
Ao contrário de outras vilas criadas no Brasil colônia, a questão da arrecadação de impostos não foi a motivação principal para a instalação da primeira vila no Ceará. O objetivo oficial seria a de amenizar as violências, abusos e arbitrariedades cometidas por capitães-mores e administrar a justiça, já que os ouvidores de Pernambuco e da Paraíba, raramente visitavam a capitania do Ceará, em razão das grandes distâncias que separavam as capitanias, da falta de meios de transporte, de comunicação e de segurança (ataques indígenas).
Enquanto os sertões cearenses permaneceram inexplorados, a guarnição militar do Forte de Nossa Senhora da Assunção, apesar de todas as limitações, pode garantir a ordem na capitania. 
Mas, a medida que as terras foram sendo conquistadas com a pecuária, apareceram as disputas entre fazendeiros pela posse da terra, atritos entre colonos e jesuítas por índios, assaltos, roubos e homicídios, os quais não poderiam ser solucionados apenas por uma tropa militar. 
Assim, foi para solucionar tais atritos, que se instalou na capitania uma vila e respectiva Câmara Municipal, que com seus juízes e vereadores,  serviriam para aplicação os princípios da justiça e como contraponto aos poderes dos capitães-mores.
O documento régio de 1699 dava margem a dúvidas sobre o local exato em que deveria ser instalado o pelourinho, (uma coluna de madeira, ferro ou tijolo que representava a autonomia municipal).  
Em consequência, verificaram-se sérias disputas entre as autoridades da capitania, e uma cômica mudança do pelourinho entre o forte de Nossa Senhora de Assunção, onde residiam as autoridades coloniais e eclesiásticas,  a barra do rio Ceará – no local denominado Vila Velha, onde se estabeleceram as primeiras fortificações portuguesas na capitania, onde viviam basicamente indígenas aculturados, em condições de extrema pobreza,  e Aquiraz (e extensivamente o Iguape, na foz do rio Pacoti), onde residiam os  grandes proprietários de terra, a elite local.
A 25 de janeiro de 1700, os três vereadores eleitos e dois juízes instalaram a vila no arraial do Iguape, alegando que este era o local mais conveniente.  A decisão, entretanto, não agradou as autoridades metropolitanas.
 Consultado sobre o local da instalação da vila, o governador de Pernambuco respondeu que esta deveria ser localizada próxima ao fortim. Assim a 25 de maio de 1700, o capitão-mor Francisco Gil Ribeiro instalou a Vila de São José do Ribamar junto à fortaleza de N.S. de Assunção, apesar dos protestos dos vereadores, que consideram o Iguape um local mais adequado. 
Usavam como argumento a longa distância da Aldeia do Siará e as condições pouco favoráveis desta: porto ruim, terras impróprias para a agricultura, falta de boas fontes de água, etc.
Sucederam-se então, outras mudanças conforme  a pressão dos vereadores e capitães-mores. O capitão-mor Francisco Gil Ribeiro, transferiu o pelourinho, em 1702, para um local mais distante ainda: a barra do Rio Ceará, que ficaria ali até 1706. 
O pelourinho da vila ficou na barra do rio Ceará durante 4 anos
Naquele ano o novo capitão-mor Gabriel da Silva lago levou o pelourinho de volta para o forte, sob protestos dos senhores da terra que insistiam pela escola de Aquiraz como sede da vila. Estes apelando às altas autoridades coloniais e ao próprio rei de Portugal  obtiveram em 1711, Ordem Régia determinando a mudança do pelourinho para Aquiraz. 
A 27 de junho de 1713, agora sob protestos dos moradores da fortaleza, a vila foi definitivamente instalada em Aquiraz. Por esta razão muitos consideram Aquiraz a primeira capital do Ceará.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias