terça-feira, 30 de agosto de 2016

Acaraú - Fatos e Histórias Interessantes

Clube recreio Dramático Familiar, atual Biblioteca Pública Poeta Manoel Nicodemos

O Milagroso Feiticeiro

Viveu no Acaraú, nos idos de 1840, um pernambucano que desfrutava de enorme prestigio em toda a região. Era detentor de raro poder: curava mordedura de cobra. Não falhava nunca, por mais feroz que fosse o ofídio.

Religioso, meio profético, já em idade avançada, o curandeiro João Saldanha Marinho tinha o seguinte procedimento: ao portador que vinha pedir ajuda para alguém atacado por cobra ou outro animal peçonhento, entregava um objeto do seu uso (chapéu, uma peça de roupa, chinela, etc) e aconselhava: – menino, põe isto sobre o doente e ele ficará curado.

Quando lhe era possível lá se ia pelo mundo afora, ver o paciente. Diante do moribundo já sem esperanças, mordido de Cascavel, com febre alta e falando coisas desconexas, o velho pegava no pulso, fazia trejeitos, fechava os olhos, tremia e exclamava:  “levanta-te homem, nada temas. Caminhas, estás curado! ”.

O fato era contado por uma enorme legião de pessoas de destaque da região, até o padre afirmava que era verdade.

Rua D. Pedro II (1948)

O Médico da Lagoa do Mato

Nos tabuleiros do Acaraú, vivia um famoso curandeiro de nome Diogo Lopez de Araújo Costa. Nunca casou, mas em épocas diversas, conviveu com 7 mulheres que lhe deram 35 filhos que lhe fizeram a tradição. Ganhou fama de curandeiro depois de realizar curas milagrosas, sem nenhuma explicação da ciência.

Ficou cego aos 40 anos, mas continuou fazendo curas admiráveis. Morava na região de Lagoa do Mato, em casa vasta e hospitaleira, onde fundou um hospital no qual atendia muita gente, algumas vindo até dos longínquos sertões do Piauí. Tinha um dom quase sobrenatural para a cura de enfermidades: davam-lhe o pulso, e o famoso curandeiro Diogo ao ouvir as pulsações, identificava o mal que atormentava o paciente. Passava uma medicação, e em poucos dias, o doente estava pronto para outra.

O Imposto de Sobral

Igreja Matriz de N. S. da Conceição em Sobral

 Igreja Matriz de N. S. da Conceição em Acaraú

Um dos grandes negociantes da época das charqueadas da região era o capitão José Monteiro de Melo. Naquela época era homem de vastas posses, por isso, gozava de muito prestígio nas redondezas. Em 1806, uma febre lhe pôs fim a existência.  Crente fervoroso, o capitão deixou o melhor do seu patrimônio para Nossa Senhora da Conceição, padroeira da freguesia.

A notícia chegou a Sobral, causando grande alegria ao vicariato daquela cidade. Era um grande patrimônio: uma légua de terra (antigamente a medida era maior), com algumas benfeitorias, tudo adquirido do padre Basílio Francisco dos Santos, pelo preço de um conto e duzentos, pagos na melhor moeda portuguesa da época.

Os anos se passaram. Em 1822 é criada a freguesia de Acaraú. Sobral, porém, continuou por muitos anos usufruindo o lucro do patrimônio paroquial, até que em 1908, o padre Antônio Tomás, diligente e culto vigário local, rebelou-se contra o fato: não mais pagaria à freguesia de Sobral aquilo que pertencia a Acaraú por direito legítimo.

Padre Antônio Tomás

Foi um Deus-nos-acuda: houve reboliço, protesto, zanga, mas o festejado poeta não arredou pé. Foi mais longe. Consultou a população de Acaraú e levou a questão adiante. Enviou petição ao Arcebispo Núncio Apostólico do Brasil. Diante da exposição de fatos, não houve outra saída: D. Alexandre Barona concordou com o Padre Antônio Tomás e enviou resolução ao bispo do Ceará, D. Joaquim José Vieira. A uma coisa apenas ficava Acaraú obrigado, pagar uma indenização de três contos de reis à paróquia de Sobral.

Como acentua o historiador Nicodemos Araújo, ilustre filho de Acaraú, foi um grande serviço prestado pelo saudoso poeta à sua terra querida, por ele decantada no magnífico soneto “Acaraú”.  

fonte: Anuário do Ceará 
fotos: IBGE e O Povo 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Joaquim Nogueira, o educador do Ceará

Joaquim da Costa Nogueira é considerado um dos maiores exemplos de dedicação ao magistério na história do Ceará. Contribuiu durante toda a vida na formação de personalidades que mais tarde teriam influência na vida política e social do Estado. Dirigiu por trinta anos o antigo Instituto de Humanidades, transformado em seguida no Colégio Nogueira. No Liceu do Ceará ensinou Desenho, conquistando o corpo discente por sua simplicidade e pelos processos criativos que motivaram a pesquisa.

Alunos do Instituto de Humanidades em visita a Igreja de São Pedro dos pescadores, localizada no Mucuripe.

Entre os alunos que tiveram influência na formação escolar, destacam-se Haroldo Juaçaba, Armando Falcão, Autran Nunes, Antônio Carlos Campos de Oliveira, Ruy Simões de Menezes, Marcos Botelho, Juarez Ellery Barreira, José Raimundo Costa e João Ramos de Vasconcelos. Reuniu ainda em seu colégio, professores de porte como Paulo Sarasate, Plácido Castelo, Djacir Menezes, Perboyre e Silva e Clodoveu Cavalcante.
  
Joaquim Nogueira nasceu a 28 de dezembro de 1866, em Aquiraz, filho do major Joaquim da Costa Nogueira e de Mariana de Freitas Nogueira. Estudou as primeiras letras na escola pública de Pacatuba, fez os preparatórios no Liceu e cursou dois anos da faculdade de Direito do Recife. A morte do pai, em 1889, obrigou Nogueira a retornar ao Ceará.

De acordo com o historiador Barão de Studart, Joaquim Nogueira exerceu várias funções na época: almoxarife de gêneros do Governo, desenhista da Comissão de Açudes em Quixadá, tabelião e diretor dos Colégios São Luís e Baturiteense, em Baturité. Em 15 de janeiro de 1904 fundou em Fortaleza o Instituto de Humanidades. Autor de livros didáticos, teve seu livro “Ano Escolar”, adotado oficialmente pelas escolas de ensino público do Ceará.

No dia 28 de outubro de 1914, o professor Nogueira foi abalado pelo assassinato de seu único filho, José de Mendonça Nogueira, aos 22 anos, fruto de seu casamento com Olivia de Mendonça Nogueira. Com o abalo emocional, o professor paralisou por quatro anos as atividades do Instituto de Humanidades. Em 1918 voltou a ensinar, instalando curso de aulas primárias, transformado depois em Colégio Nogueira.

o filho do professor Joaquim Nogueira, José de Mendonça Nogueira, foi assassinado nas dependências do Clube dos Diários, localizado no Palacete Guarany, na antiga Rua Formosa,no dia 28 de outubro de 1914.  

A partir da perda do filho, o professor Nogueira passou a usar somente roupas pretas, deixando ao mesmo tempo, crescer a barba. Apesar de tudo, seguiu em frente no novo estabelecimento que preparava os alunos para ingresso no Liceu do Ceará. O alto índice de aprovação obtido pelo colégio repercutia em toda a cidade. Ao aposentar do Liceu do Ceará deixou de ministrar aulas particulares em 1933. Por iniciativa dos advogados João Hipólito e Edson Carvalho Lima, o colégio foi reaberto em 1937. Em seguida a direção passou para o professor Aloisio Ferreira, e por fim, a Clodomir Teófilo, originando o Colégio Rui Barbosa.

Prédio onde funcionou o Instituto de Humanidades, na Rua da Assembleia, atual Rua São Paulo. 

A aposentadoria do professor Joaquim Nogueira foi marcada por acusações injustas, o que agravou seu estado de saúde. O Monsenhor José Quinderé, colega de magistério do Liceu, narra em suas reminiscências o escândalo que resultou na descoberta da falsificação numa caderneta de notas.
“Encontrei a alteração de um 2, que havia dado ao aluno, a lápis, transformado em 9, a tinta, mas na pressa da falsificação, esqueceu-se o interessado de apagar o pescoço e rabisco do 2. Pensei em tomar qualquer providência, para castigo do audacioso. Refleti, porém, por alguns momentos e resolvi guardar silêncio, com receio de recuar ante os pedidos que haviam de aparecer, pois a falta era grave”.

O Monsenhor Quinderé conta que, posteriormente, a mesma coisa se fez na caderneta de Desenho do professor Nogueira. Tinha ele o cuidado de registrar numa caderneta particular, de bolso, a nota que dava no livro de chamada. Conversou com o monsenhor a esse respeito, muito indignado, e disse que estava decidido a requerer inquérito. Era na interventoria de Carneiro de Mendonça, que despachou o requerimento nomeando o austero João Hippolyto de Azevedo e Sá, para instaurar o inquérito, o qual por cautela, traz um escrevente de sua confiança. Resultado: apurou-se que o autor da falsificação fora o próprio professor Nogueira, que como todos sabiam, seria incapaz de tamanha indignidade, de maneira alguma se podia atribuir ao velho professor aquela farsa, completa Monsenhor Quinderé. 

prédio do Liceu na Praça dos Voluntários. O estabelecimento funcionou nesse local entre 1894 e 1935, quando mudou-se para o bairro Jacarecanga. 

Escreve ainda José Quinderé que o interventor publicou decreto com vários considerandos. Em um deles dizia que, “tratando-se de um cidadão que prestou relevantes serviços à instrução pública estadual, resolvi não demiti-lo a bem do serviço público, mas aposentá-lo com o tempo de serviço que se apurar”. Nogueira foi acometido de violento choque traumático, perdeu a fala e morreu logo depois. O seu falecimento ocorreu no dia 21 de julho de 1936. A história não registrou o nome do beneficiário da fraude. 

Extraído do livro
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho.
Revista do Instituto do Ceará - 1966 
fotos: revista do Instituto do Ceará e arquivo Nirez 

sábado, 28 de maio de 2016

Os Fundadores do Ceará - Parte II (Final)

A Estrada Geral do Jaguaribe partia de Aracati, um antigo porto de barcos, que se tornaria o mais destacado empório comercial da Capitania. Cortando inúmeras fazendas e currais, dirigia-se à região meridional do Ceará, na Chapada do Araripe, continuando até as terras pernambucanas. Essa estrada tornou-se a mais importante via de acesso aos sertões do Ceará colonial.

A progressiva conquista dos sertões fez-se de espaço a espaço, à força bruta, com as famílias seguindo os rastros do gado vacum. Os colonos adentravam regiões ainda virgens – os sertões de fora – nas zonas litorâneas, vindos do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, e nos – sertões de dentro – aqueles mais interiorizados, oriundos da Bahia e Sergipe. 

Os primeiros desbravadores das terras na ribeira do Jaguaribe foram os sesmeiros de 1681. Quinze nomes dos chamados “Homens do Rio Grande do Norte”, provavelmente parentes entre si, obtiveram sesmarias ao longo do Rio Jaguaribe, indo do Aracati ao Boqueirão do Cunha, no alto sertão. 

Rio Jaguaribe na cidade do mesmo nome 

Entre essa gente, dotada de “civilidade e polidez” estava a família Gracismã, cujo patriarca, o Comissário-de-Cavalaria, Teodósio de Gracismã é tido como um dos primeiros povoadores da ribeira do Jaguaribe, já residindo nessa região em 1683. Alguns historiadores consideram Teodósio de Gracismã descendente e provavelmente, filho do holandês Joris Garstman que na ocupação flamenga desempenhou relevante papel no Nordeste brasileiro. 

O tenente-coronel Garstman foi em seu tempo, a maior autoridade holandesa do Castelo de Keulen, depois Forte dos Reis Magos, no Rio Grande do Norte. Por ordem de Mauricio de Nassau, conquistou o Ceará na campanha de 1637. Era de sua propriedade o Engenho do Cunhaú, comprado por 60 mil florins em 1637, em terras potiguares e que marcou a história colonial pelo hediondo massacre nele realizado contra seus moradores, pelos índios comandados por Jacob Rabi. Garstman deixou descendência no Brasil, de seu casamento com uma portuguesa, possivelmente da família Abreu, antes de 1640.

Aracati - início do século XX 

São os Gracismã ascendentes dos Costa Lima – fundadores do Aracati – dos Pontes Vieira, dos Nogueira Borges da Fonseca, dos Dias da Rocha, dentre outros. Entre Aracati e Icó outras sesmarias foram doadas aos descendentes de Jerônimo de Albuquerque, o Adão Pernambucano, pai de 35 filhos conhecidos e cadastrados como ascendentes da maior parte das antigas famílias nordestinas. 

Os Albuquerque, os Cavalcante, os Holanda, e outros se encontram registrados desde aqueles primeiros tempos, no maior documento genealógico do Nordeste brasileiro, a Nobiliarquia Pernambucana de Borges da Fonseca. Destacam-se velhos troncos coloniais: Porto Saboia – de origem italiana, Figueiredo, Caminha, Castro e Silva, Barbosa, Alves Ribeiro, Antunes de Oliveira, Fidelis Barroso, Pamplona, Amorim Garcia, Costa Barros, Nogueira, Ribeiro, Bessa, Maciel, Gurgel do Amaral, Barreto, Ferreira, Pereira de Brito, Pinheiro, Bezerra de Menezes, Uchoa, Carvalho, Lira, Pereira, e muitos outros ligados ao povoamento daqueles territórios. Segundo o historiador Carlos Xavier Paes Barreto, a família Bandeira de Mello é uma das mais antigas do Brasil. “Com Duarte Coelho, 1º Donatário de Pernambuco, vieram seus primos, Felipe e Pedro Bandeira de Melo”.

No Boqueirão dos Cunha estabeleceu-se no final do século XVII, a família do fidalgo português Pereira da Cunha, mais tarde ligado aos Alencar. Luciano Cardoso de Vargas, deixou incontável descendência espalhada pelas terras jaguaribanas. A esta se vincularam os Vidal de Negreiros, e os Leitão Arnoso, que constituem a linhagem materna da família Gadelha.

Exercendo a medicina, na qual era licenciado, dono de botica e de colégio em que estudavam os rapazes ricos do sertão, Luciano Cardoso de Vargas residiu com sua mulher Maria Maciel de Carvalho, no arraial de São João, na zona jaguaribana. Este casal foi ascendente da família Sombra – de Russas e Maranguape – Vieira da Costa, Ramalho, Maia, Alarcon, Monteiro de Oliveira, Gondim, Nascimento, Caracas, Fiuza Pequeno, Campos, Cabral, Monteiro do Nascimento, Almeida e Castro, Pires e Maia – de Russas, Pinto Lopes, Guerreiro, Chaves, Lessa e Paula Pessoa. 

Região de caatinga esparsa com casas de adobe na margem da estrada e, ao fundo, a Serra de Camará que faz divisa entre Jaguaribe e Icó. 

Os Távora descendem do sargento-mor Manoel Peixoto da Silva Távora, que obteve sesmaria nas adjacências do Rio Jaguaribe em 1723, deixando numerosa linhagem. O sargento-mor, alcunhado de Peixotão por sua compleição física avantajada, figura na citação de Gustavo Barroso, ao lado do Domingão de Guaiuba, como os gigantes do Ceará Antigo, “tão avantajados no físico quanto no moral”.
 
Na região de Morada Nova, radicaram-se os Ferreira, os Correia Vieira, os Gomes Barreto, os Rodrigues Machado, os Girão, os Pimenta de Aguiar, os Rocha Pitta, os Carneiro de Souza. 

Os Feitosas foram os primeiros habitantes do médio Jaguaribe e ficaram famosos no tempo do Ceará Colonial por suas contendas com os Montes. Essas duas famílias, a primeira originária de Pernambuco e a segunda de Alagoas, passaram a morar no Ceará nos 10 últimos anos do século XVII, nas imediações de Icó – nesse tempo um arraial quase despovoado. A disputa entre os dois poderosos clãs dividiu a administração da capitania, quando a Câmara era sustentada pelos Montes e a Ouvidoria pelos Feitosas. 

No Icó radicaram-se também os Ferreira Lima, os Mendonça, os Fernandes Vieira, os Leal, os Fiuza, os Bastos de Oliveira, os Pinto Bandeira, os Pinto Accioly, e os Pinto Nogueira. Conforme registro de Raimundo Girão, esses últimos Pinto eram os irmãos José Vitorino e Joaquim Pinto Nogueira, portugueses, moradores em Olinda, que atraídos por interesses comerciais vieram para o Icó e ali enriqueceram. Seu estabelecimento viria a ser a melhor loja de fazendas e armarinhos, ferragens e louças que já se conheceu nos sertões do Ceará.

No Cariri se estabeleceram as famílias Alencar, Gonçalves, Sampaio, Arnault, Figueiredo Pereira e Bezerra de Menezes. Entre os representantes da corrente baiana cita-se Antônio de Sousa Goulart bisavô da heroína Bárbara de Alencar, bandeirante que servia à poderosa casa dos Garcia D’Ávila. A família dos Garcia D’Ávila, uma das mais poderosas do Brasil colonial, desbravou o sertão nordestino por mais de dois séculos.

Para o Cariri a cana de açúcar veio logo com os primeiros povoadores, dentre esses, Antônio de Sousa Goulart, que desde 1718, moía cana em seu engenho, no Sitio Salamanca, certamente o primeiro engenho plantado no Cariri. Composto na época pelas terras dos sítios Lambedor, Lama e Brito, Salamanca deu origem à cidade de Barbalha.

Cortando a bacia do Jaguaribe, a Estrada Nova das Boiadas estendia-se do Piauí até Pernambuco. Era a corda de um imenso arco formado pelo velho caminho que beirando o mar, unia Camocim ao Recife. Essa Estrada Nova concorreu para povoar a zona interiorana cearense, com moradores das capitanias vizinhas, reforçando assim, o isolamento, por muito tempo, da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Este longo percurso bipartia-se em Quixeramobim: o caminho do Cavalo Morto levava a Crateús e daí para o Piauí; o outro, tomando o rumo noroeste, chegava-se a Sobral.

Em Quixeramobim estabeleceram-se os Ferreira Santiago, os Ramalho, os Souza Pimentel, os Araújo, os Maciel, os Saraiva Leão, e mais tarde, os Câmara, vindos do Rio Grande do Norte. Em Quixadá floresceram as famílias Lemos de Almeida e Queiroz, Facó, Barreiras, Marinho Falcão, Barreira Nanan, e Ferreira da Mota.

Na zona sobralense salientou-se a descendência de Manoel Vaz Carrasco, pai das lembradas sete irmãs, origem das famílias Montenegro, Góes, Gomes de Sá, Vasconcelos, Aguiar Oliveira, Porto, Ferreira da Ponte, Alves Linhares, Araújo Costa, Uchoa, Prado e Parente. Nessa zona fixaram-se os Monte, os Xerez, os Lopes Freire, os Frota, os Filgueiras de Melo, os Furtado de Mendonça e os Rodrigues Lima.

Varando os tabuleiros agrestes, aqui e ali reverdecidos pelos aluviões dos riachos, a Estrada da Caiçara levava à orla marítima os moradores da ribeira do Acaraú, projetando-se também para o interior, em direção às terras ressequidas de Santa Quitéria. Deixou grande descendência no Vale do Acaraú, Manoel Ferreira Fonteles. 

Em Santa Quitéria vicejou o clã dos Pinto de Mesquita. Nos sertões de Crateús, residiam os Mello – apoiados pelos Feitosas – e os Mourão – aliados aos Carcará, disputando o poder da região. Também ali residiam outras famílias que povoaram as fronteiras do Ceará com o Piauí, gerando guerreiros e pastores, vaqueiros, políticos e intelectuais.

 Carta Geográfica do Seara. Fonte: Arquivo Histórico do Exército – Divisão de História
Praça e Igreja Matriz de Quixeré

As missões dos padres jesuítas tiveram importante papel na colonização dos silvícolas. O aldeamento das vizinhanças do Forte se deu em missões situadas no Arronches (Parangaba), Paupina (Messejana), Monte-Mor, o Velho (Pacajus) e Soure (Caucaia). Outras se formaram mais para o interior. Cada aldeamento ocupava espaçosa praça diante de uma igreja. Essas praças ainda podem ser identificadas em muitas cidades, como Baturité, Quixeré, Parangaba, Messejana, Caucaia, Iguatu, Viçosa, Crato, Barbalha, Missão Velha, Missão Nova e outras.

Fonte:

Ideal Clube – história de uma sociedade: memórias, documentos e evocações, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do acervo do IBGE

sábado, 21 de maio de 2016

Os Fundadores do Ceará - Parte I

A Estrada Velha foi o mais importante e antigo caminho do Ceará seiscentista. Estendia-se como parte de um grande arco, por toda a orla marítima cearense, com extremo Oeste no Rio da Cruz e no lado oposto pela Angra dos Negros. Por esta estrada se chegava ao Maranhão e caminhando em direção oposta, alcançava-se as capitanias vizinhas do Rio Grande, Paraíba e Pernambuco.


A posse de terra pelos colonos era legitimada pelas cartas de Sesmarias – concessões de terras doadas pelo governo para os que tivessem além de posses e bens, família e agregados. Geralmente as terras doadas ficavam próximas dos rios. Datadas a partir dos últimos decênios do século XVIII, as primeiras sesmarias foram distribuídas próximas as praias, seguidas de outras nas zonas interioranas, no roteiro das águas, demarcadas de rio em rio.

 Primeiras Vilas nas bacias hidrográficas do Ceará, 1699-1823


Algumas se tornaram fazendas e currais congregando famílias – as primeiras inscritas na Genealogia Cearense – nos núcleos mais característicos de nossa formação social. As informações genealógicas ligadas a história esclarecem os fatos e fornecem as biografias de homens, segundo Raimundo Girão, coisa indispensável à obtenção da verdade histórica. 


Os núcleos familiares permaneciam sob o comando de um patriarca daquela rude vida coletiva – o rico proprietário – logo mais transformado em chefe político num tempo que o regionalismo significava mais que o nacionalismo. As outras famílias da região ou a ele se submetiam, compondo alianças familiares, ou se tornavam rivais.

Excluindo aquela deixada em abandono por Martim Soares Moreno – o primeiro a efetivar a conquista da Capitania do Ceará – a mais antiga sesmaria cearense, com concessão registrada em documento, pertenceu a Felipe Coelho de Moraes, nas proximidades do forte. Este já se encontrava por ali desde 1662, constituindo a primeira família do Ceará, no início da real dominação portuguesa, após a retirada dos holandeses.

mapa da Capitania do Ceará, dividido pelo campo iluminado de cor. Acervo do Arquivo Histórico do Exército. 

Cem anos depois, no final do século XVIII, a antiga Estrada de Taquara traçada pelos holandeses em direção à Maranguape, foi palmilhada pelo capitão luso Joaquim Lopes de Abreu com família já constituída na Vila de Fortaleza de N.S. Da Assunção. O capitão, obtendo algumas sesmarias, então devolutas, incorporando-as a outras que havia comprado, constituiu em Maranguape uma espécie de feudo para si e sua família.

Essas sesmarias abrangiam Sapupara e Jereraú. Nesta última instalou a sede administrativa de seus vastos domínios. Homem de largos recursos, Lopes de Abreu foi muito influente na Província.  Exerceu as funções de juiz ordinário, juiz de órfãos de Fortaleza, vereador por esta cidade e primeiro gestor do município durante o Império. Compôs a Junta Tríplice que governou o Ceará em 1820, lavrando neste ano, como presidente da Câmara da Vila de Fortaleza, o Termo de Solicitação ao Rei, da elevação desta vila à categoria de cidade. Presidiu e integrou em Fortaleza, a comissão Extraordinária que aclamou o Imperador Pedro II, em 29 de maio de 1831.


Nas terras de Columinjuba, cedidas por Lopes de Abreu ao agricultor de sua confiança João Honório de Abreu, nasceria em 1853, Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, neto de João Honório.

No oratório de Jereraú realizaram-se os casamentos dos filhos do Capitão Lopes de Abreu; dois dos seus netos, filhos do Major Agostinho Luiz da Silva, português de Sintra, uniram-se as famílias Mendes Smith de Vasconcelos e Correia de Mello.

Os Correia de Mello e seus parentes Amaral e Sombra desenvolveram a agricultura e industrializaram seus produtos, tornando Maranguape um verdadeiro celeiro para Fortaleza, de vital importância à sua subsistência. O Comendador João Correia de Mello, açoriano da Ilha Terceira e agente-consular de Portugal em Maranguape, pioneiro em 1876, na exportação de laranja para a Europa, favoreceu também o desenvolvimento de Maranguape, trazendo famílias açorianas visando uma melhor utilização de suas terras produtivas.


Dois irmãos do Comendador, José e Antônio Correia de Mello, casaram-se com as filhas de Domingos da Costa e Silva. O famoso "Domingão de Guaiuba", a quem Gustavo Barroso dedicou um capítulo do seu livro “A Margem da História do Ceará”. Domingão, tio do poeta Juvenal Galeno, pertencia a uma das famílias mais importantes da província. Era irmão da Baronesa de Aratanha e de duas outras casadas na família Justa. Toda essa parentela se entrelaçava com donos de sítios nas serras de Maranguape, Aratanha e Pacatuba. Entre os proprietários de Pacatuba encontravam-se as famílias Pinheiro, Medeiros, Cabral, Correia de Mello, Campos, Spindola, Amaral, Albano, Amora, Coelho, Silveira Gadelha, Fernandes Campos, Lopes, Botelho, Siqueira, Soares e Leite. 


Na Serra de Baturité, iniciou-se o cultivo do café, que adquiriu vulto após 1845, com a fixação da população sertaneja que viera fugida da seca. Uma pequena aristocracia foi se formando entre os cafezais dessas serras. Em Baturité sobressaíram as famílias Linhares, Caracas, Holanda, Ferreira Lima, Queiroz, Sampaio e Dutra.


Mais próximo ao litoral disseminou-se a prole do português Manoel Lopes Cabreira, um dos pioneiros devassadores dessas terras, vinculando-se aos clãs Costa Gadelha, Baima, Lopes, e Queiroz, povoando Aquiraz, Cascavel e mais tarde, o maciço de Baturité. Essa descendência ligou-se as famílias Pimentel, Caracas, Castello Branco, Silveira, Torres e Barros Leal. 


O clã Barbosa Cordeiro, de origem afidalgada, transferiu-se de Baturité para Canindé, residindo na Fazenda São Pedro; também para Canindé foram as famílias Vieira da Costa, Santos Lessa, Pinto de Magalhães, Cruz Saldanha, Cordeiro da Cruz, Alves Ribeiro, Gondim, Rodrigues Campelo e Cordeiro da Rocha. 


 Forte de São Sebastião na Barra do Ceará
Encaminhando-se para o lado ocidental de Fortaleza, em Caucaia, instalaram-se os Rocha Motta, Moreira de Souza e Pereira Façanha. A região de São Luiz do Curu, onde seria fundada a cidade de Imperatriz, hoje Itapipoca, povoou-se com as famílias Pires Chaves, Álvares, Cordeiro, Agrela, Jardim, Telles de Menezes, Tomé Cordeiro, Rodrigues Chaves, Ribeiro da Costa, Castro Vianna, Santos, Barroso, Braga, Pereira Pinto, Escócia de Drummond, Moura Rolim, Teixeira Montenegro e outros, que enriqueceram com o algodão de Uruburetama.

fonte:
Construtores da Terra, do livro Ideal Clube, História de uma Sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira



sexta-feira, 25 de março de 2016

A Libertação dos Escravos e a Corrupção na Província

130 anos após a abolição da escravidão no Ceará, pesquisa no acervo do jornal Libertador revela senhores de escravos corruptos e se beneficiando do dinheiro público destinado à compra de alforrias.

Jornal Libertador edição de 25 de março de 1884

O escravocrata Antônio Benício Saraiva libertou seus escravos cinco anos antes da princesa Isabel assinar a Lei Áurea. Fazendeiro e político, Saraiva concedeu alforria em troca de indenização paga pelo Governo Provincial. Segundo o jornal abolicionista Libertador, o escravista fez da “liberdade” um negócio lucrativo. Inicialmente soltando “seus negros” no município de Baturité, o fazendeiro levou-os para Quixeramobim e alforriou novamente os mesmos escravos – ganhando, assim, indenização em dobro.
 
A denúncia sobre o episódio envolvendo Antônio Benício Saraiva (1823–1920) foi publicada, em outubro de 1883, no jornal Libertador. A história do fazendeiro e outras irregularidades que antecederam a abolição no Ceará foram noticiadas pelo periódico oficial da Sociedade Cearense Libertadora, mais destacada agremiação abolicionista que atuou no Ceará.

Sociedade Cearense Libertadora, composta por Isaac Amaral, Papi Júnior, William Ayres, João Cordeiro, Antônio Bezerra, Dragão do Mar, Alfredo Salgado, Oliveira Paiva, João Lopes, José Amaral, e Antônio Martins. 

Debruçando-se sobre o conteúdo do jornal, o historiador cearense Américo Souza tem encontrado denúncias como: libertação dos mesmos escravos mais de uma vez, histórias de cativos vendidos por preços exorbitantes e relatos de negros “livres” que continuaram sob o domínio dos senhores. Américo é professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab) e, junto dos orientandos Ellen Jardani e George Cavalcante, tem atualizado discussão sobre os processos que levaram ao fim do regime escravocrata.
 
“A abolição da escravidão no Ceará foi, em última instância, um grande negócio, no qual os proprietários foram os que mais lucraram; o povo, especialmente os escravizados, os que mais perderam e o Estado foi quem pagou a conta”, afirma Américo. O historiador ressalta: a “esmagadora maioria” das alforrias foram obtidas por meio de indenização paga pelo Governo Provincial.
 
Criado em 1881 e tendo circulado até 1892, o jornal Libertador cobriu os bastidores da abolição cearense, ocorrida com quatro anos de antecedência em relação ao resto do País. Naquele 25 de março de 1884, Sátiro de Oliveira Dias, presidente da província do Ceará, decretou liberação de todos os escravos dessas terras. Passados 130 anos, o feito é agora analisado para muito além da obra de uma “elite branca, humanista e modernizadora que quis por fim ao regime”, como pontua Américo.

“A quota do fundo de emancipação, agora distribuída ao Ceará, será aproveitada para arranjos e outros fins inconfessáveis, como tem sucedido, se as juntas respectivas não se acautelarem contra esses negreiros infames”, publicou o jornal Libertador em 17 de Agosto de 1883. O fundo monetário estabelecido pelo Governo Imperial era destinado à libertação de escravos e distribuía recursos para a indenização dos senhores.

Sede da Assembleia Provincial do Ceará

Além do dinheiro advindo do Governo Imperial, entre 1868 e 1883, a Assembleia Provincial do Ceará, composta em sua maioria por deputados proprietários de escravizados, aprovou um conjunto de leis que autorizava o Governo Provincial a destinar grande soma de recursos para a compra de alforrias. Assim, os próprios escravocratas criaram leis para conseguir libertar seus escravos em troca de altas quantias de dinheiro.
 
“As denúncias do Libertador revelam a fragilidade do poder público em fiscalizar o cumprimento da libertação dos cativos após o pagamento das indenizações, bem como o caráter clientelista do processo de abolição que foi, em grande medida, um negócio lucrativo”, afirma Américo. Segundo o historiador, os escravocratas encontraram com a liberação dos escravos uma forma de se recuperar dos prejuízos advindos de crise econômica pela qual a Província passava desde o declínio da exportação de algodão, no final da década de 1860.

 
 
Antiga Fazenda escravocrata em Redenção, Ceará
 
Os escravos recém-libertos, por sua vez, não tiveram acesso a recursos do poder público que lhes possibilitassem uma reinserção social. Após a abolição, os ex-escravos se tornaram homens e mulheres livres, mas sem acesso a direitos como moradia e educação. A falta desses direitos, muitas vezes, lhes obrigavam a se tornar empregados de seus antigos senhores e seguir trabalhando em condições equivalentes à escravidão.
 
Outro episódio encontrado no jornal Libertador relata a batalha judicial entre escravistas da cidade de Russas e o Governo Provincial. Visando lucrar ainda mais com a libertação dos cativos, um grupo de senhores acionou o Poder Judiciário para “obrigar” o Governo a pagar quantias mais elevadas pelas alforrias. “Classificados 23 escravos, que estavam nas condições de obterem liberdade, os senhores não quiseram convencionar preço com o coletor esperando coisa melhor perante o juiz municipal”, publicou o periódico 18 de em outubro de 1883.
 
O episódio foi julgado pelo juiz de Russas – chamado na matéria por Dr. Guedes –, que concedeu ganho de causa aos escravistas. O Libertador relata que a decisão dobrou o valor da indenização para a alforria de alguns escravos e denuncia: o pai do juiz estava entre os fazendeiros beneficiados.
Segundo levantamento realizado pelo pesquisador Américo Souza e seus orientandos, o jornal Libertador denunciou – entre 1883 e 1884 – outras 17 ocorrências, além dos casos de Antônio Benício Saraiva e dos fazendeiros de Russas.
 
transcrito do Jornal O Povo

quarta-feira, 2 de março de 2016

Acopiara

O povoamento da região compreendida entre os limites do atual Município de Acopiara, começou em 4 de julho de 1719, nas primeiras décadas do século XVIII, quando foi concedida, ao Alferes Antonio Vieira Pita, pelo Capitão-mor Salvador Alves da Silva, uma sesmaria no riacho Quincoê, medindo três léguas de terra pelo dito acima. 

Com o tempo foram chegando inúmeras famílias que se fixaram na terra, visto tratar-se de excelentes terrenos de ribeira, propícios à agricultura. Os primeiros habitantes eram da família Pereira Silva, clã que ali passou a ser cognominado de "O Lajes", apelido oriundo da natureza do terreno que se apresentava muito pedregoso. 

Mais tarde, o povoado ficou sendo chamado simplesmente de Lajes, bem como a estação de Estrada de Ferro de Baturité, inaugurada em 10 de julho de 1910, também assim denominada. 

Rua Manoel Deodoro

O Município foi criado, desmembrando-se do então distrito de Iguatu, pela Lei nº 1875, de 28 de setembro de 1921, com sede núcleo de Lages, então elevado a vila, e inaugurou-se a 14 de janeiro de 1922. 

A estação de Lajes foi inaugurada em 1910 no povoado do mesmo nome, que passou a crescer exatamente por causa da implantação da estação ferroviária. Nos anos 1920, o então já distrito e a estação passaram a se chamar Afonso Pena e, em 1943 passou a ser chamada de Acopiara.

Elevada a sede à categoria de cidade, pelo Decreto nº 448, de 20 de dezembro de 1938. Foi seu primeiro Prefeito Celso de Oliveira Castro, que ali fixando residência e juntamente com o Monsenhor José Coelho da Rocha, vigário de Iguatu, muito trabalhou pelo desenvolvimento da nova comuna. 


Criada por D. Quintino Rodrigues de Oliveira, 1º Bispo de Crato, a Freguesia data de 12 de outubro de 1921, desmembrada da de Iguatu, tendo sido seu primeiro vigário o Pe. Leopoldo Rolim. A padroeira é N. S. do Perpétuo Socorro. A igreja matriz foi fundada por Monsenhor José Coelho da Rocha, cujo nome é homenageado numa das praças da cidade. 

Lages era a primitiva denominação que um Decreto de 4 de dezembro de 1933, mudou para Afonso Pena. Mais tarde, novo Decreto, de 30 de dezembro de 1943, denominou a cidade de Acopiara. 
 
O município é constituído de 10 Distritos: Acopiara(sede), Barra do Ingá, Ebron, Isidoro, Quincoe, Santa Felicia, Santo Antonio, São Paulinho, Solidão, Trussu.


 
Praça da Matriz
Na década de 1970, Acopiara foi o segundo produtor de algodão do estado do Ceará, mas as constantes secas, bem como a inserção do bicudo em suas lavouras, contribuíram para que sua produção fosse bastante reduzida. Contudo, o ramo algodoeiro ainda tem contribuído muito na economia local. 
 
Como em muitas cidades do interior do Ceará, Acopiara tem em sua produção agrícola a maior fonte de renda, muito embora possa-se verificar que a agricultura se apresente ainda na sua maioria como de subsistência de pequenos produtores. Destaque para o ramo aviário, que cresceu muito nos últimos anos.


Limites: 
Norte: Mombaça, Piquet Carneiro e Deputado Irapuan Pinheiro, Leste: Quixelô e Solonópole, Sul: Iguatu, Quixelô e Jucás, Oeste: Saboeiro e Catarina.  
A área da unidade territorial: 2.265,349 km². 
Distância de Fortaleza: cerca de 345 km. 
Localização: Acopiara está situada na mesorregião do Centro Sul cearense, microrregião de Iguatu. 
População: de acordo com o IBGE, em 2010 a população de Acopiara era de 51.160 habitantes, com projeção de 53.135 habitantes em 2015.

fontes:
IBGE
Wikipédia
fotos: IBGE e estações ferroviárias 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Costa Barros - O Primeiro Presidente do Ceará

O tenente-coronel de engenharia Pedro José da Costa Barros nunca imaginou que encontraria tantas problemas ao chegar a Fortaleza a bordo da corveta Gentil Americana, em 14 de abril de 1824, para assumir o cargo de primeiro presidente do Ceará. A província vivia sob agitação e revolta em razão da atitude arbitrária do Imperador D. Pedro I, que dissolvera a Assembleia Nacional Constituinte, por meio de um decreto em 12 de novembro de 1823.

Poucos dias antes da chegada de Costa Barros, a Câmara da Vila de Campo Maior de Quixeramobim, comarca do Crato, declarou a queda da dinastia Bragantina, excluindo do trono o Imperador. Uma posição mais do que ousada para a época, passível de condenação, degredo ou morte. No comando geral do movimento, estava José Pereira Filgueiras, que ficaria famoso durante os combates travados na Confederação do Equador, movimento republicano e libertário.

sede da assembleia constituinte no Rio de Janeiro

Outro fator desfavorável ao primeiro presidente: no dia 8 de abril houvera eleição para o Grande Conselho do Ceará, sendo escolhidos pelo corpo eleitoral da província, Tristão Gonçalves, Padre Joaquim de Paula Galvão, José Félix de Azevedo e Sá, padre Antônio José de Moura, José Inácio Gomes Parente e padre Manuel Pacheco Pimentel. Havia, portanto, clima propício para não se permitir a posse de Costa Barros no governo cearense. 

Mas o Ouvidor e Coordenador da Comarca, Joaquim Marcelino de Brito, com o respaldo da Câmara de Fortaleza e insuflado pelos portugueses, extingue a junta governista. A eleição dos conselheiros, encabeçada por Tristão Gonçalves, não era ainda conhecida, possibilitando ao presidente da Câmara assumir interinamente as funções de presidente da Província. Costa Barros aproveita a ocasião e desembarca a uma hora da madrugada do dia 15, tomando posse logo em seguida.


 Praça General Tibúrcio, onde se localizava o Palácio do governo
 
Não concordando com a posse, os membros do governo provisório se retiraram para o Arronches (Parangaba), acompanhados do comandante das armas, Pereira Filgueiras, a quem aderiram as tropas, e aí começou a ser organizada a resistência. Costa Barros, no entanto, consegue convencer os amotinados a voltarem para Fortaleza. A conciliação durou poucos dias.

Animados com as boas notícias que lhes chegavam de Pernambuco, e sem confiança na isenção do presidente, Tristão Gonçalves e Pereira Filgueiras resolveram repor o governo provisório e se retiraram para Aquiraz. Nessa vila começaram a reunir forças, marchando sobre Fortaleza no dia 25 de abril, à frente de grande bando armado que veio acampar em Messejana.

Pereira Filgueiras ordena a prisão de várias autoridades locais, destacando-se a do ouvidor Marcelino de Brito, que foi recolhido ao navio inglês Jubille. Ao mesmo tempo envia carta ao presidente Costa Barros, exigindo a transmissão do cargo para Tristão Gonçalves. No dia 28, sob comando de Filgueiras, os revoltosos ocupam finalmente Fortaleza. É convocada reunião da Câmara e das pessoas mais influentes, onde se divulga o manifesto de Filgueiras, cuja proposta era a deposição do presidente.

Costa Barros, intimado a comparecer a reunião, protestou contra a violência de que estava sendo vítima e abandonou o cargo. Foi então eleito Tristão Gonçalves presidente temporário da província , o qual assumindo imediatamente o lugar, convidou para secretário o Padre Mororó, fazendo seguir para o Rio de Janeiro o presidente deposto, a bordo do brigue inglês Mathilde, fretado pelo governo para esse fim.  


Porto de Fortaleza

O ânimo revolucionário em Pernambuco influenciava cada vez mais os cearenses. Guilherme Stuart, no seu "Dicionário Bibliográfico", explica a situação da época. Dado o estado de efervescência em que se encontravam os espíritos, efervescência de dia a dia maior com o movimento liberal das províncias limítrofes, impunha-se uma única solução à crise política e o Ceará declarou-se afinal, solidário e parte da República do Equador , sendo a 26 de agosto proclamada a absoluta e completa mudança do regime no grande Conselho de 405 eleitores, e presidindo essa memorável sessão, Tristão Gonçalves, secretariado pelo padre Gonçalo Mororó.
 
O movimento revolucionário no Ceará se amplia e o conflito armado é inevitável. Depois de muita luta, Tristão Gonçalves morre no dia 31 de outubro de 1824, na localidade de Santa Rosa (próximo da margem do Rio Jaguaribe). Sem o principal líder e sem o apoio da maioria da população que não tinha consciência das causas republicanas, a Confederação do Equador fracassa no Ceará, como também nas outras províncias. 

Costa Barros retorna ao governo em 17 de dezembro do mesmo ano, mas desiste dois meses depois, e passa o governo para José Félix de Azevedo e Sá. O agora ex-presidente do Ceará é nomeado presidente do Maranhão, onde administra com dificuldade devido ao tumulto provocado pela ação republicana. Finalmente, em 1926, elege-se senador, ocupando uma das quatro vagas existentes para o Ceará. Segue para o Rio de Janeiro onde permanece até sua morte, ocorrida em 20 de outubro de 1839. 

Aracati, terra natal de Costa Barros

Pedro José da Costa Barros nasceu em Aracati, a 7 de outubro de 1770, filho do português Pedro José da Costa Barros e da pernambucana Antônia de Souza Braga. Com 24 anos alista-se no regimento de artilharia n° 1 do Exército de Portugal, sendo promovido a cabo no mesmo ano. Prossegue com sucesso na carreira militar, chegando a comandar o 1° Batalhão do Regimento de Infantaria de Milícias do Ceará.

Além da carreira militar, Costa Barros destacou-se também na política.Em 1821 foi eleito deputado no Ceará ao Supremo Congresso das Cortes. Recusa-se no entanto, a embarcar para Lisboa, preferindo permanecer ao lado do Imperador, preocupado com a causa da Independência. 

Como compensação, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte e Legislativa. No entanto, no dia 12 de novembro de 1823, D. Pedro dissolve a Assembleia e nomeia Costa Barros Ministro da Marinha. Mas ele ocupa o cargo por apenas dois dias, quando tem a oportunidade de assinar, junto com outros, o decreto de deportação dos Andradas.

Para o historiador R. Batista Aragão, Costa Barros pode ser considerado como o homem das realizações inacabadas: ainda estudante, aluno do curso de engenharia da Universidade de Coimbra, foi obrigado a abandonar os estudos por motivo superior. Junto com outros colegas envolveu-se numa manifestação de hostilidade direcionada a uns religiosos, do qual resultou a morte de um padre. Indiciado como cúmplice, segue em degredo a Angola, onde com os demais culpados, será obrigado a cumprir sentença. 

Eleito deputado à Constituinte Portuguesa, deixa de seguir para Lisboa, preferindo ficar no Rio de Janeiro; eleito em 1822, deputado para a Constituinte Brasileira, foi impedido de tomar posse. Por ocasião da abertura da sessão inicial, encontra-se processado, por envolvimento em processo sobre acontecimentos no ano anterior. Absolvido, assume o cargo, e vê a Assembleia ser dissolvida pelo Imperador. Foi nomeado Ministro da Marinha, mas não exerceu o cargo; guindado ao posto de governador do  Ceará, não pode cumprir o mandado em razão de dificuldades diversas. 

fonte: 
A História do Ceará passa por esta rua 
de Rogaciano Leite Filho 
fotos do arquivo Nirez e google