Mostrando postagens com marcador aracati. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador aracati. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Paula Ney, poeta e boêmio

 



Paula Ney foi aluno do Liceu e do Seminário da Prainha. Mas nunca gostou de estudar, era um aluno rebelde. Enquanto estudava no Seminário, costumava fazer discursos contra os antigos métodos de violência empregado para o aprendizado das matérias. Como resultado, foi expulso por mau comportamento. No Liceu, a história se repetiu, sendo reprovado por conta de grande desentendimento com um professor de inglês.

Por causa de sua inadaptação, foi mandado pelo pai para o Rio de Janeiro, para estudar Direito; a mãe preferia que estudasse Medicina; no final, Paula Ney não seguiria nenhuma dessas profissões. Iniciou-se no jornalismo na “Gazeta de Notícias”, participou de comícios pela abolição da escravatura ao lado de José do Patrocínio, além de escrever em favor da liberdade. Mas, para atender as expectativas da mãe, matriculou-se na Escola de Medicina, que pouco frequentava. Comparecia apenas para realizar exames orais, conseguindo sucesso pelas amizades com os professores e gozações nas respostas:

Diga ao menos quantos ossos tem o crânio de um homem ... – não me recordo professor... mas tenho-os todos aqui na cabeça. Fica satisfeito o primeiro examinador. Vai para avaliação do segundo:

vou fazer a primeira pergunta. Se o senhor responder nada mais lhe perguntarei, dar-me-ei por satisfeito. “Diga-me quantos fios de cabelo tem o senhor?”

- duzentos e sessenta e cinco mil oitocentos e novecentos e quatro...

- mas como o senhor chegou a essa conclusão?

- caro professor, não se esqueça que o senhor garantiu que só faria uma pergunta. Trato é trato.

E é aprovado em Anatomia. No exame de Cirurgia teve de se haver com o Visconde de Saboia. Nada sabe do ponto sorteado. Resolve então fazer literatura.

a mentalidade humana vive num oceano de hipóteses e de dúvidas... os sábios vão ao fundo, na ânsia das pesquisas, com o peso da inteligência...

- e a ignorância? Pergunta-lhe o Visconde.

- essa boia.

Mas essa vida fácil na Faculdade de Medicina não podia continuar eternamente. E foi ao prestar exame de Obstetrícia, com o professor Feijó Junior, que o fez dar por encerrada sua futura profissão de médico. Ao ser sabatinado, não conseguiu articular uma resposta, o que fez com que o professor dissesse: 

“senhor Paula Ney... então não sabe isso? É incrível, uma coisa tão fácil...olhe que o que estou lhe perguntando é coisa que sei desde que nasci..."

Ney então compreende que está perdido. E quebra o silêncio fazendo a sala explodir numa gargalhada: - se o senhor sabe isso desde que que nasceu, então a senhora sua mãe devia ter uma biblioteca dentro do ventre

Estava terminada a sabatina, e encerrado o curso para o aluno. Paula Ney nunca mais voltaria à Escola.

Francisco de Paula Ney, nascido em Aracati, no dia 2 de fevereiro de 1858, representa uma geração de poetas boêmios, despreocupada com a vida e com o futuro. Somente o prazer dos amigos, as rodas literárias e as serenatas faziam sentido nessa existência alegre e poética. Fazia versos nas mesas dos cafés, na primeira folha de papel que lhe viesse as mãos. Gostava de dar asas a imaginação, comentando os mais diversos fatos, passando de literatura para a política, da política para as artes, das artes para a prisão do último ladrão. Era um orador de alta classe, porque de pequenas coisas sabia extrair grandes motivos.

Em seu "Dicionário Bibliográfico", o Barão de Studart afirma que Paula Ney foi nomeado diretor da Hospedaria de Emigrantes pelo marechal Floriano Peixoto, e foi destituído do cargo pelo governo de Prudente de Morais. A trajetória de Paula Ney foi interrompida no dia 13 de outubro de 1897, quando faleceu vítima de tuberculose. Tinha 39 anos.






Os cafés da Praça do Ferreira, que Paula Ney provavelmente frequentou, e foto ilustrativa da Praia de Iracema dos anos 90.


Ao longe, em brancas praias embalada

Pelas ondas azuis dos verdes mares

A Fortaleza – a loura desposada

Do sol – dormita à sombra dos palmares


Loura de sol e branca de luares,

Como uma hóstia de luz cristalizada

Entre verbenas e jardins pousada

Na brancura de místicos altares


Lá canta em cada ramo um passarinho

Há pipilos de amor em cada ninho

Na solidão dos verdes matagais...


É minha terra, a terra de Iracema,

O decantado e esplêndido poema

De alegria e beleza universais

 

Extraído dos livros “A História do Ceará Passa Por esta Rua”, de Rogaciano Leite Filho e Fortaleza 1910, Imprensa Universitária/UFC. Publicação FortalezaemFotos. Fotos Wikipédia, Arquivo Nirez e acervo particular. 

 

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Porto Canoa o Resort abandonado de Aracati

 



A promessa é que seria um megaempreendimento à beira-mar, no aprazível litoral de Aracati, nível internacional, com capacidade para receber até 1.100 pessoas. O projeto contava com salão de convenções, auditório com capacidade para 130 pessoas, salas de apoio para a realização de eventos, dois restaurantes, parque aquático, piscinas, lojas, um hotel resort 5 estrelas com 166 apartamentos, uma pousada com 20 apartamentos e três condomínios num total de 96 apartamentos.

O local denominado Porto Canoa foi inaugurado em 1996, com boa parte construída, iniciativa do empresário Clodomir Girão e aporte de capital de sócios estrangeiros. Seria o primeiro grande empreendimento hoteleiro de Canoa Quebrada, mais próximo, porém, da Praia de Majorlândia.  O projeto se arrastou por 10 anos, sem se estabilizar. Os investimentos ficaram escassos e houve debandada dos investidores estrangeiros. O resort nunca chegou aos 100% de ocupação e decaiu mais ao longo do tempo. O Porto Canoa mostrou-se um retumbante fracasso.

Hoje quem passa no sentido Leste a partir de Canoa Quebrada em direção a praia de Majorlândia se depara com os restos da construção: a parte do empreendimento que corresponde ao condomínio de apartamentos adquiridos por particulares, ainda está lá. São três blocos de apartamentos de tamanhos variados, regularmente ocupados, geralmente no sistema de aluguel por temporada, em local isolado, com praia privativa, mas sem acesso, sem infraestrutura por perto, e bem longe dos atrativos da famosa Vila de Canoa Quebrada.

O resto é abandono. As únicas vizinhas são as ruínas e a solidão. A começar pelo acesso pela praia ao resort, uma via em mau estado, cheia de mato, deserta e solitária. À noite, é de se esperar que a escuridão tome de conta. (tem acesso também pela CE 371). As ruínas das construções ficam dos dois lados da estrada, prédios, piscinas, colunas, pisos, azulejos, testemunhas do enorme desperdício de recursos empregados no malogrado projeto hoteleiro, que pretendia ser o maior da região.

De bom e bonito, restam a paisagem natural, o mar verde esmeralda de Aracati, as belas praias e alguns coqueiros, que felizmente não dependem nem dos recursos nem da (falta de) competência de nenhum empreendedor, e continuam formosas. Apesar deles.  


 






Fotos e vídeos: Fortaleza em Fotos nov/2023

sábado, 29 de setembro de 2018

A Arquitetura dos Sertões

Icó - Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Monte

A luta dos povoadores no interior contra as várias nações indígenas, foi homérica. Trazidos pela esperança de encontrar campos de boas pastagens para a criação de gado, pois a região não oferecia as tentações dos latifúndios açucareiros, nem do ouro ou diamantes. Esses povoadores vinham da Paraíba, Pernambuco e de Alagoas, pelo sul, espraiando-se nas ribeiras ou vales dos rios, rumo da costa. 

Assim, o povoamento se fez do interior para o litoral. Fundaram as primeiras povoações que mais tarde, se tornariam vilas e cidades: Crato, Lavras da Mangabeira, Cachoeira, Icó. Ocuparam a região do Banabuiú, do Quixeramobim, e do Jaguaribe pelo curso do qual vieram até Aracati, quase na foz. Dali se espalharam para outros pontos do território.

O gado marchava à frente deles. Tomavam conta das terras e levantavam a casa grande de taipa da fazenda. Cercavam-se de agregados e vaqueiros, geralmente índios ou mestiços. Tinham poucos escravos, os necessários aos serviços domésticos. Dominavam como verdadeiros senhores feudais e, às vezes guerreavam entre si. Assim, iam se apoderando dos sertões imensos. E esses desbravadores escreveram o chamado Ciclo do Gado.

Em todos os ciclos da história brasileira, é a religião quem inspira e norteia a arte, pois é nas igrejas, capelas e conventos que ela se sublima. Os solares, os edifícios civis ou militares, sempre ficam em segundo plano. O Ciclo do Açúcar povoa de mosteiros e templos, a Bahia e Pernambuco. O Ciclo do Ouro coroa os montes de Minas Gerais com as capelas e igrejas, recheadas de talhas douradas. A arte do Ciclo do Gado é a mais humilde, toda a sua arquitetura se faz, pela falta da pedra apropriada para a obra, em simples alvenaria, na qual se executa uma ornamentação própria. Nem esculturas, nem cinzeladuras, nem obras de talha, nem ouro, nem mármore e nem azulejos. Os artistas anônimos obtêm com linhas, na combinação ingênua das curvas e dos ornatos rectilíneos, os efeitos decorativos.

Até agora, pouco se pesquisou sobre essa arte escondida, filha da pobreza dos sertões nordestinos e por isso, talvez, mais cheia de sentimento e de humanidade. Pouco se sabe ou mesmo nada se sabe sobre os seus autores. No entanto, onde ainda não foram desfiguradas, as suas construções de pedra e cal, ornamentadas com volutas e arrecadas de simples reboco, se mostram como documento vivo, de um passado absolutamente brasileiro, sem nenhuma influência do aventurismo interesseiro do diamante ou da produção de açúcar, que atraiu o holandês às nossas plagas e quase deixa em suas mãos heréticas, uma bela parte do velho Brasil. 

Com relação aos templos do sertão, segundo o professor Liberal de Castro, em boa parte, as igrejas paroquiais e outras igrejas de porte, iniciadas no século XVIII conheceram posterior conclusão. Sempre edificadas de modo parcelado, geralmente tinham como núcleo gerador pequenas capelas de fazendas ou de missões, ampliadas por sucessivos acréscimos. Essas adições tendiam a busca de um traço oitocentista, conseguida com uma planta final de desenho retangular, na qual a pequena capela primitiva, absorvida pelo conjunto, se transformava na capela mor da igreja ampliada.
Nesse processo de seguidos acréscimos, são raras as exceções, identificando-se como obras integralmente executadas no século XVIII, apenas a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Viçosa do Ceará (iniciada em 1695), e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala (primeira metade do século XVIII).

A Igreja de Almofala, localizado no norte do Estado, erguida perto do mar por uma irmandade local, encontra-se atualmente descontextualizada de sua ambientação original. Permaneceu quarenta anos soterrada pelas dunas, quando ressurgiu por força dos mesmos ventos que a haviam sepultado. Ao que se supõe, obedeceu a projeto de feição barroca, vindo da Bahia, com torre filiada às do convento lusitano de Mafra. 


Igreja de Nossa Senhora da Conceição de  Almofala 

A Igreja de Almofala foi concluída em 1712, levantada pelas antigas missões jesuítas sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição.

Na primitiva igreja da missão Jesuítica na Ibiapaba, praticamente refeita no século XIX, restaram talvez somente uma das torres e a capela-mor, em cujo forro subsiste um magnífico conjunto de doze painéis pintados com alegorias barrocas, dedicados às virtudes capitais e cardeais e aos sentidos humanos.


Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Viçosa do Ceará

A mais antiga do Estado, construída pelos jesuítas, entre 1695 e 1700. Na época, os jesuítas catequizavam os índios Tabajaras e, para atraí-los à fé católica, esculpiram a imagem de Nossa Senhora da Assunção à imagem e semelhança das mulheres daquela etnia. Ao longo dos anos, a igreja – em estilo barroco e fachada eclética – foi sendo reformada e descaracterizada, perdeu o altar do coral, e houve a inclusão de cerâmicas em seus interior e pedras na fachada.

Muitas igrejas, embora guardassem nas fachadas traços de um barroco sertanejo, muitas tiveram seus espaços alterados por introdução de arcaria interna, por influência do plano matriz da capital. Filiam-se a essas expressões formais mistas, a Sé de Sobral, de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara, a matriz da Expectação, em Icó, a Igreja do Rosário em Aracati, a matriz do Rosário, em Tauá, a de São José, na Granja e em Aquiraz, da Palma, em Baturité, de Santo Antônio, em Quixeramobim. Muitas dessas igrejas cearenses, mostram-se prejudicadas pelo desenho oitocentistas das torres, quase sempre piramidais, por vezes com perfis desproporcionais e até grosseiros. São elas:
    
Aquiraz – Igreja matriz de São José de Ribamar 

foto de Muhammad Said


Construída no século XVIII, por volta de 1713, é a segunda igreja mais antiga do Ceará. O templo apresenta ecletismo no estilo, predominando os traços barrocos e neoclássicos, frutos das várias modificações que passou ao longo dos anos. Alguns detalhes, ainda originais, impressionam por sua beleza e requinte. São eles, dentre outros; As três grandes portas almofadadas da entrada principal, o púlpito de madeira lavrada e os painéis pintados no forro da capela-mor, os quais provavelmente foram obras de índios catequizados. Destaca-se no nicho central do altar-mor a imagem do padroeiro São José de Ribamar, calçado de botas, relembrando o bandeirante audaz. O templo tem a planta em forma de retângulo, a coberta em telha canal com madeiramento aparente, sem forro na nave. Teve sua coberta e madeiramento recuperados em 1980, frente ao precário estado em que se encontravam. Apresenta em elevação, duas torres quadrangulares encimadas por pirâmides de base octogonal. Seu desenho é muito simples, mostrando “uma herança plástica das primeiras capelas nacionais de origem jesuítica, espalhadas por todo o Brasil e que teriam como provável fonte nordestina, a Igreja da Graça em Olinda.

Sobral – Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara
Igreja da Sé

Construção iniciada em 1746. Esta igreja, embora simbolicamente muito importante para a região, não teve uma construção muito sólida, pois com apenas 14 anos de construída já ameaçava ruir. Em 1762, por razões de segurança, foi demolida a capela mor e no ano de 1778 foi levantada ao seu lado a nova matriz que perdura até os dias atuais. À época da construção, Sobral já era uma próspera vila, e a igreja ficou conhecida como a Matriz da Caiçara. Sua história se funde com o povoamento de Sobral. A Matriz mistura elementos do estilo tardo-barroca (ou rococó) com acréscimos decorativos como movimento ondulatório nas cornijas, os frontões altos, tratamentos em relevos esculpidos e coroagem com bulbosos das torres. No pórtico frontispicial a construção tem acabamentos com acervos de pedraria em lioz, vindos de Portugal. Segundo Liberal de Castro, a Sé de Sobral conta com o frontispício mais elegante do Ceará. 

Icó - Igreja de Nossa Senhora da Expectação


O templo é a construção mais antiga de Icó, datada de 1709. Em 1728 passou a ser chamada de Nossa Senhora da Expectação do Icó, e mais tarde, apenas Igreja de Nossa Senhora da Expectação. Nas igrejas cearenses há raríssimos casos de sacristias perpendiculares ao eixo da igreja, como ocorre na Matriz da Expectação do Icó. O espaço interno sofreu alterações, como a abertura de arcadas para os corredores laterais. A igreja ainda conserva o sacrário original em talha, a prataria e imagens antigas. O retábulo original, entalhado por António Corrêa d’Araújo, natural da freguesia de São Miguel de Seide, já não mais existe.

Aracati – Igreja do Rosário


A Igreja de Nossa senhora do Rosário dos Brancos é uma construção dos primeiros anos do século XVIII, concluída na segunda metade do século XIX.  Segundo o livro da Irmandade do Santíssimo Sacramento, uma capela deu origem à igreja. Era coberta de palha, tinha a fachada de tijolos e as paredes laterais de taipa. Em sua estrutura física encontra-se uma porta central ladeada por duas outras entalhadas a ponta de faca e com almofadas em relevo. Na fachada podem-se observar os sinos, o relógio carrilhão e o registro da data de sua edificação escrita em romanos o ano de 1785. Seu interior é rico em obras de talha e imagens.  A exemplo da grande maioria das igrejas cearenses, a igreja de Nossa Senhora do Rosário se insere na lógica da organização espacial dos templos religiosos brasileiros com herança lusitana. A planta retangular apresenta nave central com corredores laterais que dão acesso à sacristia e ao consistório. Ao contrário da maioria das igrejas cearenses, a planta da Matriz do Aracati não foi alterada com a introdução de aberturas em arcos nas paredes dos corredores laterais que dão para a nave central. Como outras igrejas do Ceará, possui uma única torre, decorrente da falta de meios para a construção da segunda. A fachada é alinhada por cunhais e as três portadas marcadas com um trabalho de arenito baiano. Um frontão triangular com linhas curvas e volutas arremata o corpo principal da igreja. 


Tauá – Igreja do Rosário

foto do site férias tur - fotógrafo Aragão 


Situada à margem esquerda do rio Trici, a Igreja matriz de N. Sra. Do Rosário foi construída em 1762 e, em volta dela, cresceu a cidade de Tauá. Situada em terreno mais elevado, ainda se destaca na paisagem urbana, como ponto focal da Praça Dr. Alberto Feitosa lima. De desenho simples, com poucos ornamentos, a edificação possui planta retangular, nave principal e naves laterais ligadas à capela-mor por arcos plenos, possivelmente acrescidas em época posterior. Separando a nave principal das duas laterais, grossas paredes de 1,00m de espessura, formam quatro arcos plenos com detalhes em alvenaria de cada lado. Os altares são trabalhados em alvenaria e sobre a nave principal, existe uma abóbada em pedra bruta, característica marcante da construção, que a distingue das demais da região. A imagem da padroeira, no altar principal, foi importada de Portugal ainda na época da colônia. O forro do altar é executado em madeira, pintado de azul com detalhes na cor prata. A igreja não possui coro, destacando-se a abóbada da nave como significativo elemento arquitetônico do templo. 

Granja – Igreja de São José


foto Wikimedia Commons

A primitiva matriz de Macaboqueira (atual Granja) foi inaugurada no dia 8 de setembro de 1759, em louvor a São José. No dia seguinte foi criada e instalada a Confraria ou Irmandade do Santíssimo Sacramento. Ao longo dos anos passou  por várias reformas e ampliações. No ano de 1879, aproveitando a mão de obra de milhares de retirantes que se refugiaram em Granja, na grande seca de 1877/79, o templo passou pela maior das reformas: foram abertas 6 arcadas do corpo da igreja, e mais duas portas da frente, por existir somente uma, a principal; foram feitos os dois corredores, as tribunas soalhadas, as grades, soalhos e forrado o corpo da igreja; limparam e montaram todo edifício; colocaram grades de ferro e vidraças nas janelas do coro, reformaram o frontispício, colocaram nele cruz de ferro, relógio e construíram o patamar, dando tudo por concluído no princípio de 1880, quando terminou a terrível seca. 

Baturité – Igreja da Palma


O templo foi construído em meados do século XVIII, quando da fundação da antiga Vila Real de Monte Mor o Novo d’América, atual cidade de Baturité. Com arquitetura em estilo bizantino gótico com predominação no barroco, a igreja venera a padroeira Nossa Senhora da Palma, desde a criação da freguesia a 8 de maio de 1758. Em 1824, durante a adesão de Baturité ao movimento revolucionário conhecido por Confederação do Equador, a Matriz virou barricada, por ser o maior prédio do lugar. Um dos chefes do movimento, Tristão Gonçalves enviou 180 barris de pólvora, 220 carros de granadeiros, 3 barris de chumbo, um quintal de ferro e uma roda de aço, ficando toda essa carga guardada na Igreja Matriz, em cuja porta estavam sentinelas armadas. A igreja dispõe de duas naves, sete altares, três sinos e um grande relógio público. Comporta até 3 mil pessoas. No seu interior há ilustrações de cenas bíblicas em pintura a óleo, em estilo clássico, executadas por artistas da região. Hoje, a Matriz, encontra-se bastante modificada no seu interior. As reformas não respeitaram suas características originais, mas a população orgulha-se de seu templo bicentenário. A edificação encontra-se em lugar privilegiado, no centro da cidade, na  Praça da Matriz.

Quixeramobim – Igreja de Santo Antônio

foto Flick - Consuelo Lima

Foi fundada em 1755, pelo portuense capitão Antônio Dias Ferreira, que situando naquelas terras sertanejas, sua Fazenda de Santo Antônio do Boqueirão, logo tratou de erigir nas proximidades da sua casa, em 1730, uma pequena capela sob invocação de Santo Antônio de Lisboa ou Pádua. Vinte e cinco anos mais tarde, a capelinha arruinada era substituída pela igreja que seria a matriz da futura cidade, construída pelo mesmo Antônio Dias Ferreira, homem devoto, solteiro e dono de grande fortuna. Mas não teve o fundador da fazenda Boqueirão, e da Igreja de Santo Antônio, a ventura de ver esse templo elevado à categoria de matriz, a 15 de novembro de 1755. Falecera um ano antes, deixando as obras por terminar. Estas somente vieram a termo no ano de 1770, quando já criada a freguesia sob a direção do capitão João Francisco Vieira. Com suas duas torres e o frontispício neoclássico, a atual matriz de Quixeramobim conserva a estrutura fundamental da construção barroca do século XVIII, quando tinha uma única torre e o seu frontão ascendia em curvas simétricas. Mudou bastante sua forma; mas a alma do templo quase três vezes centenário continuou a mesma. 


A Capitania do Ceará não conheceu conventos ou instalações similares, que representaram centros valiosos de difusão da arte barroca no Brasil. O fato, aliado à pobreza da terra, justifica a ausência de obras realmente barrocas no Ceará. A Companhia de Jesus, a única ordem religiosa a se estabelecer arquitetonicamente no Ceará, permaneceu por tempo relativamente curto, com ação reduzida a conjunto missioneiros marcados por arquitetura efêmera. Como obra de vulto dos jesuítas, restaram apenas a já mencionada Igreja da Senhora de Assunção, em Viçosa do Ceará, praticamente refeita no século XIX, e as ruínas de um hospício em Aquiraz, fundado em 1717 e demolido em 1854, por ordem dos bispos de Olinda.   


Fontes:
Arquitetura no Ceará, o século XIX e algumas antecedências de José Liberal de Castro – Revista do Instituto do Ceará – 2014
À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso - Imprensa Universitária do Ceará - 1962
fotos IPHAN e IBGE 



quinta-feira, 24 de maio de 2018

As Aventuras do Padre Verdeixa, O Canoa Doida


Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa, vulgo Canoa Doida, deixou fama imperecível na crônica histórica do Ceará. Não se sabe ao certo o seu local de nascimento: Rio do Peixe, na Paraíba, Goiana, em Pernambuco, ou Crato, no Ceará. Ano do nascimento, 1803. Figura lendária, desde pequeno se destacou pelas travessuras maldosas no gênero do mítico Pedro Malasartes. Não conheceu o pai. A mãe Dona Feliciana, cavilosa e piedosa, oscilava entre as asneiras do marido e as diabruras do filho, casada em segundas núpcias com um professor de latim, boêmio e piegas, Joaquim Teotônio Sobreira.

Seminário de Olinda, fundado em 1551 - foto G1/Globo

Em 1824, Verdeixa passou das traquinadas da infância às aventuras da adolescência, alistando-se nas forças republicanas da revolução de 1824, que sob o comando de José Pereira Filgueiras e Tristão Gonçalves de Alencar, ocuparam a vila cearense de Jardim, tomando parte no massacre dos presos e na roda de pau que lhes aplicou, dando de cacete com as duas mãos em muitos pacientes, até caírem inanimados. Após a derrota dos rebeldes, passou-se para os legalistas do coronel Agostinho José Tomás de Aquino.
Durante seis anos, de 1824 a 1830, cursou o seminário de Olinda, ordenando-se em 1831 e sendo logo nomeado vigário de Lavras, no sul do Ceará. 

Igreja Matriz de São Vicente Ferrer, em Lavras da Mangabeira. Padre Verdeixa foi o vigário entre 1830 e 1831. Nesse período realizou o batizado de Fideralina Augusto Lima. 
Foto IBGE

Como e porque se decidiu a seguir a carreira eclesiástica, quando até então não denotara a menor propensão, e os pendores naturais do seu espírito o inclinavam a outros rumos, é coisa que jamais se conseguiu saber. O que se poderia esperar de um sacerdote sem vocação formal, solto num meio agitado como o Cariri daquele tempo? Teceu ali uma enredada diabólica, malquistando o coronel Agostinho com Pinto Madeira, o infeliz rebelde de 1832, satirizou o perverso advogado Simplício José da Rocha, levou à ruína o juiz leigo Antônio da Rocha Moura, desancou em versos o famigerado João André Teixeira Mendes, vulgo canela preta, e até nos casamentos que celebrava, ofendia os noivos com pilhérias indignas do seu ministério. Daí o ódio que o cercava, e o obrigava a viver sempre de sobreaviso, ocultando-se ou fugindo.

Palácio da Luz, sede do governo estadual até início dos anos 60

Foi obrigado a deixar o sertão e vir para Fortaleza, onde logo se tornou inimigo do presidente da província, o padre e senador José Martiniano de Alencar. Enganou os índios mansos, que ainda viviam na povoação de Arronches, fazendo-os assinar uma representação em termos tais que os levou à cadeia. Proferia ofensas por toda parte contra o presidente Alencar, e caçado pela polícia, refugiou-se na casa do comerciante português Martinho Borges, obrigando-o a hospedá-lo sob ameaça de denunciá-lo às autoridades, por alguns deslizes cometidos pelo comerciante. Verdeixa costumava insultar o presidente Alencar debaixo das janelas do palácio do governo, gritando-lhe a alcunha – padre Cobra, e fugindo imediatamente a galope.

Juiz de paz em Baturité, praticou as maiores arbitrariedades. Quando o quiseram prender, escondeu-se num buraco coberto por uma tábua sobre a qual sua mãe, placidamente fazia rendas, trocando bilros na almofada. Envolvido numa tentativa de homicídio, contra o presidente brigadeiro José Joaquim Coelho, defendeu-se pessoalmente no Tribunal do Júri, encrencando seu companheiro, o velho capitão-mor Barbosa, quando este lhe perguntou porque lhe fizera tanto mal, respondeu que, se ele fosse solto, passaria fome na cadeia, porque até ali vinha comendo do que a família do respeitável ancião mandava. 

Corria que tinha o dom da presciência, avisando as pessoas dos desastres iminentes que as ameaçavam e adivinhando a chegada das patrulhas que o procuravam. Tantas fez que se viu obrigado a mudar de cidade. Embarcou para o Sudeste e conseguiu ser nomeado vigário de Carapebus, na província do Rio de janeiro. Ali revoltou tanto os fiéis, que acabou amarrado num cavalo e levado até os limites da paróquia. Encontrando um desconhecido pelo caminho, disse-lhe que aquela gente o amava tanto, que o levava daquele jeito para que ele não os abandonasse.

Dizia o historiador João Brígido, que o Padre Verdeixa tinha uma especialíssima devoção pelo Sacramento do Matrimônio. De todas suas funções como religioso, a que mais o aprazia era exatamente a celebração das núpcias. Deixou de comparecer a incontáveis celebrações de sua inteira responsabilidade, como Batizados, Primeira Eucaristia, Unção de Enfermos, e outras, mas até onde se saiba, nunca faltou a um casamento! Sempre diligentíssimo, chegava onde quer que fosse, sob qualquer intempérie climática, com horas de antecedência da celebração.

Acontece que, o ardiloso e furtivo Canoa Doida, ouvia primeiro a confissão da noiva, e uma vez sabedor da vida pregressa da nubente, ameaçava a infeliz de revelar ao futuro esposo e até mesmo a toda urbe, certos pormenores daquela confissão. Assim, angariava com facilidade os favores sexuais da noiva, sob o prenúncio de dar com a língua nos dentes. A noiva poderia conceder seus favores ali mesmo, in situ (dentro do confessionário) ou preferencialmente no interior da sacristia, dispositivo que oferecia maior espaço e conforto, prestando-se com maior eficiência à volúpia e demais caprichos sexuais do nosso Canoa Doida. 

Mestre em ações indecorosas, quando não obtinha da noiva confissões mais “significativas”, não se continha, e fazia toda sorte de propostas imorais. Foi mesmo espancado por um noivo que não pôde suportar os excessos do padre. Era uma alma feita de violentos contrastes. Sabe-se que deixou dois filhos e duas filhas. Deputado provincial nas legislaturas de 1848 e 1868, apesar dos 20 anos que separam os dois mandatos, em ambos, nada fez, senão pilhérias e colocar os colegas em situações ridículas.

Santa Casa de Misericórdia com apenas 1 pavimento. O 2° só foi construído em 1920 (foto Arquivo Nirez)

De Fortaleza costumava sair para as vilas próximas – Maranguape, Pacatuba e Baturité. Irrequieto e andarilho, acabou se mudando para Aracati, de onde regressou moribundo à capital, embarcado num pequeno veleiro. Morreu pouco depois na Santa Casa de Misericórdia, segurando nas mãos um pacote com 400 mil reis pelos quais vendera um velho escravo que o servia. Era o dia 18 de fevereiro de 1872.

Fontes:
À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso
Verdeixa, o Canoa Doida. Disponível em <http://nehscfortaleza.com/index.php/artigos/item/232-verdeixa,-o-canoa-doida.html>