sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Antônio Villanova e Antônio Conselheiro

Nascido em Assaré, Antônio Villanova decidiu, ainda muito moço, emigrar para o interior da Bahia, no que foi acompanhado por sua esposa e por seu irmão Honório. Uma vez chegado ao destino, estabeleceu-se com pequeno e próspero negócio numa das cidades vizinhas do então florescente arraial de Canudos. O comércio começou a crescer, dando-lhe lucros satisfatórios e larga freguesia.

Arraial de Canudos, reduto de Antônio Conselheiro e seus fanáticos seguidores. Ficava em Belo Monte - BA 

Foi então que começaram a aparecer os fanáticos do Conselheiro, que lhe faziam descrições favoráveis da nova povoação, efetuavam compras vultosas e insistiam com ele para ir se estabelecer por lá. Seduzido pela esperança de fortuna e certo do bom acolhimento, mesmo pelas circunstâncias de ser também cearense o novo ídolo messiânico, Villanova acabou se instalando definitivamente no arraial agitado, onde se erguiam casas todos os dias do ano e onde o comércio era deveras promissor.

Arraial de Canudos

Com o passar do tempo, tornou-se Canudos uma praça de guerra e, como sua ascendência sobre os jagunços já se fizera sentir de modo insofismável sobre ele, bem a seu pesar recaiu o voto dos principais no sentido de assumir o comando de determinado setor das operações militares, além de uma espécie de juizado de paz sobre a cidade rebelde.

Passaram, no entanto, os tempos favoráveis das vitórias espetaculares dos insurretos sobre as forças do Estado, e sucederam-lhe os tempos difíceis de fatal decadência em que, pouco a pouco, foi se apagando a estrela do Conselheiro e da revolução chefiada por ele. Já a maioria das construções de Canudos haviam sido destruídas. O cerco levado a efeito pelas forças legais assumia caráter cada vez mais definitivo, enquanto a fome e a sede completavam os horrores sofridos pelos bravos guerrilheiros, bem dignos de outro ideal.

Quando, ao atravessar o arraial para a igreja nova, recebeu o Conselheiro a bala que o pôs de cama e mais tarde o matou, aos olhos dos demais, morreu ali, a última esperança. A vista do grande dilema – fugir ou esperar pelo próximo ataque – Villanova optou pela primeira alternativa.

Antes, porém, fiel às suas tradições de lealdade, foi conversar com o endeusado profeta. Fez-lhe ver o esgotamento geral; alegou os serviços prestados à revolução, só para não desmerecer da confiança nele depositada, sem o menor ardor messiânico dos outros. Invocou o triste estado da família, literalmente morrendo de fome, sendo ainda de notar que o irmão Honório, ferido e inválido, exigia cuidados especiais. Feita a exposição, pediu-lhe licença para ir embora.

os seguidores do Conselheiro foram feitos prisioneiros, depois do ataque a Canudos

Partiria à meia noite, quando todos estivessem adormecidos. Atravessariam a zona perigosa pelo leito do rio que banhava a cidade; e se a sorte lhe fosse favorável, voltariam ao Ceará, para nunca mais se arriscarem por terras estranhas...– Faça sua viagem, concedeu Antônio Conselheiro, cuja voz de tão alquebrada já parecia sair da eternidade. 

Depois de haver montado o ferido num jumento, partiram os fugitivos, pisando de mansinho e contendo a própria respiração, receosos de ser descobertos pelos soldados do governo, que já ocupavam a margem oposto do rio. Não era pequeno o risco de serem abatidos ali mesmo, como rezes no bebedouro. Viajaram vários, intermináveis dias, na expectativa de um encontro indesejado, caatinga adentro, pelo leito dos córregos ou pelas veredas do gado. Quando se viram fora da zona de perigo e alcançaram o solo pernambucano, tinham as roupas em farrapos e os pés em carne viva.

Assaré em épocas distintas com a Igreja matriz de N. S. das Dores (fotos IBGE-anos 50 e Vânia Dias- atual)

Chegando a Assaré, recolheu-se Antônio Villanova à propriedade onde viviam seus parentes e ali, esquecido do mundo, viveu até 1913. A esse tempo foi lhe bater à porta um emissário de Floro Bartolomeu, levando uma carta do Padre Cícero que pedia sua presença, com urgência em Juazeiro. Achava-se o Juazeiro em véspera de proclamar a inconfidência que apeou do poder o governador Franco Rabelo e dali se alastrou por todo o Estado.

Floro Bartolomeu, no centro da foto 

Queria-o o político baiano para liderança dos sertanejos inexperientes que iam partir para a luta, como também para dirigir o serviço de defesa em que Canudos tanto se havia distinguido. Antônio Villanova foi irredutível. Nunca mais empunharia arma contra o governo, fosse onde fosse. O que fez foi dar, ante os insistentes pedidos, algumas noções práticas do sistema de valados que logo circundaram a cidade rebelada e que admiravelmente a guarneceram naquele instante decisivo da história do Ceará.

Cumprida a missão Villanova regressou à terra natal, incógnito como tinha saído, para nunca mais dar o ar da graça fora de Assaré. Era, todavia, um homem leal, bravo, circunspecto e diligente, à altura, portanto, de uma grande responsabilidade.

Fonte: Villanova e Antônio Conselheiro, do Padre Azarias Sobreira 
Publicado na Revista do Instituto do Ceará – 1948 
fotos da Internet

terça-feira, 29 de agosto de 2017

As Nações Indigenas da Capitania do Ceará


Um século depois do início da ocupação da capitania do Siará, as tribos indígenas do centro cearense se ligaram aos povoadores dessa região, uma vez que já haviam sido ocupadas as extremas com Pernambuco, Paraíba e Piauí. Eram eles os Icós, Icozinhos, Calabaças, Chocós, Quipipaus, Cariris, Cariús, Jucás, Quixolôs e os Inhamuns, tapuias de língua travada, já então acometidos pela bexiga, sarampo e outras moléstias e também dizimados em larga escala pelos conquistadores. 
  
encontro entre indígenas e europeus - quadro de Rugendas
Os Cariús, que moravam pelo vale do riacho Cariús e do Rio Bastiões, lutavam contra os Cariris, que habitavam o vale do mesmo nome, ao sul, disputando a terra úmida dos brejos. Os Jucás viviam às margens do riacho Jucá, eram guerreiros e visavam particularmente aos brancos invasores. Os Quixolôs eram violentos e ladrões, e os Inhamuns que se estendiam entre os Quixolôs e os Jucás, nas margens do Jaguaribe, aldeados na Vila de São Mateus por frades carmelitas, eram os senhores primitivos daquele planalto. As mulheres Inhamuns, como as das demais tribos, em solteiras eram entregues pelos pais a estranhos que iam viver entre eles. Porém, depois de casadas eram fiéis a seus maridos.

Os índios cearenses não tinham espírito religioso definido, mas eram hospitaleiros, de modo geral. Acreditavam nos seus pajés, sacerdotes e feiticeiros; não tinham nenhum senso de propriedade, tudo era comum. E esperavam repousar depois da morte, em abundância e descanso, numa das aldeias que existiriam no centro da terra. Pouco afeitos ao trabalho, viviam pelas matas dos sertões, tinham as mãos isentas de calosidade, finas, como das pessoas que não trabalham. 

As Sesmarias era um sistema de doação de terras que visava a produtividade e o povoamento da colônia. Os Sesmeiros tinham prazo e tinham que dispor de meios para explorá-las.

Com a chegada dos brancos, dois séculos bastaram para exterminá-los. Perderam, pouco a pouco, as suas terras, reduzidas por Carta-Régia de 4 de junho de 1703, do Rei Pedro II. Aos indígenas, uma única concessão: uma légua de terra em quadro para cada aldeia, moradia e lavouras; espaço suficiente para uma igreja e um adro; terreno para o padre missionário, sua casa, pertences, inclusive criações domésticas; pagamento das côngruas ordinárias à custa da fazenda real.

Enquanto isso, um donatário tinha direito a centenas de léguas quadradas, e um sesmeiro, a três, quase sempre multiplicadas. Mas, cem famílias de índios, só podiam dispor de uma légua. Em fins do século XVII e princípios do XVIII, quando foram maiores as concessões de datas de sesmarias nas margens do curso inferior dos grandes rios cearenses, o Jaguaribe e o Acaraú principalmente, cresceram as disputas de terras entre os brancos, que não se entendiam sobre os limites de suas respectivas propriedades.

conflito entre índios e os invasores de suas terras - Rugendas
Tais contestações terminavam quase sempre, em vias de fato e apelo às armas, que frequentemente contavam com a participação de indígenas, sempre prontos a guerrear e eliminar seus opressores. Tomavam parte a favor de um e de outro dos contendores que os aliciavam por meio de promessas, ou de vantagens reais, que consistiam geralmente em bugigangas, objetos de pouco ou nenhum valor, com que se contentava a indiada. 

Diante desse quadro sinistro e da grande perspectiva de derramamento de sangue, El-Rei mandou ao Ceará o desembargador Cristóvão Suares Reimão para tombar e medir as terras da capitania, tarefa o que o desembargador cumpriu entre 1709 e 1713, quando foi então transferido para o Recife.

Os índios, ainda não catequizados e aldeados, estavam sempre dispostos a se levantarem e a guerrearam, e por todos os meios, se vingarem dos colonos, seus inimigos invasores. Os impostos reais sobre as fazendas de gado, acenderam outros estopins no sertão. Os índios massacravam os brancos, estes massacravam índios, uns e outros de parceria, brancos contra brancos, índios contra índios.

No final do século XVII a Capitania do Ceará ainda era um presidio militar, um covil de malfeitores e ladrões, fugidos das capitanias vizinhas, nômades que viviam do roubo de gado. Em 1708 restavam poucas opções aos indígenas: não queriam habitar as aldeias missionárias, expulsos que foram de suas terras. Rebelaram-se contra os colonos. Arrasaram fazendas, trucidaram quem encontrasse.

família indígena - Debret
A guarnição do presídio militar, da marinha, não pode socorrer a tempo a população do interior. O que dela restou foi acolher-se à sombra do forte, cheia de consternação. Nesse mesmo ano o governador de Pernambuco deu ordem ao capitão-mor do Ceará que movesse guerra visando o extermínio dos índios. O que foi, efetivamente, feito. 

A mortandade foi terrível no Ceará. Praias e sertões foram varridos pelos regimentos do Capitão João de Barros Braga, das cavalarias das várzeas do Jaguaribe. O massacre de índios da missão de são Mateus dos Inhamuns impressionou ao próprio Rei D. João V, que condenou, em carta, a ação dos milicianos às ordens dos governadores de Pernambuco e do Ceará. Perdurou tensa, durante anos, a situação entre colonos e nativos.


Extraído do livro 
O Clã dos Inhamuns, de Nertan Macedo 
imagens meramente ilustrativas  
    

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Castorina Chaves Pinto - A Rainha dos Apelidos

Castorina Chaves Pinto nasceu em Aracati em 24 de janeiro de 1883, única mulher dentre os 16 filhos do casal Francisco do Carmo Pinto Pereira e Cândida Chaves Pinto. Trabalhou como funcionária pública municipal, e vendeu rendas e bordados do Aracati em Recife, para onde viajava com alguma frequência.

Dizia gostar de Recife e Aracati porque eram cidades de muita água e explicava: ambas tinham mar e rio, muitas pontes e um porto movimentado;  “não me assombro com água, por isso não tive medo nem mesmo da cheia de 1924...”.


Aracati - cheia do Rio Jaguaribe 

Quando um de seus irmãos, Teófilo Pinto, tornou-se proprietário de um hotel que funcionava onde hoje se encontra o Museu Jaguaribano, Castorina foi trabalhar auxiliando o irmão na administração. Foi neste período que ganhou fama por colocar apelido nas pessoas, fama que a acompanhou até o final de sua vida.

Na mocidade, gostava de festas e dançava bem, mas nunca se casou. Dizia que sua fama não lhe rendia nada, mas reconhecia que muito dos apelidos atribuídos a ela, na verdade o autor era seu irmão Teófilo Pinto; o quando lhe perguntavam qual o apelido do Bispo, respondia: Nunca botei apelido em Bispo. Em padre, sim, porém poucos. O Teófilo é que não respeitava uma patente...



Alguns apelidos se tornaram celebres como o do viajante que, sendo hóspede do hotel de Teófilo Pinto, sabedor da fama de Castorina, tomou cuidado em não ser visto por ela; por isso toda vez que a avistava, procurava se esconder. Desconfiada Castorina não vacilou em chamar aquele estranho hospede de "rato de gaveta".

A fama de Castorina despertava o interesse dos que visitavam a cidade, e atraía muitos curiosos ainda que corressem o risco de sair com um apelido que, quase sempre, lhes cabia como uma luva, que "pegava" de imediato e a pessoa já passava a ser identificada pela alcunha.

Ninguém escapava do humor da aracatiense, a começar por figuras de relevo como o bispo D. Manuel da Silva Gomes, primeiro arcebispo metropolitano de Fortaleza, o bolo enfeitado; outro bispo, D. Antônio de Almeida Lustosa era envelope aéreo; Dom Helder Câmara, pombinha do céu; o interventor Menezes Pimentel “carretel de linha preta; o coronel Querubim Chagas, noite ilustrada e o filho do coronel, suplemento de noite ilustrada 

   
Castorina com os seus colegas funcionários da prefeitura de Aracati


Um louro baixote, prego dourado; um juiz que tinha uma cabeça grande, virou cabeça de comarca, um rapaz que não arranjava casamento, era cédula falsa, um coxo, pé de vírgula;  macaco sem rabo; ponteiro de segundos; tostão de broa, ninguém saía de Aracati sem ser contemplado com uma alcunha, presente de Castorina.

Certa vez sentiu-se ofendida quando no meio de uma brincadeira, um dos amigos perguntou por que ela falava de modo tão incessante, que ela estava parecendo uma seriema-fora-do-bando. Então, o feitiço se voltou contra a feiticeira e Castorina ganhou também seu apelido. 



Castorina Pinto Chaves faleceu em Fortaleza aos 83 anos de idade, vivendo de sua aposentadoria e morando numa casa modesta da Rua Franklin Távora, sempre alegre e receptiva a uma boa conversa. A fama não lhe rendeu dinheiro, mas serviu para projetar a cidade de Aracati como a "Terra dos Apelidos". A então prestigiada revista “O Cruzeiro”, de circulação nacional, fez uma cobertura jornalística do seu falecimento.

imagens Castorina: 
http://www.luacheia.art.br/aracati/memoria/570-ruas-do-aracati-castorina-pinto.html


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os caminhos Primitivos do Ceará Colonial

Vários caminhos foram abertos na capitania do Ceará nos tempos remotos de sua conquista e povoação pelos colonizadores europeus. Essas estradas foram a porta de entrada para as glebas sertanejas, mesmo as mais remotas, e foram utilizadas pelos pioneiros da truculenta civilização ocidental.

Com relação as estradas de ribeiras, cada riacho possuiu a sua, desde tempos imemoriais. O caminho seguia de perto o leito do curso d’água, ora por uma margem, ora pela outra margem, da foz às cabeceiras, e ao longo da qual de hábito se edificavam os currais, as casas dos vaqueiros e até casas senhoriais.


Para o historiador Pompeu Sobrinho, a origem reside no povoamento de sesmarias, que eram concedidas sucessivamente rio acima. Por esses caminhos andavam cavaleiros que percorriam os sertões comprando equídeos para os engenhos de Pernambuco e as boiadas que procuravam as grandes estradas que conduziam aos centros consumidores do litoral.

O mesmo autor defende que as estradas das ribeiras já existiam ao tempo em que estas terras estavam sob domínio apenas dos indígenas. É certo que os tapuias do sertão desciam às praias quando os cajueiros frutificavam; além disso, outras necessidades determinavam uma certa circulação dos sertões para o litoral e vice-versa. Este movimento se fazia ao longo das referidas estradas, cujo traçado, evitando o recesso das caatingas desprovidas de água fácil, se acostava aos leitos dos cursos de d’água onde o líquido precioso era encontrado com facilidade.    

Estrada Velha


A mais antiga alongava-se pelo litoral desde 1611, ligando o fortim de São Sebastião aos mais civilizados centros do Nordeste brasileiro. Percorrendo ora a praia, ora os tabuleiros, era a princípio, uma vereda mal definida, perceptível apenas aos olhos perscrutadores dos índios tupis, aos quais servira de trilha quando algumas de suas malocas haviam sido deslocadas para o Norte.


 Forte de São Sebastião - 1613 

Pela Estrada Velha transitavam certamente os mercadores portugueses, que já ao final do século XVI, acompanhados de nativos amistosos, percorriam nossas praias em busca do precioso âmbar gris (substância produzida pelas baleias cachalotes, de grande valor na Europa); também passou por ali Pero Coelho e os jesuítas Figueira e Francisco Pinto no rumo da Ibiapaba.

Transpondo o Jaguaribe pouco acima de sua foz, a estrada demandava Natal, passando por Amargoso e Guamoré nas costas de Macau; depois, costeando o Atlântico, alcançava a Paraíba. Até 1625, a estrada ainda não chegava à ilha de São Luiz, no Maranhão. Nas praias de Lençoes, a meio caminho entre a ilha e o forte de São Sebastião, viviam os Tremembés, exímios nas emboscadas, e cujas terras não se atravessava impunemente.

Nos primórdios da conquista do Meio Norte, chegava-se ao Maranhão através da Ibiapaba. Para atingir aquele distante platô, seguiam-se rudes itinerários traçados por Francisco Pinto ou pela bandeira afoita do primeiro capitão-mor do Ceará. Dessas veredas que durante anos serviram à intercomunicação das missões jesuíticas ali estabelecidas, não restaram registros do seu traçado. Entre a serra e a costa do Maranhão existiam ligações constantes e mais ou menos conhecidas, utilizadas pelos franceses no século XVI.

Os primeiros europeus que se encaminharam ao Maranhão pela zona marítima, foram os holandeses. Ávidos sempre de dilatar os domínios da Companhia das Índias Ocidentais, os batavos, senhores da fortaleza de S. Sebastião, contaram com a ajuda dos indígenas da região que atraíram com promessas e presentes.  
Estrada da Taquara


Foram os holandeses, novamente senhores do Ceará em 1649, que levados pela cobiça, estenderam rumo ao Monte da Itarema, uma das veredas de acesso às povoações indígenas da vizinhança do forte Schoonemborch. A lenda referia ali ter estado, anos antes, o capitão-mor Martins Soares em busca de minérios preciosos, e era isso quanto bastava para aguçar a avidez dos agentes da Companhia das Índias Ocidentais. 

Mapa elaborado pelos holandeses em 1649, com o forte Schoonemborch e o caminho que levava a Itarema 

Partindo da praia na direção sul, o caminho da Taquara cortava o Rio Pajeú, então denominado Marajaik, transpunha os ribeirões do Tipoig (Jacarecanga) e Piraoba, tangenciava as lagoas de Imboduaponga (Parangaba) e Monduig (Mondubim) para se bipartir pouco adiante do córrego de Itapoba. O braço oriental seguia para a Serra de Maranguape, onde naqueles sombrios tempos se fizeram escavações e sondagens; o braço ocidental, depois de cortar várias vezes o riacho Itarema Igevab, alcançava a Serra de Itarema, hoje Taquara.

Era uma simples picada traçada nas matas ralas do litoral, picada que o trânsito continuado dos artífices estrangeiros alarga e melhora. Jamais teve esse caminho valor histórico ou comercial. Muito frequentado durante a ocupação holandesa, ficou em completo abandono quando o Ceará se viu livre dos invasores pelo tratado de 1654.

Nosso solo, revolvido febrilmente pelas mãos dos estrangeiros, mostrou-se pouco generoso. A percentagem de prata contida no material extraído das minas era diminuta e não correspondia aos esforços e materiais empregados, deixando portanto, aos portugueses o trabalho de prosseguir com a mineração.

O tráfego da Estrada da Taquara só recomeçou muitos anos depois, em 1662, quando a pedido do padre Joacob Cochleo, as diferentes malocas tupis foram reunidas numa grande povoação situada perto da lagoa do Arronches e que tomou o nome de Aldeia do Bom Jesus de Porangaba.

A partir daí o movimento da Estrada da Taquara cresceu dia a dia no trecho Fortaleza-Porangaba. Por ela marcharam levas de prisioneiros de guerra, encaminhados ao fortim de N.S. da Assunção, pelos primeiros colonizadores lusitanos. Ecoam também por sobre seu leito, os passos apressados dos soldados do presidio, no desenrolar das sucessivas expedições guerreiras contra o elemento nativo.

Com o progressivo aumento da colonização, o ramal de Maranguape superou em importância o caminho da Taquara. De Porangaba partiria mais tarde a estrada tronco para Monte-Mor (atual Baturité) e sertões de Quixeramobim. 
  

Estrada Camocim-Ibiapaba


Aos Tabajaras que estabeleceram ligações numerosas entre seus domínios serranos e os costões arenosos do Atlântico, deve-se atribuir a abertura da estrada Camocim-Ibiapaba, uma das mais remotas vias de acesso rasgadas através das regiões setentrionais do Ceará.

Percorrida amiúde por bandos de nativos em seus deslocamentos periódicos, do platô para as praias, era sem dúvida, vereda já batida e tradicional no início do século XVII, quando marchou em demanda da Ibiapaba a expedição desbravadora de Pero Coelho de Sousa.

Brancos e índios dela se serviram para encaminhar ao embarcadouro da barra do rio da Cruz as madeiras e algodões de que se abasteciam os barcos piratas estrangeiros ali fundeados. Cada vez mais frequentada, à medida que novos colonos iam se fixando na bacia do Coreaú, a estrada Camocim-Ibiapaba atingiu o ápice de sua importância comercial com a fundação dos Saladeiros de Granja, a cujos produtos dava vazão. Seu tráfego decresceu notavelmente depois da seca de 1792.

Embora desconhecido, presume-se que seu traçado seguisse os mesmos rumos da estrada Viçosa-Granja, reconstruída no governo de Bernardo Manuel de Vasconcellos, e que de Granja para o norte, serpenteasse entre os carnaubais que acompanham o curso de Camocim, realizando assim o mais curto e seguro trajeto entre a serra e o litoral. 

Estrada Geral do Jaguaribe


Uma outra estrada foi constituída quando a bacia do Jaguaribe cobriu-se de fazendas e currais. Partindo da região do Aracati, rio acima, transpunha o Jaguaribe em Passagem das Pedras, atravessava os lugares onde hoje estão as cidades de Russas e Icó, subindo depois o Salgado até quase suas nascentes. 

Rio Jaguaribe - IBGE - anos 50 

Trilhada em alguns dos seus trechos já no tempo dos primeiros exploradores seiscentistas, que não dispondo de rios navegáveis, margeavam de preferência os leitos das ravinas, onde poços e cacimbas lhe forneciam água sofrível, a estrada atingiu cedo as terras meridionais da capitania.

Galgando o platô do Araripe e vencendo a caatinga rala dos sertões pernambucanos, chegou ao Rio São Francisco no início do século XVIII. Embora sujeita na última parte do seu curso, aos solos irregulares da serra, com suas longas travessias sem água e sem pastagem, a estrada avultou rapidamente em importância na economia do interior nordestino. Serviu de passagem ao gado e aos cavalos do sertão para a zona do médio São Francisco, de onde seguiam para os centros de mineração das Gerais.

Foi a mais notável via de penetração de todo o Ceará colonial. Por ela recebeu o Cariri os colonizadores vindos do baixo Jaguaribe, que foram os primeiros ocupantes daqueles rincões fronteiriços e também gente oriunda das margens do São Francisco. Foi também, até o advento da Ferrocarril, a mais importante via de intercâmbio entre o litoral e o interior cearense. Por ela entraram durante todo o período colonial os gêneros de primeira necessidade de que se abastecia o nosso interior e os distantes sertões do Piauí.

Estrada Nova das Boiadas



Da bacia do Jaguaribe chegava-se aos campos criadores do Piauí pela estrada nova das boiadas, caminho difícil e alongado, que hoje, graças as indicações deixadas nos textos das sesmarias, pode ser reconstituído em grande parte.

Vinda de Pau dos Ferros pelo Pereiro, transpunha o Jaguaribe pouco acima da villa de Jaguaribe-mirim; ia em seguida pelo riacho do Sangue no rumo Nordeste; passava ladeando os campos de Uriá, cruzava o rio das Pedras, atingindo  Banabuiú em Laranjeiras; depois de beirá-lo algum tempo, serpenteava junto as margens do seu tributário mais importante, o Quixeramobim, até embocar na cidade do mesmo nome, onde se bipartia.

Um ramal seguia pelo Cavallo-Morto (Boa Viagem), Independência e Crateús, caminhava para o Piauí através do boqueirão do Poti. O outro, indo para o noroeste ia até Sobral, prolongando-se até a capital de Pernambuco, por Barriguda, e Tabuleiro Formoso.

Encurtando distância e desviando o trânsito do litoral para o sertão, a Estrada Nova das Boiadas concorreu grandemente para o isolamento em que muito tempo ficou a sede administrativa da Capitania, pequena e insignificante, enquanto outras vilas se desenvolviam. 
Estrada das Boiadas


Sua origem remonta ao início do século XVIII. Já em 1731 a via é citada em texto das sesmarias cearenses como “a estrada que passa para o Piauí”. Sete anos antes era denominada “caminho dos Inhamuns” ; Icó, Iguatu, São Matheus, Saboeiro, Arneiroz e Tauá balizam hoje em enorme trecho desse velho caminho de acesso às terras do médio Parnaíba.


De Tauá, antiga fazenda de José Alves Feitosa, seguia para o centro do Estado do Piauí pelo antigo riacho dos Camaleões (atual Carrapateiras), atingindo Vertentes e Crateús. Simples picada de tropeiros, a via Tauá-Piauí constitui-se m breve um caminho tradicional, que seguindo o riacho de Trici, encostas meridionais da serra da Joaninha, rumava Valença. Conhecida nas crônicas do Rio Grande do Norte e Paraíba, pelo nome de Estrada das Boiadas, aparece nos documentos cearenses do início do século XIX com a simples designação de “Estrada para Pernambuco”.

Em seu traçado primitivo a estrada passava pelos lugares hoje denominados S. João do Rio do Peixe, Sousa, Pombal e Patos, ia depois margeando o rio Pinharás, galgava a encosta oriental da Borborema, encontrando seis léguas adiante a lagoa do Batalhão, seguia as sinuosidades do rio Taperoá até a povoação de Milagres; alcançava a pequena ribeira do Santa Rosa para chegar a Campina Grande.

Dentre os complexos e numerosos fatores que influíram na formação e distribuição de núcleos povoados do interior cearense, as chamadas estradas das boiadas tiveram papel de maior relevância. 
Estrada da Caiçara


Varando os tabuleiros agrestes, por onde na estação das chuvas corriam para o mar as águas barrentas do Acaraú, alongava-se a Estrada da Caiçara. Ao tempo do desbravamento da zona norte do Ceará, era a única via de comunicação entre o litoral e os povoados da ribeira do Acaraú. Com o passar do tempo e a necessidade de intercâmbio comercial com outras localidades, as contingências geográficas da circulação orientam as ligações do interior cearense com Pernambuco e Paraíba.

O caminho da Caiçara prolonga-se assim pelas caatingas de Santa Quitéria atingindo Quixeramobim, onde passava a estrada nova das boiadas. Tomando essa antiga trilha, podiam os estancieiros das ribeiras do norte, transportar cavalos, boiadas ou tropas carregadas de couro ao Recife, com maior rapidez e sem o ônus dos pesadíssimos fretes marítimos. 

No início do século XIX construíram-se no Ceará novas vias de comunicação, e muitas das velhas estradas tradicionais foram melhoradas. Os caminhos, mesmos os mais utilizados na realidade não passavam de sendas, estreitas e tortuosas, traçadas pelos viajantes em peregrinação. Mal podiam vencê-las cavaleiros e peões. Excetuando talvez a Estrada Geral do Jaguaribe e a do Acaraú, nenhuma permitia a passagem de veículos de roda.   
  
Extraído do texto:
Vias de Comunicação do Ceará Colonial, de Carlos Studart Filho 
Revista do Instituto do Ceará - 1937
imagens da Comissão Científica do Império 1859-1861(meramente ilustrativas)