quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

As Casas-Grandes de Fazendas do Ceará

As casas grandes fazendeiras nos moldes das existentes nos engenhos da região açucareira, não foram muito frequentes no sertão do Ceará. Mas, aqui e ali, perdidas na imensidão das caatingas, encontravam-se casas enormes, baixas,  de paredes muito grossas e madeirame pesado – autênticas casas fortes – para atender as exigências de estabilidade e da segurança. 

Casa de fazenda em Jaguaribe (imagem IBGE) 

Tais residências pertenciam geralmente, aos antigos donos de engenho, que mantinham fazendas de criação nos sertões, com a finalidade de atender interesses comerciais nas zona açucareira.

O tipo de construção mais comum na zona rural da Capitania do Ceará era naturalmente, daqueles fazendeiros que foram se estabelecer em suas terras. Apesar das grandes dimensões, eram casas sóbrias, com cobertura de telha em duas águas, vastos alpendres e paredes reforçadas, levantadas com madeira, pedra e tijolo da própria fazenda.

As instalações modestas dessas fazendas e a indumentária simples dos moradores não apresentavam nenhum conforto nem requinte, o que contrastava com a ostentação das casas-grandes dos engenhos de cana.

Casa de Fazenda no Crato (imagem IBGE)

Ao longo dos latifúndios, a distâncias regulares, ficavam os casebres dos outros moradores. Cabanas de taipa, de chão batido, cobertas quase sempre de palha, tetos baixos e pouca inclinação, portas e janelas escassas, insuficientes para entrada de luz e ventilação.

Ao redor das choupanas se cultivavam pequenos roçados para atender ao consumo imediato. A agricultura de emergência era trabalho para mulheres e crianças, porque os homens se dedicavam às labutas pastoris. A própria lavoura da sede da fazenda não tinha importância comercial. O couro representava a matéria-prima por excelência, na confecção de utensílios empregados tanto no campo como nas atividades domésticas.

Casa de Agregado em Fazenda do Crato (imagem IBGE)

Cada fazenda representava uma família, caracterizada por extremo patriarcalismo. Laços de parentescos uniam todos ao senhor. Havia os parentes sanguíneos legítimos ou ilegítimos, e o demais, em maior número, ligados por parentescos canônicos ou convencionais. Dentre estes últimos encontravam-se os moradores e os agregados.

O fazendeiro – quando residia na fazenda – dirigia os trabalhos, cercado dos parentes citados, juntamente com os índios mansos, que, constituindo depois sua prole, ali permaneciam como pessoas da casa, podendo ainda, se acoitar forasteiros, no mais das vezes fugitivos da justiça ou da ação de parentes das vítimas em busca de vingança.

Família reunida em Fazenda de Baturité (imagem do livro Ceará de Luz)

Não havia pagamento de salário, e sim troca de serviço. O fazendeiro sustentava seus agregados de comida, casa e roupa em troca do seu trabalho. Toda família permanecia sob o teto paterno e sob o pátrio poder mesmo depois da maioridade, até que seus novos membros contraíssem matrimônio e formassem um novo lar.

Os filhos homens, auxiliados por outros elementos da fazenda, cuidavam do gado. Vestindo roupas de couro e montados em cavalos escolhidos campeavam o gado. Os vaqueiros se transformavam em donos de fazenda, por herança, ou por vaqueirice, sistema em que a fazenda era entregue aos cuidados do vaqueiro, o qual, um dia, poderia transformar-se em seu próprio senhor. 

O vaqueiro – a mais legítima representação do sertanejo – foi sempre um individuo respeitado em razão da superioridade que lhe conferia o conhecimento da terra, do gado, dos métodos de criação e a responsabilidade direta das coisas da fazenda.  

Também não recebiam salários. A própria estrutura econômica não permitia a remuneração em dinheiro aos vaqueiros. O pagamento pelo seu trabalho era feito a longo prazo, através da quarteação da produção dos animais criados na fazenda, na proporção de quatro por um (de quatro animais nascidos anualmente, um pertencia ao vaqueiro). Esse sistema de pagamento por quarteação, em uso até o início da primeira década do século XX, era feito geralmente no fim de cada inverno, quando o gado era recolhido aos currais, para a marcação e outras providências.

Toda a vida fazendeira da colônia e de grande parte do império, desenvolveu-se em torno da criação do gado, o que contribuiu para o pouco empenho pela exploração agrícola da região sertaneja, onde até mesmo a mandioca era não cultivada em quantidade suficiente para atender as necessidades de consumo. 


extraído do texto
da conquista à implantação dos primeiros núcleos urbanos na capitania do Siará Grande
de Valdelice Carneiro Girão

domingo, 18 de dezembro de 2011

Padre Ibiapina o Apóstolo do Nordeste



José Antônio Pereira Ibiapina, nasceu em 1806, no povoado de São Pedro de Ibiapina, região de Sobral, filho de Miguel Ibiapina, um dos participantes da Confederação do Equador, fuzilados no Passeio Público. Após os acontecimentos de 1825, Ibiapina, órfão, recebeu ajuda de José Martiniano de Alencar e se dirigiu a Pernambuco, onde se bacharelou em direito. 

Cidade de Sobral, região onde em 1806 nasceu o Padre Ibiapina (foto IBGE)  

Na década de 1830, foi eleito pelo Ceará deputado geral do Império (1834-37) e juiz de direito em Quixeramobim (1834-35). Sofreu, contudo, uma grande desilusão amorosa: a noiva, Carolina Clarence (filha de Tristão Gonçalves), com que planejava casar-se, o abandonou e fugiu com um primo.

Ibiapina começou a se desentender com o então presidente cearense, senador José Martiniano de Alencar, ao recusar-se a promover, como juiz, as perseguições políticas e pessoais pretendidas pelos liberais. Posteriormente, Antônio Ibiapina abandonou a magistratura e a política, decepcionado com as injustiças que presenciava.

Em 1938 passou a residir em Recife, dedicando-se à advocacia. Em pouco tempo se notabilizou na profissão, ganhando fama de defensor dos pobres. Levava uma vida reservada, profundamente católica.

Em 1853, aos 47 anos de idade, o sobralense decidiu dar novo rumo à sua vida e ordenou-se padre pelo Seminário de Olinda, trocando o sobrenome Pereira pelo nome de Maria, em homenagem à Virgem Mãe de Deus. Sensibilizado com o sofrimento dos humildes, passou a percorrer os sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí, como missionário e realizando obras em mutirão – açudes, poços, cacimbas, capelas, igrejas, cemitérios – para atenuar o sofrimento e o abandono do povo do sertão nordestino.

Multidões escutavam e seguiam o pregador, os sertanejos consideravam Ibiapina um homem santo, atribuindo-lhe milagres e curas.

Uma das Casas de Caridade criadas pelo Padre Ibiapina, localizada no Crato, ao lado da Rádio Educadora do Cariri. Uma estátua homenageia e lembra o seu fundador (foto do Diário do Nordeste)
  
O padre construiu as famosas Casas de Caridade, que se destinavam a servir de escolas para as filhas de famílias ricas, de orfanato para as crianças mais pobres,   e ainda de centro profissional e hospital.  Criou também a Irmandade da Caridade, composta por mulheres leigas, beatas vestidas com hábitos e que faziam votos de castidade e pobreza, renunciando aos prazeres do mundo. Essas beatas trabalhavam nas casas de Caridade. Ibiapina acabaria entrando em rota de colisão com a alta cúpula da Igreja Católica.

Casa de Caridade de Santana do Acaraú 
foto http://memorialdasenhorasantana.blogspot.com

As mudanças operadas na organização eclesiástica em decorrência da romanização afetaram o relacionamento entre os padres e os paroquianos no Nordeste. A igreja aumentou o número de dioceses, colocando-as sob a administração de sacerdotes paulistas, mineiros ou estrangeiros, elementos estranhos ao universo cultural e social dos sertões. 

O Ceará foi uma área marcada profundamente pela romanização. A criação da diocese local em 1854 coincidiu com o período inicial de tal processo.  No ano de 1861 foi nomeado o primeiro bispo da província, Dom Luís Antônio dos Santos.  Este se voltou totalmente para a doutrinação romântica dos novos clérigos. Em 1864 fundou o Seminário da Prainha, em Fortaleza, chefiado pelos padres lazaristas franceses, uma ordem confiável e obediente ao Vaticano,  que tinha entre outras funções, o controle do misticismo popular, que tinha então como figura máxima o padre Ibiapina.

Seminário da Prainha em 1905 (arquivo Nirez)

Este acabou advertido pelo bispo D. Luís, sendo obrigado a entregar as Casas de Caridade e as Irmandades da Caridade ao controle episcopal,  e a deixar o Ceará. Ibiapina foi para a Paraíba, onde continuou seus trabalhos missionários pelo Nordeste, até falecer naquela província, em 19 de fevereiro de 1883.

Suas práticas marcaram profundamente os corações sertanejos e influenciaram outras importantes lideranças religiosas, como Padre Cícero e Antônio Conselheiro.

Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Arquitetura de Ferro no Ceará

Senador Pompeu, Ceará 

A arquitetura de ferro chegou ao Ceará na segunda metade do século XIX, importada da Europa, na forma de pontes metálicas para uso na rede de estradas carroçáveis, que servia à exportação do algodão produzido na província, com destino à Europa, tendo como escoadouro o porto de Fortaleza.

A primeira encomenda, feita no ano de 1867 à Casa Lishman & Co. da Inglaterra, foram pontes, em número de sete, que foram colocadas sobre os rios Pacoti, Putiú e Maranguapinho, todos nas cercanias de Fortaleza.

A antiga ponte ferroviária sobre o rio Coreaú, aberta possivelmente em 1881 pela E. F. de Sobral - depois Rede de Viação Cearense - situa-se entre as estações de Granja e Martinópole, na entrada da cidade de Granja - Ceará.

Pouco tempo depois, em 1873, as pontes metálicas passaram a ser utilizadas no transporte ferroviário, na ligação Fortaleza – Baturité, que trazia para a capital a produção agrícola necessária ao seu abastecimento. De todas, a mais notável foi a ponte de Granja, sobre o Rio Coreaú , que servia à Estrada de Ferro de Sobral. 

Posteriormente vieram a ser montadas outras pontes, com vãos mais longos, como as de Senador Pompeu, Iguatu e a mais longa de todas, a de Quixeramobim. Na mesma época, em 1888, a fundição Saracen Foundry, fornece as grades metálicas, correntes e colunas para o Açude do Cedro.

Açude do Cedro em Quixadá. Ao fundo a pedra da galinha choca

A atração dos governos do Ceará pelas estruturas de ferro não parou por aí. Em Fortaleza, das pontes, passou para os trapiches e outras armações. Entre as estruturas de maior expressão aparece a Ponte Metálica, na verdade, um trapiche, avançando mar adentro que funcionou como cais na então chamada Praia do Peixe, de 1906 até o início de operação do Porto do Mucuripe.  

Ponte Metálica em Fortaleza. Construída a partir de 1902 pela firma Walter Max Floriano & Company, de Glasgow, Reino Unido. (arquivo Nirez)

Depois vieram as caixas d’água, que apareciam formando par com os cata-ventos, para irrigar jardins públicos. Á época da construção do Teatro José de Alencar foi erguido o par de caixas d’águas, projetadas pelo engenheiro cearense João Felipe Pereira, que se encontram na Praça Clóvis Beviláqua, atrás do prédio da Faculdade de Direito da UFC.

Praça Clóvis Beviláqua, antiga Praça do Encanamento. As duas caixas d´'água são do início do século XX (arquivo Nirez)

A caixa d'água construída pela empresa Hopkins, Causer & Hopkins, foi colocada inicialmente na Praça do Ferreira, no jardim 7 de setembro. Atualmente encontra-se na cidade da criança (foto arquivo do Blog) 

A utilização dessas estruturas nas edificações no Ceará permanece nos finais do século XIX, usadas primeiramente nas instalações da Estrada de Ferro Baturité, nas oficinas e nas plataformas internas da Estação Central de Fortaleza, inaugurada em 1882. 

Em 1891, no conjunto de escadas  em cruz do prédio da antiga alfândega. No que diz respeito a obras arquitetônicas completas, o primeiro exemplar notável foi o que serviu de base à Igreja do Pequeno Grande, junto ao Colégio da Imaculada Conceição.  

A Igreja do Pequeno Grande foi concluída em 1903 (arquivo Nirez)

Em seguida, cabe destacar o antigo Mercado da Carne, encomendado a Guillot Pelletier, da França, inaugurado em 1897, com dois pavilhões em estrutura metálica, interligados, situado inicialmente na Praça Carolina, onde hoje se acham o Banco do Brasil e os Correios, na Rua General Bezerril. Posteriormente as duas estruturas foram divididas entre os atuais mercados dos Pinhões e da Aerolândia.

O Mercado da Carne é de 1897 (arquivo Ah, Fortaleza!)

Como se vê, o gosto pela arquitetura de ferro é bem anterior a construção do Teatro José de Alencar, a obra mais conhecida e a maior referência do gênero. A preferência se explicava não só pela praticidade, mas porque representava uma grande conquista tecnológica da construção civil. Para a próspera classe dos comerciantes, a arquitetura de ferro além de traduzir avanço tecnológico, lembrava os grandes centros cosmopolitas europeus, com os quais eles mantinham contatos cada vez mais próximos, e nos quais projetavam seus sonhos de civilização e riqueza.

Extraído do livro
Teatro José de Alencar – O teatro e a cidade