sábado, 21 de setembro de 2013

A Colonização dos Inhamuns

Capela de São Pedro em Parambu, anos 50

A história conta que a colonização do Ceará começou pelo litoral, entre os atuais limites de Fortaleza e de Aracati. O povoamento, porém, teve início no Cariri, na segunda metade do Século XVII, ampliando-se em direção aos Inhamuns já nos primórdios do Século XVIII. "O povoamento do Ceará começou pelo Cariri, em Municípios mais próximos da Capitania de Pernambuco (a mais importante daquela época) e pelo sertão dos Inhamuns, onde a pecuária encontrou ótimas condições para se expandir, desde as cabeceiras dos rios Trici e Carrapateiras, formadores do Rio Jaguaribe, até depois dos rios do Jucá e Umbuzeiro, também seus afluentes", destaca o memorialista Pedro Rocha Jucá.
Graças às fartas chuvas do inverno, à criação de gado consolidou a ocupação econômica e social dos Inhamuns, quase simultaneamente com o fértil vale do Cariri, onde já prosperavam os engenhos de rapadura e as casas de farinha que deram ao Crato a liderança política do Ceará colonial.


Praça da matriz em Parambu - anos 50

Segundo os historiadores, os coronéis Francisco Alves Feitosa e Lourenço Alves Feitosa chegaram ao sertão dos Inhamuns por volta de 1710 e ali estruturam a maior comunidade rural da Capitania do Ceará. O comissário Lourenço Alves Feitosa chegou a ter 22 sesmarias e com o seu irmão Francisco Alves Feitosa dominaram uma área de aproximadamente 30.000 quilômetros quadrados. 
Nessas propriedades floresceu o historicamente conhecido "Clã dos Inhamuns", uma das maiores parentelas da História do Ceará em todos os tempos. O coronel Francisco Alves Feitosa deixou considerável descendência, tornando-se o Patriarca da Família Feitosa nos Inhamuns.
O coronel Francisco Alves Feitosa fundou a sua primeira fazenda, a fazenda Barra do Jucá, na margem direita do Rio Jaguaribe, próximo a Arneiroz. O coronel Francisco Alves Feitosa viveu os seus últimos dias na fazenda Cococi, onde inaugurou uma capela em 1748, seguindo o modelo da igreja de Feitosa, em Portugal, que tem um altar lateral junto ao arco-mor.
Predestinada à pecuária, a região dos Inhamuns foi o segundo polo econômico da Capitania do Ceará, depois dos êxitos alcançados pela agricultura do fértil Cariri. Na "Revista do Instituto do Ceará", de 1907, consta que "o terreno de Inhamuns é mais seco e pedregoso, composto de pequenas serras e alquebradas, e que, contudo, não deixa de produzir abundantes pastagens, sendo os seus gados os mais propícios para fazerem longas viagens, por isto transportado quase sempre para a Capitania da Bahia".
A palavra Inhamuns deriva de Anhamum, que em tupi significa "Irmão (Mu) do Gênio Mau da Floresta (Anhan, de Anhaga)". Anhamun foi o principal cacique dos aguerridos índios Jucás. A história deles, conforme disse o pesquisador Carlos Studart Filho, foi "violenta e trágica". Vale citar que "Anhamum" é o título de um dos mais emocionantes capítulos do romance "O Sertanejo", de José de Alencar.
Toponímica
O sobrenome Feitosa é classificado como sendo de origem toponímica, isto é, pertence ao grupo de sobrenomes que deriva do nome do lugar onde nasceu ou possuía terras o progenitor da família. Deriva do lugar denominado Feitosa e localizado na Freguesia do Conselho e Comarca de Ponte do Lima, diocese de Braga, Porto, Portugal.
A família Feitosa era a mais importante e a mais numerosa dos Inhamuns desde o início do povoamento da região, onde se projetou graças à criação de gado, como a maior expressão econômica e política.

Cococi, a cidade fantasma dos Inhamuns 



"Lá estão as nossas raízes e também as de outras famílias aqui da região". As palavras do motorista Vital Feitosa denotam as hipóteses de historiadores, pesquisadores e curiosos sobre as origens da colonização no Estado pelos Inhamuns, iniciadas na antiga cidade de Parambu, e também que o processo de colonização da região dos Inhamuns passou por Cococi.
Descendente de uma das famílias que povoou a região, Vital se engaja junto com outros membros dessa nova geração para preservar as tradições locais, especialmente ligadas à "cidade fantasma". Extinta em 1968, Cococi começou como vila, passou a ser distrito de Parambu e depois foi emancipada após a instalação da família Feitosa naquela região.



A iniciativa e a boa vontade de Vital e outros jovens descendentes do "clã" que fundou Cococi ainda no século XVIII em preservar as tradições do lugar são relevantes e concretas, afinal, anualmente, muitos deles e a população vêm comemorar Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cococi. No entanto, ao se visitar a antiga cidade, composta hoje somente por prédios em ruínas, mato invadindo os casarões abandonados e apenas duas casas de pé e habitadas, afora a Igreja, construída por volta de 1740, instantaneamente aflora um sentimento maior de preservação e conservação. Merece, portanto, atenções de órgãos que gerenciam o patrimônio histórico para que isso ocorra.

Escola Eufrásio Alves Feitosa

Além do prédio da Igreja, outra construção se destaca na paisagem antiga e deteriorada da "cidade fantasma": a Escola Eufrásio Alves Feitosa. O professor Leonardo Alves ensina de forma multisserial aos 14 alunos de diversas faixas etárias que são matriculados na unidade. A distância também é o grande desafio dos estudantes, devido ao tamanho do distrito. Boa parte deles saí de casa às 10 horas da manhã para assistir às aulas a partir das 13 horas. 
A distância, o isolamento, o silêncio e a bela arquitetura dos prédios e casarões chamam a atenção. Chegar ali após a distância, a abertura de inúmeras cancelas, paisagem desértica, dificuldade de acesso e curiosidade faz uma estranha sensação de alegria brotar no coração. A cidade de Cococi possuiu apenas dois prefeitos, o Major Feitosa e Leandro Custódio, ambos da mesma família. 



No recenseamento geral de 1950, o atual município de Parambu e seu distrito Cococi, eram ambos distritos de Tauá, do qual foram posteriormente desmembrados e suas populações totalizavam 15.458 habitantes. Já a projeção feita para 1° de julho de 1957, estimava uma população de 21.313 habitantes, sendo 17.960 em Parambu e 3.353 habitantes em Cococi. 92,54% dessa população residia na área rural. 


Construída em 1740 a igreja é o único imóvel realmente preservado em Cococi       

A história popular conta que o Major Feitosa, no seu segundo mandato (terceiro e último do Município), ao receber verbas para investimento teria utilizado indevidamente o dinheiro para compra de gado. Então surgiram os desentendimentos entre a própria família. O fato repercutiu no Estado e União. E a Ditadura Militar teria decidido extinguir o Município. Revoltados, a família Feitosa e seus moradores teriam abandonado a cidade, situação que permanece até os dias atuais.
Lendas e histórias de fantasmas e aparições permeiam o lugar. Em Parambu, quando se fala em Cococi, há admiração e um certo receio. A frase "você vai lá mesmo?" é expressa com frequência pelas pessoas nos órgãos, mercado e feiras.
O temor se explica pela distância e dificuldade de acesso, mas também pelas histórias. "Há muitas lendas e relatos de aparições no cemitério e até explosões em túmulos, mas nada devidamente comprovado. Os moradores da região comentam sobre a lenda da serpente", comenta Albetiza Noronha, do Museu de Parambu.


Foto de Thiago dos Passos disponível em http://www.panoramio.com/ 

Para a moradora Clenilda Lô, os fantasmas não passam de comentários sem fundamento. "As lendas e os fantasmas não existem. Moro aqui e nunca vi nada", garante.
O professor Leonardo, que mora há 15km de Cococi e vem todos os dias de motocicleta, também assegura que não existem fantasmas no lugar. Mas já teve medo. "Tinha receio de vir aqui no princípio. Depois, acostumei. Tudo isso são apenas comentários", acredita. E até arrisca uma explicação científica para a explosão do túmulo, a qual o imaginário popular atribui a fenômenos sobrenaturais. "Pesquisadores vêm aqui de vez em quando, desde esse acontecimento, e evidenciaram a existência de minérios de ferro, cobre e gás natural".
A "cidade fantasma" já foi tema de reportagem de várias redes de televisão e jornais e também serviu como locação de filmes, o que contribui para atrair curiosos.

fonte: 
Diário do Nordeste
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros
fotos de Cococi: Diário do Nordeste

domingo, 8 de setembro de 2013

Os Primeiros Ouvidores da Capitania do Ceará


Até a criação da vila a administração da capitania era feita  por três instâncias de poder: o capitão-mor  governador, a ouvidoria e a câmara de vereadores. Os capitães-mores governadores recebiam instruções verbais de Pernambuco e concentravam todo o poder nas mãos. Eram arbitrários e provocavam inúmeros conflitos ao intervir  e perseguir outras autoridades.  Os Ouvidores tinham a função de fiscalizar a administração e aplicar a justiça na capitania. O ocupante do cargo deveria ser formado em Direito e era nomeado pelo rei para um período de três anos.

Casa da Câmara e Cadeia de Aquiraz (foto Fátima Garcia)

A Ouvidoria Real da Capitania do Ceará foi criada apenas em 1723, com sede na Vila de Aquiraz. Até então as pendências judiciais e administrativas eram resolvidas pelos Ouvidores de Pernambuco ou da Paraíba. As Câmaras detinham funções de ordem econômica, administrativa, econômica, policial e judiciária, como fiscalizar a construção de estradas, pontes e calçadas, regulamentar as feiras, os mercados e o trânsito, a arborização das ruas e praças e outras atividades relacionadas com o bem comum.
Nos primórdios da Capitania do Ceará, subordinada à de Pernambuco, como a da Paraíba e a do Rio Grande do Norte, havia um ouvidor para as três. Por decisão do Conselho Ultramarino de 8 de janeiro de 1823, essa Ouvidoria foi desmembrada, criando-se uma magistratura exclusiva para o Ceará.
O primeiro desses juízes foi José Mendes Machado, conhecido por Tubarão, personagem como outros de sua ordem, ávidos de dinheiro, bacharéis de Coimbra antes da reformulação da sua universidade por ato do Marquês de Pombal.
Tomou posse do cargo em 23 de agosto de 1723. Sua posse foi seguida de sérias desordens. Seus primeiros atos desagradaram e surgiu em Aquiraz, então sede da capitania, um partido de descontentes que pretendia seu impedimento do cargo, querendo que continuasse o ouvidor da Paraíba. Logo em 1724 houve grandes desordens na capitania, estando no governo o capitão-mor Manuel Francês. Parte dos habitantes de Aquiraz, tendo à frente o juiz ordinário Zacarias Vital Pereira, opôs-se ao exército do ouvidor Mendes que o mandou prender. Retirando-se Mendes para o Acaraú, de onde ordenou várias outras prisões, exacerbando os descontentes.
Por este tempo havia um conflito entre as famílias Monte e Feitosa, por questões de terras no alto Jaguaribe. O Ouvidor Mendes Machado dirigiu-se ao Cariri e expediu ordem de prisão contra os Montes, incumbindo da diligência o capitão João Ferreira da Fonseca, que se reunindo a Francisco Alves Feitosa, chegado ali dos Inhamuns com 800 índios, cometeu inúmeras violências.


casa do capitão-mor localizada em Aquiraz , construída em meados do século XVIII para servir de residência para as autoridades da capitania, sendo seu primeiro morador o capitão-mor Manuel Francês, fundador da vila de fortaleza.  foto do site 

Os adversários do ouvidor se declararam a favor dos perseguidos e o senado da câmara e o capitão-mor Manuel Francês exigiram que Mendes se retirasse da capitania. Não sendo atendidos, os aliados dos Montes se reuniram, a título de representarem contra a violência do ouvidor, ocorrendo um conflito em que morreram 30 pessoas. Continuando as desordens e com receio da volta que o ouvidor Mendes voltasse ao Aquiraz, a Câmara exigiu do capitão-mor Manuel Francês, que o mandasse prender. O ouvidor Mendes, em vista dessa resolução, deixou  a capitania do Ceará. Após esse fato, o capitão-mor Manuel Francês empregou todos os meios a seu alcance para desarmar as duas famílias combatentes e seus partidários.

Fonte:
Ceará (Homens e fatos)  de João Brígido       
História do Ceará, de Airton de Farias

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Barão do Crato e seu Romance Proibido

Bernardo Duarte Brandão – o Barão do Crato – nasceu em Icó, no dia 15 de julho de 1832, filho de Bernardo Duarte Brandão, um rico fazendeiro proprietário de terras da Ribeira dos Icós e Jacinta Augusta de Carvalho Brandão.  O que distingue a história do Barão do Crato de outros poderosos que imperaram em terras do Nordeste naqueles tempos antigos, é a sua fantástica história de amor por sua irmã, Maria do Rosário.

Sobrado do Barão do Crato (foto O Povo)

Igreja matriz de N. S. da Expectação em 1952 - ao lado o sobrado do Barão do Crato (foto IBGE)

Ainda jovem o Barão vai à Europa para complementar seus estudos; quando viaja, sua irmã ainda é uma criança; quando retornou encontrou uma linda mulher. O barão se apaixona por ela, é correspondido. Na tentativa de superar os obstáculos morais e sociais, o barão vai até o Vaticano, pedir permissão ao papa para casar-se com a irmã. O Papa nega a autorização, dizendo que a igreja não abençoaria tal união. Derrotado e frustrado, o barão resolve permanecer solteiro, no que é seguido pela irmã. A frustração amorosa e o seu amaldiçoado amor por Maria do Rosário, fizeram do barão um homem amargurado e cruel.  Nos fundos do casarão onde residiu, foram encontrados dentes que foram arrancados nas longas sessões de tortura a que seus escravos eram regularmente submetidos, e pedaços de ossos de corpos humanos que se presume também tenham sido de escravos do Barão.

Igreja do Monte N. S. da Conceição em 1962 (foto IBGE) 

Temido e antissocial, o Barão não frequentava a sociedade e estava sempre envolvido em disputas políticas. Mas uma mulher, Dona Glória Dias, descendente do Visconde do Icó resolveu enfrentá-lo. Insatisfeito com duas tamarineiras que serviam de abrigo e sombra para viajantes, incomodado com o barulho e o mau cheiro dos animais o Barão ordenou que as árvores fossem arrancadas. Dona Glória adquiriu uma carroça de pólvora e informou ao Barão que caso fizesse isso ela faria seu sobrado voar pelos ares. Sabedor que promessa de Glórias Dias era coisa certa de ser cumprida, o Barão recuou.
sobrados em Icó - 1962 (foto IBGE)

A carroça de pólvora foi doada para os festejos do Senhor do Bonfim, para serem transformados em fogos de artifício. Desta briga nasceu a tradição de comemorar todos os anos com muitos fogos, o dia 6 de janeiro, em homenagem ao santo.
Bernardo Duarte Brandão morreu com 58 anos, em Paris, em 19 de Junho de 1880, quando de viagem à Europa em busca de tratamento. Seu corpo foi transportado embalsamado de Paris para Fortaleza onde está sepultado no Cemitério São João Batista.
Há quem diga que o romance com a irmã nunca existiu, que tudo não passou de intrigas e difamações criadas e divulgadas por adversários políticos, e publicadas em jornais de Fortaleza. 

Teatro da Ribeira dos Icós(foto Nirez)
 
diz a lenda que por baixo do palco do teatro, há uma passagem secreta que levaria a um túnel com destino a casa do Barão do Crato. Há sim uma marca de uma passagem fechada por tijolos, mas o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – nunca autorizou escavações que pudesse confirmar - ou não - a história.  

fontes:
http://www.motonline.com.br/as-lendas-segredos-e-os-misterios-de-ico-ceara/
http://iconacional.blogspot.com.br/2008/05/bernardo-duarte-brando.html


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Indígenas do Ceará: A Lei de Terras



No ano de 1850 a monarquia brasileira baixou a Lei de Terras. Por essa lei as terras dos índios não eram devolutas – isto é, não poderiam ser consideradas desocupadas – constituindo-se a propriedade um título originário (ou seja, a propriedade os índios sobre suas terras viria do simples fato deles serem indígenas).  Portanto, as terras dos antigos aldeamentos pertenciam aos nativos.
A Lei de 1850, no entanto, foi mais um golpe para os povos naturais. As elites e mesmo o Estado começavam então a usar diversos artifícios legais para declararem extintas as populações dos aldeamentos e com isso liberarem as terras para os latifundiários. Passou-se a considerar devolutas terras dos antigos aldeamentos, desde que despovoadas pelos índios. Em 1860, o governo foi autorizado a aforar ou vender essas terras. Então muitos presidentes das províncias, que antes solicitavam verbas para sustentar os seus índios, informavam agora que não existiam mais índios em suas províncias, ou que certos aldeamentos eram ocupados por falsos índios ou mestiços civilizados. Após um levantamento feito pela Repartição Geral das Terras Públicas, a partir de 1855 muitas aldeias habitadas por índios foram desse modo, declaradas devolutas.
Assim a apropriação pelos brancos das pouquíssimas terras indígenas restantes foi “legalizada”. O presidente do Ceará José Bento da Cunha Figueiredo Junior, em seu relatório à Assembleia Legislativa em 1863, declarava extintos os índios locais, pois todos já estariam civilizados e miscigenados por completo com a população, formando os caboclos.      Os nativos cearenses perdiam assim, o direito de existir. Mas eles não desapareceram! Claro que houve miscigenação, e boa parte dos nativos foi morta,  vitimas da violência, dos assassinatos, das doenças e da exploração feita pelos brancos. Mesmo assim, os remanescentes continuaram existindo, sufocados, silenciosos muitas vezes, apesar do que foi propagado por décadas pelos meios oficiais, e mesmo intelectuais segundo os quais não havia mais índios no Ceará. 



Apenas nos anos 1980, no contexto da luta e mobilização da sociedade contra a Ditadura Militar (1964-1985), o movimento indigenista local se rearticulou, com o apoio do então arcebispo de Fortaleza Dom Aloísio Lorscheider, que teve a coragem de enfrentar certos segmentos conservadores.  O arcebispo chegou a ser chamado de “homem de imaginação fértil, por querer recriar um Brasil pré-cabralino, habitado por silvícolas”. 


 localização dos povos indígenas no Ceará - mapa do acervo do Museu do Ceará

Hoje se calcula que o Ceará tem mais de 22 mil índios, formando 12 povos divididos em 58 comunidades por mais de 18 municípios. São os 
Tremembés em Almofala, Acaraú, Itapipoca e Itarema; 
Tapebas em Caucaia; 
Pitaguaris em Maracanaú e Pacatuba;
Jenipapos-Canindés às margens da lagoa do Encantado, em Aquiraz; 
Tabajaras em Crateús, Poranga, Monsenhor Tabosa e Ipueiras; 
Paiacus em Aquiraz e Pacajus; 
Canindés em Aratuba e Canindé; 
Calabaças em Crateús; 
Potiguaras em Monsenhor Tabosa, Novo Oriente, Tamboril e Crateús; 
Cariris em Crateús; 
Anacés, em São Gonçalo do Amarante; e
os Tupinambás, na região de Crateús. 


Esses povos ainda lutam pelo reconhecimento de sua identidade, a manutenção do pouco que sobrou do seu patrimônio cultural e, sobretudo, a demarcação de terras historicamente a eles pertencentes. Cinco séculos depois da invasão portuguesa, a resistência indígena continua...


Extraído do livro de Aírton de Farias 
História do Ceará 
 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Pena de Morte no Ceará



As primeiras execuções de que se tem noticias no Ceará remontam ao ano de 1632. Dois índios foram submetidos a enforcamento. Eram nativos educados em Amsterdã e funcionavam como intérpretes dos holandeses, a quem vinham prestando relevantes serviços. Sumárias e sem precedentes processuais, as execuções dos ameríndios foram autorizadas por Domingos da Veiga Cabral, sobrinho e substituto de Martim Soares Moreno no governo da Capitania.
Em tempos posteriores, quando juridicamente se haviam instalado as primeiras organizações do gênero, o Ceará se integrou ao sistema, porém ficou sob a tutela das Relações da Bahia e jurisdição descentralizada de Pernambuco. Dessa fase resta como prova material da aplicação da pena de morte, a execução do réu Semião de Freitas, cujo crime se dera na jurisdição de Sobral e cujo julgamento ocorreu em Pernambuco.

 Rua Senador Paula em Sobral (foto do site: http://sobralemfotos.blogspot.com.br) 

Desse remanescente histórico, brutal em suas origens e cruel em sua execução, ficou o registro do Dr. Soares de Brito, de 1889:
"Em Sobral, então vila, em princípios deste século residia um português, solteiro e comerciante, de nome Luiz José, à Rua hoje denominada do “Menino Jesus”, o qual tinha por costume vender suas mercadorias pelo sertão. 
Em uma de suas viagens esteve na povoação de Santa Quitéria, onde deflorou uma moça; e ao ter ciência de que estava grávida, voltou para Sobral e não retornou mais àquela povoação. Julgando-se injuriado, um dos irmãos da moça, no caso o padre Francisco Magalhães, mandou assassiná-lo por três indivíduos, sendo um deles, o caboclo Semião de Freitas. 
Os três assassinos ocultaram-se em uma casa velha que servia de açougue, confronte à casa de Luiz José, e um dia, às nove da manhã, saiu-se Luiz José da casa de sua residência para a de José Mariz, também português, residente à mesma rua, sendo publicamente assassinado à facadas, diante de todos os moradores da rua.
Semião de Freitas, sendo preso, foi remetido para o Recife, onde seria julgado pela Junta de Justiça de Pernambuco. Dois anos depois, chegaram a Sobral a cabeça e as mãos do réu, conservadas em sal e já remetidas através do governador da Capitania do Ceará, oportunidade em que os mesmos objetos foram colocados num poste, no mesmo local onde fora cometido o crime."

 A prática de seccionar cadáveres e a exibição em lugares públicos permaneceu durante muito tempo no Ceará. Na foto cabeças de cangaceiros do bando de Lampião, capturados e mortos pelas volantes.

Ignora-se a data dessa ocorrência, podendo ter sido do ano de 1804, porém se sabe que até os primeiros anos do século XIX, ou as execuções eram regidas segundo essa praxe ou o réu era remetido para Lisboa, onde nas prisões do Limoeiro apodrecia pelo abandono. 
Com as modificações introduzidas a partir de 1808, mesmo que em casos especiais as execuções se realizassem na Bahia ou em Pernambuco, o seccionamento dos cadáveres continuou, porém sem a remessa de troféus aos seus respectivos locais de origem. As exibições macabras foram transferidas para os logradouros públicos, conforme já se fizera no caso de Tiradentes e outros mártires que tiveram a desgraça de cair nas malhas da justiça do reino.  

 Mapa da Capitania do Ceará em 1818

A partir de 1824, com o Brasil independente e dividido em provinciais relativamente autônomas, os julgamentos e respectivas execuções  emigraram para as Comarcas subordinantes ou seus termos, exceto nos crimes políticos, regidos especialmente por Comissões Militares. Nos frustrados movimentos de 1817 e 1824, essas Comissões funcionaram a pleno vapor, envolvendo províncias desde a Bahia até o Ceará.


Extraído do livro de R. Batista Aragão
Pena de Morte

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Jucás

Os primitivos habitantes de São Mateus dos Inhamuns, hoje Jucás, foram os índios descendentes dos quixelôs, hábeis na exploração da caça e pesca,  que habitavam os sertões onde hoje se erguem as cidades de Iguatu, Acopiara e Jucás. Pacificados, foram administrados a partir de 1719, temporariamente, pelo coronel Gregório Martins Chaves.

Igreja matriz de Nossa Senhora do Carmo nos anos 50
... e hoje (foto Ricardo Sabadia disponível no site 

A freguesia de Nossa Senhora dos Inhamuns foi criada pela provisão de 7 de setembro de 1755, do bispo de Pernambuco, por instância de Frei Manuel de Jesus Maria. Extinta anos depois, foi restaurada pela Lei n° 630, de 1853, que erigiu a capela de Nossa Senhora do Carmo de São Mateus, desmembrada da freguesia de Nossa Senhora da Purificação, de Saboeiro.

Prédio da Prefeitura Municipal - anos 50

Nos tempos em que grassava no Ceará a epidemia de cólera-morbo, distinguiu-se em São Mateus um bondoso sacerdote que se dedicava às pessoas acometidas do mal. Era tal o seu devotamento pelas vítimas do cólera-morbo, que em pouco tempo veio a contrair a doença e dela faleceu. Afirmam os moradores de Jucás que muitas graças foram alcançadas pelo povo pela intercessão do falecido sacerdote, eu passou a ser considerado autor de numerosos milagres. A existência de um mausoléu próximo à cidade justifica a crença dos habitantes.
A Resolução Imperial de 3 de fevereiro de 1823, criou o município com sede no povoado de São Mateus, então elevado a categoria de Vila. Todavia, pela lei provincial n° 558, de 1851, a vila foi suprimida e transferida a sede municipal para a povoação de Saboeiro, situação que permaneceu até 1859, quando foi reerguida com a denominação de São Mateus dos Inhamuns, tendo sido o município restaurado com território do município de Saboeiro, no governo de Nogueira Accioly. A Lei 107 de 1893 restituiu-lhe o topônimo de São Mateus.  Pelo Decreto-lei 1114, de 30 de dezembro de 1943, o município passou a denominar-se Jucás.


Localização: à margem esquerda do Rio Jaguaribe que atravessa o município. Cidade totalmente incluída no Polígono das Secas, na zona do sertão do Salgado e Alto Jaguaribe.
Limites:  Norte: Acopiara, Sul: Cariús; Leste: Iguatu;  Oeste: Saboeiro e Tarrafas.
Distância da capital: 407 km
Área da unidade:  937,180 km²
Altitude: 280 metros de altitude, na sede do município.
Clima: quente e seco. A temperatura oscila entre 20 e 36 graus com média de 28° centígrados.

 açude Angical em foto dos anos 50

Acidentes geográficos: destaque para o Rio Jaguaribe, cujos tributários irrigam o município. Os principais relevos são representados pelas serras da Penha, Bastiões, Contendas, Palmeiras, Coronzó, São Mateus, Brígida, Ameixas, Jatobá, Barriga, Brava, Caboclos, Caneca, Iputi e Caminho Velho.
Riquezas Naturais: os recursos minerais são representados por barro (argila) e jazidas calcárias. 

Praça Presidente Vargas em construção nos anos 50

População: O Censo demográfico de 1950 registrava em Jucás uma população de 30.203 habitantes, sendo 15.006 homens e 15.197 mulheres.  Já em 2010, a população somava 23.807 habitantes, com 11.766 homens e 12.041 mulheres. A estimativa feito pelo IBGE para 2012, era de 23.985 habitantes. A exemplo do que aconteceu com muitos municípios localizadas em região de clima semiárido, Jucás teve perda de população, em comparação com o Censo Demográfico de 1950. Em divisão territorial de 17 de janeiro de 1991, o município é constituído de 6 distritos: Jucás, Baixio de Donana, Canafístula, Mel, Poço Grande e São Pedro do Norte.
 
fotos antigas: enciclopédia dos municípios brasileiros - IBGE 1959
fontes:
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros - IBGE 1959
Wikipédia 
IBGE - censo demográfico 2010