segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Terra de Indios



Nos primeiros tempos da conquista e ocupação de terras cearenses,  nos séculos XVI e XVII, havia inúmeras tribos de indígenas, que foram duramente explorados, combatidos e perseguidos pelos exploradores europeus. Na Fortaleza ao tempo dos holandeses, por exemplo, várias nações indígenas habitavam essa parte do litoral como os Anacés, Os Tremembés, e os Paiacus e outros. 

Mapa com a localização das nações indígenas no Estado do Ceará

Eram exímios pescadores. Usavam arpões, setas e anzóis nas suas pescarias, além de arco e flechas, e possuíam canoas para navegação em rios e em alto mar. Viviam ainda da caça de aves e de pequenos animais nos mangues e nas matas adjacentes; praticavam a agricultura plantando roçados de mandioca e milho. No decorrer do ano recorriam à coleta de sementes e frutos nativos para complementar a dieta alimentar. 

Na época de caju, guardavam as castanhas, usadas para medir a passagem do tempo, o intervalo das mudanças da lua, e marcar as datas de nascimento e morte dos membros das famílias. Nesse período de safra do caju, muitos índios abandonavam o sertão, rumo aos tabuleiros e as praias, aumentando a população litorânea. Era uma fase de fartura, de festas, do Torém e de encontro entre parentes.  Depois todos voltavam às suas aldeias, levando cabaças cheias de castanhas e o mocororó, uma aguardente extraída do caju fermentado e cozido por processo semelhante ao fabrico do cauim obtido do milho e da mandioca.



O polimento é uma técnica de trabalho da pedra por abrasão. A peça é esfregada sobre um bloco de arenito, de granito ou gnaisse até adquirir a forma desejada. A superfície resultante brilha porque reflete a luz. Trata-se de uma técnica simples, porém demorada e cansativa.

A arte e o artesanato utilizavam tecnologias muito antigas, transmitidas de geração a geração. Para auxiliar nas atividades diárias, fabricavam machados  de pedra polida e raspadeiras feitas de conchas de moluscos. Da palha da carnaúba, do tucum e do cipó, faziam esteiras, urupembas e caçuás. Também as casas eram feitas com ramos e folhas de palmeiras e fibras vegetais. 


As mulheres se dedicavam à cerâmica e à tecelagem, e há indícios que usavam fusos para fiar algodão. O cultivo dessa planta era uma prática tradicional, sendo os algodoais plantados em terrenos distantes das moradias.



A cerâmica é mais recente que que os instrumentos de pedra polida. Muitas destas vasilhas eram utilizadas para a contenção de substancias sólidas e líquidas, como a mandioca e o cauim. Os recipientes pintados também serviam para cerimônias da morte e rituais antropofágicos. A confecção de cerâmica é atribuída as mulheres, ao pintarem determinadas peças elas participavam de um grande evento, a guerra com o intuito de capturar guerreiros para o sacrifício   

A herança cultural dos indígenas, apesar de toda a força destruidora dos invasores, e, sobretudo, da ação catequética da Igreja, perdura até hoje,  embora, muitas vezes, desapercebida. 

Nas atividades de caça e pesca,  restam a tarrafa, a nassa, os fojos, as arapucas e os mundeos, dentre outros, ainda usados por sertanejos e praieiros.  Na agricultura, baseada na cultura da mandioca e do milho, há tradições populares, associadas a esquecidos rituais indígenas, de certas fases da lua, como épocas próprias para plantio e colheita.

Urna funerária tupi-guarani - os enterramentos em urnas funerárias eram de dois tipos: os primários e os secundários. No primário o corpo era amarrado com barbante e depois colocado na urna (procedimento mais raro); no secundário, o corpo era enterrado temporariamente, e depois os ossos ficavam depositados nas urnas. Em muitos casos, os ossos eram queimados e as cinzas iam para as urnas.   

Entre os utensílios domésticos, sobraram o pilão escavado em tronco de árvore, as cuias, as cabaças d’água, potes e panelas de barro. Porém, o utensilio indígena mais conhecido é a rede usada largamente em todas as classes sociais cearenses.  

Na alimentação os exemplos são muitos: caju, pequi, batata, mandioca, beiju, farinha, raízes como xique-xique, macambira. São também herança indígena as queimadas e a coivara, para limpar o terreno nas épocas de plantio.

As rezadeiras, benzedeiras ou curandeiras, ainda hoje encontradas nas periferias das cidades, são resquícios da tradição dos pajés , espécies de lideres médicos e religiosos, que curavam os enfermos espantando os maus espíritos. 


A partir de 1980, o movimento indígena do Ceará dá seus primeiros passos com a mobilização política dos Tapebas, (Caucaia) e dos Tremembé de Almofala (Itarema), seguidos pelos Pitaguary (Maracanaú e Pacatuba), Jenipapo-Kanindé (Aquiraz), posteriormente. Hoje existem fortes organizações no interior do Ceará e, mais recentemente, os Anacés (São Gonçalo do Amarante),  os Tubiba-Tapuia (Monsenhor Tabosa), e os Kariri (Crato e São Benedito), iniciaram seus processos de afirmação étnica.  


Suas principais bandeiras de luta são o acesso à terra, à saúde e à educação que garantiram a educação diferenciada, à assistência à saúde (Funasa) e a realização anual de uma assembleia  estadual. Entre os desafios, o reconhecimento e a demarcação definitiva de seus territórios.    


todas as imagens pertencem ao acervo do Museu do Ceará
Fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Revista Fortaleza, fascículo n° 1, de 13 de abril de 2006
Museu do Ceará

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