quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

As Casas-Grandes de Fazendas do Ceará

As casas grandes fazendeiras nos moldes das existentes nos engenhos da região açucareira, não foram muito frequentes no sertão do Ceará. Mas, aqui e ali, perdidas na imensidão das caatingas, encontravam-se casas enormes, baixas,  de paredes muito grossas e madeirame pesado – autênticas casas fortes – para atender as exigências de estabilidade e da segurança. 

Casa de fazenda em Jaguaribe (imagem IBGE) 

Tais residências pertenciam geralmente, aos antigos donos de engenho, que mantinham fazendas de criação nos sertões, com a finalidade de atender interesses comerciais nas zona açucareira.

O tipo de construção mais comum na zona rural da Capitania do Ceará era naturalmente, daqueles fazendeiros que foram se estabelecer em suas terras. Apesar das grandes dimensões, eram casas sóbrias, com cobertura de telha em duas águas, vastos alpendres e paredes reforçadas, levantadas com madeira, pedra e tijolo da própria fazenda.

As instalações modestas dessas fazendas e a indumentária simples dos moradores não apresentavam nenhum conforto nem requinte, o que contrastava com a ostentação das casas-grandes dos engenhos de cana.

Casa de Fazenda no Crato (imagem IBGE)

Ao longo dos latifúndios, a distâncias regulares, ficavam os casebres dos outros moradores. Cabanas de taipa, de chão batido, cobertas quase sempre de palha, tetos baixos e pouca inclinação, portas e janelas escassas, insuficientes para entrada de luz e ventilação.

Ao redor das choupanas se cultivavam pequenos roçados para atender ao consumo imediato. A agricultura de emergência era trabalho para mulheres e crianças, porque os homens se dedicavam às labutas pastoris. A própria lavoura da sede da fazenda não tinha importância comercial. O couro representava a matéria-prima por excelência, na confecção de utensílios empregados tanto no campo como nas atividades domésticas.

Casa de Agregado em Fazenda do Crato (imagem IBGE)

Cada fazenda representava uma família, caracterizada por extremo patriarcalismo. Laços de parentescos uniam todos ao senhor. Havia os parentes sanguíneos legítimos ou ilegítimos, e o demais, em maior número, ligados por parentescos canônicos ou convencionais. Dentre estes últimos encontravam-se os moradores e os agregados.

O fazendeiro – quando residia na fazenda – dirigia os trabalhos, cercado dos parentes citados, juntamente com os índios mansos, que, constituindo depois sua prole, ali permaneciam como pessoas da casa, podendo ainda, se acoitar forasteiros, no mais das vezes fugitivos da justiça ou da ação de parentes das vítimas em busca de vingança.

Família reunida em Fazenda de Baturité (imagem do livro Ceará de Luz)

Não havia pagamento de salário, e sim troca de serviço. O fazendeiro sustentava seus agregados de comida, casa e roupa em troca do seu trabalho. Toda família permanecia sob o teto paterno e sob o pátrio poder mesmo depois da maioridade, até que seus novos membros contraíssem matrimônio e formassem um novo lar.

Os filhos homens, auxiliados por outros elementos da fazenda, cuidavam do gado. Vestindo roupas de couro e montados em cavalos escolhidos campeavam o gado. Os vaqueiros se transformavam em donos de fazenda, por herança, ou por vaqueirice, sistema em que a fazenda era entregue aos cuidados do vaqueiro, o qual, um dia, poderia transformar-se em seu próprio senhor. 

O vaqueiro – a mais legítima representação do sertanejo – foi sempre um individuo respeitado em razão da superioridade que lhe conferia o conhecimento da terra, do gado, dos métodos de criação e a responsabilidade direta das coisas da fazenda.  

Também não recebiam salários. A própria estrutura econômica não permitia a remuneração em dinheiro aos vaqueiros. O pagamento pelo seu trabalho era feito a longo prazo, através da quarteação da produção dos animais criados na fazenda, na proporção de quatro por um (de quatro animais nascidos anualmente, um pertencia ao vaqueiro). Esse sistema de pagamento por quarteação, em uso até o início da primeira década do século XX, era feito geralmente no fim de cada inverno, quando o gado era recolhido aos currais, para a marcação e outras providências.

Toda a vida fazendeira da colônia e de grande parte do império, desenvolveu-se em torno da criação do gado, o que contribuiu para o pouco empenho pela exploração agrícola da região sertaneja, onde até mesmo a mandioca era não cultivada em quantidade suficiente para atender as necessidades de consumo. 


extraído do texto
da conquista à implantação dos primeiros núcleos urbanos na capitania do Siará Grande
de Valdelice Carneiro Girão

domingo, 18 de dezembro de 2011

Padre Ibiapina o Apóstolo do Nordeste



José Antônio Pereira Ibiapina, nasceu em 1806, no povoado de São Pedro de Ibiapina, região de Sobral, filho de Miguel Ibiapina, um dos participantes da Confederação do Equador, fuzilados no Passeio Público. Após os acontecimentos de 1825, Ibiapina, órfão, recebeu ajuda de José Martiniano de Alencar e se dirigiu a Pernambuco, onde se bacharelou em direito. 

Cidade de Sobral, região onde em 1806 nasceu o Padre Ibiapina (foto IBGE)  

Na década de 1830, foi eleito pelo Ceará deputado geral do Império (1834-37) e juiz de direito em Quixeramobim (1834-35). Sofreu, contudo, uma grande desilusão amorosa: a noiva, Carolina Clarence (filha de Tristão Gonçalves), com que planejava casar-se, o abandonou e fugiu com um primo.

Ibiapina começou a se desentender com o então presidente cearense, senador José Martiniano de Alencar, ao recusar-se a promover, como juiz, as perseguições políticas e pessoais pretendidas pelos liberais. Posteriormente, Antônio Ibiapina abandonou a magistratura e a política, decepcionado com as injustiças que presenciava.

Em 1938 passou a residir em Recife, dedicando-se à advocacia. Em pouco tempo se notabilizou na profissão, ganhando fama de defensor dos pobres. Levava uma vida reservada, profundamente católica.

Em 1853, aos 47 anos de idade, o sobralense decidiu dar novo rumo à sua vida e ordenou-se padre pelo Seminário de Olinda, trocando o sobrenome Pereira pelo nome de Maria, em homenagem à Virgem Mãe de Deus. Sensibilizado com o sofrimento dos humildes, passou a percorrer os sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí, como missionário e realizando obras em mutirão – açudes, poços, cacimbas, capelas, igrejas, cemitérios – para atenuar o sofrimento e o abandono do povo do sertão nordestino.

Multidões escutavam e seguiam o pregador, os sertanejos consideravam Ibiapina um homem santo, atribuindo-lhe milagres e curas.

Uma das Casas de Caridade criadas pelo Padre Ibiapina, localizada no Crato, ao lado da Rádio Educadora do Cariri. Uma estátua homenageia e lembra o seu fundador (foto do Diário do Nordeste)
  
O padre construiu as famosas Casas de Caridade, que se destinavam a servir de escolas para as filhas de famílias ricas, de orfanato para as crianças mais pobres,   e ainda de centro profissional e hospital.  Criou também a Irmandade da Caridade, composta por mulheres leigas, beatas vestidas com hábitos e que faziam votos de castidade e pobreza, renunciando aos prazeres do mundo. Essas beatas trabalhavam nas casas de Caridade. Ibiapina acabaria entrando em rota de colisão com a alta cúpula da Igreja Católica.

Casa de Caridade de Santana do Acaraú 
foto http://memorialdasenhorasantana.blogspot.com

As mudanças operadas na organização eclesiástica em decorrência da romanização afetaram o relacionamento entre os padres e os paroquianos no Nordeste. A igreja aumentou o número de dioceses, colocando-as sob a administração de sacerdotes paulistas, mineiros ou estrangeiros, elementos estranhos ao universo cultural e social dos sertões. 

O Ceará foi uma área marcada profundamente pela romanização. A criação da diocese local em 1854 coincidiu com o período inicial de tal processo.  No ano de 1861 foi nomeado o primeiro bispo da província, Dom Luís Antônio dos Santos.  Este se voltou totalmente para a doutrinação romântica dos novos clérigos. Em 1864 fundou o Seminário da Prainha, em Fortaleza, chefiado pelos padres lazaristas franceses, uma ordem confiável e obediente ao Vaticano,  que tinha entre outras funções, o controle do misticismo popular, que tinha então como figura máxima o padre Ibiapina.

Seminário da Prainha em 1905 (arquivo Nirez)

Este acabou advertido pelo bispo D. Luís, sendo obrigado a entregar as Casas de Caridade e as Irmandades da Caridade ao controle episcopal,  e a deixar o Ceará. Ibiapina foi para a Paraíba, onde continuou seus trabalhos missionários pelo Nordeste, até falecer naquela província, em 19 de fevereiro de 1883.

Suas práticas marcaram profundamente os corações sertanejos e influenciaram outras importantes lideranças religiosas, como Padre Cícero e Antônio Conselheiro.

Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Arquitetura de Ferro no Ceará

Senador Pompeu, Ceará 

A arquitetura de ferro chegou ao Ceará na segunda metade do século XIX, importada da Europa, na forma de pontes metálicas para uso na rede de estradas carroçáveis, que servia à exportação do algodão produzido na província, com destino à Europa, tendo como escoadouro o porto de Fortaleza.

A primeira encomenda, feita no ano de 1867 à Casa Lishman & Co. da Inglaterra, foram pontes, em número de sete, que foram colocadas sobre os rios Pacoti, Putiú e Maranguapinho, todos nas cercanias de Fortaleza.

A antiga ponte ferroviária sobre o rio Coreaú, aberta possivelmente em 1881 pela E. F. de Sobral - depois Rede de Viação Cearense - situa-se entre as estações de Granja e Martinópole, na entrada da cidade de Granja - Ceará.

Pouco tempo depois, em 1873, as pontes metálicas passaram a ser utilizadas no transporte ferroviário, na ligação Fortaleza – Baturité, que trazia para a capital a produção agrícola necessária ao seu abastecimento. De todas, a mais notável foi a ponte de Granja, sobre o Rio Coreaú , que servia à Estrada de Ferro de Sobral. 

Posteriormente vieram a ser montadas outras pontes, com vãos mais longos, como as de Senador Pompeu, Iguatu e a mais longa de todas, a de Quixeramobim. Na mesma época, em 1888, a fundição Saracen Foundry, fornece as grades metálicas, correntes e colunas para o Açude do Cedro.

Açude do Cedro em Quixadá. Ao fundo a pedra da galinha choca

A atração dos governos do Ceará pelas estruturas de ferro não parou por aí. Em Fortaleza, das pontes, passou para os trapiches e outras armações. Entre as estruturas de maior expressão aparece a Ponte Metálica, na verdade, um trapiche, avançando mar adentro que funcionou como cais na então chamada Praia do Peixe, de 1906 até o início de operação do Porto do Mucuripe.  

Ponte Metálica em Fortaleza. Construída a partir de 1902 pela firma Walter Max Floriano & Company, de Glasgow, Reino Unido. (arquivo Nirez)

Depois vieram as caixas d’água, que apareciam formando par com os cata-ventos, para irrigar jardins públicos. Á época da construção do Teatro José de Alencar foi erguido o par de caixas d’águas, projetadas pelo engenheiro cearense João Felipe Pereira, que se encontram na Praça Clóvis Beviláqua, atrás do prédio da Faculdade de Direito da UFC.

Praça Clóvis Beviláqua, antiga Praça do Encanamento. As duas caixas d´'água são do início do século XX (arquivo Nirez)

A caixa d'água construída pela empresa Hopkins, Causer & Hopkins, foi colocada inicialmente na Praça do Ferreira, no jardim 7 de setembro. Atualmente encontra-se na cidade da criança (foto arquivo do Blog) 

A utilização dessas estruturas nas edificações no Ceará permanece nos finais do século XIX, usadas primeiramente nas instalações da Estrada de Ferro Baturité, nas oficinas e nas plataformas internas da Estação Central de Fortaleza, inaugurada em 1882. 

Em 1891, no conjunto de escadas  em cruz do prédio da antiga alfândega. No que diz respeito a obras arquitetônicas completas, o primeiro exemplar notável foi o que serviu de base à Igreja do Pequeno Grande, junto ao Colégio da Imaculada Conceição.  

A Igreja do Pequeno Grande foi concluída em 1903 (arquivo Nirez)

Em seguida, cabe destacar o antigo Mercado da Carne, encomendado a Guillot Pelletier, da França, inaugurado em 1897, com dois pavilhões em estrutura metálica, interligados, situado inicialmente na Praça Carolina, onde hoje se acham o Banco do Brasil e os Correios, na Rua General Bezerril. Posteriormente as duas estruturas foram divididas entre os atuais mercados dos Pinhões e da Aerolândia.

O Mercado da Carne é de 1897 (arquivo Ah, Fortaleza!)

Como se vê, o gosto pela arquitetura de ferro é bem anterior a construção do Teatro José de Alencar, a obra mais conhecida e a maior referência do gênero. A preferência se explicava não só pela praticidade, mas porque representava uma grande conquista tecnológica da construção civil. Para a próspera classe dos comerciantes, a arquitetura de ferro além de traduzir avanço tecnológico, lembrava os grandes centros cosmopolitas europeus, com os quais eles mantinham contatos cada vez mais próximos, e nos quais projetavam seus sonhos de civilização e riqueza.

Extraído do livro
Teatro José de Alencar – O teatro e a cidade

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os Conflitos no Cariri e a Criação da Vila do Crato

Praça do Cristo Rei (imagem do livro Ceará Terra da Luz)

Pouco tempo havia decorrido desde que o conflito entre as famílias Monte e Feitosa  deixara de  tingir de sangue as terras do Cariri e suas vizinhanças, quando outro se iniciou, não menos violento.

Como sempre, o pomo da discórdia era a posse de terras. Manoel Ferreira Ferro – filho de Francisco Alves Feitosa – proprietário de terras no Brejo Grande, limítrofe do sítio Ponta da Serra, na mesma falda do Araripe e pertencente a José Pereira Lima, se desentenderam por divergências quanto aos limites das propriedades, e saindo do terreno das discussões, partiram para a hostilidade armada.

Pereira era um português rico e poderoso, com fama de valente. Levada a questão para o terreno da luta armada, não recuou. Passou a assinar o nome acrescido de “Aço”, numa alusão ao Ferro de seu desafeto, e acabou cometendo uma infinidade de crimes, que eram respondidos pelo rival com outros tantos.  

casa residencial no Crato (foto IBGE)

Depois de muitos mortos, de parte a parte, Pereira Aço foi preso e remetido para Limoeiro de Lisboa; dizem outros que ele foi para as prisões da Bahia. Após cumprir longos anos de prisão, foi viver em Recife, ao lado da mulher que ali o aguardava.

Se os grandes proprietários eram de caráter altivo e violento, a população pobre era também turbulenta e sanguinária. Havia excesso de fanatismo em tudo e a autoridade, que tinha então a veneração de um mito, não estava ela própria a salvo de ataques de uns e de outros.  O povo insurgia-se com alguma frequência, e era terrível em sua cólera.

Apesar das inquietações e da enorme insegurança que pautava o interior da província do Ceará, a região do Cariri era povoada com incrível rapidez, graças a facilidade com que eram encontrados ali os meios de subsistência. O solo era vasto e fértil, e a flora provida de uma grande variedade de frutos silvestres, que forneciam alimentação abundante às famílias pobres, carentes de meios para o trabalho rural, e, sobretudo, aos índios, aldeados e dispersos.  Havia os inconvenientes: as epidemias, as moléstias endêmicas e as secas, que matavam muita gente e faziam que do Cariri saíssem pedintes para todo o Estado.

Crato - Açude dos Gonçalves (foto IBGE)

O Cariri foi a principio subordinado à jurisdição das autoridades de Aquiraz, de onde vinham juízes e diligências do seu ofício. Mas eram os párocos de Missão Velha que, ameaçando com a excomunhão,  faziam a polícia e julgavam as questões que apareciam, depois que os missionários haviam partido.  

Essa ordem de coisas durou meados de 1760, quando um alvará régio de, 1765, acabou com o abuso, quase geral em toda a capitania.  A Coroa Portuguesa criou junta de recursos, sob a presidência dos ouvidores, para as causas de justiça eclesiástica, a fim de que cessassem os abusos que a cobiça do clero tinha cometido, apesar dos padres e ordens religiosas resistirem aos magistrados e tribunais civis, usando da arma da excomunhão e de outras violências.

Depois da inauguração da Vila de Icó, ocorrida em 1738, chegou a Missão Velha um sargento-mor, espécie de encarregado da polícia, porém muito desmoralizado pelo prestígio, influência e autoridade do pároco. A administração da justiça feita no Icó era extremamente cara para os que residiam no Cariri.  Em razão disso, em 1743, o senado criou um juiz de vintena, com um escrivão, o qual  deveria residir no Cariri. Tal era a falta de indivíduos aptos para exercerem  os cargos, que foi necessário que tais funcionários viessem do Icó. 

Casa Comercial (foto IBGE)

Em 21 de julho de 1764 foi inaugurada a Vila do Crato pelo Ouvidor Vitorino Pinto Soares Barbosa, sendo do ano seguinte, o decreto que criou os ofícios de justiça da nova vila.  Foram escolhidos os primeiros juízes ordinários Francisco Gomes de Mello e o índio José de Amorim, e capitão-mor  Arnaud Hollanda Cavalcante. Que teve por sucessores José Pereira Filgueiras em 1804, e Joaquim Antônio Bezerra de Menezes, a 8 de novembro de 1828.

Desde então o Crato passou a se destacar entre os povoados do Cariri e todos estes passaram a depender de sua jurisdição civil. Lançaram-se os fundamentos do edifício que seria utilizado como prisão, construiu-se o pelourinho. Criou-se também um Corpo de cavalaria, de que foi comandante Antônio Lopes de Andrade.

Fonte:
Ceará (homens e fatos), de João Brígido 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Os Piratas Aéreos do Ceará

Corria o ano de 1984 e a abertura democrática avançava rápido, a Ditadura estava com os dias contados. Aconteceu, porém, em Fortaleza um fato discrepante: dois jovens simpatizantes da esquerda, sem filiação partidária, moradores do Conjunto Ceará, influenciados pelo livro A Ilha, de Fernando Morais, sequestraram um avião lotado, desviando o voo para Cuba. Os rapazes esperavam aprender técnicas de guerrilhas, para fazer a revolução no Brasil. Os terroristas cearenses eram João Luís Araújo e Fernando Santiago, que ainda levou a tiracolo a esposa Raimunda Aníbal e a filha Fernanda,  então um bebê de três meses de idade.

foto: http://www.cruzeirovirtual.com/forum/viewtopic.php?f=3&t=2122

O voo sequestrado era o de número 302 da Cruzeiro do Sul, que teve início no Rio de janeiro com destino a Manaus com 176 pessoas, dos quais 158 eram passageiros.  O voo partiu do Aeroporto de São Luís – que era uma das escalas – na sexta-feira, 3 de fevereiro e pousaria  em Belém, no dia seguinte pela manhã. De acordo com um porta-voz da Cruzeiro do Sul, antes que o avião chegasse a Belém os sequestradores entraram na cabine e forçaram o piloto a desviar o voo.

Durante a operação, diziam que, se não fossem atendidas suas exigências, explodiriam uma bomba no avião. Era tudo mentira, mas, como ninguém quis arriscar e verificar se era ou não verdade,  os sequestradores dominaram a situação. Quando chegaram à Guiana, trocaram os passageiros por combustível, e mantiveram a tripulação na aeronave.

Os passageiros não foram avisados de que o avião havia sido sequestrado e inicialmente achavam que más condições tinham atrasado o pouso em Belém;  mas pela hora em que o avião pousou no aeroporto da Guiana, sabiam que haviam sido sequestrados, mas não sabiam aonde estavam.

A demonstração de despreparo e ingenuidade dos dois rapazes,  verificou-se com um fato jocoso: o piloto do avião não dispunha de mapas para voar até Cuba. Fernando  Santiago disse que tinha um mapa consigo na mochila – e apresentou um mapa num livro escolar.

Apesar do mau planejamento,  conseguiram chegar à Havana. As autoridades da ilha permitiram que a tripulação levasse a aeronave de volta para o Brasil. Quanto aos sequestradores,  estes permaneceram mais de um mês em observação, sabatinados com perguntas que tinham o objetivo de descobrir intenções ocultas naquela aventura. 

Depois de muito interrogatório, as autoridades cubanas chegaram à conclusão que os rapazes falavam a verdade, e a partir daí, receberam apoio oficial.  Ficaram em Cuba por dez anos, tendo os estudos custeados pelo governo. 

Todos retornaram ao Brasil em 1995, com a prescrição do crime. Fernando passou a viver no Acre, trabalhando como historiador; João Luís, psicólogo de profissão, foi morar em Crateús. Raimundo Aníbal separou-se de Fernando ainda em Cuba e casou-se novamente com um cidadão cubano, de quem depois enviuvou. E todos os envolvidos viveram felizes para sempre.

Fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Wikipédia

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Os Interventores do Ceará

O Interventor Fernandes Távora em companhia de algumas autoridades em 1930: da esquerda para a direita, sentados: Moraes Correia; Juarez Távora; José Américo; Fernandes Távora; José de Borba; e César Cals. Em pé, na mesma ordem: João da Silva Leal; Magalhães Barata; Antônio Martins Almeida; Djalma Petit (piloto); Virgilio Moraes; o menino Virgilio Távora; Landry Sales; Faustino Nascimento; e Tertuliano Siqueira. (Arquivo Nirez)

O estopim do golpe militar denominado de Revolução de 30, foi o assassinato do paraibano João Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa do gaúcho Getúlio Vargas. Derrotado nas  eleições presidências de 1930, a Aliança Liberal, constituída pelos Estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, tomou o poder, depondo o presidente Washington Luís (1926-1930), a apenas 21 dias de completar o mandato, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes, e entregou o governo a Getúlio Vargas.

Ao assumir, Getúlio Vargas infringiu todas as leis de estado em vigor, e instituiu um poder autoritário. A autonomia dos estados e municípios foi suspensa, e fortalecido o poder Federal.
Dentro desse contexto de fortalecimento, é que se criou a figura do interventor, para implantar nos Estados e Municípios a política determinada por Vargas. 

O interventor, cumprindo ordens federais, passava a exercer o poder executivo e legislativo, já que as Casas Legislativas foram dissolvidas.
Foram criados os Conselhos Consultivos dos Estados, como órgão de assessoria aos interventores, e o Código dos Interventores, cujo objetivo era instituir uma linha político-administrativa comum, desestruturando as bases oligárquicas dos Estados e moldando uma administração que atendesse aos interesses do movimento tenentista e das oligarquias dissidentes.

O primeiro Interventor do Ceará, Fernandes Távora, foi, antes de sua nomeação como Interventor, Delegado Militar do Governo Provisório. Seu poder abrangia a chamada na época, região norte, a partir da Bahia. Távora governou o Ceará por oito meses - outubro de 1930 a julho de 1931 - numa gestão tímida, contraditória e autoritária. Mas o governo Távora continuou com as práticas políticas tradicionais e clientelísticas privilegiando os elementos ligados à sua facção oligárquica. Os integrantes do movimento tenentista passaram a se opor ao civil Fernandes Távora e à sua política de apadrinhamentos em favor de seu grupo político. Solicitaram a Getúlio Vargas sua substituição, sendo atendidos em 1931.

O novo interventor, apoiado pelo movimento tenentista, foi o capitão Roberto Carneiro de Mendonça. O novo governante adotou uma politica conciliadora procurando separar a administração da politicagem. Conseguiu, pelo menos a principio, harmonizar as oligarquias e tenentes do Estado. Contudo, uma prática o novo interventor manteve: a repressão aos segmentos populares oposicionistas. Chegou a determinar a invasão do Sindicato dos Trabalhadores Gráficos pela polícia. Vários operários que faziam campanha por aumento de salários foram espancados e presos. 

Em julho de 1932 eclodiu em São Paulo a Revolução Constitucionalista, sob o pretexto de forçar o governo Vargas a convocar uma Constituinte e pela volta da normalidade constitucional. O movimento foi derrotado por Vargas em três meses, contudo, buscando a conciliação nacional, promoveu eleições para a Assembleia Constituinte e promulgou a nova Constituição de 1934.
 
Mas com a vitória de setores sociais mais conservadores, integrantes da Liga Eleitoral Católica (LEC),  nas eleições de 1933 para a Constituinte Federal, Carneiro de Mendonça foi substituído por Felipe Moreira Lima. 

Fundada em 1932, por iniciativa do Cardeal D. Leme, a Liga Eleitoral católica (LEC) se fortaleceu com o apoio da igreja Católica, e da sociedade conservadora.

O coronel Felipe Moreira Lima, partidário do movimento tenentista e da revolução de 1930, realizou a administração mais conturbada do período interventorial cearense. Declarando-se socialista, aliou-se aos pessedistas com o objetivo de evitar que os políticos da pátria velha voltassem ao poder. Mas não pode evitar que nas eleições legislativas de 1934, a LEC obtivesse novo triunfo. 

A vitória da LEC significou, na visão dos pessedistas o fim da revolução de 30 no Ceará e o retorno das antigas oligarquias ao poder. Com a proximidade do pleito eleitoral para a escolha indireta para governador, a LEC lançou como candidato o advogado, professor e diretor da faculdade de Direito, Menezes Pimentel, um político de direita, intelectual católico, vinculado aos meios mais retrógrados da igreja. 

O PSD apontou como candidato Juarez Távora. A princípio os pessedistas pensaram em lançar candidato o próprio Moreira Lima, mas o interventor foi destituído do cargo por Getúlio Vargas, em 10 de maio de 1935.

Em 26 de maio de 1935, com a instalação da nova Assembleia Legislativa e Constituinte, foi eleito Menezes Pimentel para governador constitucional do Estado. No seu discurso de posse Menezes Pimentel afirmou que seu governo seria um pálio de amor e liberdade. Não foi. Ao contrário, o período em que esteve à frente dos destinos cearenses, constituiu-se um dos mais autoritários e repressivos momentos da história da terra, um reflexo do que acontecia no resto do país.

Em 1937, com o golpe de Estado, que deu início ao chamado Estado Novo,  Vargas confirmou Pimentel no comando cearense, agora como interventor federal. Com a força que o novo regime instaurado possuía, Pimentel passou a governar o Estado com mão-de-ferro, reprimindo qualquer oposição. Logo no inicio da administração, Pimentel deu uma amostra de como governaria: destituiu os prefeitos do Interior e funcionários públicos ligados ao PSD; mandou fechar os núcleos locais da Aliança Nacional Libertadora, após a decretação da ilegalidade desta; usou a Lei de Segurança nacional depois da Intentona de 1935, como pretexto para perseguir a oposição, sobretudo os comunistas. 

Segundo o Jornal do Brasil, de 07 de maio de 1936, mais de duas mil pessoas foram presas neste período, só em Fortaleza. Os prefeitos pessedistas eleitos em 1936 perderam os cargos. (No Estado Novo os gestores municipais eram indicados pelo Interventor).

No Aeroporto Condor na Barra do Ceará, inauguração do Sindicato Condor, com a presença do interventor Menezes Pimentel - 2° da esquerda para direita (Arquivo Nirez)
 
Menezes Pimentel permaneceu no poder até 27 de outubro de 1945, quando Getúlio Vargas baixou um decreto, exonerando o Interventor, fiel aliado na implantação da ditadura do Estado Novo no Ceará. Os motivos da demissão nunca foram completamente esclarecidos, mas especulou-se na época que Pimentel não estava empenhado na campanha de manutenção de Getúlio Vargas no poder. 

Com isso foi nomeado para o cargo de interventor o aracatiense Benedito Carvalho (Beni Carvalho), professor do Colégio Militar, e ex-vice presidente do Estado no governo de Matos Peixoto (1928-1930).  Beni Carvalho desmonta a máquina eleitoral montada por Pimentel e ocorre demissões em massa, de prefeitos, delegados e funcionários públicos que serviam a ex-interventor.
Até 1947, o Estado ainda foi governado pelos seguintes interventores: Tomás Pompeu Filho, Acrísio Moreira da Rocha, Pedro Firmeza, Machado Lopes e Feliciano Augusto de Athayde. Todos ficaram pouco tempo no cargo e não realizaram atos relevantes. 


fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias
Wikipédia

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

de Vila do Soure à Cidade de Caucaia


A estação de Soure foi inaugurada em 1917 na então E. F. Fortaleza-Itapipoca, ou ramal de Itapipoca da RVC. Nos anos 1940 teve o nome alterado para Caucaia. É hoje uma estação de trens metropolitanos, sendo a estação terminal.  

População:  325.441 habitantes 
Área da unidade territorial: 1.223,796 km²
Densidade demográfica:  265,93 hab/km²
(dados do IBGE 2010)
Localização: na Zona Litorânea, Região Metropolitana de Fortaleza


Acesso: BR 222. Em plena BR, o ciclista pedala na contra-mão do tráfego, um automóvel cruza a via, e várias carroças circulam na estrada. 

Atrativo histórico e cultural, a Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, fundada em 23 de janeiro de 1871, possui um patamar com 2 degraus separando-a da Praça. À frente do patamar possui um cruzeiro, homenagem do povo de Soure, à fé cristã. A fachada constitui-se de uma grande torre e nas laterais, somando um total de cinco, mas registra-se a presença de 4 sinos. Uma cruz de malta ao alto. 

Nossa Senhora dos Prazeres é a padroeira de Caucaia

A região às margens do rio Ceará e aos arredores das serras metropolitanas, eram habitadas por diversas etnias Tupi e Tapuia, tais como os Potygauara, Tapeba, Apuiaré, Jenipapo, Parnamirim, Anacé, Cariti, Panatiquarema e outros, antes da passagem dos jesuítas Luís Figueiras e Francisco Pinto no século XVII.




Depois da saída do Ceará dos holandeses, e a reconquista da região pelos portugueses, iniciou-se o processo de catequese em aldeamento dos índios, resultando a criação do Aldeamento de Caucaia, na segunda década do século XVII.

O povoamento teve início quando chegaram ali os jesuítas Luís Figueiras e Francisco Pinto, encarregados, pela Carta Régia de 22 de outubro de 1735, de iniciar na região uma segunda tentativa de colonização. Homens afeitos à catequese, os padres da Companhia de Jesus conseguiram aldear os índios "caucaias", transformando-os em amigos e auxiliares em sua missão.


A partir de 1759, depois da expulsão dos jesuítas, a Aldeia de Nossa Senhora dos Prazeres de Caucaia, passou a ser conhecida por Vila Nova de Soure. Neste mesmo período os índios Tremembé, deslocam-se para este aldeamento, mas devido a fracasso de adaptação estes retornam a Itarema.


Com a expansão da pecuária, as sesmarias e o povoado ao redor de igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, durante o acima referido século, a vila consolida-se como um centro urbano.
Em 1917, com a criação da E. F. Fortaleza-Itapipoca, ou ramal de Itapipoca da RVC, Caucaia firma-se como centro regional com quatro estações de trem (Caucaia,  Boqueirão, Arara/Guararu, Cauípe, e Catauna.

Elevado à categoria de Vila com a denominação de Vila Nova de Soure, em 1759, desmembrado da vila de Fortaleza. A Vila foi extinta e restaurada em  1833 e novamente extinta em 1835.



Em divisão territorial de 17 de janeiro de 1991, o município é constituído de 8 distritos: Caucaia, Bom Princípio, Catuana, Guararu, Jurema, Mirambé, Sítios Novos e Tucunduba.
Alteração do nome, de Soure para Caucaia ocorreu em 30 de dezembro de 1943, pelo decreto-lei estadual nº 1114. 


Praia do Icaraí 
Tabuba
Praias do Município: 
Icaraí, Tabuba, Pacheco, Iparana, Coqueiros, Cumbuco. 
Lagoas e açudes: do Parnamirim, do Banana, dos Porcos, do Poço (Barra Nova), do Genipabu, do Damião,  do Pabussú, da Serra, do Tabapuá,  do Cauípe, Açude do Cauípe e Açude do Sítios Novos.
Serras: do Juá, Boqueirão, Conceição, Santa Rosa, Camará, Japuara, Tucunduva e Rajada. 


fotos: Fátima Garcia
pesquisa:
Wikipédia
IBGE
http://www.estacoesferroviarias.com.br
http://www.caucaiaec.com.br

sábado, 5 de novembro de 2011

Clarindo de Queiroz, o governador deposto.

Clarindo de Queiroz governador do Ceará (1891-1892)

José Clarindo de Queiroz (28/04/1891-16/02/1892) foi indicado para o cargo de governador do Ceará pelo Marechal Deodoro da Fonseca  através de decreto federal de 4 de abril de 1891. No período inicial da República, o marechal Deodoro mobilizou forças na tentativa de aplicar um golpe de estado, fechando o congresso nacional e decretando estado de sítio. 

A maioria dos governos estaduais apoiou a iniciativa, pois tinham sido nomeados pelo próprio presidente.  Ao dissolver o congresso em 3 de novembro de 1891, Deodoro pegou praticamente de surpresa as lideranças civis e militares. O vice-presidente Floriano Peixoto, com a ajuda do almirante Custódio José de Melo, reagiu ao golpe. 

Com a saúde debilitada e sob criticas por parte da oposição, Deodoro renunciou vinte dias depois, passando a presidência para Floriano Peixoto.  Este iniciou o novo governo mandando destituir todos os que se solidarizaram com o antecessor.

Clarindo de Queiroz passou a sofrer sistemática pressão do Governo Federal, apesar de ter o apoio do congresso do Estado, da maioria da imprensa, dos oficiais do 11° Batalhão do Exército e do povo.  A princípio chamaram o governador, com urgência, ao Rio de Janeiro, sob a alegação de necessitarem de seus serviços militares ali; depois o intimaram a abandonar a presidência do Estado.

Em 16 de fevereiro de 1892, estrategicamente, havia sido mandado para Maranguape o 11° Batalhão, a pretexto de realizar treinamento; na tarde desse mesmo dia, a Escola Militar e o restante da força federal dirigida pelo major Manuel Bezerra de Albuquerque, iniciou o bombardeio ao Palácio do Governo. 

Contava o governador tão somente com o corpo de segurança pública, constituída de soldados recrutas, e com a Guarda Cívica pouco numerosa e também sem treinamento,  afora alguns civis que se encontravam na ocasião.  

Dia da deposição do governador Clarindo de Queiroz, com os cadetes da Escola Militar do Ceará munidos de canhão e outros armas menores (arquivo Nirez)

O autor de História do Ceará R. Batista Aragão, narra o início das hostilidades: 
Forças da Escola Militar e do Exército bombardeiam o Palácio num ataque  repentino e decisivo, objetivando a deposição do governo. Reage o general Clarindo, protegido apenas por forças estaduais e consequentemente desaparelhadas para suportar o ataque. Contudo, resiste bravamente e a batalha se intensifica. Anoitece. Pouco a pouco o Palácio se esvazia. A resistência enfraquece.

Às seis da manhã do dia 17 de fevereiro de 1892, cercado por tropas fortemente armadas, o velho general, sem saída, sela os destinos do seu governo.  Coloca na ponta de uma baioneta um lenço branco, chega à janela do Palácio e exibe a mensagem de rendição. Os agressores silenciam. Bezerril Fontenele, comandante da Escola Militar e principal responsável pelo ato de sublevação, assume o governo, recebendo o cargo das mãos do solitário governante. 

Apenas o conselheiro Antônio Rodrigues Júnior, fiel aos seus princípios de solidária honradez, testemunha o melancólico desfecho. Não desertara.  Como saldo negativo, além da intranquilidade causada pelo levante, treze vítimas fatais, colhidas acidentalmente em diversos locais. 

No mesmo dia Clarindo de Queiroz embarcou para o Rio de janeiro, onde explicou os motivos da deposição através de um manifesto à nação, escrito por  Farias Brito. Por ordem, de Floriano Peixoto, foi preso e desterrado para Cucui, juntamente com outros doze generais. O seu estado de saúde agravou-se e veio a falecer no Rio de janeiro, em 28 de dezembro de 1893.

José Clarindo de Queiroz nasceu a 22 de janeiro de 1841, em Fortaleza, filho de Inácio Lopes de Queiroz e de Ana Lopes de Queiroz. Depois de se alistar no Exército, com pouco mais de quatorze anos, partiu em 1865 para lutar na Guerra do Paraguai. Pela destacada atuação, ascendeu ao posto de tenente-coronel. Passou depois para coronel (1880), brigadeiro (1883) e general de divisão (1890). Ainda durante a monarquia, presidiu a província do Amazonas a partir de 1879. Recebeu em reconhecimento pela vida de soldado o “Hábito de Cristo” e as Grã-Cruzes de Avis e Cruzeiro.

estado em que ficaram o Largo e o Palácio da Luz depois dos ataques que culminaram com a deposição do governador Clarindo de Queiroz (acervo Marciano Lopes)

No livro História Política do Ceará – 1889-1930 – Aroldo Mota explica os acontecimentos principais que influíram na deposição de Clarindo de Queiroz. Segundo este autor, o golpe de Estado de Deodoro da Fonseca encontrou a classe política desinformada. O Secretário  da Fazenda do Ceará, Waldemiro Moreira, em artigo assinado no Jornal O Libertador, de 5 de novembro, concitou a que todos pegassem em armas contra o golpe.  Convocou uma reunião do Centro Republicano para o mesmo dia, a fim de eleger nova Comissão Executiva, e resistir em defesa da democracia republicana. Foi eleito presidente da Comissão Executiva,  o Secretário de Justiça, Waldemiro Cavalcante. Enquanto isso, o governador Clarindo de Queiroz telegrafava a Deodoro se solidarizando com o golpe.

Em vista dos acontecimentos contraditórios dentro do governo, o Senado Estadual enviou ao governador Clarindo de Queiroz, um requerimento, no qual era solicitado que o governador  esclarecesse quais as providências adotadas com relação ao artigo publicado no O Libertador, incitando o povo a revoltar-se e questionando o posicionamento dos seus dois secretários, autores e redatores do mencionado jornal.

O governador não respondeu ao Senado. Ordenou ao promotor público de Fortaleza que apurasse as responsabilidades pela publicação, especialmente quanto ao editorial, concebido em linguagem sediciosa, que injuriara os membros do Governo Provisório.  

Floriano Peixoto

O juiz Abel Garcia, em artigo no mesmo Libertador, assumiu a responsabilidade do editorial do dia 5, isentando os secretários da Fazenda e da Justiça. O secretário de Justiça pediu demissão. O governo central, já com Floriano Peixoto no comando,  encampou a crise e derrubou Clarindo de Queiroz.

Fonte:
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho