sábado, 23 de novembro de 2013

Cego Aderaldo


Aderaldo Ferreira de Araújo, figura lendária da poesia nordestina e mestre de cantadores e violeiros, nasceu no Crato em 24 de junho de 1878. Tendo mudado desde cedo para Quixadá, é identificado com o sertão central cearense. Se para o acidente que causou sua cegueira existe mais de uma versão, sua carreira de menestrel popular é lenda do principio ao fim. Cego aos 18 anos, sem saber ler nem escrever, foi estimulado por sua mãe a cantar para ganhar algum dinheiro, o que fez depois de um sonho onde fazia os seguintes versos para São Francisco:

Oh Santo de Canindé
Que Deus deu cinco chagas
Fazei com que este povo
Para mim faça as pagas
Uma sucedendo as outras
Como o mar soltando vagas.

imagem: Diário do Nordeste - blog de cinema

Quando faleceu sua mãe, feito o enterro, Aderaldo pediu que lhe indicassem o lado do nascente. Tomou o rumo de Serra Azul, iniciando a caminhada pelos sertões em busca de fama. Cantou para as humildes populações sertanejas e para figuras como o Padre Cícero (de quem era afilhado), Lampião (de quem ganhou uma pistola de presente) e políticos como Ademar de Barros e Juscelino Kubitscheck.

imagem: Diário do Nordeste-blog de cinema

Rachel de Queiroz, que conheceu de perto o cantador, diz que mais que os desafios que o tornaram afamado, Aderaldo gostava de cantar modinhas, romances sertanejos e velhas xácaras portuguesas adaptadas ou deformadas. Em suas viagens carregava também um projetor manual, com o qual encantava as pessoas, mostrando e narrando velhos filmes mudos.
Um ano antes de morrer, sem mais poder cantar, teve certo dia um novo apelo:

Voltei de novo a cantar
Porque esta é a minha sorte
Minhas cantigas me dão
Roupa, comida e transporte
Deixarei este dever
Quando um dia receber
O beijo fatal da morte.

Morreu a 29 de junho de 1967 e foi conduzido ao cemitério por intelectuais, políticos e principalmente por seus amigos violeiros.

extraído do livro
O Ceará dos Anos 90 - Censo Cultural

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