Mostrando postagens com marcador primeira da vila do Ceará. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador primeira da vila do Ceará. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de setembro de 2013

Os Primeiros Ouvidores da Capitania do Ceará


Até a criação da vila a administração da capitania era feita  por três instâncias de poder: o capitão-mor  governador, a ouvidoria e a câmara de vereadores. Os capitães-mores governadores recebiam instruções verbais de Pernambuco e concentravam todo o poder nas mãos. Eram arbitrários e provocavam inúmeros conflitos ao intervir  e perseguir outras autoridades.  Os Ouvidores tinham a função de fiscalizar a administração e aplicar a justiça na capitania. O ocupante do cargo deveria ser formado em Direito e era nomeado pelo rei para um período de três anos.

Casa da Câmara e Cadeia de Aquiraz (foto Fátima Garcia)

A Ouvidoria Real da Capitania do Ceará foi criada apenas em 1723, com sede na Vila de Aquiraz. Até então as pendências judiciais e administrativas eram resolvidas pelos Ouvidores de Pernambuco ou da Paraíba. As Câmaras detinham funções de ordem econômica, administrativa, econômica, policial e judiciária, como fiscalizar a construção de estradas, pontes e calçadas, regulamentar as feiras, os mercados e o trânsito, a arborização das ruas e praças e outras atividades relacionadas com o bem comum.
Nos primórdios da Capitania do Ceará, subordinada à de Pernambuco, como a da Paraíba e a do Rio Grande do Norte, havia um ouvidor para as três. Por decisão do Conselho Ultramarino de 8 de janeiro de 1823, essa Ouvidoria foi desmembrada, criando-se uma magistratura exclusiva para o Ceará.
O primeiro desses juízes foi José Mendes Machado, conhecido por Tubarão, personagem como outros de sua ordem, ávidos de dinheiro, bacharéis de Coimbra antes da reformulação da sua universidade por ato do Marquês de Pombal.
Tomou posse do cargo em 23 de agosto de 1723. Sua posse foi seguida de sérias desordens. Seus primeiros atos desagradaram e surgiu em Aquiraz, então sede da capitania, um partido de descontentes que pretendia seu impedimento do cargo, querendo que continuasse o ouvidor da Paraíba. Logo em 1724 houve grandes desordens na capitania, estando no governo o capitão-mor Manuel Francês. Parte dos habitantes de Aquiraz, tendo à frente o juiz ordinário Zacarias Vital Pereira, opôs-se ao exército do ouvidor Mendes que o mandou prender. Retirando-se Mendes para o Acaraú, de onde ordenou várias outras prisões, exacerbando os descontentes.
Por este tempo havia um conflito entre as famílias Monte e Feitosa, por questões de terras no alto Jaguaribe. O Ouvidor Mendes Machado dirigiu-se ao Cariri e expediu ordem de prisão contra os Montes, incumbindo da diligência o capitão João Ferreira da Fonseca, que se reunindo a Francisco Alves Feitosa, chegado ali dos Inhamuns com 800 índios, cometeu inúmeras violências.


casa do capitão-mor localizada em Aquiraz , construída em meados do século XVIII para servir de residência para as autoridades da capitania, sendo seu primeiro morador o capitão-mor Manuel Francês, fundador da vila de fortaleza.  foto do site 

Os adversários do ouvidor se declararam a favor dos perseguidos e o senado da câmara e o capitão-mor Manuel Francês exigiram que Mendes se retirasse da capitania. Não sendo atendidos, os aliados dos Montes se reuniram, a título de representarem contra a violência do ouvidor, ocorrendo um conflito em que morreram 30 pessoas. Continuando as desordens e com receio da volta que o ouvidor Mendes voltasse ao Aquiraz, a Câmara exigiu do capitão-mor Manuel Francês, que o mandasse prender. O ouvidor Mendes, em vista dessa resolução, deixou  a capitania do Ceará. Após esse fato, o capitão-mor Manuel Francês empregou todos os meios a seu alcance para desarmar as duas famílias combatentes e seus partidários.

Fonte:
Ceará (Homens e fatos)  de João Brígido       
História do Ceará, de Airton de Farias

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Aquiraz - A primeira Vila do Ceará

População: 72.628 habitantes (IBGE/2010)
área da unidade territorial: 482,566 km²
densidade demográfica: 150,50 hab/km²
distância de Fortaleza: 24,7 km.

na entrada da cidade a estátua de São José de Ribamar, padroeiro de Aquiraz

Aquiraz, foi a primeira vila da Capitania do Ceará, criada por despacho  de 13 de fevereiro de 1699, por ordem de El-Rei de Portugal. O objetivo principal para a criação da vila seria a de amenizar as violências, abusos e arbitrariedades cometidas por capitães-mores e administrar a justiça, já que os ouvidores de Pernambuco e da Paraíba, que atuavam também no Ceará pouco raramente visitavam a capitania, em razão das grandes distâncias que as separavam.
Em 1701 transfere-se a sede do núcleo de Fortaleza para o núcleo de Barra de Ceará, lugar que teve posteriormente a denominação de Vila Velha, mas voltou para Fortaleza.

Em 1706, a sede é mudada novamente para Barra do Ceará, voltou para Fortaleza em 1708. Em 1710, a vila tomou a denominação de São José de Ribamar. Pela Ordem Régia de 1713, a sede é transferida de modo definitivo para Aquiraz. Por esta razão muitos consideram Aquiraz a primeira capital do Ceará.

Praça da matriz

A história de Aquiraz mistura os primeiros habitante destas terras, os índios potiguaras e outras tribos pertencentes ao tronco tupi como os jenipapo-kanyndé,  com os portugueses religiosos e militares que vieram habitar esta região visando à catequização dos índios e à proteção do território contra invasões de outros povos europeus.

Rua de Aquiraz

Pela divisão territorial de 1999, o município é constituído de 8 distritos: Aquiraz, Camará, Caponga da Bernarda, Jacaúna, João de Castro, Justiniano de Serpa, Patacas, Tapera.

Igreja Matriz de São José de Ribamar 

Construída no século XVIII, o templo apresenta ecletismo no estilo, predominando os traços barrocos e neoclássicos, frutos das várias modificações que passou ao longo dos anos. Alguns detalhes, ainda originais, impressionam por sua beleza e requinte. São eles, dentre outros; As três grandes portas almofadadas da entrada principal, o púlpito de madeira lavrada e os painéis pintados no forro da capela-mor, os quais provavelmente foram obras de índios catequizados.
Destaca-se no nicho central do altar-mor a imagem do padroeiro São José de Ribamar, calçado de botas, relembrando o bandeirante audaz. Segundo a lenda, ela foi encontrada por pescadores em uma das praias do lugar. A princípio quiseram levá-la para um outro povoado, entretanto nem mesmo um carro de boi conseguiu removê-la. Porém, quando surgiu a idéia de que a Igreja de Aquiraz seria o melhor local para o santo, este ficou leve e uma só pessoa conseguiu transportá-lo.O "São José de Botas" continua sendo alvo de grande devoção popular.

Antiga Casa de Câmara e Cadeia 

Atual Museu Sacro São José de Ribamar 

O imóvel teve sua construção iniciada no século XVIII e concluída no ano de 1877. Atualmente  sedia o Museu Sacro São José de Ribamar, fundado em 1967, sendo considerado o primeiro museu sacro do Ceará e o segundo do Norte-Nordeste.
Seu acervo compõe-se de mais de 600 peças de caráter religioso datadas dos séculos XVII , XVIII e XIX, alusivas à fé do povo cearense. 


peças do acervo do museu sacro

O antigo sobradão tem sua arquitetura original bastante conservada, pode-se observar as grades das antigas selas no pavimento inferior, e o assoalho reforçado com vigas de carnaúba na parte superior onde antes funcionava a câmara, o fórum e a prefeitura municipal. 

Mercado das Artes

O Mercado da Carne, hoje Mercado das Artes, século XIX, outrora centro comercial da cidade, impressiona o visitante pela particular técnica de construção, a qual prima pelo uso da carnaúba e do tijolo adobe. Sua parte central era o local de comercialização da carne, a harmonia geométrica da armação do telhado deixa transparecer o caráter arrojado do estilo. Os antigos pontos comerciais, situados na parte externa, foram durante décadas, o coração do comércio da cidade, fato que perdurou até o tombamento do prédio em 1988.

Casa do Capitão-Mor 


A Casa do Capitão-Mor é um raro exemplar do casario setecentista do estado. Conhecida também como casa da Ouvidoria, nome do primeiro núcleo judiciário do Ceará, o singelo edifício é feito com paredes de pau-a-pique, reforçada com amarras de couro de boi, uma referência material ao ciclo econômico das charqueadas, o qual predominou na região durante o século XVIII. A riqueza de detalhes confere ao "antigo palácio" uma atmosfera nostálgica; relembrando um passado distante, marcado por histórias de botijas, fugas de escravos e pela bravura e sagacidade do respeitado e temido "Capitão-Mor".


Os jesuítas que permaneceram por 32 anos, fundaram no local, hoje chamado "sitio colégio", o famoso "Hospício dos Jesuítas". Hospício, no linguajar da época, significava "posto de hospedagem", era lá aonde os padres missionários vinham recuperar suas forças para depois prosseguirem com sua missão de catequizar os aborígines nos mais longínquos confins da capitania. A residência apostólica também abrigou o primeiro centro de ensino do estado e seu primeiro seminário, constituindo-se num dos únicos pólos difusores da cultura daquele tempo. O que restou do extinto estabelecimento são apenas as ruínas da antiga capela de Nossa Senhora do Bom sucesso, construída em 1753. 
Há ainda quem acredite numa famosa "maldição". Segundo a lenda, quando os jesuítas foram expulsos, eles profetizaram que um dia o mar haveria de passar sete metros acima das torres da igreja matriz, espalhando o caos por toda a vila. Todos os bens da ordem foram confiscados, porém reza a tradição que parte dessas riquezas permanece escondida em algum recanto daquela velha habitação.
O sitio dos jesuítas, local de interesse geral devido a sua grande relevância histórica e cultural , encontra-se atualmente dentro da área de um parque, pertencente a uma marca de cachaça, com acesso pago e restrito, visto que segundo informaram na portaria do tal parque, só estará aberto a visitação em agosto. 
Qual seria a justificativa para que uma área que faz parte da história do município e do Ceará, tenha se tornado privativa de uma cachaçaria?  
 Tapera das Artes
belíssimo prédio da Secretaria de Educação
As cidades históricas tem um potencial de atrair visitantes, quer pelo patrimônio histórico-cultural, quer pelas belezas naturais. Mas os gestores do patrimônio histórico de Aquiraz, diferentemente de outras cidades históricas do Ceará, não parecem sensibilizados para esse tipo de público. 
Apesar de ser sábado (ou porque era sábado), o único equipamento aberto à visitação era o museu de arte sacra. Os demais – a igreja matriz, a casa do capitão-mor, o mercado das artes, a tapera das artes, o teatro tapera das artes - estavam todos fechados.  Somados ao absurdo da privatização do sítio dos jesuítas, sobra pouco a ser visitado. 
Para compensar, me desloquei para um lugar que, com toda certeza, estaria aberto....

A Prainha


fotos: Rodrigo Paiva
fontes consultadas:
IBGE
Wikipédia 
História do Ceará, de Aírton de Farias

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Criação de uma Vila no Ceará

Vista da Barra do Ceará vendo-se à margem do rio o Forte de São Sebastião. Desenho atribuído a Frans Post, 1645 (arquivo Nirez)
Por ordem régia de 13 de fevereiro de 1699, a Coroa determinava a criação de uma vila no Ceará – a de São José de Ribamar – cuja localização foi motivo de muita controvérsia.  Com a instalação da vila, a sociedade civil (basicamente os grandes proprietários de terras) passou a participar da administração da capitania.  
Até a criação da vila a administração da capitania era feita  por três instâncias de poder: o capitão-mor  governador, a ouvidoria e a câmara de vereadores.
Os capitães-mores governadores recebiam instruções verbais de Pernambuco e concentravam todo o poder nas mãos. Eram arbitrários e provocavam inúmeros conflitos ao intervir  e perseguir outras autoridades.  
Os Ouvidores tinham a função de fiscalizar a administração e aplicar a justiça na capitania. O ocupante do cargo deveria ser formado em Direito e era nomeado pelo rei para um período de três anos.  
A Ouvidoria Real da Capitania do Ceará foi criada apenas em 1723, com sede na Vila de Aquiraz. Até então as pendências judiciais e administrativas eram resolvidas pelos Ouvidores de Pernambuco ou da Paraíba. 
As Câmaras detinham funções de ordem econômica, administrativa, econômica, policial e judiciária, como fiscalizar a construção de estradas, pontes e calçadas, regulamentar as feiras, os mercados e o trânsito, a arborização das ruas e praças e outras atividades relacionadas com o bem comum.
Ao contrário de outras vilas criadas no Brasil colônia, a questão da arrecadação de impostos não foi a motivação principal para a instalação da primeira vila no Ceará. O objetivo oficial seria a de amenizar as violências, abusos e arbitrariedades cometidas por capitães-mores e administrar a justiça, já que os ouvidores de Pernambuco e da Paraíba, raramente visitavam a capitania do Ceará, em razão das grandes distâncias que separavam as capitanias, da falta de meios de transporte, de comunicação e de segurança (ataques indígenas).
Enquanto os sertões cearenses permaneceram inexplorados, a guarnição militar do Forte de Nossa Senhora da Assunção, apesar de todas as limitações, pode garantir a ordem na capitania. 
Mas, a medida que as terras foram sendo conquistadas com a pecuária, apareceram as disputas entre fazendeiros pela posse da terra, atritos entre colonos e jesuítas por índios, assaltos, roubos e homicídios, os quais não poderiam ser solucionados apenas por uma tropa militar. 
Assim, foi para solucionar tais atritos, que se instalou na capitania uma vila e respectiva Câmara Municipal, que com seus juízes e vereadores,  serviriam para aplicação os princípios da justiça e como contraponto aos poderes dos capitães-mores.
O documento régio de 1699 dava margem a dúvidas sobre o local exato em que deveria ser instalado o pelourinho, (uma coluna de madeira, ferro ou tijolo que representava a autonomia municipal).  
Em consequência, verificaram-se sérias disputas entre as autoridades da capitania, e uma cômica mudança do pelourinho entre o forte de Nossa Senhora de Assunção, onde residiam as autoridades coloniais e eclesiásticas,  a barra do rio Ceará – no local denominado Vila Velha, onde se estabeleceram as primeiras fortificações portuguesas na capitania, onde viviam basicamente indígenas aculturados, em condições de extrema pobreza,  e Aquiraz (e extensivamente o Iguape, na foz do rio Pacoti), onde residiam os  grandes proprietários de terra, a elite local.
A 25 de janeiro de 1700, os três vereadores eleitos e dois juízes instalaram a vila no arraial do Iguape, alegando que este era o local mais conveniente.  A decisão, entretanto, não agradou as autoridades metropolitanas.
 Consultado sobre o local da instalação da vila, o governador de Pernambuco respondeu que esta deveria ser localizada próxima ao fortim. Assim a 25 de maio de 1700, o capitão-mor Francisco Gil Ribeiro instalou a Vila de São José do Ribamar junto à fortaleza de N.S. de Assunção, apesar dos protestos dos vereadores, que consideram o Iguape um local mais adequado. 
Usavam como argumento a longa distância da Aldeia do Siará e as condições pouco favoráveis desta: porto ruim, terras impróprias para a agricultura, falta de boas fontes de água, etc.
Sucederam-se então, outras mudanças conforme  a pressão dos vereadores e capitães-mores. O capitão-mor Francisco Gil Ribeiro, transferiu o pelourinho, em 1702, para um local mais distante ainda: a barra do Rio Ceará, que ficaria ali até 1706. 
O pelourinho da vila ficou na barra do rio Ceará durante 4 anos
Naquele ano o novo capitão-mor Gabriel da Silva lago levou o pelourinho de volta para o forte, sob protestos dos senhores da terra que insistiam pela escola de Aquiraz como sede da vila. Estes apelando às altas autoridades coloniais e ao próprio rei de Portugal  obtiveram em 1711, Ordem Régia determinando a mudança do pelourinho para Aquiraz. 
A 27 de junho de 1713, agora sob protestos dos moradores da fortaleza, a vila foi definitivamente instalada em Aquiraz. Por esta razão muitos consideram Aquiraz a primeira capital do Ceará.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias