Mostrando postagens com marcador guerras entre familias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador guerras entre familias. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A Aplicação da Pena de Morte no Ceará

Viviam no interior do Ceará duas famílias irreconciliáveis, representadas de um lado pelos Maciel e do outro, a família Araújo, os primeiros residentes em Santo Antônio do Quixeramobim e os segundos na vizinha povoação de Boa Viagem.

Luciano Domingues de Araújo era jovem casadoiro e desatento às animosidades familiares. Ajustou casamento com uma certa Joana, moça jovem e bonita, filha de Inácio Lopes Barreira, pertencente à família dos Queiroz e ligada aos Maciel por laços de parentesco.

Essa união desagradou a Miguel Carlos Maciel, que depois de tentar de várias maneiras e não conseguir impedir o matrimônio, resolveu solucionar o caso a seu modo. Assim, contratou Estácio José da Gama para dar um fim ao pretenso noivo. Deu-lhe como armas para execução um bacamarte e uma faca de ponta, além da quantia paga ou prometida de dez mil réis.

Na véspera do casamento, cuja data marcada seria 12 de fevereiro de 1834, Estácio da Gama acoitou-se na Fazenda Cachoeira, local por onde obrigatoriamente, deveria passar o cortejo. Teve o cuidado de colocar no leito da estrada uns troncos de árvores, o que obrigaria a reduzir a marcha dos cavalarianos e a parada individual.

No dia aprazado, por volta do meio dia e a meia légua de distância da casa da noiva, na Fazenda Tapuiará, quando Luciano dava a volta na barreira colocada no caminho, recebeu tremenda carga de chumbo, atingindo-o do peito aos quadris. Ferido gravemente e socorrido pelos acompanhantes, foi conduzido a residência do pretenso sogro, onde ainda moribundo, realizou-se o casamento, não mais com fins maritais, mas como forma de habilitar a mulher ao patrimônio hereditário do marido.

Quixeramobim - Paço Municipal
Construído pelo português José Jacinto de Sousa Pimentel em 1817, o casarão em que funciona a sede do executivo municipal de Quixeramobim é um dos mais expressivos remanescentes da nobreza sertaneja do século XIX. Composto de três pavimentos, o faustoso casario foi adquirido pela a Administração Municipal em 1984.  

Morto Luciano, concluído o termo de corpo de delito e anexado às peças do inquérito, providenciou-se a captura do indiciado, cuja prisão se deu em 8 de março de 1834. Em seguida teve andamento o interrogatório do qual foi presidente o Juiz de Paz Manuel Martins de Almeida Buriti.

Consta do interrogatório como sendo Estácio José da Gama natural de Quixeramobim, com profissão itinerante de agente negociador, que conhecia a vítima, que não fora o autor do crime, que no dia do acontecimento encontrava-se em casa de Antônio Maciel, de quem era morador, que evidentemente andava armado de bacamarte, que andava a cavalo, que vestia calças brancas, camisa de riscado azul e usava chapéu de couro. Quanto à autoria do crime que lhe era imputado por testemunhas, apenas sabia por essa fonte e que a despeito das escusas e à vista da prova testemunhal, o juiz concluiu o seu relatório enquadrando-o como incurso nos artigos 192 e 16 do Código Penal.

 Cadeia Pública

No dia 11 de março, no entanto, documento firmado pelo pai da vítima, Antônio Domingues Alves, confirma sob as penas da lei, que o denunciado, a mando de Miguel Carlos Maciel, fora realmente o assassino do seu filho, Estácio confessou a autoria do crime diante de várias testemunhas. Admitida como prova a declaração, o juiz mandou fazer uma acareação, ocasião em que o réu Estácio José da Gama, confessou que matara a Luciano Domingues de Araújo a mando de Miguel Carlos Maciel.

O réu foi condenado a pena de morte, devendo cumprir o ritual de expiação moral conforme a seguinte programação:
1 – subida imediata do réu para o oratório;
2 – descida do oratório e caminhada em préstito lúgubre pelas ruas da vila de Campo Maior, Comarca de Santo Antônio de Quixeramobim, sob o pregão do porteiro Manuel Gomes da Silva, a quem cabia apregoar a sentença em altas vozes;
3 – marchavam em seguida, como figuras ilustrativas da justiça, o Juiz Interino e capitão Antônio Duarte de Queiroz e o escrivão Canuto José da Silva Lobo;
4 – por último e a caminhar de olhos fitos no chão, desolado e a demonstrar ares de resignação, ladeado pelo confessor, o padre Bento Antônio Fernandes, complementava-se o cortejo, tendo como figura central o réu, Estácio José da Gama, a quem zelosamente montavam guarda os milicianos da Vila.
5 – do alto da igrejinha, onde do lado de dentro o padroeiro Santo Antônio dormia seu sono de imagem, o sino dobrava, mandando aos ventos a sua voz solitária. Estava concluída a peregrinação.


Igreja matriz de Santo Antônio de Pádua
Tem suas origens na primitiva capelinha de taipa construída e entregue aos fiéis no ano de 1732 por Antônio Dias Ferreira. A fachada externa do templo, sofreu algumas alterações ao longo de diversas reformas, a última das quais realizada entre 1886 e 1916

Havia próxima a igreja uma sepultura que indicaram ao réu como sendo sua última morada. Estavam no local uma pá e uma enxada, instrumentos com os quais seria fechada sua cova. Numa das testadas e distantes um do outro cerca de dez metros, dois mourões limitavam o centro no qual uma cadeira esperava seu ocupante. Sentado e de mãos atadas aos mourões, Estácio da Gama desabafou em desespero: “eu matei Luciano porque a justiça de Quixeramobim me deixou impune pela morte que fiz na Rua da Camboa e por ter tentado assassinar o Caeté (Luis Raimundo Caeté Monteiro). Só lamento morrer por ter morto apenas um, quando entre os dez que me vão atirar existe um que fez oito mortes. Meus amigos – disse voltando-se para a tropa – só lhes peço que não me deixem sofrer”.

Quando o vigário sinalizou o credo em suas últimas palavras, uma descarga de cinco tiros foi despejada no peito ofegante do condenado. Ele ainda resistiu, havendo então uma segunda descarga. A justiça tinha cumprido seu papel.

No caso em questão, restou para análise os seguintes pontos:
1 – o fator açodamento. Entre a data do crime e o dia da execução decorreram exatamente 31 dias, tempo suficiente para que as emoções mais fortes ainda se mantivessem vivas.
2 – o juiz presidente, a quem coube dirigir o Conselho (Capitão Antônio Duarte de Queiroz), era segundo consta, cunhado e primo em segundo grau de D. Joana, a viúva do falecido Luciano de Araújo, mesmo com os impedimentos contidos no artigo 1° do Código Criminal.
3 – o réu, a despeito de ter sido assistido por advogado dativo e das prerrogativas de recursos asseguradas pelo Código Criminal, não recorreu da sentença, o que teria levado a novo julgamento, desta vez no foro da Capital, longe dos envolvimentos regionais, onde provavelmente a pena seria revertida para prisão.
4 – de acordo com o decreto Imperial de 1826, nenhuma sentença de morte poderia ser executada sem antes haver passado pela apreciação do Imperador, que em casos especiais, poderia até conceder indulto, o que no entanto não ocorreu, ficando por conta da ignorância, justificativa de que se serviram os magistrados interioranos, para eximirem-se da responsabilidade.
5 – Quem presidiu o julgamento foi o juiz de Direito, que nenhuma competência tinha para esse mister, cabendo o feito ao Juiz de Fora ou Letrado, na forma prevista no respectivo Código Criminal.
6 – na fase de instrução do processo o réu negou a autoria e assim se manteve por alguns dias na tentativa de conduzir o julgamento à autoria presumida, o que de certa forma o beneficiaria. Utilizados métodos ilegais (relho cru), por dois milicianos da guarda local, ele caiu em contradição e confessou "espontaneamente" o que antes fora negado.

Câmara Municipal - Palácio 15 de Novembro

Informado das irregularidades resolveu o Chefe de Governo do Estado, interpelar o juiz responsável, porém este ao justificar em longo ofício, simplesmente descartou qualquer responsabilidade, informando textualmente: ignoro inteiramente o que consta de tal decreto e por isso devo ter incorrido em algum erro involuntário. O fato aconteceu no governo do presidente Inácio Correia de Vasconcelos.

Extraído do livro
Pena de Morte, de R. Batista Aragão 
fotos IBGE 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Toponímia no Sertão do Ceará – sob o signo da violência

De modo geral, nas mais diversas instâncias, a violência se constituía em parcela integrante e visceral do sertão cearense. Era uma presença explicita e emergia em variadas formas, permeando as tramas sociais e confirmando seu lugar de destaque na construção de memórias coletivas.Um dos registros representativos da repercussão da violência era a nomenclatura de alguns lugarejos ou fazendas. Tais locais insistiam em trazer em suas denominações a lembrança das mortes e dos conflitos que marcavam suas histórias. 

Na velha ribeira do Rio Salgado, caminho que levava para a região do Cariri, ainda figura a toponímia que preserva um testemunho irrecusável de sangrentos episódios: “Batalha”, “Pendência”, “Matança”, “Juiz”, “Emboscada”. Na ribeira do Jaguaribe apareciam lugares chamados “Defuntos”, “Ossos”, “Trincheiras”, “Várzea da Perdição”. A Freguesia de Nossa Senhora do Riacho do Sangue herdara esse nome de uma batalha entre as famílias de sesmeiros, após uma luta encarniçada pela posse da terra: morreram tantas pessoas que o sangue tingiu de vermelho a água do riacho.

Baturité - Igreja Matriz N. S. da Palma (IBGE) 

O Sitio Bacamarte, localizado na Serra de Baturité,  ganhou esse nome após seu dono, Alexandre Mourão, ter cansado de perseguir um inimigo, sem sucesso, e resolveu sentar moradia. Não ficou muito tempo: logo voltou a envolver-se em tiroteios e perseguições, passando parte da vida lutando para se livrar das prisões. A mudança de governo na província ditava o sucesso ou não das empreitadas judiciais para colocá-lo atrás das grades.

Na então cidade do Ipu, em fins do século XIX, o cronista Antônio Bezerra encontrou no município um arrabalde conhecido como “Alto dos Quatorze”. O nome fazia referência a um sangrento episódio onde fora assassinado um homem que tinha quatorze filhos. Outra área que trazia em seu nome a marca da violência, era o “Saco de Bala”, região localizada na Serra da Ibiapaba. Depois de uma série de batalhas referentes ao célebre conflito entre as famílias Monte e Feitosa, fora perdido pelos Feitosa, um saco contendo munição, episódio que deu nome à localidade. Tal nomenclatura atravessou séculos e ainda figura no reconhecimento de trecho da citada serra.

Não era raro encontrar-se no nome dos lugares a lembrança de guerras, mortes e armas, lembranças construídas a partir da referência cotidiana de assassinatos e agressões. E que estabeleciam registros vulgares da memória, evidenciando situações associadas a atentados contra a vida.

O primeiro historiador de ofício a fazer um registro da história cearense, Pedro Theberge, afirmou que logo após a guerra entre Monte e Feitosa, um membro dessa última família, chamado Manoel Ferreira Ferro, ainda na primeira metade do século XVIII, entrou em nova pendenga. Seu rival era um rico português de nome José Pereira Lima, e a disputa se deu em função de uma posse de terra no Brejo Grande. Depois de uma série de tentativas legais para a resolução da pendência, iniciou-se a guerra. Houve mortes dos lados de ambos e o português adotou  como fruto do empenho em matar seu opositor, um novo nome: “Aço”, em oposição ao “Ferro” de Manoel Ferreira Ferro.

O jornal Pedro II de outubro de 1846, publicava o relatório do alferes Bento Ferreira do quartel de Sobral. Nele era descrito uma série de crimes relacionados à perseguição de membros da família Mourão. Nas linhas da narrativa aparece um indivíduo chamado Joaquim Mata-Irmã. A alcunha tinha uma história: Joaquim havia recebido de seu tio, coronel Paulino Galvão, a incumbência de matar a própria irmã, Dona Delfina. Para cumprir sua missão “Mata-Irmã” contratou dois cabras para emboscarem a irmã, que foi morta a pauladas. Enquanto os agressores matavam a mulher, o irmão escutava seus gritos de socorro e ao mesmo tempo as súplicas da sobrinha para intervir em defesa da mãe.

Próximo à fronteira do Ceará com Pernambuco, na comarca de Flores, ao sul do Crato, (região que atualmente pertence ao município de São José de Belmonte, a 479 quilômetros de Recife - [grifo nosso]), aconteceu o episódio que repercutiu em todo o país: em 1838 uma carta fora enviada ao presidente da Província de Pernambuco, onde havia um relato acerca de um homem chamado João Antônio, que após viagem feita ao sertão dos Inhamuns, havia proclamado sagrados dois grandes rochedos – localizados num sitio chamado Pedra Bonita. Segundo João, tais rochas guardavam um reino encantado, onde depois de banhados pelo sangue de homens, mulheres e crianças – que posteriormente ressuscitariam – libertar-se-ia um exército comandado pelo Rei Dom Sebastião (*) que marcharia de dentro das pedras e instalaria uma época de fartura e justiça. 

cenário da Pedra do Reino baseado na obra de Ariano Suassuna idealizado pela Rede Globo na minissérie Pedra do Reino (imagem G1)

No dia 04 de maio de 1838, começaram as imolações e durante três ou quatro dias foram sacrificados 42 pessoas: 21 adultos e 21 menores. No dia 17 de maio João Antônio foi assassinado pelo próprio irmão, Pedro Antônio. Após sua morte houve dispersão parcial dos adeptos da Pedra do Reino, e uma divulgação maior sobre os acontecimentos que envolviam tais mortes. Uma tropa oficial, composta por 26 soldados marchou sobre os remanescentes, e o resultado desse encontro foi uma luta severa que resultou em ferimentos e mortes em ambos os lados.

Numa região assolada por constantes secas e pela escassez de alimentos, não era de se estranhar o aparecimento de profetas e mágicos que prometiam comida e fartura aos seus adeptos. O mais instigante, foi a forma pela qual o culto sebastianista encontrou para legitimar o retorno do rei – era preciso banhar as pedras com sangue, pois este sintetizava uma linguagem de negociação bastante utilizada pela população sertaneja: a violência.

A história da Pedra do Reino ainda hoje é repetida pela memória oral dos moradores do Cariri, ganhando uma versão romanceada por Ariano Suassuna no livro “A Pedra do Reino”. Nomes de sítios, fazendas e alcunhas, histórias fantásticas de reinos encantados, convergiam num fluxo contínuo para a construção de memórias, cujos pilares eram sedimentados na narrativa de situações de derramamento de sangue, de assassinatos e agressões por vinganças.


(*) A Lenda de Dom Sebastião no Nordeste Brasileiro

O sebastianismo é um fenômeno secular, que muitas vezes é visto como uma seita ou elemento de crendice popular. Teve sua origem na segunda metade do século XVI, surgindo da crença na volta de Dom Sebastião, rei de Portugal, que desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, na África, no dia 4 de agosto de 1578, enquanto comandava tropas portuguesas. Como ninguém o viu tombar ou morrer, espalhou-se a lenda de que El-Rei voltaria. Alimentado por lendas e mitos, sobreviveu no imaginário português até o século XVII. 
        
O sebastianismo tem suas raízes na concepção religiosa do messianismo, que acredita na vinda ou no retorno de um enviado divino, o messias; um redentor, com capacidade para mudar a ordem das coisas e trazer paz, justiça e felicidade. É um movimento que traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.  
Chegou ao Brasil, principalmente ao Nordeste brasileiro, no século XIX. Unindo fanatismo religioso com ideias socialistas, o movimento se redescobriu no sertão nordestino, assumindo características próprias através de símbolos e do imaginário popular.

Fontes:
Vieira Júnior, Antônio Otaviano. Entre paredes e bacamartes: história da familia no sertão (1780-1850)/Antônio Otaviano Vieira Júnior - Fortaleza: Edições Demócrito Rocha; Hucitec, 2004.

GASPAR, Lúcia. Sebastianismo no Nordeste brasileiro. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>.


domingo, 8 de setembro de 2013

Os Primeiros Ouvidores da Capitania do Ceará


Até a criação da vila a administração da capitania era feita  por três instâncias de poder: o capitão-mor  governador, a ouvidoria e a câmara de vereadores. Os capitães-mores governadores recebiam instruções verbais de Pernambuco e concentravam todo o poder nas mãos. Eram arbitrários e provocavam inúmeros conflitos ao intervir  e perseguir outras autoridades.  Os Ouvidores tinham a função de fiscalizar a administração e aplicar a justiça na capitania. O ocupante do cargo deveria ser formado em Direito e era nomeado pelo rei para um período de três anos.

Casa da Câmara e Cadeia de Aquiraz (foto Fátima Garcia)

A Ouvidoria Real da Capitania do Ceará foi criada apenas em 1723, com sede na Vila de Aquiraz. Até então as pendências judiciais e administrativas eram resolvidas pelos Ouvidores de Pernambuco ou da Paraíba. As Câmaras detinham funções de ordem econômica, administrativa, econômica, policial e judiciária, como fiscalizar a construção de estradas, pontes e calçadas, regulamentar as feiras, os mercados e o trânsito, a arborização das ruas e praças e outras atividades relacionadas com o bem comum.
Nos primórdios da Capitania do Ceará, subordinada à de Pernambuco, como a da Paraíba e a do Rio Grande do Norte, havia um ouvidor para as três. Por decisão do Conselho Ultramarino de 8 de janeiro de 1823, essa Ouvidoria foi desmembrada, criando-se uma magistratura exclusiva para o Ceará.
O primeiro desses juízes foi José Mendes Machado, conhecido por Tubarão, personagem como outros de sua ordem, ávidos de dinheiro, bacharéis de Coimbra antes da reformulação da sua universidade por ato do Marquês de Pombal.
Tomou posse do cargo em 23 de agosto de 1723. Sua posse foi seguida de sérias desordens. Seus primeiros atos desagradaram e surgiu em Aquiraz, então sede da capitania, um partido de descontentes que pretendia seu impedimento do cargo, querendo que continuasse o ouvidor da Paraíba. Logo em 1724 houve grandes desordens na capitania, estando no governo o capitão-mor Manuel Francês. Parte dos habitantes de Aquiraz, tendo à frente o juiz ordinário Zacarias Vital Pereira, opôs-se ao exército do ouvidor Mendes que o mandou prender. Retirando-se Mendes para o Acaraú, de onde ordenou várias outras prisões, exacerbando os descontentes.
Por este tempo havia um conflito entre as famílias Monte e Feitosa, por questões de terras no alto Jaguaribe. O Ouvidor Mendes Machado dirigiu-se ao Cariri e expediu ordem de prisão contra os Montes, incumbindo da diligência o capitão João Ferreira da Fonseca, que se reunindo a Francisco Alves Feitosa, chegado ali dos Inhamuns com 800 índios, cometeu inúmeras violências.


casa do capitão-mor localizada em Aquiraz , construída em meados do século XVIII para servir de residência para as autoridades da capitania, sendo seu primeiro morador o capitão-mor Manuel Francês, fundador da vila de fortaleza.  foto do site 

Os adversários do ouvidor se declararam a favor dos perseguidos e o senado da câmara e o capitão-mor Manuel Francês exigiram que Mendes se retirasse da capitania. Não sendo atendidos, os aliados dos Montes se reuniram, a título de representarem contra a violência do ouvidor, ocorrendo um conflito em que morreram 30 pessoas. Continuando as desordens e com receio da volta que o ouvidor Mendes voltasse ao Aquiraz, a Câmara exigiu do capitão-mor Manuel Francês, que o mandasse prender. O ouvidor Mendes, em vista dessa resolução, deixou  a capitania do Ceará. Após esse fato, o capitão-mor Manuel Francês empregou todos os meios a seu alcance para desarmar as duas famílias combatentes e seus partidários.

Fonte:
Ceará (Homens e fatos)  de João Brígido       
História do Ceará, de Airton de Farias

quinta-feira, 24 de maio de 2012

As Guerras entre Famílias: Macieis x Araújos

Quixeramobim - Ceará (foto Francisco Garcia)

A família Maciel que formava nos sertões entre Quixeramobim e Tamboril um numeroso clã, de homens trabalhadores e bravos, vivendo de vaqueirice e pequena criação, vieram a fazer parte dos registros criminais do Ceará, por causa de uma guerra de família.
Seus êmulos foram os Araújos, família rica e filiada a outras das mais antigas do norte do Ceará, a qual vivia na mesma região, tendo como sede principal a povoação de Boa Viagem, distante cerca de dez léguas de Quixeramobim. Foi uma das lutas mais sangrentas a que se envolveram esses dois grupos de homens desiguais pela fortuna, ambos numerosos e embrutecidos na prática das violências.


Tamboril - Ceará, avenida principal. (foto: http://www.turismopelobrasil.net/turismo/cidade_index.asp?cidade=Tamboril-CE  

Por esse tempo, os Macieis ou Carlos, como também eram chamados,  foram acusados da autoria de uns roubos sofridos por Silvestre Rodrigues Veras, morador de Vila Nova, e por Antônio de Araújo Costa, parente deste e morador em Boa Viagem, do termo de Quixeramobim.  Eram ambos criadores ricos, e segundo o costume em voga, lhes era permitido fazer justiça com as próprias mãos. 
Filhos e genros de Silvestre declararam guerra à família Maciel e, juntando um grupo de matadores, dirigiram-se a Quixeramobim, onde alguns dos suspeitos, acossados em Vila Nova, acabaram mortos pelos rivais.
De sua parte os Macieis reunidos a parentes e amigos de Quixeramobim, se prepararam  para a chegada dos agressores. Fortificaram-se e revidaram, derrotando  os filhos e genros de Silvestre Rodrigues. Vencidos nesta primeira tentativa, o bando de Silvestre Rodrigues pediu ajuda a José Joaquim de Menezes, conhecido na região pela valentia. Este veio acompanhado de Vicente Lopes, a quem fora pedir auxilio em Aracatiaçu. Menezes fazia-se acompanhar também de alguns ex-praças que tinham servido em Montevidéu.
José Joaquim de Menezes muito hesitou em atender ao pedido de ajuda dos Araújos e Veras, por não querer se envolver com a questão, e por não estar convicto da culpa dos acusados, mas acabou concordando, e partiu com seu séquito, para render os Macieis. 
Chegando a casa destes, negociou para que se entregassem, garantindo-lhes a vida, sob sua palavra de honra. De fato, os conduziu até o Serrote, tratando a todos muito bem. Dali, porém, partiu para o Piauí e passou os prisioneiros ao domínio dos Araújos e dos Veras, recomendando-os à sua lealdade.


Centro de Sobral, data não especificada (acervo IBGE)

Eles, no entanto, logo depois da partida de Menezes, algemaram todos e se puseram a caminho, supostamente para a cadeia de Sobral. Mas depois de um dia de viagem, simularam  um tiroteio com um inimigo invisível escondido no matagal, e mataram a todos cruelmente, amarrados como estavam.  
Somente dois dos Macieis escaparam, um deles, de nome  Miguel Carlos, conseguiu se evadir, algemado e com as penas amarradas por baixo da barriga do cavalo que montava.  Da chacina foram vítimas dois velhos chefes de família – Antônio Maciel e Manoel Carlos, que segundo diziam, nem os próprios inimigos, que acusavam seus filhos,  acreditavam na participação deles. 
A notícia do massacre encheu de indignação a quantos sabiam do empenho feito por Menezes para efetuar a captura e da garantia de vida prometida por ele. Sobretudo, escandalizava as gentes do sertão, o assassinato dos dois pobres velhos. 


Posição do municipio de Quixeramobim no mapa do Ceará
Miguel Carlos surgiu algum tempo depois nos sertões de Quixeramobim, num lugar chamado Passagem. Ali foi surpreendido por uma grande escolta dirigida em pessoa por Pedro Martins Veras. Estava de cama, doente com um ferimento no pé, em companhia apenas de uma irmã. 
Mesmo surpreendido, atirou no primeiro homem que se adiantou, de nome Teotônio, deixando-o caído sobre o batente. A irmã procurou tirá-lo para fechar a porta, e recebeu um tiro no peito desferido por Pedro Martins Veras, que a matou. Miguel Carlos, já tendo novamente carregado sua arma, acertou-lhe um tiro na barriga, que obrigou o bando a recuar. 
Fechada a porta e continuando a resistir, atirando contra os agressores, estes se colocaram a distância e recorreram a um expediente menos perigoso para eles: juntaram lenha e atearam fogo à casa, que era de palha de oiticica. Quando a casa já ardia, Miguel Carlos aproximou-se de um pote, derramou a água que ali estava em direção ao fundo da casa, e desse modo, a salvo do fogo,  abriu uma porta, passou rápido, sem ser vistos pelos assassinos ali postados, e embrenhou-se na selva. Estava gravemente ferido, mas logrou escapar dos matadores e procurou novo abrigo entre seus parentes dentro da vila de Quixeramobim. 


Estação de Uruquê, antiga Francisco Sá em Quixeramobim -CE. Início do século XX. (foto do site estações ferroviárias)

Meses depois, Miguel Carlos mandou matar Luciano Domingos de Araújo, um dos chefes da  família Araújo.  Luciano tinha contratado casamento com uma filha de Ignácio Lopes Barreira, criador rico, morador de Tapuiará, algumas léguas abaixo de Quixeramobim. Chegando o dia das núpcias, o noivo passou com uma comitiva, dirigindo-se à casa da noiva.  Miguel Carlos mandou Estácio José da Gama, emboscar-se no lugar chamado Uruquezinho, ao lado da estrada, que ele obstruiu com galhos de árvores. 
Quando o noivo apontou no caminho, um tiro o feriu mortalmente. Os companheiros o colocaram numa rede e o conduziram até Tapuiará, onde casou e expirou quase imediatamente.
A tradição é que a morte de Luciano fora obra de Miguel Carlos, mas Estácio confessou ser o autor e por isso, foi condenado à morte e fuzilado no dia 14 de março de 1834. Os últimos episódios dessa luta sangrenta foram dentro da vila de Quixeramobim, meses depois da execução de Estácio.


área rural de Quixeramobim (foto Francisco Garcia)

Uma manhã, saindo de casa de Antônio Caetano de Oliveira, Miguel foi banhar-se em um poço do rio que corre por trás dessa casa, situado quase no extremo da praça principal da vila. Nos fundos da casa indicada estava a embocadura do riacho da Palha. Miguel Carlos estava no riacho com alguns companheiros, quando surgiu um grupo de inimigos que o esperavam escondidos por entre o denso matagal. Estranhos e parentes de Miguel Carlos tomando as roupas depostas na areia e vestindo-as ao mesmo tempo em que corriam, puseram-se em fuga.
Com a faca em punho, Miguel Carlos também correu na direção dos fundos de uma casa próxima, chegou a abrir o portão, mas quando quis fechá-lo foi abatido com um tiro partido dos inimigos que o perseguiam.  
Enquanto agonizava, caído com sua faca na mão, Manoel de Araújo, chefe do bando e irmão do noivo assassinado, pegando-o por uma perna, lhe cravou uma faca. O moribundo reagiu no mesmo instante, com outra facada na carótida, morrendo os dois, quase instantaneamente.  
Inúmeras outras vítimas fez essa guerra sertaneja, vítimas anônimas, colhidas no serviço dos dois grupos.   

extraído do livro
Ceará (homens e fatos) de João Brígido