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segunda-feira, 25 de setembro de 2023

A Primitiva Sociedade Sertaneja

 

Basicamente a sociedade do século XVIII se dividia em duas classes sociais: de um lado, os senhores proprietários de terras, grandes latifundiários detentores do gado, escravos e principalmente, de terras; do outro lado, os “cabras”, constituídos de pequenos proprietários, arrendatários, médios e pequenos comerciantes, funcionários públicos, artesãos, agregados das fazendas, índios escravizados, negros, miseráveis, em diferentes níveis de relação ou dependências com relação aos proprietários de terras.

Casa grande do Umbuzeiro, construída no primeiro quartel do século XVIII, localizada na atual cidade de Aiuaba


Apesar da posse das riquezas e das relações de poder, o modo de vida dessas elites não se se diferenciava muito do restante da população, em virtude da fragilidade econômica local, com secas periódicas, solos ruins, baixa produtividade da terra etc. A diferença entre as casas grandes de fazendeiros e as dos vaqueiros e agregados, não eram tão grandes. Caracterizavam-se pela simplicidade da arquitetura e singeleza das mobílias. Todos tinham os mesmos hábitos alimentares e vestiam roupas simples.

Com a contínua expansão da pecuária e especialmente com os lucros vindos do comércio do charque no século XVIII, tornou-se comum dos fazendeiros com mais posses terem casas nas vilas, onde passavam temporadas como o Natal, a festa da padroeira e as eleições. Contudo, o local de residência do fazendeiro e de sua família, continuava sendo a fazenda de criar gado.

Na terra imperava a violência. As famílias frequentemente mobilizavam seus recursos contra ameaças vizinhas: ataques de outros latifundiários, roubo de gado, disputa por terras, fontes de água ou por razões morais, defesa da honra ofendida. Igualmente havia violência entre as camadas mais humildes. A pobreza, a fome e a escassez de recursos. Os bens eram reduzidos à propriedade de instrumentos de trabalhos, como enxadas, machados e foices, que a dificuldade de os obter os tornavam valiosos, e eram motivo de roubos e assassinatos.

Casa grande do Sitio São Romão, em Orós, construída há mais de 200 anos, com 40 cômodos. Antiga fazenda de exploração agrícola, criação de gado e engenho de cana de açúcar 
imagem DN 


O uso corriqueiro de armas era uma constante preocupação das autoridades que tentavam limitá-las sem muito sucesso. Dessa forma, em qualquer atrito, havia a possibilidade de os envolvidos usarem suas armas e provocarem vítimas.

A autoridade do homem predominava e as mulheres e crianças viviam sob grande opressão, situação ainda mais grave para as mulheres pobres, discriminadas também pela condição social. A mulher deveria ser obediente, submissa e cuidar casa, do homem e da criação dos filhos. O adultério era a maior das afrontas ao marido, punível com derramamento de sangue da adúltera, no chamado “crime de honra”.  

No período colonial eram comuns nas camadas mais pobres da população, os concubinatos (amantes) e amasiamentos (união consensual e estável) considerados crimes pelas autoridades civis e religiosas. Para as camadas dominantes o casamento oficializado era fundamental, por motivos religiosos e manutenção das aparências. Nessas classes sociais os casamentos eram maneiras de reafirmar relações de amizade e manutenção de patrimônio, o interesse dos noivos não era levado em consideração, daí que, muitas vezes estes tinham laços de parentesco e eram prometidos desde o nascimento; ou se conheciam já como noivos, em datas próximas ao casamento.

Entre os proprietários geralmente os casamentos ocorriam entre pessoas da mesma condição social. Contudo, o concubinato poderia quebrar essa regra, pois acontecia de fazendeiros ou autoridades se sentirem atraídos de moças solteiras, pobres, que em troca, ganhavam um certo status, desde que se mantivessem discretas e não afrontasse a boa moral da sociedade. Eram as chamadas “cunhãs” ou a “teúda e manteúda”, que viam na condição de amante uma forma de obter melhores condições de sobrevivência.

Na colônia era crime grave a “alcoviteria”, ou seja, explorar a prostituição. Haviam as chamadas casas de alcouce, um prostibulo eventual, onde o alcoviteiro propiciava o encontro entre homens e mulheres. Tal atividade garantia certa renda para o alcoviteiro que arranjava os encontros, não foram poucos os homens que exploravam seus familiares e senhores que alcovitaram suas escravas.

A sociedade sertaneja caracterizava-se ainda por extremo misticismo e religiosidade, sendo sobretudo, católica, apesar de o catolicismo ter sofrido um processo de sincretismo misturando-se a símbolos religiosos africanos e indígenas.

 

Fonte:

História do Ceará, de Airton de Farias

  

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A Atuação da Câmara Municipal

As Câmaras Municipais representam o poder local das vilas no período colonial da história do Brasil. (imagem ilustrativa) 
Antigamente a Câmara Municipal exercia várias funções em Fortaleza. Cabia a Câmara, por exemplo, fazer a fiscalização das lojas, vendas e açougues da cidade. Em companhia de um almotacé (antigo oficial municipal encarregado de da fiscalização de pesos, medidas, preços e das condições de funcionamento dos estabelecimentos), os membros da câmara visitavam as casas comerciais, para detectar possíveis irregularidades. Nos registros feitos pela câmara, no ano de 1806 foi encontrado o seguinte registro: 
"nesta vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, Capitania do Siará Grande, nas casas da câmara, delas saíram em correição o juiz presidente e mais oficiais da câmara, e correndo todas as lojas, não se condenando a pessoa alguma por se achar tudo corrente, só se indo ao açougue a ver e rever os pesos, achou-se o açougue indigno de que se cortasse carne nele por se achar o cepo e tarimba com uma grande porquidade em cima da sangueira da mesma carne e da mesma forma a casa cheia da mesma porquidade, paredes e chão, e igualmente fazendo-se da cadeira em que se assenta o almotacé, igualmente tarimba de se bater carne em cima, que achava muito porca, e por estes motivos, o mesmo Senado condenou o dito contratador em 6$000 réis (seis mil réis) para as despesas do Senado.
A forma dos despachos era às vezes insolente.  João Joaquim, que requeria não se sabe o que, teve como resposta o indeferimento do pleito - "por ser falto de verdade". Tinha também Câmara, competência para impor o “Termo do Bem Viver”, o que levava os moradores a subscreverem os maiores absurdos.  


imagem: memoriaisdepiumhimg
modelos do Termo do Bom Viver - brigões, prostitutas, perturbadores da ordem, bêbados e vadios eram obrigados a subscrever o documento.  
O “Termo do Bem Viver” era um documento imposto a pessoas de conduta pouco recomendáveis, aos que causavam distúrbios ou que perturbassem a ordem estabelecida. Depois que a pessoa assinava este termo, ela ficava obrigada perante a justiça a não criar mais conflito. Se desrespeitasse, era punida de acordo com a lei vigente.
O professor régio da vila se indispôs com os vereadores, quase todos portugueses, por lhe terem recusado atestado para receber seus vencimentos. A câmara o fez assinar o seguinte termo: "Aos 267 do mês de novembro de 1802, em vereação da Câmara e Senado desta Vila, mandou o presidente dela e mais vereadores, por ordem dos ilustríssimos senhores governadores interinos desta Capitania, chamar à sua presença o pardo João da Silva Tavares, mestre de Gramática Latina desta Vila, para assinar termo na presença de todos de viver daqui em diante com a paz e quietação, conforme as leis do reino e costumes de que deve fazer profissão. E sendo vindo o dito João da Silva Tavares, pelo dito Senado lhe foi dito, que para ocorrer ao sossego e tranquilidade pública perturbada pela língua difamadora, libertinagem e péssimos costumes, movendo ainda dele João da Silva Tavares, o justo castigo que por eles merecia, o advertiram de não continuar mais no exercício de mexeriqueiro, enredador e perturbador do público, magistrados e repúblicos, pondo fim à dissolução de sua vida e assinando termo de viver como bom vassalo de sua Alteza Real e bom vizinho desta Vila, sob pena, se o contrário praticar, de ser na conformidade da lei exterminado para os lugares d'África, além das mais penas, com que seus delitos agravassem a primeira; o que sendo ouvido pelo dito João da Silva Tavares prometeu mudar de conduta debaixo da dita pena e assinou com o mesmo Senado este termo para a todo tempo constar da sua emenda ou recalcitração, conforme o disposto pelo Regimento do mesmo Senado e leis do Reino."

 primeiro mapa da Vila de Fortaleza
A esse termo seguiu-se uma longa contestação entre a Câmara e o professor. A Câmara negou-lhe ainda atestados e ele agravou para o príncipe. Na concessão destes recursos, a Câmara, assistida por um assessor que tomou para a causa, prendeu o agravante porque, estando o termo de agravo já lavrado e em meio, o mesmo professor entrou com palavras impetuosas, dizendo ser o escrivão suspeito e por dizer que o insultavam com o tratamento de pardo. Tavares ainda andou muito tempo em conflito com os vereadores, até que finalmente chegaram a um consenso.
Também julgava a respeito de crime de injúria, contratando um assessor a quem pagava de 640 a 1$600 réis por cada conselho. Promovia a aposentadoria dos magistrados, designando a casa que deviam ocupar e fazendo-lhes a despesa que regulava em torno de $600 réis por mês.  O missionário frei Vidal teve igual favor quando veio ao Ceará. Em dezembro de 1790 a Câmara designou para residência do frade a casa do alfaiate Salvador, na Rua do Quartel.
Tratava da abertura e conservação dos caminhos, e obrigava os camponeses a plantar mandioca e cereais diversos, sob pena de multa e cadeia.
Uma postura de março de 1803 impunha a cada lavrador a obrigação de apresentar anualmente em Câmara, 30 cabeças de pássaros de bico redondo. Esta perseguição que era feita em todas as Câmaras da Capitania, se referia a papagaios, periquitos e maracanãs.
A Câmara promovia manifestações de regozijo ou de pesar, graduando-se pela sensibilidade do governador. Em março de 1812, por ocasião do nascimento de um filho do infante D. Pedro Carlos, comunicado ao governador por meio de ofício, expediu editais para que a população o festejasse com luminárias, três noites consecutivas.
Em abril de 1816, sendo-lhe igualmente comunicado o decreto que deu ao Brasil o título de reino, em testemunho público da reconhecida gratidão pelo privilégio, ordenou que, em ação de graças, se expusesse o Santíssimo Sacramento na matriz da Vila no dia 12 de maio e se oferecesse a Deus o sacrifício de uma missa cantada, em que se pedisse a conservação do príncipe regente e sua família.


Quando foi comunicada notícia da morte de D. Maria I, em 20 de março de 1816, mandou que todo o povo da Vila e distrito vestisse luto rigoroso por seis meses e aliviado por um ano. (D. Maria I faleceu no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1808). Atendendo a que a pobreza e os escravos não podiam satisfazer rigorosamente a esta exigência, permitiu que homens trouxessem nos chapéus e as mulheres na cabeça, qualquer retalho preto. Os que se recusassem teriam 30 dias de cadeia para cada vez que fossem encontrados sem distintivo.
Nas audiências gerais dos corregedores, solenidade a que comparecia todo o mundo oficial, vinha à Câmara em corporação ouvir os provimentos e advertências do magistrado. Lavrava-se de tudo um termo, que era assinado por ela e pelos repúblicos, como se encontra nos manuscritos do tempo. 
Extraído do livro
Ceará (homens e fatos), de João Brígido      

sábado, 21 de setembro de 2013

A Colonização dos Inhamuns

Capela de São Pedro em Parambu, anos 50

A história conta que a colonização do Ceará começou pelo litoral, entre os atuais limites de Fortaleza e de Aracati. O povoamento, porém, teve início no Cariri, na segunda metade do Século XVII, ampliando-se em direção aos Inhamuns já nos primórdios do Século XVIII. "O povoamento do Ceará começou pelo Cariri, em Municípios mais próximos da Capitania de Pernambuco (a mais importante daquela época) e pelo sertão dos Inhamuns, onde a pecuária encontrou ótimas condições para se expandir, desde as cabeceiras dos rios Trici e Carrapateiras, formadores do Rio Jaguaribe, até depois dos rios do Jucá e Umbuzeiro, também seus afluentes", destaca o memorialista Pedro Rocha Jucá.
Graças às fartas chuvas do inverno, à criação de gado consolidou a ocupação econômica e social dos Inhamuns, quase simultaneamente com o fértil vale do Cariri, onde já prosperavam os engenhos de rapadura e as casas de farinha que deram ao Crato a liderança política do Ceará colonial.


Praça da matriz em Parambu - anos 50

Segundo os historiadores, os coronéis Francisco Alves Feitosa e Lourenço Alves Feitosa chegaram ao sertão dos Inhamuns por volta de 1710 e ali estruturam a maior comunidade rural da Capitania do Ceará. O comissário Lourenço Alves Feitosa chegou a ter 22 sesmarias e com o seu irmão Francisco Alves Feitosa dominaram uma área de aproximadamente 30.000 quilômetros quadrados. 
Nessas propriedades floresceu o historicamente conhecido "Clã dos Inhamuns", uma das maiores parentelas da História do Ceará em todos os tempos. O coronel Francisco Alves Feitosa deixou considerável descendência, tornando-se o Patriarca da Família Feitosa nos Inhamuns.
O coronel Francisco Alves Feitosa fundou a sua primeira fazenda, a fazenda Barra do Jucá, na margem direita do Rio Jaguaribe, próximo a Arneiroz. O coronel Francisco Alves Feitosa viveu os seus últimos dias na fazenda Cococi, onde inaugurou uma capela em 1748, seguindo o modelo da igreja de Feitosa, em Portugal, que tem um altar lateral junto ao arco-mor.
Predestinada à pecuária, a região dos Inhamuns foi o segundo polo econômico da Capitania do Ceará, depois dos êxitos alcançados pela agricultura do fértil Cariri. Na "Revista do Instituto do Ceará", de 1907, consta que "o terreno de Inhamuns é mais seco e pedregoso, composto de pequenas serras e alquebradas, e que, contudo, não deixa de produzir abundantes pastagens, sendo os seus gados os mais propícios para fazerem longas viagens, por isto transportado quase sempre para a Capitania da Bahia".
A palavra Inhamuns deriva de Anhamum, que em tupi significa "Irmão (Mu) do Gênio Mau da Floresta (Anhan, de Anhaga)". Anhamun foi o principal cacique dos aguerridos índios Jucás. A história deles, conforme disse o pesquisador Carlos Studart Filho, foi "violenta e trágica". Vale citar que "Anhamum" é o título de um dos mais emocionantes capítulos do romance "O Sertanejo", de José de Alencar.
Toponímica
O sobrenome Feitosa é classificado como sendo de origem toponímica, isto é, pertence ao grupo de sobrenomes que deriva do nome do lugar onde nasceu ou possuía terras o progenitor da família. Deriva do lugar denominado Feitosa e localizado na Freguesia do Conselho e Comarca de Ponte do Lima, diocese de Braga, Porto, Portugal.
A família Feitosa era a mais importante e a mais numerosa dos Inhamuns desde o início do povoamento da região, onde se projetou graças à criação de gado, como a maior expressão econômica e política.

Cococi, a cidade fantasma dos Inhamuns 



"Lá estão as nossas raízes e também as de outras famílias aqui da região". As palavras do motorista Vital Feitosa denotam as hipóteses de historiadores, pesquisadores e curiosos sobre as origens da colonização no Estado pelos Inhamuns, iniciadas na antiga cidade de Parambu, e também que o processo de colonização da região dos Inhamuns passou por Cococi.
Descendente de uma das famílias que povoou a região, Vital se engaja junto com outros membros dessa nova geração para preservar as tradições locais, especialmente ligadas à "cidade fantasma". Extinta em 1968, Cococi começou como vila, passou a ser distrito de Parambu e depois foi emancipada após a instalação da família Feitosa naquela região.



A iniciativa e a boa vontade de Vital e outros jovens descendentes do "clã" que fundou Cococi ainda no século XVIII em preservar as tradições do lugar são relevantes e concretas, afinal, anualmente, muitos deles e a população vêm comemorar Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cococi. No entanto, ao se visitar a antiga cidade, composta hoje somente por prédios em ruínas, mato invadindo os casarões abandonados e apenas duas casas de pé e habitadas, afora a Igreja, construída por volta de 1740, instantaneamente aflora um sentimento maior de preservação e conservação. Merece, portanto, atenções de órgãos que gerenciam o patrimônio histórico para que isso ocorra.

Escola Eufrásio Alves Feitosa

Além do prédio da Igreja, outra construção se destaca na paisagem antiga e deteriorada da "cidade fantasma": a Escola Eufrásio Alves Feitosa. O professor Leonardo Alves ensina de forma multisserial aos 14 alunos de diversas faixas etárias que são matriculados na unidade. A distância também é o grande desafio dos estudantes, devido ao tamanho do distrito. Boa parte deles saí de casa às 10 horas da manhã para assistir às aulas a partir das 13 horas. 
A distância, o isolamento, o silêncio e a bela arquitetura dos prédios e casarões chamam a atenção. Chegar ali após a distância, a abertura de inúmeras cancelas, paisagem desértica, dificuldade de acesso e curiosidade faz uma estranha sensação de alegria brotar no coração. A cidade de Cococi possuiu apenas dois prefeitos, o Major Feitosa e Leandro Custódio, ambos da mesma família. 



No recenseamento geral de 1950, o atual município de Parambu e seu distrito Cococi, eram ambos distritos de Tauá, do qual foram posteriormente desmembrados e suas populações totalizavam 15.458 habitantes. Já a projeção feita para 1° de julho de 1957, estimava uma população de 21.313 habitantes, sendo 17.960 em Parambu e 3.353 habitantes em Cococi. 92,54% dessa população residia na área rural. 


Construída em 1740 a igreja é o único imóvel realmente preservado em Cococi       

A história popular conta que o Major Feitosa, no seu segundo mandato (terceiro e último do Município), ao receber verbas para investimento teria utilizado indevidamente o dinheiro para compra de gado. Então surgiram os desentendimentos entre a própria família. O fato repercutiu no Estado e União. E a Ditadura Militar teria decidido extinguir o Município. Revoltados, a família Feitosa e seus moradores teriam abandonado a cidade, situação que permanece até os dias atuais.
Lendas e histórias de fantasmas e aparições permeiam o lugar. Em Parambu, quando se fala em Cococi, há admiração e um certo receio. A frase "você vai lá mesmo?" é expressa com frequência pelas pessoas nos órgãos, mercado e feiras.
O temor se explica pela distância e dificuldade de acesso, mas também pelas histórias. "Há muitas lendas e relatos de aparições no cemitério e até explosões em túmulos, mas nada devidamente comprovado. Os moradores da região comentam sobre a lenda da serpente", comenta Albetiza Noronha, do Museu de Parambu.


Foto de Thiago dos Passos disponível em http://www.panoramio.com/ 

Para a moradora Clenilda Lô, os fantasmas não passam de comentários sem fundamento. "As lendas e os fantasmas não existem. Moro aqui e nunca vi nada", garante.
O professor Leonardo, que mora há 15km de Cococi e vem todos os dias de motocicleta, também assegura que não existem fantasmas no lugar. Mas já teve medo. "Tinha receio de vir aqui no princípio. Depois, acostumei. Tudo isso são apenas comentários", acredita. E até arrisca uma explicação científica para a explosão do túmulo, a qual o imaginário popular atribui a fenômenos sobrenaturais. "Pesquisadores vêm aqui de vez em quando, desde esse acontecimento, e evidenciaram a existência de minérios de ferro, cobre e gás natural".
A "cidade fantasma" já foi tema de reportagem de várias redes de televisão e jornais e também serviu como locação de filmes, o que contribui para atrair curiosos.

fonte: 
Diário do Nordeste
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros
fotos de Cococi: Diário do Nordeste

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Das Vilas às Cidades e a Emergência de Fortaleza

Fortaleza, Rua Floriano Peixoto, início do séc. XX (arquivo Nirez)

A passagem de Fortaleza de pequena vila sem importância funcional, desprovida de um porto equipado e localizada em um sítio desfavorável à condição de grande cidade com extenso espaço regional e expressivo papel de comando se confirma na extrapolação dos limites estaduais favorecendo a conquista de imensa área de influência  e mesmo a hinterlândia do seu porto que, na condição de importador, distribui mercadorias para toda a região. Fortaleza, hoje de porte metropolitano, guarda muito do seu passado, com vestígios de cidade provinciana. Entretanto, não é negligenciável a intensa e acirrada competição urbana que ela estabelece com tradicionais metrópoles brasileiras, especialmente as do Norte e Nordeste.

 centro de Sobral (acervo IBGE data não especificada)

Se Fortaleza foi aos poucos conquistando essa posição que ocupa hoje no sistema urbano brasileiro, no interior, por sua vez, apenas Sobral e o aglomerado urbano de Crato – Juazeiro do Norte se destacavam como centros comerciais e industriais. Como já foi visto anteriormente,  criação de gado foi marcante no processo de povoamento e ocupação do espaço cearense. A predominância da criação extensiva impediu em parte, o surgimento e o crescimento de cidades, haja vista o papel da atividade pecuária na dispersão da população.

 Igreja Matriz de Aquiraz (foto do blog)

Foi Aquiraz a primeira vila criada no Ceará. Hoje esta é cidade–sede do município com o mesmo nome, contido na Região Metropolitana de Fortaleza, que só foi elevada à categoria de vila em 1726. As demais vilas criadas no Estado, ainda no século XVIII foram: Icó (1738), Aracati (1748), Caucaia (1759), Crato (1764), Baturité (1764), Sobral (1778), Granja (1776), Quixeramobim (1789) e Guaraciaba do Norte (1796). 

 Baturité, em data não especificada (arquivo Nirez)

No início do século XIX começaram as primeiras atividades de exportação pelo Ceará, como capitania emancipada (desmembrada em 1799 da Capitania de Pernambuco), e em 1826, a Vila de Fortaleza chega à condição de cidade.
Após Fortaleza foram elevadas à condição de cidade, ainda no século XIX, somente as vilas de Sobral (1841), Icó e Aracati (1842), Crato (1843) Quixeramobim (1856) e Baturité (1858). Das cidades cearenses, aquelas originárias de vilas criadas no século XVIII, ainda hoje se constituem, com raras exceções, as mais importantes do estado. Poucas mudanças ocorreram na hierarquia urbana cearense, se for considerado o tempo transcorrido entre a fundação da primeira vila (Aquiraz-1713) e o quadro atual da realidade urbana estadual.  

 Cidade de Icó, anos 1910/20

Icó e Aracati assumiram importante papel enquanto centros urbanos no interior. Aracati, antiga São José do Porto dos Barcos, mais tarde Santa Cruz de Aracati, expandiu-se pouco a pouco, chegando a estender sua influência sobre todo o território do Ceará. Sua condição de porto de entrada e saída de mercadorias, principalmente carne-de-sol, muito contribuiu para o seu crescimento. O advento das charqueadas no Ceará influenciou a pujança de Aracati, que se tornou o mais movimentado e rico centro da capitania do Ceará.  Em face dessa atividade, Aracati tornou-se o grande centro urbano cearense do passado. Hoje sua influência restringe-se ao litoral, nas imediações da foz do Jaguaribe. 


Praia de Canoa Quebrada, em Aracati 

O turismo enquanto atividade econômica intensifica o uso do potencial paisagístico do litoral do município e tira vantagens da localização da cidade nas imediações da foz do rio. A combinação de turismo e lazer associados à exploração da conjunção de águas doces e salgadas do mar e do rio Jaguaribe favorece o desenvolvimento do setor hoteleiro, inclusive aquele voltado aos esportes náuticos. 

extraído do artigo José Borzachiello da Silva
A Cidade Contemporânea no Ceará
publicado no livro Uma Nova História do Ceará

 

terça-feira, 14 de maio de 2013

A Ocupação do Ceará



O historiador Capistrano de Abreu afirmava que a ocupação do Nordeste brasileiro teria ocorrido seguindo duas grandes rotas: a do sertão de dentro – dominada pelos baianos, que teriam sido responsáveis pela ocupação do Piauí e do Sul do Ceará, partindo do rio São Francisco; e a do sertão de fora- dominada pelos pernambucanos, que se deslocando pela faixa mais próxima do litoral, seguiram pela Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará em direção ao Maranhão. No Ceará, as duas correntes de interiorização se confluem. 

O Mapa Y-59 feito pelos holandeses, descreve a costa cearense, com o título "A costa do Brasil entre Jabarana (Ponta Grossa) até a Barra do Ceará (foto do Diário do Nordeste) 

Até então a presença do invasor europeu na Capitania do Siará estava restrita ao forte de Nossa Senhora da Assunção, no litoral, onde uma guarnição militar composta por brancos, negros e mestiços provava simbolicamente o domínio português em companhia de índios aliados. Foi exatamente para os ocupantes do forte que foram dadas as primeiras sesmarias na foz dos rios Pacoti, Choró e Piranji (mais tarde chamado de Rio Ceará). A seguir foram doadas sesmarias para os colonos vindos de capitanias vizinhas – Pernambuco, Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte.  Do litoral os conquistadores passaram a ocupar definitivamente o interior, apossando-se, sobretudo, das terras próximas ao curso dos rios de maior volume.  Concedendo sesmarias, o governo português estimulava a ocupação dos sertões, uma vez que estaria garantindo não só o seu domínio sobre as terras, mas também a arrecadação, com a cobrança de impostos sobre o gado, o couro, a carne tudo o mais que pudesse ser produzido na região. 


No período compreendido entre  1679 a 1699, num espaço de 40 anos, foram doadas 261 sesmarias, numa média de 13 cartas por ano. No período seguinte, entre 1700 e 1740 foram doadas 1700 sesmarias, média de 42 sesmarias por ano. Foi nesse período que o conflito entre indígenas e fazendeiros tornou-se mais agudo.  No entanto há uma fase entre 1700-1720, em que o conflito deu-se de forma mais aberta. Nesses anos foram doadas 923 cartas, dando uma média de 46 por ano.
No período 1679-1699, constata-se que a maioria dos solicitantes eram moradores em outras capitanias (55,3%). No entanto, no segundo período 1700-1740 este percentual caiu para apenas 17%.  Cabe destacar que no primeiro período, um percentual significativo de solicitantes não ocupou suas datas. No Pacoti, por exemplo, Manuel Cabral de Melo, em 3 de setembro de 1739, requer por prescrição a data que foram concedida, 58 anos antes, a Feliciano de A. Bulhões e sua mulher Domingas do Rego. 

 Barra do Rio Ceará

Um dado importante a ser observado é o número de prescrições. No período inicial, de 20 anos, foram apenas quatro prescrições, enquanto que entre 1701 e 1710, em apenas dez anos ocorreram 31 prescrições. Outro dado para ser ressaltado é a relação entre a queda do absenteísmo e as prescrições no período em que se está consolidando a ocupação da capitania. A partir de 1701 teve início uma queda nos índices de absenteísmo que em 1720 atingiu patamares insignificantes, quando já estava consolidada a ocupação da capitania.
Constata-se tendência inversa em relação as prescrições até 1730, que teve um movimento crescente para em seguida declinar, ficando demonstrado que uma parcela significativa das sesmarias que haviam sido solicitadas no período de 1679 a 1699, não foram ocupadas. A partir de 1740, o número de prescrições e absenteísmo praticamente desapareceram ou atingiram patamares irrelevantes.

fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias
Mundos em Confronto: povos nativos e europeus na disputa pelo território, 
de Francisco José Pinheiro.