quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As Guerras entre Famílias: Montes x Feitosas


Siará (1647) de Franz Post - mostrava a fortificação que daria inicio a Fortaleza (arquivo Nirez)  

À medida que os recursos do País iam se desenvolvendo, e o interior do Ceará ia sendo desbravado, a violência e a lei do mais forte passaram a vigorar nos lugarejos habitados. Os grandes proprietários, beneficiados com terras doadas pelo governo, e outras benesses que lhes permitiram acumular grandes riquezas, se constituíam em verdadeiros tiranos, dominando hordas selvagens, com armas e ameaças.

Longe da autoridade legalmente constituída, cuja ação ficava enfraquecida pela distância e pela dificuldade de acesso, esses homens viviam de acordo com suas vontades e dominavam os demais colonos de modo completo. Nos pontos mais longínquos, sobretudo, só uma vontade dominava, que era a lei do mais rico; os direitos dos demais, e o dever eram coisas totalmente ignoradas.

 Cidade de Icó, em data não especificada (arquivo IBGE)

A família Feitosa,  originária de Portugal instalou-se inicialmente em Alagoas  e mudou-se para o Ceará por volta de 1707, obtendo várias sesmarias na região dos Inhamuns, tornando-se grande criadora de gado. Gozava de grande prestígio, tanto que um dos seus membros, Francisco Alves Feitosa, foi  designado comandante de uma das milícias da área,  em 1719. 

Os Montes, naturais de Sergipe se instalaram  na região de Icó, por volta de 1682, obtendo igualmente vastas porções de terras. A princípio, essas famílias se uniram para combater os indígenas que resistiam aos conquistadores brancos. Mas essa cooperação transformou-se posteriormente numa luta sanguinária, que pôs em polvorosa a zona sul cearense.

Na época em que o capitão-mor e governador do Ceará Manoel Jaime da Fonseca (1715-1717) concedia doação das terras devolutas ao sul da capitania, se destacavam em poderio dois colonos – o capitão-mor Geraldo do Monte, na margem do Jaguaribe (Boqueirão do Orós) e Lourenço Alves Feitosa, chamado “o comissário”, muito acima, entre os índios Inhamuns.

Um irmão de Lourenço, o coronel Francisco Alves Feitosa, contraiu casamento com uma viúva, irmã de Geraldo do Monte, e por motivos de honra tinha rompido relações com este, quando Feitosa, conduzido por índios da nação Jucá, desbravou a bacia do rio do mesmo nome, e conheceu os vastos sertões que até então só os índios dominavam.

Tendo notícia da descoberta, Monte apressou-se em solicitar uma sesmaria e obteve-a do governo, a despeito de seu cunhado. No entanto, deixou de tomar posse dos terrenos, e decorridos seis anos, Francisco Feitosa conseguiu anular a doação, sob alegação de que as terras estavam abandonadas, obtendo para si a posse do território. Foi o início de um conflito armado que abalou as estruturas do interior  cearense.

Rio Jaguaribe em Jaguaribe, data não especificada (arquivo IBGE)

Durante os anos de 1724 e 1725 as duas famílias se envolveram em grandes hostilidades que repercutiram nos anos subsequentes. As práticas rotineiras de saques, emboscadas, combates abertos, incêndios, assassinatos de índios, vaqueiros e gado, levavam pânico às populações e mostravam a fragilidade dos sistemas jurídico e governamental vigentes. 

As duas facções procuravam manter tropas regulares. Sendo ambos  oficiais superiores de milícias e consideravelmente ricos, formaram pequenos exércitos de índios e mamelucos com os quais sustentaram a guerra durante muito tempo. 

A situação se agravou quando o primeiro ouvidor do Ceará, José Mendes Machado, envolveu-se no conflito tomando partido dos Feitosas quando realizava uma de suas viagens de correição pelo sul do Ceará. Chegou, inclusive, a autorizar ataques à família Montes. O ouvidor, que ganhou o apelido de Tubarão, acabou incompatibilizado com o capitão-mor Manuel Francês e com a Câmara de Vereadores de Fortaleza.

sertão dos Inhamuns, palco de lutas sanguinárias pela posse de terras (foto do livro Ceará de Luz)

Dessas excursões e combates à margem dos rios Salgado, Jaguaribe e outros, cujos vales eram mais conhecidos, ficaram algumas denominações que permaneceram após o conflito. Desse modo alguns sítios à margem do Rio Salgado ficaram conhecidos como Pendência, Arraial, Batalha, Tropas e Emboscadas.  O Sítio Defuntos, no Jaguaribe, tirou também dali a sua denominação, e da mesma forma que o Riacho do Sangue, onde ocorreram verdadeiras carnificinas entre os índios de uma e de outra parte. 

Nos Inhamuns ficaram assinalados os sítios Trincheiras, Cruzes e Saco de Balas. Durante um confronto, um dos Feitosas perdeu um saco de balas que foram encontradas muitos tempo depois. Foi durante essa luta que teria tido início o Arraial de S. Matheus, nas cabeceiras do Rio Jaguaribe, o qual foi o primeiro povoado daquele lado da província. 

A persistência do conflito entre as famílias levou o capitão-mor Manuel Francês a uma intervenção mais objetiva. Em 1725 ordenou aos dois grupos Montes e Feitosas que largassem as armas sob ameaça de pena de morte e confisco de bens.  O número de mortos era de cerca de 400 pessoas dos dois lados. 

Francês determinou ainda que o Ouvidor Tubarão retornasse imediatamente a Aquiraz, mas o Ouvidor preferiu abandonar o cargo e fugir para a Bahia. O capitão-mor dirigiu-se à região dos Inhamuns para ver cumpridas suas determinações. Só assim a luta arrefeceu, embora, vez ou outra ainda acontecessem lutas eventuais.

Foi instalado um processo para apurar as responsabilidades do ocorrido, sem nenhum resultado efetivo.  Os latifundiários saíram impunes, como se nada tivesse acontecido. 

É ignorado que fim levou Geraldo do Monte; quanto a Francisco Feitosa, sabe-se que, avisado por um oficial, por quem o governo o mandara prender, se retirara para o Buriti, no Piauí , de onde mandou matar, na fazenda Cabaças, em sucessivas emboscadas, nove indivíduos ligados a Geraldo do Monte, inclusive dois irmãos deste, colocando-se em tais apuros que se viu obrigado a abandonar aquela sua fazenda e ocultar-se no Boqueirão, onde morreu, segundo se crê.
Os Montes, segundo registros dos historiadores, saíram do conflito empobrecidos e dizimados, enquanto os Feitosas continuaram fortes e a exercer seu poder nos anos seguintes.
Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
Ceará (Homens e Fatos) de João Brígido

9 comentários:

  1. São muitas, as histórias envolvendo a família
    Feitosa, conforme estão aí, nos links. Vale à pena conferir. São mesmo incríveis. Principalmente, pela forma como você narra, Fátima.
    Muito bom!
    Um abraço

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  2. Eu queria conhecer um pouco melhor sobre esse conflito. Eu sou um Monte e sou curioso pra saber a história da minha família.

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  3. Olá Lucas
    tenho uns livros sobre o Ceará e estou pesquisando p/ver se encontro mais alguma coisa sobre essas guerras de familias.
    obrigada por visitar o blog

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    1. Poderia me indicar esses livros? Porque considero fundamental resgatar a origem da minha família...

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  4. Muito bom seu texto. Estou trabalhando duro para encontrar material sobre a História do Ceará. Foi de grande ajuda. Valeu mesmo

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    1. Olá Gódiva,
      sobre a história do Ceará posso lhe indicar o livro do professor Aírton de Farias (História do Ceará), que considero excelente. Obrigada por visitar o blog

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  5. Olá Fátima Garcia,
    Estou sempre lendo textos sobre os Jucá de inhamuns. Busco descobrir a origem da minha família, é que também tenho em minha descendência o nome jucá. Meu avô faleceu em 1979, aos 98 anos de idade, e trazia consigo este nome que herdara de seu avô. É uma longa história, mas quero entender... se houve migração do Ceará pra Pernambuco, acredito que faço parte dos jucá de inhamuns. O que vc acha?

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  6. Olá Fátima Garcia,
    Estou sempre lendo textos sobre os Jucá de inhamuns. Busco descobrir a origem da minha família, é que também tenho em minha descendência o nome jucá. Meu avô faleceu em 1979, aos 98 anos de idade, e trazia consigo este nome que herdara de seu avô. É uma longa história, mas quero entender... se houve migração do Ceará pra Pernambuco, acredito que faço parte dos jucá de inhamuns. O que vc acha?

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  7. É muito bom saber um pouco mais sobre a história da minha família (Feitosa). Parabéns pelo trabalho Fátima!

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