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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Desbravadores das Terras cearenses – Colonizadores do Ceará

 Primeiro Mapa de Fortaleza feito pelo capitão-mor Manuel Francês, em 1726, quando da instalação da Vila de Fortaleza de Nossa senhora de Assunção.  

O povoado nascido no litoral ao lado do forte Schoonenborch permaneceu pequeno e pobre, sem condições de desenvolvimento pela aridez de suas terras. Numa época em que a economia era fundamentalmente agrícola e pecuária, grandes agrupamentos se deslocaram para a zona interiorana. Nessa região a terra oferecia melhores possibilidades de sobrevivência, de extração de riquezas e de comercialização de seus produtos.
Na conquista desses territórios homens intrépidos, rudes, acostumados aos longos caminhos e às jornadas de fôlego, plantaram o tronco das famílias cearenses.
A posse das terras pelos colonos era legitimada pelas cartas de Sesmarias – concessões de terras doadas pelo governo aos que tivessem além de posses e bens, família e agregados – geralmente nas entradas dos rios. 
Datadas a partir dos últimos decênios do século XVII, as primeiras sesmarias foram distribuídas próximas às praias, seguidas de outras no interior, no roteiro das águas, demarcadas de rio em rio. Algumas se tornaram fazendas e currais, congregando famílias – as primeiras inscritas na genealogia cearense – nos núcleos mais característicos de nossa formação social.
Os núcleos familiares permaneciam sob o comando de um patriarca daquela rude vida coletiva, logo transformado em chefe político. As outras famílias da região ou a ele se submetiam, compondo alianças familiares, ou se tornavam rivais.
Com exceção daquela abandonada por Martim Soares Moreno – o primeiro a efetivar a conquista da Capitania do Ceará – a mais antiga sesmaria cearense, com concessão registrada em documento, pertenceu a Felipe Coelho de Moraes, nas proximidades do Forte. Coelho de Moraes já se encontrava desde 1661, constituindo a primeira família do Ceará, no início da real dominação portuguesa após a retirada dos holandeses.
Cem anos depois, no final do século XVIII, a antiga Estrada de Taquara, traçada pelos holandeses em direção à Maranguape, foi percorrida pelo capitão luso Joaquim Lopes de Abreu, com família já constituída na Vila de Fortaleza de N. S. da Assunção. O capitão obtendo por doação algumas sesmarias então devolutas, incorporando-as a outras que havia comprado, constitui em Maranguape uma espécie de feudo para sua família.

 Maranguape – Igreja Matriz de N.S. da Penha - 1934
   
Essas sesmarias abrangiam Sapupara e Jereraú, ficando nesta última a sede administrativa de seus vastos domínios. Homem de largos recursos, Lopes de Abreu foi politicamente influente na província. Exerceu as funções de juiz ordinário, juiz de órfãos em Fortaleza, vereador por Fortaleza, e primeiro gestor do Município durante o Império. Compôs a Junta Tríplice que governou o Ceará em 1820, lavrando neste ano, como Presidente da Câmara, o termo de solicitação ao Rei, da elevação desta vila à categoria de cidade.
No oratório de Jereraú foram realizados os casamentos dos filhos do capitão Lopes de Abreu; dois de seus netos, filhos do major Agostinho Luiz da Silva, português de Sintra, uniram-se às famílias Mendes Smith de Vasconcellos e Correia de Mello.
Os Correia de Mello e seus parentes Amaral e Sombra desenvolveram a agricultura e industrializaram seus produtos, tornando Maranguape  um verdadeiro celeiro para Fortaleza. O comendador João Correia de Mello, açoriano e agente consular de Portugal, foi o pioneiro na exportação de laranja para a Europa, em 1876, o que também favoreceu ao desenvolvimento de Maranguape.
Dois irmãos do comendador, José e Antônio Correia de Mello, casaram  com as filhas de Domingos da Costa e Silva, conhecido como Domingão da Guaiuba, tio do poeta Juvenal Galeno, pertencente a uma das famílias mais importantes da Província. Era irmão da baronesa de Aratanha e de duas outras casadas com membros da família Justa. Toda essa parentela entrelaçava-se com donos de sítios nas serras de Maranguape, Aratanha e Pacatuba.
Entre os proprietários de Pacatuba encontravam-se as famílias Pinheiro, Medeiros, Cabral, Correia de Mello, Campos, Spindola, Siqueira, Benevides, Ferreira Pinto, Theóphilo, Amaral, Albano, Amora, Coelho, Silveira, Gadelha, Fernandes Campos, Lopes, Botelho, Siqueira, Soares e Leite.Uma pequena aristocracia foi se formando entre os cafezais dessas serras. Em Baturité sobressaíam-se as famílias Linhares, Caracas, Holanda, Ferreira Lima, Queiroz, Sampaio e Dutra.

 Estrada Fortaleza – Guaramiranga – 1925 foto: Blog do Iba Mendes  

Mais próximo ao litoral disseminou-se a prole do português Manoel Lopes Cabreira, um dos pioneiros desbravadores dessas terras, vinculando-se aos Costa Gadelha, Baima, Lopes e Queiroz, povoando Aquiraz, Cascavel e depois, o Maciço de Baturité. Essa descendência ligou-se às famílias Pimentel, Caracas, Castello Branco, Silveira, Torres e Barros Leal.
O clã Barbosa Cordeiro transferiu-se de Baturité para Canindé, residindo na Fazenda São Pedro. Para Canindé também se transferiram as famílias Vieira da Costa, Santos Lessa, Pinto de Magalhães, Cruz Saldanha, Cordeiro da Cruz, Alves Ribeiro, Gondim, Rodrigues Campelo e Cordeiro da Rocha.

 Canindé

Para o lado ocidental de Fortaleza, em Caucaia, se instalaram as famílias Rocha Motta, Moreira de Souza e Pereira Façanha. A região de São Luiz do Curu, onde seria fundada a cidade de Imperatriz, hoje Itapipoca, povoou-se com os Pires Chaves, Álvares ou Alves, Cordeiro, Agrela Jardim, Telles de Menezes, Tomé Cordeiro, Rodrigues Chaves, Ribeiro da Costa, Castro Vianna, Santos, Barroso, Braga, Pereira Pinto, Escócia de Drumond, Moura Rolim, Teixeira e Montenegro e muitos outros  que enriqueceram com o algodão de Uruburetama.


Extraído do livro
Ideal Club – história de uma sociedade
                 De Vanius Meton Gadelha Vieira                    

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Os Registros Eclesiais das Famílias Cearenses

Aracati

As primitivas famílias da ribeira do Jaguaribe eram de origem lusa vindas via Recife ou Salvador, através das antigas trilhas indígenas que cortavam o sertão nordestino. Fundaram fazendas de criação extensiva de gado bovino, as margens do Rio Jaguaribe, no início do século XVIII.
Os termos eclesiais da Igreja Católica anotados nos livros de Aracati, Russas, São João do Jaguaribe e Icó não são precisos nas suas informações. Acontecia de se passarem dias, ou mesmo muito tempo entre eventos de batismos e casamentos, realizados em fazendas, capelas de povoados, e até os realizados na matriz, e o seus respectivos assentamentos nos livros. 

 Icó

As anotações eram feitas em pedaços de papel, de maneira simples, abreviada, para o posterior traslado definitivo nos livros, quase sempre por outro escriba, que além de decifrar as anotações anteriores, ainda se deparava com dados incompletos. Guardava-se esses pequenos papéis com as anotações, e ao fim da viagem, sempre em lombo de animais, é que se dava as anotações em livros. Merecia destaque o nome das testemunhas ou padrinhos, conforme o caso. Assim encontram-se registros com os nomes parciais dos nubentes e dos seus pais, mas com o nome das testemunhas completo. O mesmo acontecia com os batizados, onde os padrinhos aparecem com seus nomes completos, além de esclarecimentos sobre estado civil e do local de domicílio. 
Outro aspecto diz respeito aos rituais religiosos envolvendo negros e índios. A ênfase maior era dada ao senhor dos escravos, desempenhando a igreja um papel cartorial, como um apêndice do poder civil, pouco informando sobre batizandos ou noivos, mas com muitas informações sobre os proprietários. Nos termos de batizados de negros havia uma expressão – forro na pia – significando que a criança havia sido alforriada na pia batismal pelo seu proprietário ou por um dos padrinhos mediante a paga de certa quantia em dinheiro. Os índios apareciam como escravos ou com eufemismos: "ama de leite" ou "agregado à casa". Ainda sobre os índios se faziam registros minuciosos de onde procediam, suas origens tribais e aldeamento. Nos documentos emitidos pela igreja, havia também informações sobre a etnia: B de branco, P de pardo, C de crioulo, etc.

 Antigamente os únicos registros (nascimentos, batizados, óbitos, etc) eram feitos pela Igreja, não existia o registro civil. 

Diferenças se encontravam também nos assentos de famílias ricas, pela descrição de detalhes e particularidades que não existiam nos demais: a naturalidade dos pais, o nome e a naturalidade dos avós, coisas assim.
A responsabilidade de conservação dos referidos Livros Eclesiais é da competência da igreja católica, que tenta na medida do possível dispensar os maiores cuidados ao seu acervo. Infelizmente muitos estão se perdendo por obra da tinta usada na escrita setecentista e do século seguinte, pelo tipo e textura do papel usado e pelo ataque de insetos.
Termos usados nas certidões de batismo:

Filhos: eram aqueles que gerados por casais, geralmente casados em outras freguesias que não aquela onde se realizava o batizado, sem provas documentais ou certidão de casamento e sim, provas testemunhais. 
Filhos legítimos: aqueles cujos pais eram reconhecidos pelo padre ou através de certidão de casamento. A posição social dos pais da criança influenciava na elaboração do termo. 
Filhos expostos: onde não há menção ao nome dos pais. Oriundos em sua maioria de mães solteiras e de poucos recursos materiais, e como sugere, eram expostos furtivamente em casa de pessoas escolhidas e em condições de cria-los. 
Filho enjeitado: a própria mãe recusava o filho natural ou bastardo por iniciativa própria ou por imposição familiar. 
Filho de criação: instituição bem nordestina, na qual a criança é adotada sem as formalidades da lei e os merecimentos desta, mas assistida como se filho fosse. 
Filho ilegítimo: todo e qualquer filho de pais impossibilitados de gerar filhos por meio do casamento: os naturais, os bastardos, os incestuosos, etc, estão inclusos neste rol. 
Filho natural: aquele cujos pais são solteiros ou viúvos, sem impedimento para no futuro resolveram sua situação. Usualmente contem o nome da mãe e o nome do pai (mediante sua permissão) e os nomes dos avós.  Se a mãe gozava de status na sociedade, recebia o beneplácito do oficiante, não sendo colocado o termo natural no termo de batismo. Este estigma era levado para o resto da vida, pois os documentos fornecidos pela igreja eram os únicos, já que inexistia o registro civil. 
Filho bastardo: aquele que o nascer o pai era casado com outra que não era a mãe. No caso da mãe ser a casada usava-se escrever “filho de mulher casada” sendo o marido ausente como forme de defesa da honra. O bastardo era mais ou menos aceito socialmente: o filho de um padre com uma mulher sua parenta, era um bastardo bem aceito, enquanto o filho de uma mulher casada com seu amante encontrava-se no outro extremo. 
Filho incógnito: surge no termo do batizado sem informar os nomes dos pais. Uma fórmula encontrada para proteger a honra de mulheres e homens abastados. 
Filhos da igreja: situação não explicada.
A regra geral consistia em manter os padrões materiais e sociais:
- filho natural casar com filha natural
- filho exposto casar com filha exposta
-viúvos empobrecidos com a partilha de bens, caiam na escala social e em função da idade casavam com pessoas de outro patamar social. 

As famílias eram numerosas e com muitas crianças  

Havia uma outra expressão, então muito em voga: a desobriga pascal (obrigação)  – de se confessar e comungar ao menos uma vez ao ano, determinava aos padres seguirem itinerários em áreas com baixa densidade demográfica e de relativa pobreza material. Na desobriga, além de confissões e comunhões, se realizavam os batizados e casamentos necessários.
Os padrinhos na maioria dos casos eram pessoas da própria família – avós, tios, irmãos mais velhos. Depois se convidava pessoas gradas, autoridades, pois era de bom tom se ter por compadre governadores e suas esposas, embora estes quase nunca comparecessem às cerimônias, e mandassem representantes ou emitissem procurações.
A mulher deveria casar com no mínimo 13 anos de idade e o homem 14 anos, mas havia muitos casos de meninas casadas e mães aos  12 anos de idade. As mulheres seguiam a norma de se preparar para o casamento logo após a primeira menstruação. Os homens embora casassem jovens, aos 17, 18 anos, não havia uma regra, mas casavam sempre acima dos permitidos 14 anos de idade.
Os prenomes escolhidos para os filhos seguiam um ritual de homenagens. O primogênito geralmente homenageava o pai ou o avô; e na sequência do nascimento, as homenagens aos demais parentes surgiam. Observar o santo do dia também era usual na escolha do nome da criança.

Extraído do livro 
Famílias Cearenses de Francisco Augusto.  
fotos Google