terça-feira, 14 de maio de 2013

A Ocupação do Ceará



O historiador Capistrano de Abreu afirmava que a ocupação do Nordeste brasileiro teria ocorrido seguindo duas grandes rotas: a do sertão de dentro – dominada pelos baianos, que teriam sido responsáveis pela ocupação do Piauí e do Sul do Ceará, partindo do rio São Francisco; e a do sertão de fora- dominada pelos pernambucanos, que se deslocando pela faixa mais próxima do litoral, seguiram pela Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará em direção ao Maranhão. No Ceará, as duas correntes de interiorização se confluem. 

O Mapa Y-59 feito pelos holandeses, descreve a costa cearense, com o título "A costa do Brasil entre Jabarana (Ponta Grossa) até a Barra do Ceará (foto do Diário do Nordeste) 

Até então a presença do invasor europeu na Capitania do Siará estava restrita ao forte de Nossa Senhora da Assunção, no litoral, onde uma guarnição militar composta por brancos, negros e mestiços provava simbolicamente o domínio português em companhia de índios aliados. Foi exatamente para os ocupantes do forte que foram dadas as primeiras sesmarias na foz dos rios Pacoti, Choró e Piranji (mais tarde chamado de Rio Ceará). A seguir foram doadas sesmarias para os colonos vindos de capitanias vizinhas – Pernambuco, Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte.  Do litoral os conquistadores passaram a ocupar definitivamente o interior, apossando-se, sobretudo, das terras próximas ao curso dos rios de maior volume.  Concedendo sesmarias, o governo português estimulava a ocupação dos sertões, uma vez que estaria garantindo não só o seu domínio sobre as terras, mas também a arrecadação, com a cobrança de impostos sobre o gado, o couro, a carne tudo o mais que pudesse ser produzido na região. 


No período compreendido entre  1679 a 1699, num espaço de 40 anos, foram doadas 261 sesmarias, numa média de 13 cartas por ano. No período seguinte, entre 1700 e 1740 foram doadas 1700 sesmarias, média de 42 sesmarias por ano. Foi nesse período que o conflito entre indígenas e fazendeiros tornou-se mais agudo.  No entanto há uma fase entre 1700-1720, em que o conflito deu-se de forma mais aberta. Nesses anos foram doadas 923 cartas, dando uma média de 46 por ano.
No período 1679-1699, constata-se que a maioria dos solicitantes eram moradores em outras capitanias (55,3%). No entanto, no segundo período 1700-1740 este percentual caiu para apenas 17%.  Cabe destacar que no primeiro período, um percentual significativo de solicitantes não ocupou suas datas. No Pacoti, por exemplo, Manuel Cabral de Melo, em 3 de setembro de 1739, requer por prescrição a data que foram concedida, 58 anos antes, a Feliciano de A. Bulhões e sua mulher Domingas do Rego. 

 Barra do Rio Ceará

Um dado importante a ser observado é o número de prescrições. No período inicial, de 20 anos, foram apenas quatro prescrições, enquanto que entre 1701 e 1710, em apenas dez anos ocorreram 31 prescrições. Outro dado para ser ressaltado é a relação entre a queda do absenteísmo e as prescrições no período em que se está consolidando a ocupação da capitania. A partir de 1701 teve início uma queda nos índices de absenteísmo que em 1720 atingiu patamares insignificantes, quando já estava consolidada a ocupação da capitania.
Constata-se tendência inversa em relação as prescrições até 1730, que teve um movimento crescente para em seguida declinar, ficando demonstrado que uma parcela significativa das sesmarias que haviam sido solicitadas no período de 1679 a 1699, não foram ocupadas. A partir de 1740, o número de prescrições e absenteísmo praticamente desapareceram ou atingiram patamares irrelevantes.

fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias
Mundos em Confronto: povos nativos e europeus na disputa pelo território, 
de Francisco José Pinheiro.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Paracuru



Distante 84 km de Fortaleza, é a única sede de município do interior cearense banhada pelo mar. Limita-se ao Norte e Leste com o Oceano Atlântico; ao Sul com o município de São Gonçalo do Amarante e a Oeste  com a cidade de Paraipaba. 
População de Paracuru: 32.255 habitantes (IBGE estimativa da população em 2012)
Localização: Mesorregião Norte Cearense;  microrregião Baixo Curu.

Praça Francisco B. Azevedo (da matriz) 
Igreja de N. S. dos Remédios
Igreja matriz de N. S. dos Remédios

Prédio da Biblioteca Pública
sede do Poder Municipal

Praia da Munguba  é uma das mais populares e mais agitadas, com diversos bares e barracas na orla. Praia de ondas fortes, dunas e currais de peixes. É a praia do centro da cidade, conhecida por Praia de Paracuru. Nela fica localizado o conjunto que compreende o mirante e o Farol de Paracuru, localizados em frente à praça e a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.
  
Antigamente havia uma pequena povoação a beira mar, habitado quase que exclusivamente por pescadores, mas que um dia foi tragado pelas areias das dunas de Paracuru, obrigando os moradores a construir uma nova vila em um local mais alto e seguro. E foi assim que o Padre João Francisco Nepomuceno  da Rocha, nascido no Parazinho, deu início a construção da igreja, edificando ao seu redor as primeiras casas, sendo por esse motivo considerado o Fundador de Paracuru. Logo em seguida, no ano de 1862, o referido padre doou todas as terras de sua família para a Igreja Católica para conseguir a elevação da capela de Nossa Senhora dos Remédios à categoria de Paróquia.
Em 27 de novembro de 1868, a Lei de nº. 1.235, elevou a categoria de vila à povoação do Parazinho com a denominação de Vila do Paracuru, e território desmembrado de Trairi.

Curral de peixes na Praia da Pedra Rachada
Terminal da Petrobrás
Praia da Pedra Rachada
Praia da Munguba

 a Lei de nº. 1.153, de 22 de novembro de 1951, deu a Paracuru sua emancipação política definitiva elevando o distrito à categoria de município, e território desmembrado de São Gonçalo do Amarante. Mesmo assim Paracuru permaneceu ainda, sob o domínio político de São Gonçalo do Amarante até a realização das eleições de 3 de outubro de 1954, sendo a sede municipal instalada a 25 de março de 1955, com a posse dos novos eleitos para gerir os destinos do município recém criado. 


fotos de Paracuru
Rodrigo Paiva e Raquel Garcia - abril de 2013
Fontes:
wikipédia
IBGE
www.portaldeparacuru.com.br

quinta-feira, 28 de março de 2013

A Modernização pelos Trilhos


Acompanhando o crescimento da produção e do comércio, e para ele contribuindo igualmente, verificou-se na segunda metade do século XIX a ampliação dos meios e vias de transporte, de forma a dotar a província de melhores estruturas para o escoamento das mercadorias em direção ao litoral.

Placa comemorativa do 1° centenário da Estrada de Ferro de Baturité (foto Rodrigo Paiva)

Após alguns planos que não saíram do papel, em 1870, o governo provincial assinou com a Companhia Cearense da Via Férrea Baturité, um contrato para a construção de uma ferrovia ligando a capital à vila do mesmo nome. Tal companhia tinha como diretores o Pe. Thomaz Pompeu de Souza Brasil (O Senador Pompeu), Gonçalo Batista Vieira (Barão de Aquiraz), os comerciantes Joaquim da Cunha Freire (Barão da Ibiapaba) e Henrique Broochlehurst, sócio da firma R. Singlehurst e Cia – a popular Casa Inglesa – e o engenheiro José de Albuquerque Cavalcante.
Em 1873 foi inaugurado o primeiro trecho da EFB entre Fortaleza e o Arronches (atual Parangaba) e em 1876, o de Pacatuba. Havia planos para estender os trilhos até o vale do Cariri, mas desde o início o empreendimento teve problemas financeiros – daí os atrasos nas obras e os constantes auxílios do governo.

Os trilhos da Estrada de Ferro e a antiga Estação de Baturité (foto Rodrigo Paiva)

Em 1878, a Estrada de Ferro Baturité acabou encampada pelo governo imperial. Cinco anos depois os trilhos finalmente chegaram a Baturité. Posteriormente, sucederam-se prolongamentos em direção ao sul cearense, chegando ao Crato em 1926.
A Estrada de ferro trouxe benefícios à produção agrícola e ao comércio do Ceará, facilitando o escoamento da produção sertaneja (especialmente algodão e café) para Fortaleza e daí para os centros consumidores do além-mar, e transportando a bens industrializados para o interior. 
Em 1878, durante a calamitosa estiagem (1877-79) o governo imperial determinou com seus recursos a construção de uma outra ferrovia no Ceará, ligando Camocim a Sobral, na qual por caridade, foi usada a mão-de-obra sertaneja. O trecho Camocim-Granja foi inaugurado em 1881 e em dezembro de 1882, inaugurada a estação de Sobral.

Estação de Camocim da Estrada de Ferro de Sobral (foto Rodrigo Paiva) 

A construção da Estrada de ferro Sobral trouxe alguma prosperidade para Camocim em detrimento de Acaraú, em virtude da decadência da histórica rota comercial antes feita pelo porto desta cidade. O surto da borracha na Amazônia na década de 1880 provocou euforia no norte cearense – o porto de Camocim, por ser mais próximo da Amazônia viveu grande agitação, com o comércio e a saída de cearenses para aquela região.
Com a ferrovia, Sobral incrementou o controle sobre o centro-norte do Ceará e com os prolongamentos da EFS – para Crateús em 1912 e Ibiapaba em 1918 – influenciou mesmo áreas do Piauí e Maranhão.

Estação de Sobral foi inaugurada em 1882 como ponta de linha da Estrada de ferro de Sobral (foto de 1957 do site estações ferroviárias do Brasil) 

A cidade conheceu igualmente uma fase de expansão urbana e aformoseamento (construção do Teatro São João, do Jockei Club, casas elegantes, etc.) em 1950, após muitas interrupções, se concluiria a estrada de ligação entre a EFS e a EFB, iniciada em 1910.
Além de várias estradas de rodagem abertas na segunda metade do século XIX entre as vilas, ampliou-se a navegação de cabotagem no litoral cearense. Até 1858, a única companhia marítima nacional a vapor que frequentava a província era a Companhia Pernambucana, a qual enviava um único navio aos portos locais. 

teatro São João em Sobral, inaugurado em 1875 (foto do site da prefeitura de Sobral) 

A partir de 1865 por contratos do governo cearense outras companhias começaram a fazer escalas nos portos do Ceará, como a Companhia de Navegação a Vapor do Maranhão, a do Rio de Janeiro e algumas companhias estrangeiras. Fortaleza assim passou a ter nos anos 1860, não só a primazia do comércio direto com a Europa, favorecida pelas linhas de vapores ingleses e pelo fechamento da Alfândega de Aracati em 1851, mas também com outras províncias  uma vez que seu porto foi incluído nas rotas que se estendiam para a região Sudeste, ligando-a aos mais importantes portos do País.

extraído do livro de Aírton de Farias
História do Ceará

domingo, 24 de março de 2013

Acaraú Ceara



Os primeiros habitantes da região do Acaraú eram pescadores vindos do Sul. Atraídos pela fartura dos barcos pesqueiros, instalaram-se inicialmente no lugar denominado Presídio, transferindo-se mais tarde para local mais seguro, ao fundo do delta formado pelo rio Acaraú.
Durante o longo período da guerra holandesa, o interior do Ceará começou a receber população de origem portuguesa. Muitas famílias tiveram de abandonar o litoral para viver nas matas, ocupando-se de plantações, ou no sertão, criando gado. 

 Rua de Acaraú

Fundaram-se então as primeiras fazendas de criação no alto sertão da Bahia, Sergipe, Pernambuco e Paraíba. Daí, os sertanistas foram seguindo até o alto Jaguaribe. O gado que sitiaram teve incremento espantoso. Procedia das ilhas portuguesas. Pelo litoral vieram também povoados para o Ceará, sendo quase que exclusivamente de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande. Desta origem são as famílias que primeiro se estabeleceram na bacia do Acaraú.
A esses pescadores  se juntaram os criadores que, em fins do século XVII e início do século  XVIII, se estabeleceram com seus rebanhos  na ribeira do Acaracu. Pescadores e criadores foram, portanto, os primeiros habitantes do Acaraú.

Praça Coronel José Filomeno em 1985 (foto jornal O Povo)

O primitivo núcleo da Barra do Acaraú servia de ancoradouro a pequenas embarcações, vindo a chamar-se Porto dos Barcos de Acaracu. Localizada à margem direita do rio, ficava a povoação encravada na légua de terra adquirida em 23 de dezembro de 1793 por José Monteiro de Melo ao padre Basílio Francisco dos Santos e seus irmãos, capitão Manuel José dos Santos e D. Maria Joaquina,todos moradores em Lisboa. Monteiro de Melo, ao morrer, em 1806, legou esse patrimônio a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da freguesia, que nesse tempo pertencia a Sobral.


o Rio Acaraú Nasce na Serra das Matas, um dos pontos mais altos da região. Saindo de Monsenhor Tabosa, em pleno sertão, percorre 320 quilômetros. Corta Sobral uma das cidades mais importantes do Ceará. Banha 18 municípios e deságua no mar em Acaraú  

Almofala constituiu o primeiro aldeamento do Município de Acaraú, sede da antiga missão dos índios Tremembés, datando de 1608, época em que os jesuítas os aldearam nas praias dos Lençóis. Em Almofala fica a igrejinha que a Rainha D. Maria I de Portugal mandou construir para os índios, em 1712.
O núcleo da Barra do Acaraú é o marco inicial do que, mais tarde, viria a ser a cidade de Acaraú. 
No século XVIII, em 22 de setembro de 1799, o povoado foi elevado à categoria de distrito de Acaraú da vila de Sobral.

Paróquia de São João Batista no Distrito de Aranaú
foto panorâmio disponível em http://www.panoramio.com/photo/33238139

Já sua elevação à categoria de vila do Acaraú, com o distrito já desmembrado da jurisdição de Sobral, ocorreu segundo Lei 480, de 31 de julho de 1849.
A fundação do município de Acaraú data de 31 de julho de 1849. O título de município, já com a denominação atual de Acaraú, ocorreu segundo Lei 2 019, de 19 de setembro de 1882.
Em divisão territorial datada de 1-VI-1995, o município é constituído de 4 distritos: Acaraú  Aranaú, Juritianha e Lagoa do Carneiro.

Um castelo encantado em Acaraú: no local funcionam uma pousada e um restaurante

População:  57.551 habitantes (censo Demográfico de 2010)
Área da unidade territorial: 842,559 km²
Densidade demográfica: 68,31 hab/km²
Localização: mesorregião:  Noroeste Cearense
Microrregião: litoral de Camocim e Acaraú
Municípios limítrofes:  Cruz, Bela Cruz, Amontada,  Morrinhos, Marco e Itarema
Distância de Fortaleza: 253 km

fotos Rodrigo Paiva
fontes:
wikipédia
IBGE

quarta-feira, 13 de março de 2013

Farias Brito - Ceará


O Município de Farias Brito está localizado no sul cearense, microrregião de Caririaçu, distante de Fortaleza  em torno de 475 km. O nome Farias Brito é em homenagem ao filósofo Raimundo de Farias Brito. Antigamente o município era chamado de Quixará.


População (estimativa para 2012): 18.859  habitantes
Segundo o Censo Demográfico de 2010, a população do município era de 19.007 pessoas, dos quais 8.871 estavam na zona urbana e 10.136 na zona rural. 
Destes, 9.329 são homens e 9.678 mulheres. A projeção feita pelo IBGE para 2012, prevê  uma pequena redução no número de habitantes, que passaria dos 19.007 de 2010, para 18.859 habitantes em 2012. 
Área da unidade territorial: 503,622 km²
Densidade demográfica: 37,74 hab/km²
Cidades Limítrofes:  Crato, Caririaçu, Várzea Alegre, Cariús, Tarrafas, Assaré, Altaneira, Nova Olinda.


foto do site http://wikimapia.org
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, com obras iniciadas em 1946 e concluídas na década de 1980. 

A área geográfica onde se localiza o atual município de Farias Brito, foi antigamente, campo de atividade da valente tribo Cariús, que habitava grande parte da zona sul do Ceará e sertão pernambucano.
O povoamento da terra teve início no primeiro quartel do século XVIII e se originou da concessão de datas de sesmarias a alguns pioneiros. Registro da crônica histórica dá conta que um dos vultos marcantes da formação da comuna foi o coronel Francisco Gomes de Oliveira Braga, chefe político muito influente que conseguiu que fosse o povoado elevado à categoria de vila em 1890. 

Praça Enoch Rodrigues, no centro de Farias Brito (foto Wikipédia)

O Distrito foi criado por ato de 22 de julho de 1873, e lei provincial n° 2042, de novembro de 1883, com a denominação de Quixará. Foi elevado à categoria de vila pelo decreto estadual nº 82, de 13 de outubro de 1890, desmembrado de Assaré.

Sítio Várzea (foto de Joilson Kariri)

Por lei estadual nº 1794, de 1920, é extinto a vila de Quixará, sendo seu território anexado ao município de Santana do Cariri. Em de 26 de julho de 1926, o distrito de Quixará deixa de pertencer ao município de Santana do Cariri, para ser anexado ao município de Crato. 

Rua Rita Maria do Carmo (foto de Cirlândio Brito)
   
Pelo decreto estadual nº 193, de 20 de maio de 1931, o distrito de Quixará deixa de pertencer ao município de Crato, sendo incorporado ao município de São Mateus. Em divisão administrativa referente ao ano de 1933, o distrito de Quixará, volta a pertencer ao município de Crato.

Distrito de Nova Betânia (foto de Joilson Kariri)
  
Elevado novamente à categoria de município com a denominação de Quixará, pela lei nº 268, de 30 de dezembro de 1936, desmembrado de Crato. Pela lei estadual nº 2194, de 15 de dezembro de 1953, o município de Quixará passou a denominar-se Farias Brito. 
O município é constituído de 4 distritos: Farias Brito, Cariutaba, Nova Betânia e Quincuncá.

fontes:
Wikipédia
IBGE


sábado, 9 de março de 2013

A Escrava Bonifácia

Vinte anos após a liberdade e a independência do Brasil de Portugal,  na manhã do dia 22 de setembro de 1842, uma enorme multidão vinha do centro da cidade em direção ao planalto do Paiol, campo de onde se avistava o mar para os que vinham do interior, um deserto de areias movediças que o vento revolvia. 
À frente da lúgubre procissão, montado num cavalo, vinha alguém abrindo caminho; ao seu lado montavam dois outros cavaleiros à guisa de escudeiros, respeitosos. Aquela entidade imponente sobre seu corcel, era um juiz, ladeado de servidores subalternos a ele. A seguir, vinham soldados de sobrecenho carregado, carabinas aos ombros, as baionetas luzindo ao sol; eles escoltavam uma figura em trajes femininos que chorava e tremia, arrastando os passos. Naquele cortejo cívico, uns eram algozes; outros, a claque dos patíbulos e a vítima uma mulher frágil, cativa desde o berço e deserdada de todos os favores da lei. 



A condenada era Bonifácia, a escrava de Joaquim Carpina. A escrava Bonifácia era acusada de haver matado um jovem rapaz; mas o crime não estava no homicídio simplesmente. Concorria nele uma circunstância atroz. O assassinado não era de um filho seu, que por instinto da espécie devesse preservar a qualquer custo; não era o filho de um benfeitor, a quem sucedesse nos direitos pelo benefício outorgado; era mais que isso – era um senhor moço, filho de Joaquim Marques Vairão,  conhecido pelo vulgo de Joaquim Carpina.
Essa circunstância no regime econômico da escravidão produzia uma agravante extrema do delito, porque no código negro, o atentado contra o senhor que surrava estava equiparado ao crime contra o pai. Tudo se compreendia no parricídio, ou se considerava da mesma categoria que o sacrilégio que andava nas primeiras páginas dos códigos medievais. 
O suposto crime foi cometido em Maranguape, começando em Fortaleza por um exame procedido no cadáver do filho de Joaquim Carpina, remetido do sítio Mongubeira. O cirurgião militar Machado, perito único, declarou ter encontrado feridas contusas no rosto e mais duas na região do pescoço, que mostravam ter sido feitas com as mãos, porque se achavam os sinais das unhas cravadas no rosto, revelando pela compressão terem impedido a respiração, do que resultara a morte. 
As testemunhas do delito, eram pessoas do campo, simples, de cuja moralidade e interesse no fato, não havia notícias; e o juiz de paz, não passava de um homem atrasado em demasia, para proceder às altas indagações da justiça. Enfim, o processo constou de umas quatro folhas de papel mal escritas, no fim dos quais se acrescentou com mão firme a sentença de Bonifácia: ao patíbulo. 

Depoimento da 1ª Testemunha 

Estando em sua casa e indo buscar uma carga de água em Mongubeira, perguntou à  Bonifácia como estava o menino Antônio, filho de Vairão, que soubera havia sido mordido por uma cobra. Ela respondeu que estava muito doente e já estava todo roxeado pelo pescoço; e ela testemunha, dirigindo para a casa a ver o dito menino, falou com ele, que estava deitado em uma rede, num dos quartos da casa. Perguntou-lhe como estava, e ele respondeu que muito doente de dois coices que o cavalo de seu pai lhe tinha dado. Perguntou-lhe se tinha ânsia e alguma coisa no coração; respondeu-lhe que não. Ela testemunha, não viu que houvesse manchas no menino, porém que a casa estava escura. Recomendou a Bonifácia alguma coisa no sentido de ela poder vir com mais alguma pessoa fazer quarto ao menino.

Segunda Testemunha

Chegando em sua casa, vindo de Arronches, recebeu um recado de Bonifácia, pedindo-lhe que fosse à Mongubeira para ir a Fortaleza dar parte a Vairão que o filho estava mordido de uma cobra, e ali indo ter, esta lhe disse que não precisava mais, porque já tinha mandado um recado àquele. Bonifácia disse-lhe que o menino tinha sido mordido pela manhã, e após isto lhe dissera que tinha sido à tarde, informando que não estava tão doente disso como dos coices. Acrescenta que, falando ele no terreiro, o menino lhe conheceu a fala e de dentro lhe perguntou se era ele que ali estava. A testemunha como já tivesse ouvido a Bonifácia, não perguntou a ele se estava mordido. Bonifácia o chamou, quando se retirava; havia presente uma mulher de nome Ana.

Terceira Testemunha

Em 31 de janeiro, estando na casa do finado, presente Bonifácia e o menino, dizendo este que havia de contar artes que ela fazia, como fosse ter furtado uma cabra. Bonifácia levantou-se muito irada e pegou o menino pelas goelas, deu-lhe um grande arrocho, o sacudiu lá, e passou a descompô-lo. Após isso, Ana se retirou.
Indo outra vez ali buscar água, encontrou a escrava que trazia o menino para a casa, vindo dum cercado de mandioca e bananeiras, perguntando de que estava doente aquele menino, que ainda à noite estava bom. Bonifácia respondeu que tinha sido uma cobra que lhe tinha mordido e um coice de um cavalo, mas, segundo o que mostrava, nunca foi cobra nem coice de cavalo, mas uma grande surra que Bonifácia dera no menino, e pedindo este que a testemunha não saísse dali, porque estava com grande medo de Bonifácia, ela, testemunha, disse que sim, não punha dúvida, mas antes ia deixar sua água em casa. Voltou, esteve toda a noite com o menino que não estava mortal. Não gemeu, dormiu bem toda a noite. Amanhecendo o dia, Bonifácia pediu a ela, testemunha, fosse ver um tição de fogo, e voltando ela à casa com pouca demora, foi perguntando como estava o menino, e lhe respondeu aquela que ele estava morto. No mesmo instante, entrando pela casa adentro, achou o menino morto daquele momento, pois que as carnes ainda lhe tremiam e o coração batia. Assegurava que quem matou o menino foi Bonifácia.

Quarta Testemunha

Vindo ver água na terça de manhã, 2 de fevereiro, ouviu gritos de Bonifácia que acudissem, que tinha morrido o menino e, indo ali, ela informou que ele morrera de uma mordedura  de cobra. Entrando pela casa, achou-o morto, como daquele momento. Mandou tirá-lo da rede para lavá-lo, pois que estava muito sujo, e ajudando a lavá-lo, viu ter o rosto arranhado, o pescoço roxo com dois arranhões, não tendo indícios de ter morrido de coices nem de mordedura de cobra. Na ocasião em que se lavou o cadáver, reparou e viu que a morte tinha sido como que se apertando as goelas até faltar a respiração.


Bonifácia não assistiu às inquirições por ter fugido, diz uma certidão. O menino ainda não tinha 11 anos. No interrogatório único que lhe foi feito, o do júri, disse que o menino morrera de coices de um cavalo, metendo num cercado os animais do pai, que esteve três dias doente e que ela avisara aos pais. Bonifácia foi condenada à morte por enforcamento tendo por base apenas o testemunho de quatro pessoas, sem outras provas ou contestações. A sentença foi cumprida no dia 22 de setembro de 1842, no atual Passeio Público, em Fortaleza.


Extraído do livro de João Brígido
Ceará (homens e fatos)