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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Confederação do Equador - Por um Nordeste Independente

 Foi um movimento revolucionário contra o governo do Imperador Dom Pedro I, em razão de sua mudança de postura e dos ideais defendidos antes da Proclamação da Independência, em 1822. Passado menos de dois anos desse evento, a insatisfação com as decisões políticas de Dom Pedro I já eram percebidas em segmentos da população, em razão de um conjunto de medidas autoritárias adotadas pelo imperador.


Em novembro de 1823 dissolveu a Assembleia Constituinte por discordar das limitações que seriam impostas ao imperador, e impôs o seu próprio projeto político para o País.  A Assembleia Constituinte era formada por representantes eleitos das províncias para elaboração de uma constituição para o Brasil. Porém, Dom Pedro não aceitou os termos propostos, e optou por dissolvê-la.

Em março de 1824 o Imperador instaura o Poder Moderador na primeira Constituição do País, criando um quarto poder, exclusivo do Imperador, "chave" de toda a organização política brasileira, destinado a manter a independência, o equilíbrio e a harmonia entre os demais poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário).




Confederação do Equador foi a principal reação contra essa política centralizadora. Teve origem na Província de Pernambuco com adesão do Ceará, e demais províncias do Nordeste. Os revolucionários pretendiam fundar uma nação republicana, independente do resto do Brasil.


A revolta no Ceará foi marcada pela participação ativa de figuras locais, como Pereira Filgueiras (José Pereira Filgueiras), Tristão Gonçalves (Tristão Gonçalves de Alencar Araripe), Padre Mororó (Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo), Pessoa Anta (João de Andrade Pessoa Anta), Francisco Ibiapina (Francisco Miguel Pereira Ibiapina), Azevedo Bolão (Luís Inácio de Azevedo Bolão), José Carapinima (Feliciano José da Silva Carapinima) e Martiniano de Alencar (José Martiniano de Alencar). 

Em janeiro de 1924, a Câmara de Campo Maior de Quixeramobim sob a influência do padre Mororó (Inácio Loiola de Albuquerque declarou excluído do trono do Imperador Pedro I e a queda da Dinastia Bragantina, proclamando a República com um governo que ficaria a cargo de Pereira Filgueiras. O movimento teve forte apoio popular e de certas elites no interior, como na região do Crato.

Em 18 de abril as lideranças rebeldes ocupam Fortaleza e convocam uma reunião da Câmara e das pessoas com mais posses da Vila, onde Tristão Gonçalves foi eleito presidente temporário do Ceará. A partir desse evento, a preocupação maior foi com os preparativos para enfrentar a reação do império.

A reação do Império começou por Pernambuco, as forças monarquistas entraram em Recife em 12 de setembro de 1824; houve massacre da população que viu com terror os saques, incêndios e fuzilamentos. Depois avançaram pelas vilas do Ceará, dizimando as tropas republicanas. Diante da derrota nos sertões cearenses, Tristão Gonçalves, presidente temporário do Ceará, foi obrigado a deixar Fortaleza e partir para Aracati, para combater um levante monarquista. A Divisão Naval do Império aportou em Fortaleza a 18 de outubro de 1824, sob o comando de Lorde Cochrane que exigiu o fim imediato da rebelião. O movimento resistiu até dezembro de 1824. Os Chefes do movimento revolucionário, foram presos ou mortos.


Tristão Gonçalves foi morto a tiros nas imediações do povoado de Santa Rosa, antiga Jaguaribara. Teve o cadáver mutilado e deixado insepulto. Dias depois o corpo foi encontrado e sepultado por correligionários.


Pereira Filgueiras temendo ser assassinado ou preso e torturado, acabou se rendendo, foi preso e conduzido ao Rio de Janeiro, mas morreu durante a viagem. 


José Martiniano de Alencar foi preso na Bahia, enviado ao Rio de Janeiro e negou envolvimento com a Confederação do Equador. Por se tratar de importante líder político do Nordeste, foi perdoado pelo imperador em 1825.

Foram condenados à pena de morte os revolucionários Padre Mororó, Pessoa Anta, Francisco Ibiapina, José Carapinima, Azevedo Bolão, Frei Alexandre da Purificação, Antônio Bezerra de Sousa, e José Ferreira de Azevedo. Os três últimos tiveram a pena comutada em degredo para a Amazônia. Antônio Bezerra de Sousa morreu antes, no Cariri.

Os condenados deveriam ser enforcados, mas como ninguém quis fazer o papel do carrasco, foram fuzilados em 1825, no antigo Campo da Pólvora, depois chamado de Praça dos Mártires. 


A derrota dos confederados no Ceará, com a execução em praça pública, fortaleceu o poder das capitais e das autoridades representantes do governo imperial, que passaram a se impor ainda mais sobre o interior, controlando a província com maior eficácia. 


Fontes:

Revista do Instituto do Ceará – Personagens da Confederação do Equador no Ceará, de Júlio Lima Verde Campos de Oliveira-2024

História do Ceará, de Airton de Farias 

Fotos da Internet

quinta-feira, 24 de maio de 2018

As Aventuras do Padre Verdeixa, O Canoa Doida


Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa, vulgo Canoa Doida, deixou fama imperecível na crônica histórica do Ceará. Não se sabe ao certo o seu local de nascimento: Rio do Peixe, na Paraíba, Goiana, em Pernambuco, ou Crato, no Ceará. Ano do nascimento, 1803. Figura lendária, desde pequeno se destacou pelas travessuras maldosas no gênero do mítico Pedro Malasartes. Não conheceu o pai. A mãe Dona Feliciana, cavilosa e piedosa, oscilava entre as asneiras do marido e as diabruras do filho, casada em segundas núpcias com um professor de latim, boêmio e piegas, Joaquim Teotônio Sobreira.

Seminário de Olinda, fundado em 1551 - foto G1/Globo

Em 1824, Verdeixa passou das traquinadas da infância às aventuras da adolescência, alistando-se nas forças republicanas da revolução de 1824, que sob o comando de José Pereira Filgueiras e Tristão Gonçalves de Alencar, ocuparam a vila cearense de Jardim, tomando parte no massacre dos presos e na roda de pau que lhes aplicou, dando de cacete com as duas mãos em muitos pacientes, até caírem inanimados. Após a derrota dos rebeldes, passou-se para os legalistas do coronel Agostinho José Tomás de Aquino.
Durante seis anos, de 1824 a 1830, cursou o seminário de Olinda, ordenando-se em 1831 e sendo logo nomeado vigário de Lavras, no sul do Ceará. 

Igreja Matriz de São Vicente Ferrer, em Lavras da Mangabeira. Padre Verdeixa foi o vigário entre 1830 e 1831. Nesse período realizou o batizado de Fideralina Augusto Lima. 
Foto IBGE

Como e porque se decidiu a seguir a carreira eclesiástica, quando até então não denotara a menor propensão, e os pendores naturais do seu espírito o inclinavam a outros rumos, é coisa que jamais se conseguiu saber. O que se poderia esperar de um sacerdote sem vocação formal, solto num meio agitado como o Cariri daquele tempo? Teceu ali uma enredada diabólica, malquistando o coronel Agostinho com Pinto Madeira, o infeliz rebelde de 1832, satirizou o perverso advogado Simplício José da Rocha, levou à ruína o juiz leigo Antônio da Rocha Moura, desancou em versos o famigerado João André Teixeira Mendes, vulgo canela preta, e até nos casamentos que celebrava, ofendia os noivos com pilhérias indignas do seu ministério. Daí o ódio que o cercava, e o obrigava a viver sempre de sobreaviso, ocultando-se ou fugindo.

Palácio da Luz, sede do governo estadual até início dos anos 60

Foi obrigado a deixar o sertão e vir para Fortaleza, onde logo se tornou inimigo do presidente da província, o padre e senador José Martiniano de Alencar. Enganou os índios mansos, que ainda viviam na povoação de Arronches, fazendo-os assinar uma representação em termos tais que os levou à cadeia. Proferia ofensas por toda parte contra o presidente Alencar, e caçado pela polícia, refugiou-se na casa do comerciante português Martinho Borges, obrigando-o a hospedá-lo sob ameaça de denunciá-lo às autoridades, por alguns deslizes cometidos pelo comerciante. Verdeixa costumava insultar o presidente Alencar debaixo das janelas do palácio do governo, gritando-lhe a alcunha – padre Cobra, e fugindo imediatamente a galope.

Juiz de paz em Baturité, praticou as maiores arbitrariedades. Quando o quiseram prender, escondeu-se num buraco coberto por uma tábua sobre a qual sua mãe, placidamente fazia rendas, trocando bilros na almofada. Envolvido numa tentativa de homicídio, contra o presidente brigadeiro José Joaquim Coelho, defendeu-se pessoalmente no Tribunal do Júri, encrencando seu companheiro, o velho capitão-mor Barbosa, quando este lhe perguntou porque lhe fizera tanto mal, respondeu que, se ele fosse solto, passaria fome na cadeia, porque até ali vinha comendo do que a família do respeitável ancião mandava. 

Corria que tinha o dom da presciência, avisando as pessoas dos desastres iminentes que as ameaçavam e adivinhando a chegada das patrulhas que o procuravam. Tantas fez que se viu obrigado a mudar de cidade. Embarcou para o Sudeste e conseguiu ser nomeado vigário de Carapebus, na província do Rio de janeiro. Ali revoltou tanto os fiéis, que acabou amarrado num cavalo e levado até os limites da paróquia. Encontrando um desconhecido pelo caminho, disse-lhe que aquela gente o amava tanto, que o levava daquele jeito para que ele não os abandonasse.

Dizia o historiador João Brígido, que o Padre Verdeixa tinha uma especialíssima devoção pelo Sacramento do Matrimônio. De todas suas funções como religioso, a que mais o aprazia era exatamente a celebração das núpcias. Deixou de comparecer a incontáveis celebrações de sua inteira responsabilidade, como Batizados, Primeira Eucaristia, Unção de Enfermos, e outras, mas até onde se saiba, nunca faltou a um casamento! Sempre diligentíssimo, chegava onde quer que fosse, sob qualquer intempérie climática, com horas de antecedência da celebração.

Acontece que, o ardiloso e furtivo Canoa Doida, ouvia primeiro a confissão da noiva, e uma vez sabedor da vida pregressa da nubente, ameaçava a infeliz de revelar ao futuro esposo e até mesmo a toda urbe, certos pormenores daquela confissão. Assim, angariava com facilidade os favores sexuais da noiva, sob o prenúncio de dar com a língua nos dentes. A noiva poderia conceder seus favores ali mesmo, in situ (dentro do confessionário) ou preferencialmente no interior da sacristia, dispositivo que oferecia maior espaço e conforto, prestando-se com maior eficiência à volúpia e demais caprichos sexuais do nosso Canoa Doida. 

Mestre em ações indecorosas, quando não obtinha da noiva confissões mais “significativas”, não se continha, e fazia toda sorte de propostas imorais. Foi mesmo espancado por um noivo que não pôde suportar os excessos do padre. Era uma alma feita de violentos contrastes. Sabe-se que deixou dois filhos e duas filhas. Deputado provincial nas legislaturas de 1848 e 1868, apesar dos 20 anos que separam os dois mandatos, em ambos, nada fez, senão pilhérias e colocar os colegas em situações ridículas.

Santa Casa de Misericórdia com apenas 1 pavimento. O 2° só foi construído em 1920 (foto Arquivo Nirez)

De Fortaleza costumava sair para as vilas próximas – Maranguape, Pacatuba e Baturité. Irrequieto e andarilho, acabou se mudando para Aracati, de onde regressou moribundo à capital, embarcado num pequeno veleiro. Morreu pouco depois na Santa Casa de Misericórdia, segurando nas mãos um pacote com 400 mil reis pelos quais vendera um velho escravo que o servia. Era o dia 18 de fevereiro de 1872.

Fontes:
À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso
Verdeixa, o Canoa Doida. Disponível em <http://nehscfortaleza.com/index.php/artigos/item/232-verdeixa,-o-canoa-doida.html>   

domingo, 30 de dezembro de 2012

Alguns Personagens da História do Ceará


Padre Mororó


Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo, nasceu em 24 de julho de 1787, em Riacho Guimarães,  município de Sobral, Ceará. Ordenou-se padre no Seminário de Olinda em 1802 e exerceu o sacerdócio em várias cidades do Ceará. Em 1821 elegeu-se vereador, foi diretor e redator do primeiro jornal do Ceará – o Diário do Governo do Ceará – veículo de divulgação dos ideais republicanos.
Preso em Fortaleza e condenado à morte por enforcamento, teve que ser fuzilado porque nenhum preso aceitou ser o seu carrasco. Foi executado no Passeio Público, em Fortaleza, em 30 de abril de 1825. 

Carapinima

Passeio Público

Feliciano José da Silva nasceu em Minas Gerais, radicou-se no Ceará a partir de 1820 como escriturário no governo de Francisco Alberto Robin. Foi condenado à morte por sua participação na Confederação do Equador, ao lado do Padre Mororó e outros. Fuzilado em 28 de maio de 1825, resistiu aos primeiros disparos, soltou-se das amarras e ficou rodopiando pela praça, até que as armas fossem recarregadas.


Pereira Filgueiras

Casa do Governador das Armas do Ceará, em 1824

Capitão-mor comandante das forças militares na região do Cariri, participou de todos os movimentos militares desde a Revolução de 1817, quando prendeu a família Alencar – da qual era amigo – e enviou para Fortaleza Dona Bárbara de Alencar, sua comadre, o diácono José Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves. Fez a Independência do Brasil no Ceará em 23 de janeiro de 1823, instalando o Governo provisório por ele presidido. Em 14 de abril chega a Fortaleza o novo Presidente que toma posse às escondidas sendo deposto em pouco tempo, quando assume Tristão Gonçalves. Na Confederação do Equador foi o Comandante Geral das tropas revolucionárias. Foi preso em Exu em 8 de novembro de 1824, entregando-se ao capitão Reinaldo Araújo Bezerra. Era filho de João Quesado Filgueiras Lima e Maria Pereira de Castro. Nasceu na Bahia em 1803, vindo para o Ceará em 1808, morar no Sítio Santana, próximo à Barbalha. Era um homem rude, de extrema força física e respeitado por toda a população do Cariri.


Bárbara de Alencar
Placa na entrada da cela de Bárbara de Alencar, no forte de N.S. da Assunção
 
prisão no forte de N.S. da Assunção onde Bárbara de Alencar cumpriu parte da pena

Nasceu em fevereiro de 1760 em Cabrobó – Pernambuco, casada com o comerciante português João Gonçalves dos Santos. Heroína nacional foi a primeira mulher a ser presa política no Brasil e primeira republicana. Em 1817, frustrada a Revolução Pernambucana e o levante do Crato, foi aprisionada e trazida para Fortaleza juntamente com os filhos Tristão Gonçalves, José Martiniano de Alencar e Padre Carlos José. Em 1818 foram mandados para a prisão da Fortaleza das 5 Pontas em Pernambuco, e de lá para o presídio da relação, em Salvador. Em 1821 foram postos em liberdade, retornando ao Ceará. Bárbara de Alencar faleceu na Fazenda Touro, limites com o Piauí em 1832 e foi sepultada na Capela do Poço das Pedras, freguesia de Araripe.


Jovita Feitosa

Antônia Alves Feitosa nasceu em 8 de março de 1848, em Brejo Seco – Inhamuns. Filha de Semeão Bispo de Oliveira ou Maximiano Bispo de Oliveira (existe registro dos dois nomes) e Maria Alves Feitosa, família que manteve um conflito histórico com a Família Monte. Aos 12 anos perdeu a mãe, indo morar com o tio Rogério em  Jaicós, Piauí. Deixando a casa do tio em segredo, acompanhou os voluntários que iam para Teresina, lutar na Guerra do Paraguai. Apresentou-se vestida de soldado, sendo aceita mesmo depois de descoberto o disfarce. Em 9 de julho de 1865 assentou praça e recebeu as divisas de 1° sargento. Usava um saiote por cima da farda. Fez campanha para reunir mais voluntários e por onde passava na viagem para o Rio de janeiro, era muito aplaudida. Chegando  ao Rio de Janeiro, o Ministério da Guerra vetou sua participação no corpo da tropa, oferecendo-lhe um lugar junto às outras mulheres, o que não foi aceito.
Com isso, ficou profundamente desgostosa, vindo a falecer no Rio de Janeiro aos 19 anos de idade. Jovita cometeu suicídio quando soube que o engenheiro Guilherme Noot, com o qual vivia, havia regressado ao seu país, sem lhe comunicar. O nome Jovita era um apelido caseiro.


Costa Barros
Palácio da Luz residência oficial dos governadores do Ceará até os anos 70
Pedro José da Costa Barros nasceu em Aracati, em 7 de outubro de 1779, filho do português Pedro José da Costa Barros e da pernambucana Antônia de Souza Braga. Em 1803 alistou-se no Exército de Portugal. No mesmo ano foi promovido a cabo. Em 1811 já era sargento-mor comandante do 1° Batalhão do Regimento de Infantaria de Milícias do Ceará. Em 1821 participou da Assembleia Constituinte. 

antigo prédio da Assembleia Provincial em Fortaleza (foto jornal O Nordeste)

Foi nomeado primeiro presidente da Província do Ceará, chegando a Fortaleza em 14 de abril de 1824, tomando posse no dia 17. No dia 19 é deposto por Tristão Gonçalves e Pereira Filgueiras, seguindo para o Rio de janeiro com João Facundo e outros conservadores. Em 17 de dezembro retorna e reassume o governo, ficando no cargo até 13 de janeiro de 1825 quando segue para o Maranhão por ter sido nomeado presidente daquela província. Em 1826 foi eleito Senador pelo Ceará. Faleceu a 20 de outubro de 1839, sendo sepultado na Igreja de Santa Cruz dos militares, no Rio de Janeiro.  

fotos do Arquivo Nirez
fonte dos dados: Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito