quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Os Registros Eclesiais das Famílias Cearenses

Aracati

As primitivas famílias da ribeira do Jaguaribe eram de origem lusa vindas via Recife ou Salvador, através das antigas trilhas indígenas que cortavam o sertão nordestino. Fundaram fazendas de criação extensiva de gado bovino, as margens do Rio Jaguaribe, no início do século XVIII.
Os termos eclesiais da Igreja Católica anotados nos livros de Aracati, Russas, São João do Jaguaribe e Icó não são precisos nas suas informações. Acontecia de se passarem dias, ou mesmo muito tempo entre eventos de batismos e casamentos, realizados em fazendas, capelas de povoados, e até os realizados na matriz, e o seus respectivos assentamentos nos livros. 

 Icó

As anotações eram feitas em pedaços de papel, de maneira simples, abreviada, para o posterior traslado definitivo nos livros, quase sempre por outro escriba, que além de decifrar as anotações anteriores, ainda se deparava com dados incompletos. Guardava-se esses pequenos papéis com as anotações, e ao fim da viagem, sempre em lombo de animais, é que se dava as anotações em livros. Merecia destaque o nome das testemunhas ou padrinhos, conforme o caso. Assim encontram-se registros com os nomes parciais dos nubentes e dos seus pais, mas com o nome das testemunhas completo. O mesmo acontecia com os batizados, onde os padrinhos aparecem com seus nomes completos, além de esclarecimentos sobre estado civil e do local de domicílio. 
Outro aspecto diz respeito aos rituais religiosos envolvendo negros e índios. A ênfase maior era dada ao senhor dos escravos, desempenhando a igreja um papel cartorial, como um apêndice do poder civil, pouco informando sobre batizandos ou noivos, mas com muitas informações sobre os proprietários. Nos termos de batizados de negros havia uma expressão – forro na pia – significando que a criança havia sido alforriada na pia batismal pelo seu proprietário ou por um dos padrinhos mediante a paga de certa quantia em dinheiro. Os índios apareciam como escravos ou com eufemismos: "ama de leite" ou "agregado à casa". Ainda sobre os índios se faziam registros minuciosos de onde procediam, suas origens tribais e aldeamento. Nos documentos emitidos pela igreja, havia também informações sobre a etnia: B de branco, P de pardo, C de crioulo, etc.

 Antigamente os únicos registros (nascimentos, batizados, óbitos, etc) eram feitos pela Igreja, não existia o registro civil. 

Diferenças se encontravam também nos assentos de famílias ricas, pela descrição de detalhes e particularidades que não existiam nos demais: a naturalidade dos pais, o nome e a naturalidade dos avós, coisas assim.
A responsabilidade de conservação dos referidos Livros Eclesiais é da competência da igreja católica, que tenta na medida do possível dispensar os maiores cuidados ao seu acervo. Infelizmente muitos estão se perdendo por obra da tinta usada na escrita setecentista e do século seguinte, pelo tipo e textura do papel usado e pelo ataque de insetos.
Termos usados nas certidões de batismo:

Filhos: eram aqueles que gerados por casais, geralmente casados em outras freguesias que não aquela onde se realizava o batizado, sem provas documentais ou certidão de casamento e sim, provas testemunhais. 
Filhos legítimos: aqueles cujos pais eram reconhecidos pelo padre ou através de certidão de casamento. A posição social dos pais da criança influenciava na elaboração do termo. 
Filhos expostos: onde não há menção ao nome dos pais. Oriundos em sua maioria de mães solteiras e de poucos recursos materiais, e como sugere, eram expostos furtivamente em casa de pessoas escolhidas e em condições de cria-los. 
Filho enjeitado: a própria mãe recusava o filho natural ou bastardo por iniciativa própria ou por imposição familiar. 
Filho de criação: instituição bem nordestina, na qual a criança é adotada sem as formalidades da lei e os merecimentos desta, mas assistida como se filho fosse. 
Filho ilegítimo: todo e qualquer filho de pais impossibilitados de gerar filhos por meio do casamento: os naturais, os bastardos, os incestuosos, etc, estão inclusos neste rol. 
Filho natural: aquele cujos pais são solteiros ou viúvos, sem impedimento para no futuro resolveram sua situação. Usualmente contem o nome da mãe e o nome do pai (mediante sua permissão) e os nomes dos avós.  Se a mãe gozava de status na sociedade, recebia o beneplácito do oficiante, não sendo colocado o termo natural no termo de batismo. Este estigma era levado para o resto da vida, pois os documentos fornecidos pela igreja eram os únicos, já que inexistia o registro civil. 
Filho bastardo: aquele que o nascer o pai era casado com outra que não era a mãe. No caso da mãe ser a casada usava-se escrever “filho de mulher casada” sendo o marido ausente como forme de defesa da honra. O bastardo era mais ou menos aceito socialmente: o filho de um padre com uma mulher sua parenta, era um bastardo bem aceito, enquanto o filho de uma mulher casada com seu amante encontrava-se no outro extremo. 
Filho incógnito: surge no termo do batizado sem informar os nomes dos pais. Uma fórmula encontrada para proteger a honra de mulheres e homens abastados. 
Filhos da igreja: situação não explicada.
A regra geral consistia em manter os padrões materiais e sociais:
- filho natural casar com filha natural
- filho exposto casar com filha exposta
-viúvos empobrecidos com a partilha de bens, caiam na escala social e em função da idade casavam com pessoas de outro patamar social. 

As famílias eram numerosas e com muitas crianças  

Havia uma outra expressão, então muito em voga: a desobriga pascal (obrigação)  – de se confessar e comungar ao menos uma vez ao ano, determinava aos padres seguirem itinerários em áreas com baixa densidade demográfica e de relativa pobreza material. Na desobriga, além de confissões e comunhões, se realizavam os batizados e casamentos necessários.
Os padrinhos na maioria dos casos eram pessoas da própria família – avós, tios, irmãos mais velhos. Depois se convidava pessoas gradas, autoridades, pois era de bom tom se ter por compadre governadores e suas esposas, embora estes quase nunca comparecessem às cerimônias, e mandassem representantes ou emitissem procurações.
A mulher deveria casar com no mínimo 13 anos de idade e o homem 14 anos, mas havia muitos casos de meninas casadas e mães aos  12 anos de idade. As mulheres seguiam a norma de se preparar para o casamento logo após a primeira menstruação. Os homens embora casassem jovens, aos 17, 18 anos, não havia uma regra, mas casavam sempre acima dos permitidos 14 anos de idade.
Os prenomes escolhidos para os filhos seguiam um ritual de homenagens. O primogênito geralmente homenageava o pai ou o avô; e na sequência do nascimento, as homenagens aos demais parentes surgiam. Observar o santo do dia também era usual na escolha do nome da criança.

Extraído do livro 
Famílias Cearenses de Francisco Augusto.  
fotos Google    

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Romaria de Canindé

 

Localizado no sertão do Ceará, o município de Canindé fica a 115 km da capital Fortaleza.  O principal evento religioso/cultural é a festa do padroeiro: a de São Francisco das Chagas, popularmente conhecida como a Romaria de Canindé. Uma das festas religiosas mais antigas do estado de Ceará 

 

A Festa de São Francisco das Chagas é um dos eventos religiosos mais antigos do Brasil e acontece de 24 de setembro a 04 de outubro – dia dedicado a São Francisco – Essa data é alterada apenas em anos de eleições, caso desse ano de 2014, razão pela qual o evento foi adiado para o período de 09 a 19 de outubro. 
  

Sala de Ex-votos
O ex-voto ( voto realizado) é o presente dado pelo fiel ao seu santo de devoção em consagração, renovação, agradecimento ou pagamento de uma promessa. As expressões votivas são tradicionalmente reconhecidas sob as formas de pinturas ou desenhos, figuras esculpidas em madeira, modeladas em argila ou moldadas em cera, muitas vezes representando partes do corpo que estavam doentes e foram curadas. Comumente são representados como placas com inscrições, manuscritos em papel ou como objetos de uso cotidiano, como fotografias, mechas de cabelos, roupas, etc. 


Em Canindé se encontra a estátua de São Francisco, com 30,25 metros de altura, feita por mestre Bibi, escultor de outras esculturas  conhecidas. A imagem foi colocada no alto do Moinho, o bairro mais elevado da cidade, onde pode ser avistada por todos que se aproximam de Canindé. O monumento foi inaugurado em 4 de outubro de 2005.  


Eles têm dia marcado para o encontro com São Francisco em Canindé. Vem de outras cidades do Ceará, do Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão, dos demais estados do Nordeste e desse Brasil afora. Chegam pelos meios de transporte mais diversos, ônibus fretado, semi-leito, pau-de-arara,  automóvel, bicicleta, moto e à pé. 
Trazem pouca bagagem, “ex-votos” para agradecer a graça alcançada, e um mundo de tristezas para trocar pela alegria de participar da festa.  Deste modo eles procedem,  esta gente cheia de dores e esperanças, os romeiros de São Francisco, “o pobrezinho de Assis”.
Encontram a cidade pronta para recebê-los. Cada uma das casas transforma-se em pousadas. E há também o rancho dos romeiros, capaz de abrigar de uma só vez, milhares de peregrinos.
Porém, antes mesmo de buscarem hospedagem, fazem a visita primeira e obrigatória à Basílica de São Francisco. Só então, com a benção do Santo, começam a peregrinação pela cidade. Trazendo ou não oferendas, uma das passagens obrigatórias é pelo salão de ex-votos, verdadeiro museu das dores e da cultura nordestina. Nele está depositado um dos mais ricos tesouros antropológicos de nossa cultura.
Em seguida, há o passeio pelo Convento dos Franciscanos, onde os romeiros acreditam estar São Francisco ainda hoje escondido. Depois se segue a Via Sacra, as procissões, as missas, as rodas de emboladas de coco, as milhares de tendas e barracas do comércio ambulante, e de noite, o parque de diversões. 
O importante é sentir-se romeiro, um entre milhares de irmãos. O encontro revigora-lhes as forças, dá novo ânimo. A volta para casa é rápida, cheia de boas recordações, lembranças que deverão durar até a próxima festa.



Extraído do livro O Ceará dos Anos 90 – Censo Cultural
fotos de Raquel Garcia e Rodrigo Paiva
out/2014 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Julgamento dos Escravos da Escuna Laura II

Um dos crimes que mais agitaram a opinião pública não só da capital como também de outras cidades do interior, ocorreu surpreendentemente em águas costeiras do Ceará, envolvendo passageiros, cujo destino seria o Rio de Janeiro. 

 
embarcação semelhante ao Laura II
 
No dia 12 de junho de 1839, no lugar denominado Arapaçu, distante três léguas de Aquiraz, ancorou o brigue-escuna Laura II, que há alguns dias atrás zarpara do Maranhão. O ancoramento foi proposital, não que estivesse nos planos de viagem, nem o local fosse propício, porém, por circunstâncias adversas, envolvendo comando e tripulação. Insatisfeitos com o tratamento recebido, nove tripulantes, todos escravos, insurgiram-se contra o seu comandante, Capitão Francisco Pereira da Silva e o assassinaram, além de um passageiro de nome Francisco Frates, que se destinava ao Rio de Janeiro. 

Cascavel em 1924
 Depois de cometido o delito, abandonaram o navio na costa e tomaram o rumo de Cascavel. Na Vila de Cascavel, onde os fugitivos fizeram abordagens, um dos que não haviam participado da chacina denunciou os demais, e os nove envolvidos foram presos. Com eles foram encontrados um conto, oitocentos e tantos mil réis e algumas joias, valores que deveriam estar sob a guarda do comando. Em diligência procedida pelo Juiz de Aquiraz, ainda foram salvos alguns sacos de arroz, barris de manteiga e outras mercadorias de menor valor e algumas moedas de cobre. Informado do ocorrido, ordenou o chefe do governo, Dr. João Antônio de Miranda, o deslocamento de 23 praças para a região, no sentido de fazer o que fosse possível, não havendo notícias do resultado dessa operação.

 Figura de proa da Escuna Laura II, recuperada em Aquiraz. Hoje é parte do acervo do Museu do Ceará. 

Processados pelo juiz de Aquiraz e pronunciados como incursos no art. 192, do Código Criminal, os presos foram remetidos para a capital, onde teriam condições mais seguras para aguardar o julgamento. 
O júri reuniu-se no dia 18 de julho de 1839, presidido pelo juiz municipal  Dr. Clemente Francisco da Silva, com  Ângelo José da Expectação de Mendonça na promotoria e como assistente de defesa o padre José Ferreira Lima Sucupira; como Presidente do Conselho, Manuel José de Albuquerque. 

 
 Casa de Câmara e Cadeia de Aquiraz, atualmente Museu São José de Ribamar

Interrogados os réus confessaram friamente o crime, protestando apenas contra maus tratos a bordo e deficiência de alimentação. Proclamada a sentença, seguiram-se os resultados: os réus João Mina, Hilário, Benedito, Antônio, Constantino e Bento foram condenados à pena máxima, ou seja, morte natural na forca. 
O escravo Luiz, natural de Cabo Verde, foi condenado ao grau médio ou galés perpétuas, segregado em Fernando de Noronha. Luiz, natural de Aracati, condenado ao grau mínimo. Dada à sua condição de escravo, deveria ter sua pena comutado em 450 açoites, e depois entregue ao seu proprietário, que além de assinar termo de responsabilidade, seria obrigado a conservá-lo durante seis anos com uma argola no pescoço. Condenado também o armador ou preposto seu e liquidação do navio como forma de ressarcimento das despesas existentes. Foi absolvido o réu José Mina,  considerado inocente.
A data das execuções foi marcada para o dia 19 de outubro de 1839, mas acabou sendo adiada para o dia 22 do mesmo mês por motivos burocráticos. No dito dia 22, às 7 da manhã os prisioneiros deixaram o quartel  (onde hoje está a 10ª Região Militar) e seguiram o mesmo itinerário por onde em 1825 haviam passado os “Mártires da Confederação do Equador”, em direção ao Campo da Pólvora, local das  execuções. O porteiro dos auditórios, Agostinho José da Silva, abria caminho por entre a multidão. Na vanguarda marchavam a cavalo o juiz, um médico e o escrivão. Por fim desfilavam os seis condenados, trajando ceroulas e camisas amarelas. Algemados, os braços em volta do pescoço, tinham ao lado os confessores dos seus instantes finais.

 Passeio Público, antigo Campo da Pólvora onde ocorriam as execuções de réus condenados à pena capital

João Mina, acusado de ter sido o principal assassino do capitão, teve a primazia do infortúnio, porém antes chorava copiosamente e aterrorizado, implorava piedade e perdão. Hilário, o segundo a ser conduzido ao patíbulo, possuía têmpera de aço e se contradizia diante do terror que o cercava. Comia pão-de-ló e bebia vinho juntamente com os outros dois e ainda desdenhava do companheiro, dizendo: “morre homem, mas não dá gosto a teus inimigos”. No momento de entregar o pescoço ao laço, lutou tenazmente, desde a subida à forca até o momento de ser lançado ao espaço. 
O próximo foi o cabra Benedito, que deveria ter sido vendido no Recife e fora o assassino do negociante Feliciano Frates. O quarto condenado era angolano e se chamava Antônio, acusado de haver assassinado um marujo seu companheiro. Constantino o quinto e o primeiro da tragédia do Laura II, comportara-se durante o tempo de prisão como verdadeiro cristão, segundo seus confessores. Era baiano, tinha 34 anos de idade e pensava-se que seria indultado, visto como antes esse boato se espalhara. Bento foi o último na ordem das execuções  o primeiro em crueldade quando por ocasião do crime. Além de atrair o capitão, assassinou um marujo de nome Maia e outro de nome  Antônio, todos igualmente escravos e companheiros de viagem.  
extraído do livro 
Pena de Morte, de R. Batista Aragão