sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Toponímia no Sertão do Ceará – sob o signo da violência

De modo geral, nas mais diversas instâncias, a violência se constituía em parcela integrante e visceral do sertão cearense. Era uma presença explicita e emergia em variadas formas, permeando as tramas sociais e confirmando seu lugar de destaque na construção de memórias coletivas.Um dos registros representativos da repercussão da violência era a nomenclatura de alguns lugarejos ou fazendas. Tais locais insistiam em trazer em suas denominações a lembrança das mortes e dos conflitos que marcavam suas histórias. 

Na velha ribeira do Rio Salgado, caminho que levava para a região do Cariri, ainda figura a toponímia que preserva um testemunho irrecusável de sangrentos episódios: “Batalha”, “Pendência”, “Matança”, “Juiz”, “Emboscada”. Na ribeira do Jaguaribe apareciam lugares chamados “Defuntos”, “Ossos”, “Trincheiras”, “Várzea da Perdição”. A Freguesia de Nossa Senhora do Riacho do Sangue herdara esse nome de uma batalha entre as famílias de sesmeiros, após uma luta encarniçada pela posse da terra: morreram tantas pessoas que o sangue tingiu de vermelho a água do riacho.

Baturité - Igreja Matriz N. S. da Palma (IBGE) 

O Sitio Bacamarte, localizado na Serra de Baturité,  ganhou esse nome após seu dono, Alexandre Mourão, ter cansado de perseguir um inimigo, sem sucesso, e resolveu sentar moradia. Não ficou muito tempo: logo voltou a envolver-se em tiroteios e perseguições, passando parte da vida lutando para se livrar das prisões. A mudança de governo na província ditava o sucesso ou não das empreitadas judiciais para colocá-lo atrás das grades.

Na então cidade do Ipu, em fins do século XIX, o cronista Antônio Bezerra encontrou no município um arrabalde conhecido como “Alto dos Quatorze”. O nome fazia referência a um sangrento episódio onde fora assassinado um homem que tinha quatorze filhos. Outra área que trazia em seu nome a marca da violência, era o “Saco de Bala”, região localizada na Serra da Ibiapaba. Depois de uma série de batalhas referentes ao célebre conflito entre as famílias Monte e Feitosa, fora perdido pelos Feitosa, um saco contendo munição, episódio que deu nome à localidade. Tal nomenclatura atravessou séculos e ainda figura no reconhecimento de trecho da citada serra.

Não era raro encontrar-se no nome dos lugares a lembrança de guerras, mortes e armas, lembranças construídas a partir da referência cotidiana de assassinatos e agressões. E que estabeleciam registros vulgares da memória, evidenciando situações associadas a atentados contra a vida.

O primeiro historiador de ofício a fazer um registro da história cearense, Pedro Theberge, afirmou que logo após a guerra entre Monte e Feitosa, um membro dessa última família, chamado Manoel Ferreira Ferro, ainda na primeira metade do século XVIII, entrou em nova pendenga. Seu rival era um rico português de nome José Pereira Lima, e a disputa se deu em função de uma posse de terra no Brejo Grande. Depois de uma série de tentativas legais para a resolução da pendência, iniciou-se a guerra. Houve mortes dos lados de ambos e o português adotou  como fruto do empenho em matar seu opositor, um novo nome: “Aço”, em oposição ao “Ferro” de Manoel Ferreira Ferro.

O jornal Pedro II de outubro de 1846, publicava o relatório do alferes Bento Ferreira do quartel de Sobral. Nele era descrito uma série de crimes relacionados à perseguição de membros da família Mourão. Nas linhas da narrativa aparece um indivíduo chamado Joaquim Mata-Irmã. A alcunha tinha uma história: Joaquim havia recebido de seu tio, coronel Paulino Galvão, a incumbência de matar a própria irmã, Dona Delfina. Para cumprir sua missão “Mata-Irmã” contratou dois cabras para emboscarem a irmã, que foi morta a pauladas. Enquanto os agressores matavam a mulher, o irmão escutava seus gritos de socorro e ao mesmo tempo as súplicas da sobrinha para intervir em defesa da mãe.

Próximo à fronteira do Ceará com Pernambuco, na comarca de Flores, ao sul do Crato, (região que atualmente pertence ao município de São José de Belmonte, a 479 quilômetros de Recife - [grifo nosso]), aconteceu o episódio que repercutiu em todo o país: em 1838 uma carta fora enviada ao presidente da Província de Pernambuco, onde havia um relato acerca de um homem chamado João Antônio, que após viagem feita ao sertão dos Inhamuns, havia proclamado sagrados dois grandes rochedos – localizados num sitio chamado Pedra Bonita. Segundo João, tais rochas guardavam um reino encantado, onde depois de banhados pelo sangue de homens, mulheres e crianças – que posteriormente ressuscitariam – libertar-se-ia um exército comandado pelo Rei Dom Sebastião (*) que marcharia de dentro das pedras e instalaria uma época de fartura e justiça. 

cenário da Pedra do Reino baseado na obra de Ariano Suassuna idealizado pela Rede Globo na minissérie Pedra do Reino (imagem G1)

No dia 04 de maio de 1838, começaram as imolações e durante três ou quatro dias foram sacrificados 42 pessoas: 21 adultos e 21 menores. No dia 17 de maio João Antônio foi assassinado pelo próprio irmão, Pedro Antônio. Após sua morte houve dispersão parcial dos adeptos da Pedra do Reino, e uma divulgação maior sobre os acontecimentos que envolviam tais mortes. Uma tropa oficial, composta por 26 soldados marchou sobre os remanescentes, e o resultado desse encontro foi uma luta severa que resultou em ferimentos e mortes em ambos os lados.

Numa região assolada por constantes secas e pela escassez de alimentos, não era de se estranhar o aparecimento de profetas e mágicos que prometiam comida e fartura aos seus adeptos. O mais instigante, foi a forma pela qual o culto sebastianista encontrou para legitimar o retorno do rei – era preciso banhar as pedras com sangue, pois este sintetizava uma linguagem de negociação bastante utilizada pela população sertaneja: a violência.

A história da Pedra do Reino ainda hoje é repetida pela memória oral dos moradores do Cariri, ganhando uma versão romanceada por Ariano Suassuna no livro “A Pedra do Reino”. Nomes de sítios, fazendas e alcunhas, histórias fantásticas de reinos encantados, convergiam num fluxo contínuo para a construção de memórias, cujos pilares eram sedimentados na narrativa de situações de derramamento de sangue, de assassinatos e agressões por vinganças.


(*) A Lenda de Dom Sebastião no Nordeste Brasileiro

O sebastianismo é um fenômeno secular, que muitas vezes é visto como uma seita ou elemento de crendice popular. Teve sua origem na segunda metade do século XVI, surgindo da crença na volta de Dom Sebastião, rei de Portugal, que desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, na África, no dia 4 de agosto de 1578, enquanto comandava tropas portuguesas. Como ninguém o viu tombar ou morrer, espalhou-se a lenda de que El-Rei voltaria. Alimentado por lendas e mitos, sobreviveu no imaginário português até o século XVII. 
        
O sebastianismo tem suas raízes na concepção religiosa do messianismo, que acredita na vinda ou no retorno de um enviado divino, o messias; um redentor, com capacidade para mudar a ordem das coisas e trazer paz, justiça e felicidade. É um movimento que traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.  
Chegou ao Brasil, principalmente ao Nordeste brasileiro, no século XIX. Unindo fanatismo religioso com ideias socialistas, o movimento se redescobriu no sertão nordestino, assumindo características próprias através de símbolos e do imaginário popular.

Fontes:
Vieira Júnior, Antônio Otaviano. Entre paredes e bacamartes: história da familia no sertão (1780-1850)/Antônio Otaviano Vieira Júnior - Fortaleza: Edições Demócrito Rocha; Hucitec, 2004.

GASPAR, Lúcia. Sebastianismo no Nordeste brasileiro. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A Atuação da Câmara Municipal

As Câmaras Municipais representam o poder local das vilas no período colonial da história do Brasil. (imagem ilustrativa) 
Antigamente a Câmara Municipal exercia várias funções em Fortaleza. Cabia a Câmara, por exemplo, fazer a fiscalização das lojas, vendas e açougues da cidade. Em companhia de um almotacé (antigo oficial municipal encarregado de da fiscalização de pesos, medidas, preços e das condições de funcionamento dos estabelecimentos), os membros da câmara visitavam as casas comerciais, para detectar possíveis irregularidades. Nos registros feitos pela câmara, no ano de 1806 foi encontrado o seguinte registro: 
"nesta vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, Capitania do Siará Grande, nas casas da câmara, delas saíram em correição o juiz presidente e mais oficiais da câmara, e correndo todas as lojas, não se condenando a pessoa alguma por se achar tudo corrente, só se indo ao açougue a ver e rever os pesos, achou-se o açougue indigno de que se cortasse carne nele por se achar o cepo e tarimba com uma grande porquidade em cima da sangueira da mesma carne e da mesma forma a casa cheia da mesma porquidade, paredes e chão, e igualmente fazendo-se da cadeira em que se assenta o almotacé, igualmente tarimba de se bater carne em cima, que achava muito porca, e por estes motivos, o mesmo Senado condenou o dito contratador em 6$000 réis (seis mil réis) para as despesas do Senado.
A forma dos despachos era às vezes insolente.  João Joaquim, que requeria não se sabe o que, teve como resposta o indeferimento do pleito - "por ser falto de verdade". Tinha também Câmara, competência para impor o “Termo do Bem Viver”, o que levava os moradores a subscreverem os maiores absurdos.  


imagem: memoriaisdepiumhimg
modelos do Termo do Bom Viver - brigões, prostitutas, perturbadores da ordem, bêbados e vadios eram obrigados a subscrever o documento.  
O “Termo do Bem Viver” era um documento imposto a pessoas de conduta pouco recomendáveis, aos que causavam distúrbios ou que perturbassem a ordem estabelecida. Depois que a pessoa assinava este termo, ela ficava obrigada perante a justiça a não criar mais conflito. Se desrespeitasse, era punida de acordo com a lei vigente.
O professor régio da vila se indispôs com os vereadores, quase todos portugueses, por lhe terem recusado atestado para receber seus vencimentos. A câmara o fez assinar o seguinte termo: "Aos 267 do mês de novembro de 1802, em vereação da Câmara e Senado desta Vila, mandou o presidente dela e mais vereadores, por ordem dos ilustríssimos senhores governadores interinos desta Capitania, chamar à sua presença o pardo João da Silva Tavares, mestre de Gramática Latina desta Vila, para assinar termo na presença de todos de viver daqui em diante com a paz e quietação, conforme as leis do reino e costumes de que deve fazer profissão. E sendo vindo o dito João da Silva Tavares, pelo dito Senado lhe foi dito, que para ocorrer ao sossego e tranquilidade pública perturbada pela língua difamadora, libertinagem e péssimos costumes, movendo ainda dele João da Silva Tavares, o justo castigo que por eles merecia, o advertiram de não continuar mais no exercício de mexeriqueiro, enredador e perturbador do público, magistrados e repúblicos, pondo fim à dissolução de sua vida e assinando termo de viver como bom vassalo de sua Alteza Real e bom vizinho desta Vila, sob pena, se o contrário praticar, de ser na conformidade da lei exterminado para os lugares d'África, além das mais penas, com que seus delitos agravassem a primeira; o que sendo ouvido pelo dito João da Silva Tavares prometeu mudar de conduta debaixo da dita pena e assinou com o mesmo Senado este termo para a todo tempo constar da sua emenda ou recalcitração, conforme o disposto pelo Regimento do mesmo Senado e leis do Reino."

 primeiro mapa da Vila de Fortaleza
A esse termo seguiu-se uma longa contestação entre a Câmara e o professor. A Câmara negou-lhe ainda atestados e ele agravou para o príncipe. Na concessão destes recursos, a Câmara, assistida por um assessor que tomou para a causa, prendeu o agravante porque, estando o termo de agravo já lavrado e em meio, o mesmo professor entrou com palavras impetuosas, dizendo ser o escrivão suspeito e por dizer que o insultavam com o tratamento de pardo. Tavares ainda andou muito tempo em conflito com os vereadores, até que finalmente chegaram a um consenso.
Também julgava a respeito de crime de injúria, contratando um assessor a quem pagava de 640 a 1$600 réis por cada conselho. Promovia a aposentadoria dos magistrados, designando a casa que deviam ocupar e fazendo-lhes a despesa que regulava em torno de $600 réis por mês.  O missionário frei Vidal teve igual favor quando veio ao Ceará. Em dezembro de 1790 a Câmara designou para residência do frade a casa do alfaiate Salvador, na Rua do Quartel.
Tratava da abertura e conservação dos caminhos, e obrigava os camponeses a plantar mandioca e cereais diversos, sob pena de multa e cadeia.
Uma postura de março de 1803 impunha a cada lavrador a obrigação de apresentar anualmente em Câmara, 30 cabeças de pássaros de bico redondo. Esta perseguição que era feita em todas as Câmaras da Capitania, se referia a papagaios, periquitos e maracanãs.
A Câmara promovia manifestações de regozijo ou de pesar, graduando-se pela sensibilidade do governador. Em março de 1812, por ocasião do nascimento de um filho do infante D. Pedro Carlos, comunicado ao governador por meio de ofício, expediu editais para que a população o festejasse com luminárias, três noites consecutivas.
Em abril de 1816, sendo-lhe igualmente comunicado o decreto que deu ao Brasil o título de reino, em testemunho público da reconhecida gratidão pelo privilégio, ordenou que, em ação de graças, se expusesse o Santíssimo Sacramento na matriz da Vila no dia 12 de maio e se oferecesse a Deus o sacrifício de uma missa cantada, em que se pedisse a conservação do príncipe regente e sua família.


Quando foi comunicada notícia da morte de D. Maria I, em 20 de março de 1816, mandou que todo o povo da Vila e distrito vestisse luto rigoroso por seis meses e aliviado por um ano. (D. Maria I faleceu no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1808). Atendendo a que a pobreza e os escravos não podiam satisfazer rigorosamente a esta exigência, permitiu que homens trouxessem nos chapéus e as mulheres na cabeça, qualquer retalho preto. Os que se recusassem teriam 30 dias de cadeia para cada vez que fossem encontrados sem distintivo.
Nas audiências gerais dos corregedores, solenidade a que comparecia todo o mundo oficial, vinha à Câmara em corporação ouvir os provimentos e advertências do magistrado. Lavrava-se de tudo um termo, que era assinado por ela e pelos repúblicos, como se encontra nos manuscritos do tempo. 
Extraído do livro
Ceará (homens e fatos), de João Brígido      

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

José de Alencar e a Abolição da Escravatura


Em 1867, José de Alencar publicou uma série Ao Imperador: Novas Cartas Políticas de Erasmo. São sete cartas abertas dirigidas a Dom Pedro II, das quais três tratam abertamente da defesa da escravidão negra no Brasil. O escritor era então deputado no Rio de Janeiro, eleito pelo Ceará, e tentava convencer ao imperador a abandonar a ideia da abolição dos escravos.  O imperador fazia grande pressão pelo fim do comércio humano – ameaçava até desistir do trono se os parlamentares não votassem pelo fim dos cativeiros.

D. Pedro II em 1870
Depois que a liberdade dos escravos se tornou uma conquista, a série de cartas desapareceu. Não entrou nas obras completas do escritor, publicadas em 1959. Até serem redescobertas em 2008, pelo historiador paulista Tâmis Parron, ficaram desaparecidas por 140 anos. 
Curioso é que os motivos de J. de Alencar contra a abolição parecem mais simpáticos aos negros do que os argumentos em favor da liberdade. Nos discursos pró e contra a escravatura do século XIX, os parlamentares se baseavam em razões que hoje parecem insanas. Nenhum negro gostaria de ouvir, por exemplo, o argumento abolicionista de que os africanos formavam uma raça inferior e por isso era necessário parar imediatamente de trazê-los para o Brasil, para que não prejudicassem o futuro do país. 

Já os defensores da escravidão tinham razões politicamente corretas. O mais conhecido deles, o senador Bernardo de Vasconcelos, dizia que a África civilizava o Brasil, portanto a imigração de negros africanos enriquecia a cultura brasileira.

dança dos escravos - pintura de Rugendas

A argumentação de José de Alencar vai nessa linha. Ele não defendia o sistema escravocrata por acreditar que os negros tinham um cérebro menos dotado, mas porque via neles um grande potencial de crescimento e auxílio no progresso do país. Chega a citar negros ilustres da história brasileira, como Henrique Dias, herói da expulsão dos holandeses em Pernambuco: “sem a escravidão africana e o tráfico que a realizou, a América seria hoje um vasto deserto”, diz Alencar na segunda carta ao Imperador. “Três séculos durante, a África despejou sobre a América a exuberância de sua população vigorosa”.

De acordo com José de Alencar, toda nova civilização da história floresceu por meio da escravidão de civilização decadente. O trabalho forçado seria uma “educação pelo cativeiro”, ou seja, um modo de tirar indivíduos da selva e dar-lhes acesso a instrução. O escravo durante anos de servidão, iria adquirir qualidades morais suficientes para ser um novo membro da sociedade. Como mostra desse fenômeno, Alencar cita o alto número de escravos alforriados no Brasil que compravam a liberdade ou a ganhavam de presente.

pintura de Debret 

Segundo o escritor “se a escravidão não fosse inventada, a marcha da humanidade seria impossível, a menos que a necessidade não suprisse esse vínculo por outro igualmente poderoso. Desde que o interesse próprio de possuir o vencido não coibisse a fúria do vencedor, ele havia de imolar a vítima. Significara, portanto, a vitória na antiguidade uma hecatombe; a conquista de um país, o extermínio da população indígena".

pelourinho - pintura de Debret

Muita gente considera importante preservar os costumes nacionais contra influência estrangeira. Alencar e seus colegas do Partido Conservador usam esse argumento para defender a exploração dos negros. A escravidão, para eles, fazia parte da tradição brasileira – era importante para a identidade nacional.
Por essa razão o país não deveria ceder às pressões abolicionistas da França e da Inglaterra, as duas grandes potências da época. Alencar pede a D. Pedro II que pare de se preocupar com a opinião internacional e valorize as instituições brasileiras. “São muitos os cortejos que já fez a coroa imperial à opinião europeia e americana. Reclama sério estudo cada um destes atos, verdadeiros golpes e bem profundos, na integridade  da nação brasileira”.

D. Pedro I deveria ter respondido ao escritor que: deixar o patriotismo de lado e aceitar a influência estrangeira pode salvar um país de costumes bárbaros.

Extraído do livro:
Guia politicamente incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch

   

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Acaraú - Fatos e Histórias Interessantes

Clube recreio Dramático Familiar, atual Biblioteca Pública Poeta Manoel Nicodemos

O Milagroso Feiticeiro

Viveu no Acaraú, nos idos de 1840, um pernambucano que desfrutava de enorme prestigio em toda a região. Era detentor de raro poder: curava mordedura de cobra. Não falhava nunca, por mais feroz que fosse o ofídio.

Religioso, meio profético, já em idade avançada, o curandeiro João Saldanha Marinho tinha o seguinte procedimento: ao portador que vinha pedir ajuda para alguém atacado por cobra ou outro animal peçonhento, entregava um objeto do seu uso (chapéu, uma peça de roupa, chinela, etc) e aconselhava: – menino, põe isto sobre o doente e ele ficará curado.

Quando lhe era possível lá se ia pelo mundo afora, ver o paciente. Diante do moribundo já sem esperanças, mordido de Cascavel, com febre alta e falando coisas desconexas, o velho pegava no pulso, fazia trejeitos, fechava os olhos, tremia e exclamava:  “levanta-te homem, nada temas. Caminhas, estás curado! ”.

O fato era contado por uma enorme legião de pessoas de destaque da região, até o padre afirmava que era verdade.

Rua D. Pedro II (1948)

O Médico da Lagoa do Mato

Nos tabuleiros do Acaraú, vivia um famoso curandeiro de nome Diogo Lopez de Araújo Costa. Nunca casou, mas em épocas diversas, conviveu com 7 mulheres que lhe deram 35 filhos que lhe fizeram a tradição. Ganhou fama de curandeiro depois de realizar curas milagrosas, sem nenhuma explicação da ciência.

Ficou cego aos 40 anos, mas continuou fazendo curas admiráveis. Morava na região de Lagoa do Mato, em casa vasta e hospitaleira, onde fundou um hospital no qual atendia muita gente, algumas vindo até dos longínquos sertões do Piauí. Tinha um dom quase sobrenatural para a cura de enfermidades: davam-lhe o pulso, e o famoso curandeiro Diogo ao ouvir as pulsações, identificava o mal que atormentava o paciente. Passava uma medicação, e em poucos dias, o doente estava pronto para outra.

O Imposto de Sobral

Igreja Matriz de N. S. da Conceição em Sobral

 Igreja Matriz de N. S. da Conceição em Acaraú

Um dos grandes negociantes da época das charqueadas da região era o capitão José Monteiro de Melo. Naquela época era homem de vastas posses, por isso, gozava de muito prestígio nas redondezas. Em 1806, uma febre lhe pôs fim a existência.  Crente fervoroso, o capitão deixou o melhor do seu patrimônio para Nossa Senhora da Conceição, padroeira da freguesia.

A notícia chegou a Sobral, causando grande alegria ao vicariato daquela cidade. Era um grande patrimônio: uma légua de terra (antigamente a medida era maior), com algumas benfeitorias, tudo adquirido do padre Basílio Francisco dos Santos, pelo preço de um conto e duzentos, pagos na melhor moeda portuguesa da época.

Os anos se passaram. Em 1822 é criada a freguesia de Acaraú. Sobral, porém, continuou por muitos anos usufruindo o lucro do patrimônio paroquial, até que em 1908, o padre Antônio Tomás, diligente e culto vigário local, rebelou-se contra o fato: não mais pagaria à freguesia de Sobral aquilo que pertencia a Acaraú por direito legítimo.

Padre Antônio Tomás

Foi um Deus-nos-acuda: houve reboliço, protesto, zanga, mas o festejado poeta não arredou pé. Foi mais longe. Consultou a população de Acaraú e levou a questão adiante. Enviou petição ao Arcebispo Núncio Apostólico do Brasil. Diante da exposição de fatos, não houve outra saída: D. Alexandre Barona concordou com o Padre Antônio Tomás e enviou resolução ao bispo do Ceará, D. Joaquim José Vieira. A uma coisa apenas ficava Acaraú obrigado, pagar uma indenização de três contos de reis à paróquia de Sobral.

Como acentua o historiador Nicodemos Araújo, ilustre filho de Acaraú, foi um grande serviço prestado pelo saudoso poeta à sua terra querida, por ele decantada no magnífico soneto “Acaraú”.  

fonte: Anuário do Ceará 
fotos: IBGE e O Povo 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Joaquim Nogueira, o educador do Ceará

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Joaquim da Costa Nogueira é considerado um dos maiores exemplos de dedicação ao magistério na história do Ceará. Contribuiu durante toda a vida na formação de personalidades que mais tarde teriam influência na vida política e social do Estado. Dirigiu por trinta anos o antigo Instituto de Humanidades, transformado em seguida no Colégio Nogueira. No Liceu do Ceará ensinou Desenho, conquistando o corpo discente por sua simplicidade e pelos processos criativos que motivaram a pesquisa.

Alunos do Instituto de Humanidades em visita a Igreja de São Pedro dos pescadores, localizada no Mucuripe.

Entre os alunos que tiveram influência na formação escolar, destacam-se Haroldo Juaçaba, Armando Falcão, Autran Nunes, Antônio Carlos Campos de Oliveira, Ruy Simões de Menezes, Marcos Botelho, Juarez Ellery Barreira, José Raimundo Costa e João Ramos de Vasconcelos. Reuniu ainda em seu colégio, professores de porte como Paulo Sarasate, Plácido Castelo, Djacir Menezes, Perboyre e Silva e Clodoveu Cavalcante.
  
Joaquim Nogueira nasceu a 28 de dezembro de 1866, em Aquiraz, filho do major Joaquim da Costa Nogueira e de Mariana de Freitas Nogueira. Estudou as primeiras letras na escola pública de Pacatuba, fez os preparatórios no Liceu e cursou dois anos da faculdade de Direito do Recife. A morte do pai, em 1889, obrigou Nogueira a retornar ao Ceará.

De acordo com o historiador Barão de Studart, Joaquim Nogueira exerceu várias funções na época: almoxarife de gêneros do Governo, desenhista da Comissão de Açudes em Quixadá, tabelião e diretor dos Colégios São Luís e Baturiteense, em Baturité. Em 15 de janeiro de 1904 fundou em Fortaleza o Instituto de Humanidades. Autor de livros didáticos, teve seu livro “Ano Escolar”, adotado oficialmente pelas escolas de ensino público do Ceará.

No dia 28 de outubro de 1914, o professor Nogueira foi abalado pelo assassinato de seu único filho, José de Mendonça Nogueira, aos 22 anos, fruto de seu casamento com Olivia de Mendonça Nogueira. Com o abalo emocional, o professor paralisou por quatro anos as atividades do Instituto de Humanidades. Em 1918 voltou a ensinar, instalando curso de aulas primárias, transformado depois em Colégio Nogueira.

o filho do professor Joaquim Nogueira, José de Mendonça Nogueira, foi assassinado nas dependências do Clube dos Diários, localizado no Palacete Guarany, na antiga Rua Formosa,no dia 28 de outubro de 1914.  

A partir da perda do filho, o professor Nogueira passou a usar somente roupas pretas, deixando ao mesmo tempo, crescer a barba. Apesar de tudo, seguiu em frente no novo estabelecimento que preparava os alunos para ingresso no Liceu do Ceará. O alto índice de aprovação obtido pelo colégio repercutia em toda a cidade. Ao aposentar do Liceu do Ceará deixou de ministrar aulas particulares em 1933. Por iniciativa dos advogados João Hipólito e Edson Carvalho Lima, o colégio foi reaberto em 1937. Em seguida a direção passou para o professor Aloisio Ferreira, e por fim, a Clodomir Teófilo, originando o Colégio Rui Barbosa.

Prédio onde funcionou o Instituto de Humanidades, na Rua da Assembleia, atual Rua São Paulo. 

A aposentadoria do professor Joaquim Nogueira foi marcada por acusações injustas, o que agravou seu estado de saúde. O Monsenhor José Quinderé, colega de magistério do Liceu, narra em suas reminiscências o escândalo que resultou na descoberta da falsificação numa caderneta de notas.
“Encontrei a alteração de um 2, que havia dado ao aluno, a lápis, transformado em 9, a tinta, mas na pressa da falsificação, esqueceu-se o interessado de apagar o pescoço e rabisco do 2. Pensei em tomar qualquer providência, para castigo do audacioso. Refleti, porém, por alguns momentos e resolvi guardar silêncio, com receio de recuar ante os pedidos que haviam de aparecer, pois a falta era grave”.

O Monsenhor Quinderé conta que, posteriormente, a mesma coisa se fez na caderneta de Desenho do professor Nogueira. Tinha ele o cuidado de registrar numa caderneta particular, de bolso, a nota que dava no livro de chamada. Conversou com o monsenhor a esse respeito, muito indignado, e disse que estava decidido a requerer inquérito. Era na interventoria de Carneiro de Mendonça, que despachou o requerimento nomeando o austero João Hippolyto de Azevedo e Sá, para instaurar o inquérito, o qual por cautela, traz um escrevente de sua confiança. Resultado: apurou-se que o autor da falsificação fora o próprio professor Nogueira, que como todos sabiam, seria incapaz de tamanha indignidade, de maneira alguma se podia atribuir ao velho professor aquela farsa, completa Monsenhor Quinderé. 

prédio do Liceu na Praça dos Voluntários. O estabelecimento funcionou nesse local entre 1894 e 1935, quando mudou-se para o bairro Jacarecanga. 

Escreve ainda José Quinderé que o interventor publicou decreto com vários considerandos. Em um deles dizia que, “tratando-se de um cidadão que prestou relevantes serviços à instrução pública estadual, resolvi não demiti-lo a bem do serviço público, mas aposentá-lo com o tempo de serviço que se apurar”. Nogueira foi acometido de violento choque traumático, perdeu a fala e morreu logo depois. O seu falecimento ocorreu no dia 21 de julho de 1936. A história não registrou o nome do beneficiário da fraude. 

Extraído do livro
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho.
Revista do Instituto do Ceará - 1966 
fotos: revista do Instituto do Ceará e arquivo Nirez