quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Criação da Vila de Sobral


foto do site: http://forquilhaportaldenoticias.blogspot.com.br/2

Situado à margem esquerda do Rio Acaraú, o núcleo urbano de Sobral tem suas origens no começo do século XVIII, em torno da sede da fazenda Caiçara, de propriedade de Antônio Rodrigues Magalhães, localizada estrategicamente num movimentado cruzamento  dos caminhos que cortavam a capitania – Estrada das Boiadas e Estrada da Caiçara.
As excelentes condições de clima, a fertilidade do solo e o espírito liberal desse mesmo Antônio Rodrigues Magalhães contribuíram para que se desenvolvesse no local um povoado que se tornou o mais populoso dentre os seus vizinhos.

Igreja de N.S. da Conceição, a padroeira de Sobral 
(foto: http://sobralnahistoria.blogspot.com.br)

No Brasil colônia, muitos povoados surgiram ou cresceram em torno de igrejas. Em 1742, iniciou-se no povoado que se formava em torno da Fazenda Caiçara a construção de um templo – Igreja de N.S. da Conceição – para o que foi de vital importância a ação do padre João de Matos Monteiro (Padre Matinhos). Criou-se assim um ciclo de crescimento socioeconômico: a igreja atraía os fiéis e novos moradores, aumentando a população, o que por sua vez, estimulava ainda mais o comércio e outras atividades.  
De início, as boiadas sobralenses, da mesma maneira que as demais regiões cearenses, eram levadas por terra para os mercados consumidores da zona da mata nordestina. Depois, porém, os sobralenses também aderiram à técnica e aos lucros das charqueadas, ocupando o segundo lugar nas exportações da capitania.

cidade de Sobral (IBGE)

centro de Sobral (IBGE)

Logo, os ricos de Sobral  verificaram as vantagens de montar suas industrias de abate próximo aos embarcadouros, e com isso, transferiram as indústrias para o porto de Acaraú, que a partir de então, desenvolveu-se com o nome de Oficinas.

Ponte Otto de Alencar, sobre o rio Acaraú (foto: site do Ministério dos Transportes)

Sobral funcionava como entreposto exportador da produção do norte cearense e até do Piauí, como centro importador e distribuidor de gêneros para aquelas áreas. A saída e a chegada dos produtos, no caso, se realizavam pelo Porto de Acaraú, que dessa forma, conheceu certa prosperidade também. Conta-se que era intenso o intercâmbio entre Sobral e Acaraú, a ponto de, nos períodos de safra, existir ano no qual trafegavam entre os dois núcleos até 900 carros de bois, cheios de carne, couros e solas.
As sumacas que levavam os produtos do porto de Acaraú regressavam trazendo as grandes novidades em pratarias, porcelanas, cristais, móveis de jacarandá, escravos e materiais de construção. No século XIX, com a construção da ferrovia, Camocim ocupou o lugar de Acaraú na parceria com Sobral.

Estação Ferroviária de Sobral, em 1956 
(foto:http://www.estacoesferroviarias.com.br)
   
O povoado seria elevado à condição de vila em 1773, com o nome de Vila Distinta e Real de Sobral.  Por lei provincial n.º 229, de 12-I-1841, a vila tomou foros de cidade com a denominação de Fidelíssima Cidade Januária de Acaraú, sendo que a designação Januária seria uma homenagem a Princesa Januária, irmã do Imperador D. Pedro II.
A denominação definitiva atual deve-se a Lei provincial n.º 244, de 25-X-1842. O nome Sobral – atribui-se a Carneiro de Sá, ouvidor do Ceará, português, oriundo do Distrito de Sobral, pertencente à Freguesia de Vizeu, ao norte de Portugal.
Em divisão territorial datada de 2005, o município é constituído de 13 distritos: Sobral, Aprazível, Aracatiaçu, Bonfim, Caioca, Caracará, Jaibaras, Jordão, Patos, Rafael Arruda, Patriarca, São José do Torto e Taperuaba.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias  
IBGE

quinta-feira, 24 de maio de 2012

As Guerras entre Famílias: Macieis x Araújos

Quixeramobim - Ceará (foto Francisco Garcia)

A família Maciel que formava nos sertões entre Quixeramobim e Tamboril um numeroso clã, de homens trabalhadores e bravos, vivendo de vaqueirice e pequena criação, vieram a fazer parte dos registros criminais do Ceará, por causa de uma guerra de família.
Seus êmulos foram os Araújos, família rica e filiada a outras das mais antigas do norte do Ceará, a qual vivia na mesma região, tendo como sede principal a povoação de Boa Viagem, distante cerca de dez léguas de Quixeramobim. Foi uma das lutas mais sangrentas a que se envolveram esses dois grupos de homens desiguais pela fortuna, ambos numerosos e embrutecidos na prática das violências.


Tamboril - Ceará, avenida principal. (foto: http://www.turismopelobrasil.net/turismo/cidade_index.asp?cidade=Tamboril-CE  

Por esse tempo, os Macieis ou Carlos, como também eram chamados,  foram acusados da autoria de uns roubos sofridos por Silvestre Rodrigues Veras, morador de Vila Nova, e por Antônio de Araújo Costa, parente deste e morador em Boa Viagem, do termo de Quixeramobim.  Eram ambos criadores ricos, e segundo o costume em voga, lhes era permitido fazer justiça com as próprias mãos. 
Filhos e genros de Silvestre declararam guerra à família Maciel e, juntando um grupo de matadores, dirigiram-se a Quixeramobim, onde alguns dos suspeitos, acossados em Vila Nova, acabaram mortos pelos rivais.
De sua parte os Macieis reunidos a parentes e amigos de Quixeramobim, se prepararam  para a chegada dos agressores. Fortificaram-se e revidaram, derrotando  os filhos e genros de Silvestre Rodrigues. Vencidos nesta primeira tentativa, o bando de Silvestre Rodrigues pediu ajuda a José Joaquim de Menezes, conhecido na região pela valentia. Este veio acompanhado de Vicente Lopes, a quem fora pedir auxilio em Aracatiaçu. Menezes fazia-se acompanhar também de alguns ex-praças que tinham servido em Montevidéu.
José Joaquim de Menezes muito hesitou em atender ao pedido de ajuda dos Araújos e Veras, por não querer se envolver com a questão, e por não estar convicto da culpa dos acusados, mas acabou concordando, e partiu com seu séquito, para render os Macieis. 
Chegando a casa destes, negociou para que se entregassem, garantindo-lhes a vida, sob sua palavra de honra. De fato, os conduziu até o Serrote, tratando a todos muito bem. Dali, porém, partiu para o Piauí e passou os prisioneiros ao domínio dos Araújos e dos Veras, recomendando-os à sua lealdade.


Centro de Sobral, data não especificada (acervo IBGE)

Eles, no entanto, logo depois da partida de Menezes, algemaram todos e se puseram a caminho, supostamente para a cadeia de Sobral. Mas depois de um dia de viagem, simularam  um tiroteio com um inimigo invisível escondido no matagal, e mataram a todos cruelmente, amarrados como estavam.  
Somente dois dos Macieis escaparam, um deles, de nome  Miguel Carlos, conseguiu se evadir, algemado e com as penas amarradas por baixo da barriga do cavalo que montava.  Da chacina foram vítimas dois velhos chefes de família – Antônio Maciel e Manoel Carlos, que segundo diziam, nem os próprios inimigos, que acusavam seus filhos,  acreditavam na participação deles. 
A notícia do massacre encheu de indignação a quantos sabiam do empenho feito por Menezes para efetuar a captura e da garantia de vida prometida por ele. Sobretudo, escandalizava as gentes do sertão, o assassinato dos dois pobres velhos. 


Posição do municipio de Quixeramobim no mapa do Ceará
 
Miguel Carlos surgiu algum tempo depois nos sertões de Quixeramobim, num lugar chamado Passagem. Ali foi surpreendido por uma grande escolta dirigida em pessoa por Pedro Martins Veras. Estava de cama, doente com um ferimento no pé, em companhia apenas de uma irmã. 
Mesmo surpreendido, atirou no primeiro homem que se adiantou, de nome Teotônio, deixando-o caído sobre o batente. A irmã procurou tirá-lo para fechar a porta, e recebeu um tiro no peito desferido por Pedro Martins Veras, que a matou. Miguel Carlos, já tendo novamente carregado sua arma, acertou-lhe um tiro na barriga, que obrigou o bando a recuar. 
Fechada a porta e continuando a resistir, atirando contra os agressores, estes se colocaram a distância e recorreram a um expediente menos perigoso para eles: juntaram lenha e atearam fogo à casa, que era de palha de oiticica. Quando a casa já ardia, Miguel Carlos aproximou-se de um pote, derramou a água que ali estava em direção ao fundo da casa, e desse modo, a salvo do fogo,  abriu uma porta, passou rápido, sem ser vistos pelos assassinos ali postados, e embrenhou-se na selva. Estava gravemente ferido, mas logrou escapar dos matadores e procurou novo abrigo entre seus parentes dentro da vila de Quixeramobim. 


Estação de Uruquê, antiga Francisco Sá em Quixeramobim -CE. Início do século XX. (foto do site estações ferroviárias)

Meses depois, Miguel Carlos mandou matar Luciano Domingos de Araújo, um dos chefes da  família Araújo.  Luciano tinha contratado casamento com uma filha de Ignácio Lopes Barreira, criador rico, morador de Tapuiará, algumas léguas abaixo de Quixeramobim. Chegando o dia das núpcias, o noivo passou com uma comitiva, dirigindo-se à casa da noiva.  Miguel Carlos mandou Estácio José da Gama, emboscar-se no lugar chamado Uruquezinho, ao lado da estrada, que ele obstruiu com galhos de árvores. 
Quando o noivo apontou no caminho, um tiro o feriu mortalmente. Os companheiros o colocaram numa rede e o conduziram até Tapuiará, onde casou e expirou quase imediatamente.
A tradição é que a morte de Luciano fora obra de Miguel Carlos, mas Estácio confessou ser o autor e por isso, foi condenado à morte e fuzilado no dia 14 de março de 1834. Os últimos episódios dessa luta sangrenta foram dentro da vila de Quixeramobim, meses depois da execução de Estácio.


área rural de Quixeramobim (foto Francisco Garcia)

Uma manhã, saindo de casa de Antônio Caetano de Oliveira, Miguel foi banhar-se em um poço do rio que corre por trás dessa casa, situado quase no extremo da praça principal da vila. Nos fundos da casa indicada estava a embocadura do riacho da Palha. Miguel Carlos estava no riacho com alguns companheiros, quando surgiu um grupo de inimigos que o esperavam escondidos por entre o denso matagal. Estranhos e parentes de Miguel Carlos tomando as roupas depostas na areia e vestindo-as ao mesmo tempo em que corriam, puseram-se em fuga.
Com a faca em punho, Miguel Carlos também correu na direção dos fundos de uma casa próxima, chegou a abrir o portão, mas quando quis fechá-lo foi abatido com um tiro partido dos inimigos que o perseguiam.  
Enquanto agonizava, caído com sua faca na mão, Manoel de Araújo, chefe do bando e irmão do noivo assassinado, pegando-o por uma perna, lhe cravou uma faca. O moribundo reagiu no mesmo instante, com outra facada na carótida, morrendo os dois, quase instantaneamente.  
Inúmeras outras vítimas fez essa guerra sertaneja, vítimas anônimas, colhidas no serviço dos dois grupos.   

extraído do livro
Ceará (homens e fatos) de João Brígido  

terça-feira, 15 de maio de 2012

A Pecuária e a Conquista dos Sertões


Os sertões cearenses foram conquistados em função da pecuária, a partir da segunda metade do século XVII e, sobretudo, no começo do século seguinte, num processo de extrema violência e que levou ao assassinato de milhares de indígenas.
Os povos nativos da América não conheciam os gados trazidos pelos colonizadores europeus para o Brasil ainda no século XVI. Nos engenhos de açúcar da zona da mata de Pernambuco e Bahia, a pecuária constituía atividade secundária e complementar – o boi fornecia alimentação e força de trabalho. No entanto, depois o gado passou a ser conduzido para o interior da atual região Nordeste, possibilitando, assim a conquista deste território, particularmente dos sertões cearenses.

Essa conquista foi motivada por fatores como a crise político-econômica portuguesa, aumentada com a União Ibérica, que fez diversos portugueses emigrarem para o Brasil, em direção ao Nordeste, uma vez que inexistiam terras na zona da mata de Pernambuco e Bahia para atender a todos. Essa disputa por terras se agravava ainda com o próprio crescimento populacional natural da região açucareira. Outro fator estaria na necessidade crescente de terras na zona da mata para o plantio e exploração de cana-de-açúcar, e muitas destas terras estavam ocupadas pela pecuária.  Além disso, havia o aumento do número dos rebanhos, os quais invadiam os canaviais, dando prejuízos aos senhores de engenho.
O desbravamento no sertão nordestino pelos colonos pecuaristas teria acontecido, conforme o historiador Capistrano de Abreu, a partir de duas rotas: a do Sertão de Fora, dominada por pernambucanos, que se deslocando pela faixa mais próxima ao litoral, seguiram pela Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará em direção ao Maranhão, e a do Sertão de dentro, controlada por baianos, que vinham pelo interior nordestino abrangendo a região que vai do médio São Francisco ao rio Parnaíba, no Piauí, ocupando o sul da capitania cearense. No Ceará, aquelas duas correntes de interiorização se confluem.
Até então a presença do invasor europeu na capitania cearense estava restrita ao fortim de Nossa Senhora da Assunção, no litoral, onde uma guarnição militar composta por brancos, negros e mestiços provava simbolicamente o domínio português em companhia de índios aliados. Todos pobres e miseráveis, quase sem mantimentos, munições e ferramentas agrícolas. Foi exatamente para os membros do forte, por serviços militares prestados à Coroa Portuguesa, que foram doadas as primeiras sesmarias  na foz dos rios Pacoti, Choró e Piranji. A seguir, terras foram doadas para colonos vindos de capitanias vizinhas – Pernambuco, Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte. Datam essas primeiras concessões do período entre 1678 e 1682.

Ponte sobre o Rio Jaguaribe, em Aracati (arquivo Nirez)

Do litoral os conquistadores passaram a ocupar definitivamente o interior, se apossando, no principio, das terras próximas ao curso dos rios de maior volume d’água, fundamental numa área seca como o Ceará, como o Acaraú, o Jaguaribe e os maiores afluentes destes. Os rios além de servirem de caminhos naturais aos colonos no desbravamento dos sertões, possibilitavam a pesca e a caça de animais que ali matavam a sede. Na porção oeste do Ceará os pecuaristas também ocuparam rapidamente as ribeiras de rios como o Aracatiaçu e Coreaú, enquanto os jesuítas procuravam catequizar os índios da serra da Ibiapaba.

Ponte sobre o Rio Coreaú (foto Skyscrapercity)

Para a Coroa portuguesa, a partir do descobrimento do Brasil, todas as áreas da Colônia lhe pertenciam, como terras devolutas, podendo ser distribuídas como melhor entendesse.  Não havia nenhum reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, habitantes daquelas áreas há tempos. Dessa maneira, as terras no sertão seriam obtidas gratuitamente pelos colonos, bastando serem requisitadas as chamadas cartas de sesmarias às autoridades coloniais. Normalmente, se tomava posse das terras antes mesmo da concessão das cartas – os colonos erguiam moradias, currais e iniciarem a criação de gado para depois pedir a propriedade legal. Surgiam assim as fazendas de gado.
Concedendo sesmarias o governo estimulava a ocupação dos sertões, uma vez que estaria garantido não só seu domínio sobre as terras não ocupadas, mas também o entesouramento, com a cobrança de impostos sobre o gado, o couro, a carne e tudo o mais que pudesse ser gerado com a ocupação produtiva da região.

Mapa do Ceará com a localização das diversas nações indígenas 

Na conquista dos sertões, o grande perdedor foi o indígena, escravizado, submetido e expulso da terra ou exterminado impiedosamente, pois não havia necessidade de preservar muitos nativos porque as fazendas absorviam pouca mão-de-obra. Com efeito, fez-se instantânea a reação do nativo como na chamada Guerra dos Bárbaros, quando por mais de 30 anos (do final do século XVII à segunda década do século XVIII) os povos indígenas lutaram contra a presença do europeu invasor, até serem chacinados ou condenados à aculturação nos aldeamentos.
Outro fenômeno ligado ao avanço da pecuária no Ceará foi a formação de povoados e vilas. Ao longo do século XVIII, a expansão do gado correspondeu a criação de vilas em diversos pontos da capitania, como Icó (1738), Aracati (1748), Sobral (1773) e Quixeramobim (1789), sem falar nos aldeamentos indígenas transformados em vilas, como Messejana, Soure, e Parangaba (1758), Viçosa (1759), Baturité e Crato (1764). A formação dessas vilas estavam ligadas ao interesse da coroa em controlar os habitantes, impor a presença do governo e estimular a produção agrícola.

Extraído do livro
História do Ceará, de Aírton de Farias  

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Iluminação Pública nas Cidades do Interior do Ceará

Desde o século XIX, várias cidades cearenses que desfrutavam de maior relevância política, econômica e social, reivindicaram os melhoramentos decorrentes de avanços tecnológicos, que normalmente eram privilégio das capitais. O querosene, óleo mineral derivado do petróleo, importado dos Estados Unidos, tornou-se uma alternativa no Ceará desde a segunda metade do século. 
Sua comercialização em latas de 2 e 5 galões, em garrafas de 1 litro e no retalho, contribuiu para que se tornasse de uso corrente na iluminação residencial. Por demandar poucos investimentos, o querosene foi a solução adotada para a iluminação pública em algumas cidades do interior.

Sobral - Centro Comercial (acervo do IBGE)
A referência mais antiga é da cidade de Sobral, que o teria adotado por volta de 1884, com a utilização do querosene em combustores de madeira. Em 1893, Iguatu instala dois combustores na Praça da Matriz, por iniciativa do vigário Raimundo Hermes Monteiro, assegurando a despesa de manutenção com custeio aprovado pela Câmara Municipal.

 Crato - casas no centro (acervo IBGE)
A mesma modalidade de combustível é adotada no Crato em 1903, quando a Câmara Municipal autoriza a instalação do serviço de iluminação pública. Esta era composta de toscos postes de madeiras quadrilaterais, enfiados rentes com as calçadas sobre os quais assentavam lampiões, feitos com uma caixa de flandres, com quatro faces envidraçadas e cobertas também com flandres. Dentro desses lampiões eram colocados pequenos candeeiros, com mangas de vidros, cheios de querosene.  Todas as noites, via-se o empregado da Intendência, carregando uma escadinha de cedro, para acender os candeeiros, os quais, como os lampiões, eram fabricados por funileiros cratenses.

Iguatu (data não especificada) - arquivo Nirez
 
No final do século XIX o gás acetileno, introduzido no Ceará por importadores franceses, tornou-se o combustível alternativo, diante das boas possibilidades comerciais. Algumas cidades cearenses foram iluminadas por esse sistema: Aquiraz (1902), Tauá (1910),  Russas (1912), Lavras (1912). Nesse mesmo ano, a cidade de Iguatu adota também o acetileno em substituição ao querosene.  
O interesse de populações e líderes das cidades interioranas pela obtenção de modernos recursos para a geração de energia acompanha as transformações vividas na capital. Na virada do século, notadamente, começa a se expandir a busca por transporte coletivo e iluminação pública. 


Icó (entre 1910/20) - Arquivo Nirez
Pela lei n° 1057, de 23 de agosto de 1911, o Presidente do Estado autorizava as Câmaras Municipais de Messejana, Soure (Caucaia) e Redenção a contratarem  os serviços de transporte por tração elétrica. As cidades de Aracati, Icó e Iguatu obtêm, pela lei 1064, de 28 de agosto do mesmo ano, idêntica autorização para implantarem bondes de tração elétrica, ainda que não houvesse a menor condição do serviço ser implantado.
Quanto à implementação da iluminação pública por energia elétrica, leis sucessivas são sancionadas pelo presidente do Estado, autorizando a contratação desses serviços para os municípios que buscavam este melhoramento.  Em 1913 foram autorizados os municípios de Barbalha, Iguatu, Crato,  Ipu e Quixadá.  Três anos depois foi a vez dos municípios de Maranguape, Baturité, Camocim e Aracati.


Aracati, na foto, o cruzeiro da matriz (arquivo Nirez)
No ano de 1918, ainda no âmbito dos atos legais para contratação de usinas geradoras de energia elétrica, recebem a sanção do presidente do Estado os municípios de Cascavel, Lavras, União (atual Jaguaruana), Russas, Limoeiro, Crateús, Icó, Jaguaribe-Mirim e Tauá.
Em 8 de agosto de 1927 se encerra esse período de ação política, que se transforma em atos concessórios  para a contratação de serviços de luz e força, permitindo que qualquer Câmara Municipal no Estado buscasse a solução mais apropriada para sua comunidade.

Extraído do livro
História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite