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sábado, 29 de setembro de 2018

A Arquitetura dos Sertões

Icó - Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Monte

A luta dos povoadores no interior contra as várias nações indígenas, foi homérica. Trazidos pela esperança de encontrar campos de boas pastagens para a criação de gado, pois a região não oferecia as tentações dos latifúndios açucareiros, nem do ouro ou diamantes. Esses povoadores vinham da Paraíba, Pernambuco e de Alagoas, pelo sul, espraiando-se nas ribeiras ou vales dos rios, rumo da costa. 

Assim, o povoamento se fez do interior para o litoral. Fundaram as primeiras povoações que mais tarde, se tornariam vilas e cidades: Crato, Lavras da Mangabeira, Cachoeira, Icó. Ocuparam a região do Banabuiú, do Quixeramobim, e do Jaguaribe pelo curso do qual vieram até Aracati, quase na foz. Dali se espalharam para outros pontos do território.

O gado marchava à frente deles. Tomavam conta das terras e levantavam a casa grande de taipa da fazenda. Cercavam-se de agregados e vaqueiros, geralmente índios ou mestiços. Tinham poucos escravos, os necessários aos serviços domésticos. Dominavam como verdadeiros senhores feudais e, às vezes guerreavam entre si. Assim, iam se apoderando dos sertões imensos. E esses desbravadores escreveram o chamado Ciclo do Gado.

Em todos os ciclos da história brasileira, é a religião quem inspira e norteia a arte, pois é nas igrejas, capelas e conventos que ela se sublima. Os solares, os edifícios civis ou militares, sempre ficam em segundo plano. O Ciclo do Açúcar povoa de mosteiros e templos, a Bahia e Pernambuco. O Ciclo do Ouro coroa os montes de Minas Gerais com as capelas e igrejas, recheadas de talhas douradas. A arte do Ciclo do Gado é a mais humilde, toda a sua arquitetura se faz, pela falta da pedra apropriada para a obra, em simples alvenaria, na qual se executa uma ornamentação própria. Nem esculturas, nem cinzeladuras, nem obras de talha, nem ouro, nem mármore e nem azulejos. Os artistas anônimos obtêm com linhas, na combinação ingênua das curvas e dos ornatos rectilíneos, os efeitos decorativos.

Até agora, pouco se pesquisou sobre essa arte escondida, filha da pobreza dos sertões nordestinos e por isso, talvez, mais cheia de sentimento e de humanidade. Pouco se sabe ou mesmo nada se sabe sobre os seus autores. No entanto, onde ainda não foram desfiguradas, as suas construções de pedra e cal, ornamentadas com volutas e arrecadas de simples reboco, se mostram como documento vivo, de um passado absolutamente brasileiro, sem nenhuma influência do aventurismo interesseiro do diamante ou da produção de açúcar, que atraiu o holandês às nossas plagas e quase deixa em suas mãos heréticas, uma bela parte do velho Brasil. 

Com relação aos templos do sertão, segundo o professor Liberal de Castro, em boa parte, as igrejas paroquiais e outras igrejas de porte, iniciadas no século XVIII conheceram posterior conclusão. Sempre edificadas de modo parcelado, geralmente tinham como núcleo gerador pequenas capelas de fazendas ou de missões, ampliadas por sucessivos acréscimos. Essas adições tendiam a busca de um traço oitocentista, conseguida com uma planta final de desenho retangular, na qual a pequena capela primitiva, absorvida pelo conjunto, se transformava na capela mor da igreja ampliada.
Nesse processo de seguidos acréscimos, são raras as exceções, identificando-se como obras integralmente executadas no século XVIII, apenas a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Viçosa do Ceará (iniciada em 1695), e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala (primeira metade do século XVIII).

A Igreja de Almofala, localizado no norte do Estado, erguida perto do mar por uma irmandade local, encontra-se atualmente descontextualizada de sua ambientação original. Permaneceu quarenta anos soterrada pelas dunas, quando ressurgiu por força dos mesmos ventos que a haviam sepultado. Ao que se supõe, obedeceu a projeto de feição barroca, vindo da Bahia, com torre filiada às do convento lusitano de Mafra. 


Igreja de Nossa Senhora da Conceição de  Almofala 

A Igreja de Almofala foi concluída em 1712, levantada pelas antigas missões jesuítas sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição.

Na primitiva igreja da missão Jesuítica na Ibiapaba, praticamente refeita no século XIX, restaram talvez somente uma das torres e a capela-mor, em cujo forro subsiste um magnífico conjunto de doze painéis pintados com alegorias barrocas, dedicados às virtudes capitais e cardeais e aos sentidos humanos.


Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Viçosa do Ceará

A mais antiga do Estado, construída pelos jesuítas, entre 1695 e 1700. Na época, os jesuítas catequizavam os índios Tabajaras e, para atraí-los à fé católica, esculpiram a imagem de Nossa Senhora da Assunção à imagem e semelhança das mulheres daquela etnia. Ao longo dos anos, a igreja – em estilo barroco e fachada eclética – foi sendo reformada e descaracterizada, perdeu o altar do coral, e houve a inclusão de cerâmicas em seus interior e pedras na fachada.

Muitas igrejas, embora guardassem nas fachadas traços de um barroco sertanejo, muitas tiveram seus espaços alterados por introdução de arcaria interna, por influência do plano matriz da capital. Filiam-se a essas expressões formais mistas, a Sé de Sobral, de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara, a matriz da Expectação, em Icó, a Igreja do Rosário em Aracati, a matriz do Rosário, em Tauá, a de São José, na Granja e em Aquiraz, da Palma, em Baturité, de Santo Antônio, em Quixeramobim. Muitas dessas igrejas cearenses, mostram-se prejudicadas pelo desenho oitocentistas das torres, quase sempre piramidais, por vezes com perfis desproporcionais e até grosseiros. São elas:
    
Aquiraz – Igreja matriz de São José de Ribamar 

foto de Muhammad Said


Construída no século XVIII, por volta de 1713, é a segunda igreja mais antiga do Ceará. O templo apresenta ecletismo no estilo, predominando os traços barrocos e neoclássicos, frutos das várias modificações que passou ao longo dos anos. Alguns detalhes, ainda originais, impressionam por sua beleza e requinte. São eles, dentre outros; As três grandes portas almofadadas da entrada principal, o púlpito de madeira lavrada e os painéis pintados no forro da capela-mor, os quais provavelmente foram obras de índios catequizados. Destaca-se no nicho central do altar-mor a imagem do padroeiro São José de Ribamar, calçado de botas, relembrando o bandeirante audaz. O templo tem a planta em forma de retângulo, a coberta em telha canal com madeiramento aparente, sem forro na nave. Teve sua coberta e madeiramento recuperados em 1980, frente ao precário estado em que se encontravam. Apresenta em elevação, duas torres quadrangulares encimadas por pirâmides de base octogonal. Seu desenho é muito simples, mostrando “uma herança plástica das primeiras capelas nacionais de origem jesuítica, espalhadas por todo o Brasil e que teriam como provável fonte nordestina, a Igreja da Graça em Olinda.

Sobral – Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara
Igreja da Sé

Construção iniciada em 1746. Esta igreja, embora simbolicamente muito importante para a região, não teve uma construção muito sólida, pois com apenas 14 anos de construída já ameaçava ruir. Em 1762, por razões de segurança, foi demolida a capela mor e no ano de 1778 foi levantada ao seu lado a nova matriz que perdura até os dias atuais. À época da construção, Sobral já era uma próspera vila, e a igreja ficou conhecida como a Matriz da Caiçara. Sua história se funde com o povoamento de Sobral. A Matriz mistura elementos do estilo tardo-barroca (ou rococó) com acréscimos decorativos como movimento ondulatório nas cornijas, os frontões altos, tratamentos em relevos esculpidos e coroagem com bulbosos das torres. No pórtico frontispicial a construção tem acabamentos com acervos de pedraria em lioz, vindos de Portugal. Segundo Liberal de Castro, a Sé de Sobral conta com o frontispício mais elegante do Ceará. 

Icó - Igreja de Nossa Senhora da Expectação


O templo é a construção mais antiga de Icó, datada de 1709. Em 1728 passou a ser chamada de Nossa Senhora da Expectação do Icó, e mais tarde, apenas Igreja de Nossa Senhora da Expectação. Nas igrejas cearenses há raríssimos casos de sacristias perpendiculares ao eixo da igreja, como ocorre na Matriz da Expectação do Icó. O espaço interno sofreu alterações, como a abertura de arcadas para os corredores laterais. A igreja ainda conserva o sacrário original em talha, a prataria e imagens antigas. O retábulo original, entalhado por António Corrêa d’Araújo, natural da freguesia de São Miguel de Seide, já não mais existe.

Aracati – Igreja do Rosário


A Igreja de Nossa senhora do Rosário dos Brancos é uma construção dos primeiros anos do século XVIII, concluída na segunda metade do século XIX.  Segundo o livro da Irmandade do Santíssimo Sacramento, uma capela deu origem à igreja. Era coberta de palha, tinha a fachada de tijolos e as paredes laterais de taipa. Em sua estrutura física encontra-se uma porta central ladeada por duas outras entalhadas a ponta de faca e com almofadas em relevo. Na fachada podem-se observar os sinos, o relógio carrilhão e o registro da data de sua edificação escrita em romanos o ano de 1785. Seu interior é rico em obras de talha e imagens.  A exemplo da grande maioria das igrejas cearenses, a igreja de Nossa Senhora do Rosário se insere na lógica da organização espacial dos templos religiosos brasileiros com herança lusitana. A planta retangular apresenta nave central com corredores laterais que dão acesso à sacristia e ao consistório. Ao contrário da maioria das igrejas cearenses, a planta da Matriz do Aracati não foi alterada com a introdução de aberturas em arcos nas paredes dos corredores laterais que dão para a nave central. Como outras igrejas do Ceará, possui uma única torre, decorrente da falta de meios para a construção da segunda. A fachada é alinhada por cunhais e as três portadas marcadas com um trabalho de arenito baiano. Um frontão triangular com linhas curvas e volutas arremata o corpo principal da igreja. 


Tauá – Igreja do Rosário

foto do site férias tur - fotógrafo Aragão 


Situada à margem esquerda do rio Trici, a Igreja matriz de N. Sra. Do Rosário foi construída em 1762 e, em volta dela, cresceu a cidade de Tauá. Situada em terreno mais elevado, ainda se destaca na paisagem urbana, como ponto focal da Praça Dr. Alberto Feitosa lima. De desenho simples, com poucos ornamentos, a edificação possui planta retangular, nave principal e naves laterais ligadas à capela-mor por arcos plenos, possivelmente acrescidas em época posterior. Separando a nave principal das duas laterais, grossas paredes de 1,00m de espessura, formam quatro arcos plenos com detalhes em alvenaria de cada lado. Os altares são trabalhados em alvenaria e sobre a nave principal, existe uma abóbada em pedra bruta, característica marcante da construção, que a distingue das demais da região. A imagem da padroeira, no altar principal, foi importada de Portugal ainda na época da colônia. O forro do altar é executado em madeira, pintado de azul com detalhes na cor prata. A igreja não possui coro, destacando-se a abóbada da nave como significativo elemento arquitetônico do templo. 

Granja – Igreja de São José


foto Wikimedia Commons

A primitiva matriz de Macaboqueira (atual Granja) foi inaugurada no dia 8 de setembro de 1759, em louvor a São José. No dia seguinte foi criada e instalada a Confraria ou Irmandade do Santíssimo Sacramento. Ao longo dos anos passou  por várias reformas e ampliações. No ano de 1879, aproveitando a mão de obra de milhares de retirantes que se refugiaram em Granja, na grande seca de 1877/79, o templo passou pela maior das reformas: foram abertas 6 arcadas do corpo da igreja, e mais duas portas da frente, por existir somente uma, a principal; foram feitos os dois corredores, as tribunas soalhadas, as grades, soalhos e forrado o corpo da igreja; limparam e montaram todo edifício; colocaram grades de ferro e vidraças nas janelas do coro, reformaram o frontispício, colocaram nele cruz de ferro, relógio e construíram o patamar, dando tudo por concluído no princípio de 1880, quando terminou a terrível seca. 

Baturité – Igreja da Palma


O templo foi construído em meados do século XVIII, quando da fundação da antiga Vila Real de Monte Mor o Novo d’América, atual cidade de Baturité. Com arquitetura em estilo bizantino gótico com predominação no barroco, a igreja venera a padroeira Nossa Senhora da Palma, desde a criação da freguesia a 8 de maio de 1758. Em 1824, durante a adesão de Baturité ao movimento revolucionário conhecido por Confederação do Equador, a Matriz virou barricada, por ser o maior prédio do lugar. Um dos chefes do movimento, Tristão Gonçalves enviou 180 barris de pólvora, 220 carros de granadeiros, 3 barris de chumbo, um quintal de ferro e uma roda de aço, ficando toda essa carga guardada na Igreja Matriz, em cuja porta estavam sentinelas armadas. A igreja dispõe de duas naves, sete altares, três sinos e um grande relógio público. Comporta até 3 mil pessoas. No seu interior há ilustrações de cenas bíblicas em pintura a óleo, em estilo clássico, executadas por artistas da região. Hoje, a Matriz, encontra-se bastante modificada no seu interior. As reformas não respeitaram suas características originais, mas a população orgulha-se de seu templo bicentenário. A edificação encontra-se em lugar privilegiado, no centro da cidade, na  Praça da Matriz.

Quixeramobim – Igreja de Santo Antônio

foto Flick - Consuelo Lima

Foi fundada em 1755, pelo portuense capitão Antônio Dias Ferreira, que situando naquelas terras sertanejas, sua Fazenda de Santo Antônio do Boqueirão, logo tratou de erigir nas proximidades da sua casa, em 1730, uma pequena capela sob invocação de Santo Antônio de Lisboa ou Pádua. Vinte e cinco anos mais tarde, a capelinha arruinada era substituída pela igreja que seria a matriz da futura cidade, construída pelo mesmo Antônio Dias Ferreira, homem devoto, solteiro e dono de grande fortuna. Mas não teve o fundador da fazenda Boqueirão, e da Igreja de Santo Antônio, a ventura de ver esse templo elevado à categoria de matriz, a 15 de novembro de 1755. Falecera um ano antes, deixando as obras por terminar. Estas somente vieram a termo no ano de 1770, quando já criada a freguesia sob a direção do capitão João Francisco Vieira. Com suas duas torres e o frontispício neoclássico, a atual matriz de Quixeramobim conserva a estrutura fundamental da construção barroca do século XVIII, quando tinha uma única torre e o seu frontão ascendia em curvas simétricas. Mudou bastante sua forma; mas a alma do templo quase três vezes centenário continuou a mesma. 


A Capitania do Ceará não conheceu conventos ou instalações similares, que representaram centros valiosos de difusão da arte barroca no Brasil. O fato, aliado à pobreza da terra, justifica a ausência de obras realmente barrocas no Ceará. A Companhia de Jesus, a única ordem religiosa a se estabelecer arquitetonicamente no Ceará, permaneceu por tempo relativamente curto, com ação reduzida a conjunto missioneiros marcados por arquitetura efêmera. Como obra de vulto dos jesuítas, restaram apenas a já mencionada Igreja da Senhora de Assunção, em Viçosa do Ceará, praticamente refeita no século XIX, e as ruínas de um hospício em Aquiraz, fundado em 1717 e demolido em 1854, por ordem dos bispos de Olinda.   


Fontes:
Arquitetura no Ceará, o século XIX e algumas antecedências de José Liberal de Castro – Revista do Instituto do Ceará – 2014
À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso - Imprensa Universitária do Ceará - 1962
fotos IPHAN e IBGE 



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Icó - A 3a. Vila do Ceará


No limiar do século XVIII, entre 1700 e 1710, eram profundas as divergências entre colonos e indígenas, principalmente às margens das ribeiras e dos grandes rios do Ceará colonial. Como era natural, os nativos se opunham aos desbravadores, fazendo-lhes guerra constante.
Das proximidades da Serra do Pereiro aos vastos sertões do Cedro se estende vasta planície, fértil e apropriada à agricultura, dada a excelência de suas terras. Formada de camadas aluvionais, amplia-se em pleno sertão, numa extensão de 20 quilômetros por 10 de largura. Este foi o local escolhido pelo então capitão-mor Gabriel da Silva Lago, para erguer uma paliçada que defenderia os moradores da ribeira do Rio salgado e que mais tarde seria transformada em Arraial Novo e, posteriormente, depois de lutas memoráveis, na cidade de Icó, sede do município e centro comercial de grande importância.

 Largo do Theberg - 1930

O padre João Matos Serra, ligado à história da colonização cearense, foi uma das figuras exponenciais na formação histórica de Icó, por isso que, como prefeito das Missões, coube-lhe a tarefa de pacificar os ânimos e restabelecer  a  concórdia entre sesmeiros, colonizadores, agregados e os indígenas, todos sob a proteção de Nossa Senhora do Ó, padroeira do pequeno arraial.
Das lutas que celebrizaram a vasta planície, cumpre ressaltar a dos Montes e Feitosas, famílias numerosas que desfrutavam de imenso prestígio na época, e que dominaram a ferro e a fogo vastas regiões.  Os Montes residiam nas cercanias do Icó e os Feitosas faziam moradia nos sertões dos Inhamuns. Numa das lutas registradas nas proximidades de Icó, o coronel Francisco Monte perdeu uma filha. A esposa do coronel sertanejo ficou penalizada em ver sua filha ser sepultada em pleno campo. Fez então doação de meia légua de terra e mandou erigir uma capelinha sob a invocação de Nossa Senhora da Expectação, a mesma que seria sede da matriz da freguesia, criada aos 6 de abril de 1764. 

 Igreja matriz de n. S. da Expectação, fundada em 1764

Cessadas as lutas iniciais, conquistada e dominada a terra, logo prosperou o novo Arraial, vendo-se aumentar rapidamente sua população. Efetivamente, a evolução de Icó se processou de maneira de maneira rápida e impressionante, tendo em vista os fatos ali verificados ao correr de mais de um século.
A Ordem Régia de 17 de outubro de 1735 elevou o povoado à vila, mediante proposta do governador de Pernambuco. A instalação da vila ocorreu aos 4 de maio de 1738, com sede na Vila de Icó. Foi a terceira vila criada no Ceará.  Em 1742 tomou posse o primeiro capitão-mor de ordenanças do Icó, que foi Bento da Silva e Oliveira. 

Teatro Ribeira dos Icós - com características neoclássicas, construído no século XIX (1860), pelo médico francês Dr. Pedro Theberge, então radicado no Icó. (foto de 1980, de Marcos Guilherme)

Ao tempo da República do Equador, em 1824, Icó foi teatro de lutas que tingiram de sangue as ruas da cidade. Aos 11 de julho de 1824, em agitada sessão, a Câmara recusou obediência à constituição. No mesmo dia, as mulheres de Icó dirigiram uma conclamação ao povo do Ceará, que está inscrita no n° 15 do Jornal “Diário do Governo do Ceará”, único que se publicava na província. 
Aos 25 de outubro é jurada a Constituição, ato que seria seguido de grande perseguição aos partidários de Tristão Gonçalves. Instalou-se então um governo provisório do qual faziam parte: Presidente – vigário Felipe Benicio Mariz;  Secretário – padre Manuel Felipe Gonçalves; Comandante das Armas – Amorim; e vogais João de Araújo Chaves, Henrique Luis Pedro de Almeida, e João André Teixeira Mendes. Este governo teve vida efêmera. A lei n° 244 de 25 de outubro de 1842, elevou a vila à categoria de cidade. 

 Centro da cidade - 1945

Um dos eventos mais curiosos de Icó foi o combate ali registrado ao tempo da abdicação de D. Pedro I. O padre Manuel Antônio de Sousa aliciou cerca de 5000 homens e juntou-se às tropas de Joaquim Pinto Madeira que fazia parte do Partido Restaurador e que dominara o Crato. Pretendiam os dois chefes a tomada da capital da província que tinha como presidente Francisco Xavier Torres. Uma destas colunas veio a Icó sob as ordens do padre conhecido por “Benze-Cacete”, pois costumava benzer suas tropas antes da luta. Houve muitas  lutas e muitas mortes em plenas ruas de Icó.
Atualmente o município é constituído de 6 distritos: Icó, Cruzeirinho, Lima Campos, Pedrinhas, São Vicente e Icózinho.


 Igreja N. S. do Monte - construída no alto de uma pequena elevação, no século XVIII.

Limites: 
Norte: Jaguaribe e Pereiro; Sul: Umari, Lavras da Mangabeira e Cedro;
Leste: Rio Grande do Norte (São Miguel, Venha-Ver) e Paraíba (Bernardino Batista e Poço Dantas);  Oeste: Iguatu e Orós
Localização: Sertão do Salgado e do Alto Jaguaribe
Distância até Fortaleza:  375 km
População:  66.855 habitantes  (IBGE/2013)

fotos do IBGE e do Arquivo Nirez
fontes:
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros - IBGE - 1959
Wikipédia              

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Barão do Crato e seu Romance Proibido

Bernardo Duarte Brandão – o Barão do Crato – nasceu em Icó, no dia 15 de julho de 1832, filho de Bernardo Duarte Brandão, um rico fazendeiro proprietário de terras da Ribeira dos Icós e Jacinta Augusta de Carvalho Brandão.  O que distingue a história do Barão do Crato de outros poderosos que imperaram em terras do Nordeste naqueles tempos antigos, é a sua fantástica história de amor por sua irmã, Maria do Rosário.

Sobrado do Barão do Crato (foto O Povo)

Igreja matriz de N. S. da Expectação em 1952 - ao lado o sobrado do Barão do Crato (foto IBGE)

Ainda jovem o Barão vai à Europa para complementar seus estudos; quando viaja, sua irmã ainda é uma criança; quando retornou encontrou uma linda mulher. O barão se apaixona por ela, é correspondido. Na tentativa de superar os obstáculos morais e sociais, o barão vai até o Vaticano, pedir permissão ao papa para casar-se com a irmã. O Papa nega a autorização, dizendo que a igreja não abençoaria tal união. Derrotado e frustrado, o barão resolve permanecer solteiro, no que é seguido pela irmã. A frustração amorosa e o seu amaldiçoado amor por Maria do Rosário, fizeram do barão um homem amargurado e cruel.  Nos fundos do casarão onde residiu, foram encontrados dentes que foram arrancados nas longas sessões de tortura a que seus escravos eram regularmente submetidos, e pedaços de ossos de corpos humanos que se presume também tenham sido de escravos do Barão.

Igreja do Monte N. S. da Conceição em 1962 (foto IBGE) 

Temido e antissocial, o Barão não frequentava a sociedade e estava sempre envolvido em disputas políticas. Mas uma mulher, Dona Glória Dias, descendente do Visconde do Icó resolveu enfrentá-lo. Insatisfeito com duas tamarineiras que serviam de abrigo e sombra para viajantes, incomodado com o barulho e o mau cheiro dos animais o Barão ordenou que as árvores fossem arrancadas. Dona Glória adquiriu uma carroça de pólvora e informou ao Barão que caso fizesse isso ela faria seu sobrado voar pelos ares. Sabedor que promessa de Glórias Dias era coisa certa de ser cumprida, o Barão recuou.
sobrados em Icó - 1962 (foto IBGE)

A carroça de pólvora foi doada para os festejos do Senhor do Bonfim, para serem transformados em fogos de artifício. Desta briga nasceu a tradição de comemorar todos os anos com muitos fogos, o dia 6 de janeiro, em homenagem ao santo.
Bernardo Duarte Brandão morreu com 58 anos, em Paris, em 19 de Junho de 1880, quando de viagem à Europa em busca de tratamento. Seu corpo foi transportado embalsamado de Paris para Fortaleza onde está sepultado no Cemitério São João Batista.
Há quem diga que o romance com a irmã nunca existiu, que tudo não passou de intrigas e difamações criadas e divulgadas por adversários políticos, e publicadas em jornais de Fortaleza. 

Teatro da Ribeira dos Icós(foto Nirez)
 
diz a lenda que por baixo do palco do teatro, há uma passagem secreta que levaria a um túnel com destino a casa do Barão do Crato. Há sim uma marca de uma passagem fechada por tijolos, mas o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – nunca autorizou escavações que pudesse confirmar - ou não - a história.  

fontes:
http://www.motonline.com.br/as-lendas-segredos-e-os-misterios-de-ico-ceara/
http://iconacional.blogspot.com.br/2008/05/bernardo-duarte-brando.html


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Das Vilas às Cidades e a Emergência de Fortaleza

Fortaleza, Rua Floriano Peixoto, início do séc. XX (arquivo Nirez)

A passagem de Fortaleza de pequena vila sem importância funcional, desprovida de um porto equipado e localizada em um sítio desfavorável à condição de grande cidade com extenso espaço regional e expressivo papel de comando se confirma na extrapolação dos limites estaduais favorecendo a conquista de imensa área de influência  e mesmo a hinterlândia do seu porto que, na condição de importador, distribui mercadorias para toda a região. Fortaleza, hoje de porte metropolitano, guarda muito do seu passado, com vestígios de cidade provinciana. Entretanto, não é negligenciável a intensa e acirrada competição urbana que ela estabelece com tradicionais metrópoles brasileiras, especialmente as do Norte e Nordeste.

 centro de Sobral (acervo IBGE data não especificada)

Se Fortaleza foi aos poucos conquistando essa posição que ocupa hoje no sistema urbano brasileiro, no interior, por sua vez, apenas Sobral e o aglomerado urbano de Crato – Juazeiro do Norte se destacavam como centros comerciais e industriais. Como já foi visto anteriormente,  criação de gado foi marcante no processo de povoamento e ocupação do espaço cearense. A predominância da criação extensiva impediu em parte, o surgimento e o crescimento de cidades, haja vista o papel da atividade pecuária na dispersão da população.

 Igreja Matriz de Aquiraz (foto do blog)

Foi Aquiraz a primeira vila criada no Ceará. Hoje esta é cidade–sede do município com o mesmo nome, contido na Região Metropolitana de Fortaleza, que só foi elevada à categoria de vila em 1726. As demais vilas criadas no Estado, ainda no século XVIII foram: Icó (1738), Aracati (1748), Caucaia (1759), Crato (1764), Baturité (1764), Sobral (1778), Granja (1776), Quixeramobim (1789) e Guaraciaba do Norte (1796). 

 Baturité, em data não especificada (arquivo Nirez)

No início do século XIX começaram as primeiras atividades de exportação pelo Ceará, como capitania emancipada (desmembrada em 1799 da Capitania de Pernambuco), e em 1826, a Vila de Fortaleza chega à condição de cidade.
Após Fortaleza foram elevadas à condição de cidade, ainda no século XIX, somente as vilas de Sobral (1841), Icó e Aracati (1842), Crato (1843) Quixeramobim (1856) e Baturité (1858). Das cidades cearenses, aquelas originárias de vilas criadas no século XVIII, ainda hoje se constituem, com raras exceções, as mais importantes do estado. Poucas mudanças ocorreram na hierarquia urbana cearense, se for considerado o tempo transcorrido entre a fundação da primeira vila (Aquiraz-1713) e o quadro atual da realidade urbana estadual.  

 Cidade de Icó, anos 1910/20

Icó e Aracati assumiram importante papel enquanto centros urbanos no interior. Aracati, antiga São José do Porto dos Barcos, mais tarde Santa Cruz de Aracati, expandiu-se pouco a pouco, chegando a estender sua influência sobre todo o território do Ceará. Sua condição de porto de entrada e saída de mercadorias, principalmente carne-de-sol, muito contribuiu para o seu crescimento. O advento das charqueadas no Ceará influenciou a pujança de Aracati, que se tornou o mais movimentado e rico centro da capitania do Ceará.  Em face dessa atividade, Aracati tornou-se o grande centro urbano cearense do passado. Hoje sua influência restringe-se ao litoral, nas imediações da foz do Jaguaribe. 


Praia de Canoa Quebrada, em Aracati 

O turismo enquanto atividade econômica intensifica o uso do potencial paisagístico do litoral do município e tira vantagens da localização da cidade nas imediações da foz do rio. A combinação de turismo e lazer associados à exploração da conjunção de águas doces e salgadas do mar e do rio Jaguaribe favorece o desenvolvimento do setor hoteleiro, inclusive aquele voltado aos esportes náuticos. 

extraído do artigo José Borzachiello da Silva
A Cidade Contemporânea no Ceará
publicado no livro Uma Nova História do Ceará