sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Missão da Ordem dos Jesuítas no Ceará

Os Jesuítas chegaram ao Ceará enviados por Portugal, por volta da metade do século XVII, com o objetivo de evangelizar os nativos, que havia se tornado hostis à medida que criadores de gado exploravam os sertões.  A ação catequizadora dos jesuítas na metade do século XVII diferia das práticas iniciais. 

imagem do site badusca.wordpress

A princípio os membros da Companhia de Jesus procuravam evangelizar os índios de forma espontânea, com danças, procissões, presentes, cantos e pregações, visitando-os e convivendo com eles por certo período nas aldeias.  Essa estratégia não deu certo. 
Bastavam os padres deixarem as aldeias para que os indígenas retomassem seus costumes tradicionais. Antes vistos como doces e inocentes, os índios passaram a serem considerados seres bestiais, animalescos, endemoniados.  
Para convencê-los a aceitar a fé cristã, seria necessário, antes de tudo, dominá-los e afastá-los de seus hábitos primitivos, dos pajés, feiticeiros, e curandeiros. 


imagem do site Portal São Francisco


Os aldeamentos ou missões eram áreas em que se erguiam espécies de aldeias artificiais, ambiente diferente das aldeias naturais dos nativos, para onde os índios eram conduzidos e mantidos para serem doutrinados. 
Criavam-se os aldeamentos a partir da concessão pelo governo de terras necessárias à sobrevivência dos índios que visavam catequizar. A Carta Régia de 1700 estabeleceu a dimensão de uma légua quadrada de terra para os aldeamentos. 
Durante anos os jesuítas tentaram inutilmente fundar aldeamentos estáveis na Ibiapaba, local onde os índios se opunham ferozmente à presença dos invasores. 
Várias vezes os jesuítas foram obrigados a deixar a serra, fosse por resistência dos índios, fosse por pressão dos colonos e autoridades d Maranhão, os quais desejavam escravizar os nativos. 


Igreja Matriz de Nossa Senhora de Assunção em  Viçosa, construída pelos Jesuítas. Viçosa foi o primeiro assentamento branco a surgir na região, com o nome de Aldeia da Ibiapaba. Em 1695 ganhava a primeira igreja, dedicada a N. Sra. de Assunção, em estilo barroco.  Hoje cercada de casarões, muitos com histórias do século XVIII, de ressonância colonial. Somente em 1759 ganharia a denominação de Vila Viçosa Real.    


 Por fim, em 1695, os religiosos conseguiram se instalar na serra, fundando em 1700 o aldeamento de Nossa Senhora de Assunção da Ibiapaba, no local da atual cidade de Viçosa do Ceará. Já em 1702 a Aldeia da Ibiapaba já abrigava mais de quatro mil pessoas, o que a tornava um aldeamento de dimensões consideráveis. 
Na primeira metade do século XVIII a Missão da Ibiapaba se tornara o maior aldeamento do Brasil. 
Para dar uma base de sustentação econômica à aldeia, o governo português determinou a entrega de sesmarias aos religiosos onde pudessem criar gado. Assim, recebendo como doação ou comprando terras, os jesuítas se tornaram proprietários de vastos latifúndios, possuindo terras nas proximidades dos rios Jaguaribe, Choró, Pacoti, Aracatiaçu e Coreaú. 
O produto do trabalho indígenas nos aldeamentos enriquecia a Companhia de Jesus, bem como a remuneração dos serviços que os nativos prestavam aos colonos. A posse de tantos bens e o controle sobre tantos braços indígenas estimulavam os atritos e as cobiças dos colonizadores contra os jesuítas. 


Ruínas do Hospício de Aquiraz (foto:http://www.panoramio.com/photo/29235868) 


Foi como doação que os missionários receberam terras em Aquiraz, erguendo ali um hospício, ou seja, um ponto de hospedagem ou residência – na linguagem da época – seria um local para descanso e pouso dos jesuítas em suas andanças pelo Siará. As construções se iniciaram em 1727. 
O Hospício de Aquiraz serviu também como casa de ensino, um verdadeiro seminário, onde se recolhiam como alunos internos os filhos dos moradores das fazendas sertanejas que possuíssem vocação religiosa. Outros aldeamentos foram fundados no século XVII e no seguinte, nas proximidades de Fortaleza, como os de Parangaba, Caucaia e Paupina. 

Cidade de Almofala, onde os índios Tremembé viveram seu primeiro aldeamento (imagem do livro Ceará Terra da Luz)


Também foram aldeamentos cearenses no período colonial: Paiacu, depois chamado Monte-Mor-Velho, Guarani e hoje Pacajus, Monte-Mor-Novo ( atual Baturité), Telha (atual Iguatu), Miranda (hoje Crato), Missão Velha, Missão Nova (atual São José dos Cariris), Aracati-Mirim (atual Almofala), Salamanca (atual Barbalha).


Convento dos Jesuítas em Baturité (foto: site da prefeitura de Baturité) 

A vida nos aldeamentos provocou uma mudança no modo de vida dos índios em vários aspectos. Os indígenas que antes viviam em ocas ou enormes casas coletivas, com dezenas de pessoas convivendo juntas, e mudando de local periodicamente, passaram a morar em casas de taipa, separadas em unidades familiares e em localidades permanentes. 
Antes dos aldeamentos, os índios tinham uma relação com a natureza ligada ao tempo e as suas necessidades. Dedicavam  ao trabalho apenas o tempo necessário para obter os meios de sua sobrevivência, não tinham como objetivo a acumulação, um conceito capitalista. 
Como o trabalho não absorvia o dia inteiro, frequentemente ficavam ociosos, daí o preconceito dos europeus em verem os índios como preguiçosos
Nas missões o tempo e sua marcação ganharam outros significados, no sentido de disciplinar o trabalho e obter o máximo de produção.  
Boa parte dos atritos entre missionários e nativos tinham origem na imposição da monogamia. A dificuldade era ainda maior com relação aos líderes, pois em virtude de sua posição de guerreiros, eram estes os que mais gozavam do privilégio de ter mais de uma companheira dentro do grupo. 


Urna funerária Tupiguarani pintada (acervo do Museu do Ceará)

 Nas aldeias eram reunidos índios de várias etnias. Havia uma estratégia dos missionários em destruir as bases socioculturais dos povos nativos e torna-los um grupo homogêneo conforme os padrões cristão-europeus. 
Assim, trataram de substituir as línguas originais nativas pelo nheengatu,  uma língua artificial desenvolvida pelos jesuítas nos séculos XVI e XVII para melhor cristianizar os índios. O nheengatu tinha como base o vocabulário e pronúncia tupi, tendo como referência a gramática da língua portuguesa. 
O processo de destruição dos dialetos foi tão bem sucedido, que todos  os índios atuais do Ceará, desconhecem suas linguagens originais. 
A nudez também era algo inaceitável para a Igreja, sobretudo a feminina. Os padres trataram então, de obrigar os nativos a usar roupas, daí o estímulo nas missões do trabalho de tecelagem, principalmente junto às mulheres.  
A igreja se constituía no centro em torno do qual girava a rotina na Missão, ali eram feitos todos os ritos religiosos e se tentava dirigir a vida dos nativos com o badalar dos sinos. 
Uma das primeiras providências ao se iniciar qualquer trabalho de catequização, consistia na construção de uma igreja, símbolo maior da tarefa missionária cristã e civilizatória. 
Apesar da disciplina e das pregações contra os vícios, eram permitidas festas controladas aos sábados e dias santos. Os jesuítas sabiam das necessidades de estratégias que permitissem  aos índios algum divertimento, para facilitar a convivência nos aldeamentos.
Os índios, por sua vez, usavam esses espaços para conservar traços de sua cultura tradicional, resistindo dentro do possível,  à ameaça de total destruição de seus traços históricos e culturais que veio com a civilização.

A confecção da cerâmica é atribuída às mulheres. (peças pertencentes ao Museu do Ceará)
 
Em 1759, o Marquês de Pombal expulsou a ordem jesuítica do Reino. Os inacianos do Ceará acabaram presos, e seus bens confiscados, sendo escoltados por militares armados para Pernambuco em fevereiro de 1760. 
Houve festa em Fortaleza e em outras vilas, e várias celebrações a pedido dos latifundiários e dos demais inimigos da ordem religiosa. 
Os aldeamentos foram convertidos em vilas, administradas por um diretor, enquanto os ritos religiosos dos jesuítas passaram a ser realizados por padre seculares, muitos dos quais, grandes proprietários de terra. Os nativos passaram então a serem mais explorados, quando não expulsos ou obrigados a fugir das aldeias.


fontes: 
História do Ceará, de Airton de Farias
Ceará Terra da luz, organização e coordenação de Patricia Veloso 

6 comentários:

  1. Podem falar mal dos Jesuitas, mas eles
    nos legaram um patrimônio belíssimo.
    Basta olhar esta postagem e já se tem
    uma idéia. Daí só conheço a Escola Apostólica
    de Baturité. Está bem preservada, é belíssima.

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  2. A missão jesuítica cometeu alguns equivocos, como a total aculturação dos indigenas. Mas ainda assim acho que o saldo foi positivo.

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  3. Excelentee documentario, nossa cidade de baturite, tem mt dos jesuitas.

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  4. A ORDEM DOS JESUITAS NO CEARÁ, É TÃO IMPORTANTE HOJE,COMO FOI OUTRORA NA COLONIZAÇÃO.O EXEMPLO É A CIDADE DE BATURITÉ QUE AINDA RESISTE,GRAÇAS A FORÇA DE VONTADE DESSA COMPANHIA,PELO CONTRÁRIO,CONTINUA O SEU TRABALHO.BATURITÉ ESQUECIDA PELO PODER PÚBLICO CONTINUA RESISTINDO, A REFFESA FALIU,MAS OS JESUÍTAS CONTINUAM FIRME E FORTE...TEMOS APENAS QUE AGRADECER, OU MELHOR, ETERNAMENTE AGRADECER.
    O JESUÍTAS ANTONIO TABOSA,FAZ HOJE UMA BRILHANTE ADIMINISTRAÇÃO NO MOSTEIRO,QUE HOJE ESTÁ CATALOGADO COMO UM DOS MELHORES POITES DO TURISMO ECO-RELIGIOSO.A MATA DO MIRANDA NOS OFERECE TRILHAS ENTRE OS CAFEZAIS,VISTAS DESLUMBRANTES DE TODA REGIÃO DO MACIÇO, E PONTOS DE PURA ADRENALINA PARA OS AMANTES DA ARTE DO RAPEL E MONTANHISMO.PARABÉNS,A ORDEM DOS JESUÍTAS NO CEARÁ.O POVO DE BATURITÉ AGRADECE.

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    1. O convento dos Jesuítas de Baturité é uma das edificações mais belas de todo o Estado do Ceará, na minha opinião
      abs

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  5. puff..yané niti iakwaw nheëg. kunhãitá niti uriku supé arãdu.

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