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terça-feira, 29 de agosto de 2017

As Nações Indigenas da Capitania do Ceará


Um século depois do início da ocupação da capitania do Siará, as tribos indígenas do centro cearense se ligaram aos povoadores dessa região, uma vez que já haviam sido ocupadas as extremas com Pernambuco, Paraíba e Piauí. Eram eles os Icós, Icozinhos, Calabaças, Chocós, Quipipaus, Cariris, Cariús, Jucás, Quixolôs e os Inhamuns, tapuias de língua travada, já então acometidos pela bexiga, sarampo e outras moléstias e também dizimados em larga escala pelos conquistadores. 
  
encontro entre indígenas e europeus - quadro de Rugendas
Os Cariús, que moravam pelo vale do riacho Cariús e do Rio Bastiões, lutavam contra os Cariris, que habitavam o vale do mesmo nome, ao sul, disputando a terra úmida dos brejos. Os Jucás viviam às margens do riacho Jucá, eram guerreiros e visavam particularmente aos brancos invasores. Os Quixolôs eram violentos e ladrões, e os Inhamuns que se estendiam entre os Quixolôs e os Jucás, nas margens do Jaguaribe, aldeados na Vila de São Mateus por frades carmelitas, eram os senhores primitivos daquele planalto. As mulheres Inhamuns, como as das demais tribos, em solteiras eram entregues pelos pais a estranhos que iam viver entre eles. Porém, depois de casadas eram fiéis a seus maridos.

Os índios cearenses não tinham espírito religioso definido, mas eram hospitaleiros, de modo geral. Acreditavam nos seus pajés, sacerdotes e feiticeiros; não tinham nenhum senso de propriedade, tudo era comum. E esperavam repousar depois da morte, em abundância e descanso, numa das aldeias que existiriam no centro da terra. Pouco afeitos ao trabalho, viviam pelas matas dos sertões, tinham as mãos isentas de calosidade, finas, como das pessoas que não trabalham. 

As Sesmarias era um sistema de doação de terras que visava a produtividade e o povoamento da colônia. Os Sesmeiros tinham prazo e tinham que dispor de meios para explorá-las.

Com a chegada dos brancos, dois séculos bastaram para exterminá-los. Perderam, pouco a pouco, as suas terras, reduzidas por Carta-Régia de 4 de junho de 1703, do Rei Pedro II. Aos indígenas, uma única concessão: uma légua de terra em quadro para cada aldeia, moradia e lavouras; espaço suficiente para uma igreja e um adro; terreno para o padre missionário, sua casa, pertences, inclusive criações domésticas; pagamento das côngruas ordinárias à custa da fazenda real.

Enquanto isso, um donatário tinha direito a centenas de léguas quadradas, e um sesmeiro, a três, quase sempre multiplicadas. Mas, cem famílias de índios, só podiam dispor de uma légua. Em fins do século XVII e princípios do XVIII, quando foram maiores as concessões de datas de sesmarias nas margens do curso inferior dos grandes rios cearenses, o Jaguaribe e o Acaraú principalmente, cresceram as disputas de terras entre os brancos, que não se entendiam sobre os limites de suas respectivas propriedades.

conflito entre índios e os invasores de suas terras - Rugendas
Tais contestações terminavam quase sempre, em vias de fato e apelo às armas, que frequentemente contavam com a participação de indígenas, sempre prontos a guerrear e eliminar seus opressores. Tomavam parte a favor de um e de outro dos contendores que os aliciavam por meio de promessas, ou de vantagens reais, que consistiam geralmente em bugigangas, objetos de pouco ou nenhum valor, com que se contentava a indiada. 

Diante desse quadro sinistro e da grande perspectiva de derramamento de sangue, El-Rei mandou ao Ceará o desembargador Cristóvão Suares Reimão para tombar e medir as terras da capitania, tarefa o que o desembargador cumpriu entre 1709 e 1713, quando foi então transferido para o Recife.

Os índios, ainda não catequizados e aldeados, estavam sempre dispostos a se levantarem e a guerrearam, e por todos os meios, se vingarem dos colonos, seus inimigos invasores. Os impostos reais sobre as fazendas de gado, acenderam outros estopins no sertão. Os índios massacravam os brancos, estes massacravam índios, uns e outros de parceria, brancos contra brancos, índios contra índios.

No final do século XVII a Capitania do Ceará ainda era um presidio militar, um covil de malfeitores e ladrões, fugidos das capitanias vizinhas, nômades que viviam do roubo de gado. Em 1708 restavam poucas opções aos indígenas: não queriam habitar as aldeias missionárias, expulsos que foram de suas terras. Rebelaram-se contra os colonos. Arrasaram fazendas, trucidaram quem encontrasse.

família indígena - Debret
A guarnição do presídio militar, da marinha, não pode socorrer a tempo a população do interior. O que dela restou foi acolher-se à sombra do forte, cheia de consternação. Nesse mesmo ano o governador de Pernambuco deu ordem ao capitão-mor do Ceará que movesse guerra visando o extermínio dos índios. O que foi, efetivamente, feito. 

A mortandade foi terrível no Ceará. Praias e sertões foram varridos pelos regimentos do Capitão João de Barros Braga, das cavalarias das várzeas do Jaguaribe. O massacre de índios da missão de são Mateus dos Inhamuns impressionou ao próprio Rei D. João V, que condenou, em carta, a ação dos milicianos às ordens dos governadores de Pernambuco e do Ceará. Perdurou tensa, durante anos, a situação entre colonos e nativos.


Extraído do livro 
O Clã dos Inhamuns, de Nertan Macedo 
imagens meramente ilustrativas  
    

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A Guerra dos Bárbaros

Historiadores da vida política do Ceará emprestam a devida importância a rebeldia indígena contra os maus tratos dos lusos. Senhores absolutos da extensa área geográfica, que ia das areias que emolduram o Oceano Atlântico até o sopé do Araripe, e dotados do sentimento dessa propriedade, os índios não admitiam sequer que esse território fosse devassado. Os Tabajaras na Ibiapaba, os Potiguaras no Baixo Jaguaribe e os Cariris no vale do mesmo nome, cedo se viram atingidos pelo avanço dos estrangeiros, que invadiam suas terras em busca de minérios, e posteriormente colonizá-los, submetendo os nativos ao cativeiro.


Contra essa ocupação, as nações indígenas se levantaram, nos idos de 1630. À falta de meios para enfrentarem sozinhos os invasores de seu território, fizeram aliança com os holandeses, a única forma encontrada para combaterem a interiorização imposta pelos portugueses, cujo processo de ocupação de terras não admitia resistências ou barreiras.
Quando o processo de concessão de sesmarias começou a ser implantado, os nativos sentiram recrudescer nos luso-brasileiros a ganância pela terra, e tornaram mais feroz sua resistência àqueles que consideravam invasores do seu território.

As Sesmarias eram concedidas em áreas férteis, geralmente ao longo dos cursos dos rios. O objetivo da doação, era tornar a terra produtiva e garantir o povoamento dos sertões. Na foto do IBGE, a ribeira do Jaguaribe nos anos 50.

Os títulos de posse que os sesmeiros recebiam, eram via de regra, constantes de três léguas de terras (e faixas adjacentes), e envolviam preferencialmente as áreas mais férteis, marcadas pelos cursos dos rios, justamente o habitat dos índios, onde a caça era farta e a pesca complementava a provisão alimentar.

Opondo-se à invasão dos colonos, a tribo dos Janduins habitantes das regiões das ribeiras do Açu, Mossoró e Apodi, iniciou um conflito em defesa de suas propriedades e de sua própria sobrevivência, dada sua condição de silvícola, em franca desvantagem diante dos invasores apoiados pelo governo colonial. Essa rebelião, que ficou conhecida como “Guerra dos Bárbaros”, teve início em meados dos anos 1680, a ela aderindo imediatamente as demais nações indígenas.

Tal guerra durou quase 50 anos, indo das últimas décadas do século XVII até a segunda década do século XVIII. Por pouco os nativos não destruíram os fundamentos da colonização portuguesa. Ao se rebelarem, os Janduins mataram, saquearam e incendiaram tudo que pertencia aos colonos. Nos anos seguintes a rebelião propagou-se pelo vale do Jaguaribe no Ceará, alcançando os mais distantes sertões e chegando aos territórios de outras capitanias.

O conflito abalou a região. Os colonos, desesperados, faziam dramáticos apelos às autoridades coloniais, que enviaram tropas e mais tropas, compostas por negros e índios aliados dos colonos, por degredados e criminosos, os quais receberiam o perdão por seus crimes por lutar contra os revoltos.

Tentando por um fim ao confronto, o governador geral do Brasil, Frei Manuel da Ressurreição, decidiu, no ano de 1689, requisitar bandeirantes de São Paulo. A tais sertanistas prometiam recompensas vantajosas, como a doação de sesmarias e venda como escravos de indígenas derrotados.

A presença dos bandeirantes, contudo, não pôs fim aos conflitos. Aproveitando-se da rivalidade existente entre os índios, e prometendo presentes, paz e terras, os conquistadores fizeram alianças com determinados grupos de nativos usando-os para combater a rebelião. Também ergueram fortins, como o forte Real de São Francisco Xavier (no local onde hoje se encontra a cidade de Russas), construído em 1695 ou 1696, para melhor combater os índios e proteger os colonos da Ribeira do Jaguaribe.

Forte de São Francisco Xavier da Ribeira do Jaguaribe, (1695/1707). Mandado construir por Caetano de Melo Castro, depois abandonado. (imagem do livro Inscrição Mural-breve história dos fortes do Ceará) 
   
Dentre os bandeirantes requisitados para o combate aos indígenas, estava Manuel Alves Morais Navarro, um dos maiores matadores de índios da história do Brasil. Em 1699, Navarro reuniu os Baiacus aldeados – que o tinham ajudado a combater outros índios – prometendo-lhes ricos presentes e, enquanto dançavam, desarmados, o paulista ordenou um repentino ataque com armas de fogo. Foi uma tragédia: morreram cerca de 500 índios, e outros 200 foram levados como escravos para o Rio Grande do Norte.

Esse levante dos indígenas, que ensanguentou grande parte do Nordeste colonial, foi um dos mais graves conflitos raciais ocorridos no Brasil seiscentistas, segundo o historiador Carlos Studart Filho, tendo se alastrado pelas capitanias do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Somente depois de muita luta, de grandes derrotas impostas aos capitães-mores e seus exércitos de infantes, os Janduins e seus aliados foram vencidos, para tranquilidade de Sua Majestade, na corte de Lisboa e para sossego do governador-geral, em Pernambuco.

Mas a grande batalha dos indígenas pela posse de suas terras continuou. No ano de 1706, o governo da colônia  autorizou o fornecimento de armas a todos os brancos moradores da Capitania do Ceará visando à autodefesa. Em 1713, os índios realizaram mais um grande levante. Baiacus, Anacés, Jaguaribaras, Ariús, Arariús, Jenipapos, Canindés e Tremembés, reunidos, atacaram Aquiraz, então sede da capitania, ajudados por muitos dos índios aldeados e que “serviam” aos brancos há anos.

No confronto em Aquiraz, cerca de 200 habitantes morreram defendendo a vila, enquanto os demais moradores fugiram desesperadamente, sob flechas, lanças e tacapes, buscando a proteção dos canhões da fortaleza de N. S. da Assunção, em Fortaleza.

Aquiraz - Casa de Câmara e Cadeia - foto IBGE - anos 50

Aquiraz só não foi completamente destruída devido à ação do coronel João de Barros Braga, grande latifundiário das margens do Jaguaribe, que liderava a milícia local, a qual se compunha basicamente por mestiços e índios aliados, todos vestidos de couro como os vaqueiros, bem armados e especializados em combates.

Soubera o coronel do levante indígena e marchara com seu regimento para socorrer Fortaleza, fazendo os índios recuarem até as margens do Rio Choró (no trecho que abrange os municípios de Pacajus, Beberibe, entrando em Aracati), travando uma monumental batalha que durou um dia inteiro de encarniçado combate. Os índios acabaram derrotados. Foi um golpe mortal na confederação indígena.

Terminada a guerra de 1713 – conclui o historiador Carlos Studart Filho – estava morto para sempre o sentimento de altivez e rebeldia do nativo cearense. Encerrava-se a fase heroica da resistência armada dos filhos da terra aos invasores brancos.

Fontes:
Anuário do Ceará 1979/80
História do Ceará, de Airton de Farias 

sábado, 28 de maio de 2016

Os Fundadores do Ceará - Parte II (Final)

A Estrada Geral do Jaguaribe partia de Aracati, um antigo porto de barcos, que se tornaria o mais destacado empório comercial da Capitania. Cortando inúmeras fazendas e currais, dirigia-se à região meridional do Ceará, na Chapada do Araripe, continuando até as terras pernambucanas. Essa estrada tornou-se a mais importante via de acesso aos sertões do Ceará colonial.

A progressiva conquista dos sertões fez-se de espaço a espaço, à força bruta, com as famílias seguindo os rastros do gado vacum. Os colonos adentravam regiões ainda virgens – os sertões de fora – nas zonas litorâneas, vindos do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, e nos – sertões de dentro – aqueles mais interiorizados, oriundos da Bahia e Sergipe. 

Os primeiros desbravadores das terras na ribeira do Jaguaribe foram os sesmeiros de 1681. Quinze nomes dos chamados “Homens do Rio Grande do Norte”, provavelmente parentes entre si, obtiveram sesmarias ao longo do Rio Jaguaribe, indo do Aracati ao Boqueirão do Cunha, no alto sertão. 

Rio Jaguaribe na cidade do mesmo nome 

Entre essa gente, dotada de “civilidade e polidez” estava a família Gracismã, cujo patriarca, o Comissário-de-Cavalaria, Teodósio de Gracismã é tido como um dos primeiros povoadores da ribeira do Jaguaribe, já residindo nessa região em 1683. Alguns historiadores consideram Teodósio de Gracismã descendente e provavelmente, filho do holandês Joris Garstman que na ocupação flamenga desempenhou relevante papel no Nordeste brasileiro. 

O tenente-coronel Garstman foi em seu tempo, a maior autoridade holandesa do Castelo de Keulen, depois Forte dos Reis Magos, no Rio Grande do Norte. Por ordem de Mauricio de Nassau, conquistou o Ceará na campanha de 1637. Era de sua propriedade o Engenho do Cunhaú, comprado por 60 mil florins em 1637, em terras potiguares e que marcou a história colonial pelo hediondo massacre nele realizado contra seus moradores, pelos índios comandados por Jacob Rabi. Garstman deixou descendência no Brasil, de seu casamento com uma portuguesa, possivelmente da família Abreu, antes de 1640.

Aracati - início do século XX 

São os Gracismã ascendentes dos Costa Lima – fundadores do Aracati – dos Pontes Vieira, dos Nogueira Borges da Fonseca, dos Dias da Rocha, dentre outros. Entre Aracati e Icó outras sesmarias foram doadas aos descendentes de Jerônimo de Albuquerque, o Adão Pernambucano, pai de 35 filhos conhecidos e cadastrados como ascendentes da maior parte das antigas famílias nordestinas. 

Os Albuquerque, os Cavalcante, os Holanda, e outros se encontram registrados desde aqueles primeiros tempos, no maior documento genealógico do Nordeste brasileiro, a Nobiliarquia Pernambucana de Borges da Fonseca. Destacam-se velhos troncos coloniais: Porto Saboia – de origem italiana, Figueiredo, Caminha, Castro e Silva, Barbosa, Alves Ribeiro, Antunes de Oliveira, Fidelis Barroso, Pamplona, Amorim Garcia, Costa Barros, Nogueira, Ribeiro, Bessa, Maciel, Gurgel do Amaral, Barreto, Ferreira, Pereira de Brito, Pinheiro, Bezerra de Menezes, Uchoa, Carvalho, Lira, Pereira, e muitos outros ligados ao povoamento daqueles territórios. Segundo o historiador Carlos Xavier Paes Barreto, a família Bandeira de Mello é uma das mais antigas do Brasil. “Com Duarte Coelho, 1º Donatário de Pernambuco, vieram seus primos, Felipe e Pedro Bandeira de Melo”.

No Boqueirão dos Cunha estabeleceu-se no final do século XVII, a família do fidalgo português Pereira da Cunha, mais tarde ligado aos Alencar. Luciano Cardoso de Vargas, deixou incontável descendência espalhada pelas terras jaguaribanas. A esta se vincularam os Vidal de Negreiros, e os Leitão Arnoso, que constituem a linhagem materna da família Gadelha.

Exercendo a medicina, na qual era licenciado, dono de botica e de colégio em que estudavam os rapazes ricos do sertão, Luciano Cardoso de Vargas residiu com sua mulher Maria Maciel de Carvalho, no arraial de São João, na zona jaguaribana. Este casal foi ascendente da família Sombra – de Russas e Maranguape – Vieira da Costa, Ramalho, Maia, Alarcon, Monteiro de Oliveira, Gondim, Nascimento, Caracas, Fiuza Pequeno, Campos, Cabral, Monteiro do Nascimento, Almeida e Castro, Pires e Maia – de Russas, Pinto Lopes, Guerreiro, Chaves, Lessa e Paula Pessoa. 

Região de caatinga esparsa com casas de adobe na margem da estrada e, ao fundo, a Serra de Camará que faz divisa entre Jaguaribe e Icó. 

Os Távora descendem do sargento-mor Manoel Peixoto da Silva Távora, que obteve sesmaria nas adjacências do Rio Jaguaribe em 1723, deixando numerosa linhagem. O sargento-mor, alcunhado de Peixotão por sua compleição física avantajada, figura na citação de Gustavo Barroso, ao lado do Domingão de Guaiuba, como os gigantes do Ceará Antigo, “tão avantajados no físico quanto no moral”.
 
Na região de Morada Nova, radicaram-se os Ferreira, os Correia Vieira, os Gomes Barreto, os Rodrigues Machado, os Girão, os Pimenta de Aguiar, os Rocha Pitta, os Carneiro de Souza. 

Os Feitosas foram os primeiros habitantes do médio Jaguaribe e ficaram famosos no tempo do Ceará Colonial por suas contendas com os Montes. Essas duas famílias, a primeira originária de Pernambuco e a segunda de Alagoas, passaram a morar no Ceará nos 10 últimos anos do século XVII, nas imediações de Icó – nesse tempo um arraial quase despovoado. A disputa entre os dois poderosos clãs dividiu a administração da capitania, quando a Câmara era sustentada pelos Montes e a Ouvidoria pelos Feitosas. 

No Icó radicaram-se também os Ferreira Lima, os Mendonça, os Fernandes Vieira, os Leal, os Fiuza, os Bastos de Oliveira, os Pinto Bandeira, os Pinto Accioly, e os Pinto Nogueira. Conforme registro de Raimundo Girão, esses últimos Pinto eram os irmãos José Vitorino e Joaquim Pinto Nogueira, portugueses, moradores em Olinda, que atraídos por interesses comerciais vieram para o Icó e ali enriqueceram. Seu estabelecimento viria a ser a melhor loja de fazendas e armarinhos, ferragens e louças que já se conheceu nos sertões do Ceará.

No Cariri se estabeleceram as famílias Alencar, Gonçalves, Sampaio, Arnault, Figueiredo Pereira e Bezerra de Menezes. Entre os representantes da corrente baiana cita-se Antônio de Sousa Goulart bisavô da heroína Bárbara de Alencar, bandeirante que servia à poderosa casa dos Garcia D’Ávila. A família dos Garcia D’Ávila, uma das mais poderosas do Brasil colonial, desbravou o sertão nordestino por mais de dois séculos.

Para o Cariri a cana de açúcar veio logo com os primeiros povoadores, dentre esses, Antônio de Sousa Goulart, que desde 1718, moía cana em seu engenho, no Sitio Salamanca, certamente o primeiro engenho plantado no Cariri. Composto na época pelas terras dos sítios Lambedor, Lama e Brito, Salamanca deu origem à cidade de Barbalha.

Cortando a bacia do Jaguaribe, a Estrada Nova das Boiadas estendia-se do Piauí até Pernambuco. Era a corda de um imenso arco formado pelo velho caminho que beirando o mar, unia Camocim ao Recife. Essa Estrada Nova concorreu para povoar a zona interiorana cearense, com moradores das capitanias vizinhas, reforçando assim, o isolamento, por muito tempo, da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Este longo percurso bipartia-se em Quixeramobim: o caminho do Cavalo Morto levava a Crateús e daí para o Piauí; o outro, tomando o rumo noroeste, chegava-se a Sobral.

Em Quixeramobim estabeleceram-se os Ferreira Santiago, os Ramalho, os Souza Pimentel, os Araújo, os Maciel, os Saraiva Leão, e mais tarde, os Câmara, vindos do Rio Grande do Norte. Em Quixadá floresceram as famílias Lemos de Almeida e Queiroz, Facó, Barreiras, Marinho Falcão, Barreira Nanan, e Ferreira da Mota.

Na zona sobralense salientou-se a descendência de Manoel Vaz Carrasco, pai das lembradas sete irmãs, origem das famílias Montenegro, Góes, Gomes de Sá, Vasconcelos, Aguiar Oliveira, Porto, Ferreira da Ponte, Alves Linhares, Araújo Costa, Uchoa, Prado e Parente. Nessa zona fixaram-se os Monte, os Xerez, os Lopes Freire, os Frota, os Filgueiras de Melo, os Furtado de Mendonça e os Rodrigues Lima.

Varando os tabuleiros agrestes, aqui e ali reverdecidos pelos aluviões dos riachos, a Estrada da Caiçara levava à orla marítima os moradores da ribeira do Acaraú, projetando-se também para o interior, em direção às terras ressequidas de Santa Quitéria. Deixou grande descendência no Vale do Acaraú, Manoel Ferreira Fonteles. 

Em Santa Quitéria vicejou o clã dos Pinto de Mesquita. Nos sertões de Crateús, residiam os Mello – apoiados pelos Feitosas – e os Mourão – aliados aos Carcará, disputando o poder da região. Também ali residiam outras famílias que povoaram as fronteiras do Ceará com o Piauí, gerando guerreiros e pastores, vaqueiros, políticos e intelectuais.

 Carta Geográfica do Seara. Fonte: Arquivo Histórico do Exército – Divisão de História
Praça e Igreja Matriz de Quixeré

As missões dos padres jesuítas tiveram importante papel na colonização dos silvícolas. O aldeamento das vizinhanças do Forte se deu em missões situadas no Arronches (Parangaba), Paupina (Messejana), Monte-Mor, o Velho (Pacajus) e Soure (Caucaia). Outras se formaram mais para o interior. Cada aldeamento ocupava espaçosa praça diante de uma igreja. Essas praças ainda podem ser identificadas em muitas cidades, como Baturité, Quixeré, Parangaba, Messejana, Caucaia, Iguatu, Viçosa, Crato, Barbalha, Missão Velha, Missão Nova e outras.

Fonte:

Ideal Clube – história de uma sociedade: memórias, documentos e evocações, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do acervo do IBGE

sábado, 21 de maio de 2016

Os Fundadores do Ceará - Parte I

A Estrada Velha foi o mais importante e antigo caminho do Ceará seiscentista. Estendia-se como parte de um grande arco, por toda a orla marítima cearense, com extremo Oeste no Rio da Cruz e no lado oposto pela Angra dos Negros. Por esta estrada se chegava ao Maranhão e caminhando em direção oposta, alcançava-se as capitanias vizinhas do Rio Grande, Paraíba e Pernambuco.


A posse de terra pelos colonos era legitimada pelas cartas de Sesmarias – concessões de terras doadas pelo governo para os que tivessem além de posses e bens, família e agregados. Geralmente as terras doadas ficavam próximas dos rios. Datadas a partir dos últimos decênios do século XVIII, as primeiras sesmarias foram distribuídas próximas as praias, seguidas de outras nas zonas interioranas, no roteiro das águas, demarcadas de rio em rio.

 Primeiras Vilas nas bacias hidrográficas do Ceará, 1699-1823


Algumas se tornaram fazendas e currais congregando famílias – as primeiras inscritas na Genealogia Cearense – nos núcleos mais característicos de nossa formação social. As informações genealógicas ligadas a história esclarecem os fatos e fornecem as biografias de homens, segundo Raimundo Girão, coisa indispensável à obtenção da verdade histórica. 


Os núcleos familiares permaneciam sob o comando de um patriarca daquela rude vida coletiva – o rico proprietário – logo mais transformado em chefe político num tempo que o regionalismo significava mais que o nacionalismo. As outras famílias da região ou a ele se submetiam, compondo alianças familiares, ou se tornavam rivais.

Excluindo aquela deixada em abandono por Martim Soares Moreno – o primeiro a efetivar a conquista da Capitania do Ceará – a mais antiga sesmaria cearense, com concessão registrada em documento, pertenceu a Felipe Coelho de Moraes, nas proximidades do forte. Este já se encontrava por ali desde 1662, constituindo a primeira família do Ceará, no início da real dominação portuguesa, após a retirada dos holandeses.

mapa da Capitania do Ceará, dividido pelo campo iluminado de cor. Acervo do Arquivo Histórico do Exército. 

Cem anos depois, no final do século XVIII, a antiga Estrada de Taquara traçada pelos holandeses em direção à Maranguape, foi palmilhada pelo capitão luso Joaquim Lopes de Abreu com família já constituída na Vila de Fortaleza de N.S. Da Assunção. O capitão, obtendo algumas sesmarias, então devolutas, incorporando-as a outras que havia comprado, constituiu em Maranguape uma espécie de feudo para si e sua família.

Essas sesmarias abrangiam Sapupara e Jereraú. Nesta última instalou a sede administrativa de seus vastos domínios. Homem de largos recursos, Lopes de Abreu foi muito influente na Província.  Exerceu as funções de juiz ordinário, juiz de órfãos de Fortaleza, vereador por esta cidade e primeiro gestor do município durante o Império. Compôs a Junta Tríplice que governou o Ceará em 1820, lavrando neste ano, como presidente da Câmara da Vila de Fortaleza, o Termo de Solicitação ao Rei, da elevação desta vila à categoria de cidade. Presidiu e integrou em Fortaleza, a comissão Extraordinária que aclamou o Imperador Pedro II, em 29 de maio de 1831.


Nas terras de Columinjuba, cedidas por Lopes de Abreu ao agricultor de sua confiança João Honório de Abreu, nasceria em 1853, Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, neto de João Honório.

No oratório de Jereraú realizaram-se os casamentos dos filhos do Capitão Lopes de Abreu; dois dos seus netos, filhos do Major Agostinho Luiz da Silva, português de Sintra, uniram-se as famílias Mendes Smith de Vasconcelos e Correia de Mello.

Os Correia de Mello e seus parentes Amaral e Sombra desenvolveram a agricultura e industrializaram seus produtos, tornando Maranguape um verdadeiro celeiro para Fortaleza, de vital importância à sua subsistência. O Comendador João Correia de Mello, açoriano da Ilha Terceira e agente-consular de Portugal em Maranguape, pioneiro em 1876, na exportação de laranja para a Europa, favoreceu também o desenvolvimento de Maranguape, trazendo famílias açorianas visando uma melhor utilização de suas terras produtivas.


Dois irmãos do Comendador, José e Antônio Correia de Mello, casaram-se com as filhas de Domingos da Costa e Silva. O famoso "Domingão de Guaiuba", a quem Gustavo Barroso dedicou um capítulo do seu livro “A Margem da História do Ceará”. Domingão, tio do poeta Juvenal Galeno, pertencia a uma das famílias mais importantes da província. Era irmão da Baronesa de Aratanha e de duas outras casadas na família Justa. Toda essa parentela se entrelaçava com donos de sítios nas serras de Maranguape, Aratanha e Pacatuba. Entre os proprietários de Pacatuba encontravam-se as famílias Pinheiro, Medeiros, Cabral, Correia de Mello, Campos, Spindola, Amaral, Albano, Amora, Coelho, Silveira Gadelha, Fernandes Campos, Lopes, Botelho, Siqueira, Soares e Leite. 


Na Serra de Baturité, iniciou-se o cultivo do café, que adquiriu vulto após 1845, com a fixação da população sertaneja que viera fugida da seca. Uma pequena aristocracia foi se formando entre os cafezais dessas serras. Em Baturité sobressaíram as famílias Linhares, Caracas, Holanda, Ferreira Lima, Queiroz, Sampaio e Dutra.


Mais próximo ao litoral disseminou-se a prole do português Manoel Lopes Cabreira, um dos pioneiros devassadores dessas terras, vinculando-se aos clãs Costa Gadelha, Baima, Lopes, e Queiroz, povoando Aquiraz, Cascavel e mais tarde, o maciço de Baturité. Essa descendência ligou-se as famílias Pimentel, Caracas, Castello Branco, Silveira, Torres e Barros Leal. 


O clã Barbosa Cordeiro, de origem afidalgada, transferiu-se de Baturité para Canindé, residindo na Fazenda São Pedro; também para Canindé foram as famílias Vieira da Costa, Santos Lessa, Pinto de Magalhães, Cruz Saldanha, Cordeiro da Cruz, Alves Ribeiro, Gondim, Rodrigues Campelo e Cordeiro da Rocha. 


 Forte de São Sebastião na Barra do Ceará
Encaminhando-se para o lado ocidental de Fortaleza, em Caucaia, instalaram-se os Rocha Motta, Moreira de Souza e Pereira Façanha. A região de São Luiz do Curu, onde seria fundada a cidade de Imperatriz, hoje Itapipoca, povoou-se com as famílias Pires Chaves, Álvares, Cordeiro, Agrela, Jardim, Telles de Menezes, Tomé Cordeiro, Rodrigues Chaves, Ribeiro da Costa, Castro Vianna, Santos, Barroso, Braga, Pereira Pinto, Escócia de Drummond, Moura Rolim, Teixeira Montenegro e outros, que enriqueceram com o algodão de Uruburetama.

fonte:
Construtores da Terra, do livro Ideal Clube, História de uma Sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira