quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Feitosas X Montes - Os Poderosos rivais do Sertão dos Inhamuns

 Uma das várias versões para a origem da família Feitosa, é que o tronco do clã é um português de nome João Alves, nascido numa ilha chamada Feitosa. Daí que ficou conhecido como João Alves Feitosa que um dia deu com os costados em terras brasileiras; teria, supostamente, chegado ao Brasil na primeira metade do século XVII, casando-se com uma filha do coronel Manuel Martins Chaves, alagoano de Penedo. Tiveram dois filhos: o comissário Lourenço Alves Feitosa, casado com Antônia de Oliveira Leite, e o coronel Francisco Alves Feitosa, casado com Isabel do Monte.


As Sesmarias eram terrenos doados pelo governo português para exploração e povoamento. Eram preferencialmente instaladas próximas a cursos d'água,  como o Rio Jaguaribe (foto do IBGE nos 60) 

Residentes no Engenho Currais de Serinhaém, em Pernambuco, a família Feitosa, que se supõe haver-se comprometido em levantes ocorridos na província, e temendo sofrer perseguições, fugiu para o interior do Ceará, onde se fixou nas proximidades do Icó. Lourenço Alves Feitosa, o chefe da família, que aqui tomou o título de Alferes Comissário, deixou sua família em Pernambuco e veio em companhia do irmão, Francisco Alves Feitosa, do Coronel Pedro Alves Feitosa e de Manuel Ferreira Ferro. Lourenço se estabeleceu na Fazenda Cachoeirinha, que adquiriu no riacho Cariuzinho.


Francisco Alves Feitosa se casou com uma viúva irmã do Capitão- Mor Geraldo do Monte, e em pouco tempo os cunhados se desentenderam por questões de negócios e de posse de terras. Os coronéis Francisco Alves Feitosa e Lourenço Alves Feitosa ao chegarem ao sertão dos Inhamuns estruturam a maior comunidade rural da Capitania do Ceará. O comissário Lourenço Alves Feitosa chegou a ter 22 sesmarias e com o seu irmão Francisco Alves Feitosa dominaram uma área de aproximadamente 30.000 quilômetros quadrados.


A família da esposa de Francisco Alves Feitosa, era contemporânea dos Feitosas, cujo chefe era Geraldo do Monte, procedente da Vila de Penedo, que veio para a Capitania do Ceará trazendo consigo filhos, sobrinhos e outros parentes que se espalharam pelos sertões, adquirindo fazendas de criar gado, nos últimos anos do século XVII ou início do século XVIII.

 

Francisco do Monte, irmão de Geraldo, fixou-se no Icó, e lá perdeu uma filha, que para pesar de sua mãe, foi enterrada no campo por falta de uma igreja. Seu marido para a consolar, prometeu que os restos mortais da filha seriam transferidos para uma igreja, e para isto, tratou de estabelecer um patrimônio de meia légua de terras, no centro do qual edificou uma capela a Nossa Senhora da Expectação, ainda na primeira metade do século XVIII. Algum tempo depois a capela serviu de matriz à freguesia criada no Arraial do Icó.


Igreja N.S. da Expectação, em Icó, era originalmente uma pequena capela construída por Geraldo do Monte (imagem IBGE)


Francisco Alves Feitosa, receoso da fama de valente de seu cunhado Geraldo do Monte, retirou-se para uma fazenda que possuía na ribeira dos Bastiões, e durante sua estadia naquele sítio travou relações com o chefe da tribo dos índios Jucás, que o levou a um local onde assistiam na ribeira do riacho Jucá, um dos afluentes do Jaguaribe, que se lança nele, abaixo de Arneirós.


Os Feitosas foram informados por esse irmão da grande oportunidade que era essa ribeira para a criação de gado, e resolveram solicitar por sesmaria, mas não guardaram o devido sigilo, e Geraldo do Monte, informado das descobertas feitas pelos Feitosas, então seus inimigos declarados, antecipou-se ao cunhado e solicitou a posse dos terrenos de Jucá, no que foi atendido.


Mas a concessão de sesmarias estava sujeita a prazos para ocupação, demarcação e medição das terras. Como esse prazo não foi cumprido, Francisco Alves Feitosa conseguiu, 6 anos depois, anular a concessão dada a Geraldo do Monte, obtendo a posse do território do qual fora descobridor, e providenciou a medição e ocupação.


Geraldo do Monte, despeitado com a atitude do cunhado, tentou de todas as maneiras evitar a posse dos terrenos. Depois de uma longa questão entre os dois poderosos rivais, estes acabaram lançando mãos das armas e deram início a um longo conflito entre as duas famílias. A partir dessa primeira desavença, houve uma série de confrontos que foram ficando cada vez mais mortíferos. Os chefes de uma e outra parte viviam incessantemente debaixo de armas e prontos a atender a qualquer demanda. Toda a capitania acabou sofrendo as consequências dessa luta. A população, refém, viu-se obrigada a pronunciar-se em favor de uma ou de outra parte, porque a neutralidade era vista como crime capital.


Os Feitosas abandonaram as imediações do Icó território dos inimigos e foram se aquartelar nas terras do vale do Jucá e do Alto Jaguaribe, cuja população se pronunciou a favor deles. Dos encontros sangrentos havidos entre os dois grupos, muitas localidades receberam denominações que ainda conservam, provenientes de algum episódio desta contenda. Na Ribeira do Salgado existem o Sítio das Emboscadas, Tropas, Arraial da Pendência; no Jaguaribe encontra-se o das Almas, dos Defuntos, dos Ossos, das Trincheiras, do Bom Sucesso, o Saco das Balas e muitos outros, celebrizados por algum incidente sinistro.


O conflito teve início em 1714 e terminou em 1724, depois de muitas intervenções do governo, que nomeou juízes, mediadores, ouvidores e até governadores para intermediarem a contenda. As mortes de indígenas, colonos, fazendeiros foram incontáveis, visto que não havia controle sobre os embates. Depois que o governador da capitania decidiu desarmar as duas famílias e sendo o coronel Feitosa avisado por um oficial, refugiou-se em sua fazenda Buriti, no Piauí. Já Geraldo do Monte foi forçado a abandonar sua fazenda das Cabaças, recolhendo-se ao Boqueirão, na margem do Jaguaribe, onde se supõe, terminou os seus dias.  


O comissário Lourenço Alves Feitosa, que foi o maior sesmeiro do Ceará, perdeu mulher e seu único filho, e quando faleceu deixou toda a sua fortuna para seu irmão Francisco Alves Feitosa, que passou a condição de maior latifundiário do sertão dos Inhamuns.



Sertão dos Inhamuns - imagem recente (fonte Diário do Nordeste)

Os descendentes dos Feitosas continuaram a ocupar a região, no sertão dos Inhamuns, onde fundaram a Vila de Cococi, situada dentro de uma grande fazenda. Depois foi elevado à categoria de Distrito, anexado ao município de Tauá. Em 1956, o distrito do Cococi passou a fazer parte do recém-criado município de Parambu. Pela lei estadual nº 3858, de 17 de outubro de 1957, o distrito de Cococi foi elevado à condição de município, desmembrado de Parambu.


No Censo demográfico realizado em 1960, o município do Cococi contava com 4.064 habitantes, 2.181 homens e 1.883 mulheres. Passados pouco mais de oito anos, uma nova lei estadual, a de n° 8339, de 14 de dezembro de 1965, extinguiu o município de Cococi que voltou a ser distrito subordinado a Parambu.



Casa abandonada no Cococi (imagem Pinterest)

Os motivos nunca ficaram claros: a versão mais conhecida conta que o prefeito teria cometido irregularidades como desvio de verbas destinadas ao município, o que teria desagradado ao Governo Federal, que teriam determinado a extinção. Mas podemos observar que a extinção de Cococi foi viabilizada por meio de uma lei estadual (8339), no Governo Virgílio Távora (1963-1966). Pelo mesmo instrumento legal, vários municípios cearenses foram extintos, sendo que a maioria teria essa condição revogada mais tarde, recuperando o status de cidades com autonomia administrativa. 

   

Na sua curta existência como município, Cococi teve 2 prefeitos, ambos da família Feitosa. O município estava instalado em terras particulares, de uma única família. À época da extinção, o prefeito, secretários e vereadores tinham todos o mesmo sobrenome Feitosa. Tinha uma boa estrutura, contava com prefeitura, câmara municipal, uma praça, hotel, cartório, posto fiscal, escola, amplas residências e uma igreja matriz.


Igreja de N. S. da Conceição, no Cococi, construída em 1771 pelo coronel Francisco Alves Feitosa. (imagem Diário do Nordeste)

A cidade e atual distrito do Cococi nasceu com a chegada dos Feitosas e morreu aos poucos, à medida que eles se foram. Dos velhos tempos, restaram a igreja matriz, uma meia dúzia de moradores, e quase nenhuma expectativa, a não ser a vinda de alguns curiosos, que de vez em quando visitam as ruínas e o velho cemitério, que paradoxalmente, são as maiores atrações do lugar.


 

Fontes consultadas:

O Clã dos Inhamuns, de Nertan Macedo. Edições UFC, 1966

IBGE – Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – 1959

O Ceará dos Anos 90, censo cultural.

A Memória dos Conflitos Territoriais entre Famílias na construção da Sociedade nos Sertões dos Inhamuns, de Cristiane e Castro Feitosa Melo. Disponível em  https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/24857/3/2012_art_cecfmelo.pdf

  

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Leprosário, Colônia e Centro de Convivência Antônio Diogo


Quando o então padre Antônio Tabosa Braga – mais tarde Monsenhor Tabosa – criou o Leprosário Antônio Diogo, com o apoio financeiro do industrial Antônio Diogo de Siqueira, o fez com a melhor das intenções, uma vez que a lepra já se propagava pelo Estado, havia uma preocupação crescente por parte da população devido ao medo do contágio, e por amor aos doentes, que viviam pelas ruas, principalmente da Capital, sem assistência médica ou qualquer tipo de apoio. 

O religioso iniciou uma grande campanha sensibilizando a população para o problema dos hansenianos. Construiu então no Morro do Croatá um modesto abrigo, onde os doentes podiam ter algum descanso e ajuda espiritual. Um dos internos do que foi considerado o primeiro hospital hanseniano, conta que o religioso foi pessoalmente assistir a chegada dos doentes, e fazer a entrega solene da nova “cidade”, onde poderiam transitar normalmente, sem o risco de serem expulsos. E continuou assim, durante todo o resto de sua vida trabalhando infatigavelmente pelo leprosário, com o fim de proporcionar o necessário conforto a seus moradores.

Monsenhor Tabosa e Antônio Diogo de Siqueira

Para assegurar a estabilidade do estabelecimento, confiou a sua direção às Irmãs Capuchinhas, e nomeou capelão o padre Joaquim Severiano de Vasconcelos. No dia da inauguração, não contente de ter ido deixar os doentes na sua nova moradia, Monsenhor Tabosa cumprimentou um por um, passou com eles o dia inteiro, e se encarregou de armar, todas as redes e camas. 


O Leprosário de Canafístula foi inaugurado em 9 de agosto de 1928, no Distrito de Canafístula, atual Antônio Diogo, município de Redenção, nas dependências onde antes já funcionara a Colônia Cristina, que abrigara flagelados da grande seca de 1877/9. Depois que a Colônia foi extinta, em 1925, abrigou a primeira prisão agrícola do Estado, e por fim, o leprosário, a partir de 1928. Construída com a ajuda financeira do industrial Antônio Diogo de Siqueira, a instituição foi mantida por doações de populares e uma ajuda governamental até o início dos anos 40, quando passou a ser mantido pelo governo estadual. 
  

Colônia Christina

No Brasil, até meados do século XX, os portadores da hanseníase eram obrigados a se isolar em leprosários, uma política que visava o afastamento dos doentes por meio de internação compulsória em vez de um tratamento efetivo. 

Essa política do isolamento foi adotada no governo de Getúlio Vargas, durante a década de 1940. Pela lei, qualquer pessoa diagnosticada com a doença era imediatamente levada para os chamados hospitais-colônia. Os afetados ficavam confinados em pequenas cidades construídas para esse fim, no caso do Ceará, os leprosários situados em Redenção e Maranguape. Para os doentes, ingressar nos muros de uma dessas instituições significava deixar tudo para trás.

Leprosário Antônio Diogo

O leprosário denominado Colônia de Canafístula, teve duas inaugurações: a primeira, no dia 1° de agosto de 1928, somente com a presença de autoridades evitando o contato com os doentes, que só chegaram ao local no dia 09 do mesmo mês.

Os pacientes foram transportados de trem, partindo de Fortaleza. Foram embarcados nas proximidades da igreja dos Navegantes, com paradas previstas em estações intermediárias a fim de receber outros doentes que porventura houvesse nas localidades. Chegaram ao leprosário no dia 9 de agosto, em número de 44 pacientes, sendo 35 procedentes de Fortaleza e os demais de várias localidades. As instalações eram precárias: nenhuma mobília, nada de equipamentos, sem saneamento básico, água potável lavanderia ou energia elétrica. Os pacientes aglomeravam-se em redes estendidas e separadas apenas em ala feminina e masculina. O primeiro paciente a ser registrado naquele 9 de agosto de 1928 foi o agricultor Raimundo Gomes, de 32 anos. Ele não resistiu nem ao primeiro ano de internamento, faleceu no início do ano seguinte.


Mantido por doações e contando com uma ajuda financeira do Estado, o lazareto passava por muitas privações. Em abril de 1929, foi feito um apelo pela imprensa no sentido de se obter maiores recursos para manutenção do lugar. Como resultado, o governo aumentou o valor de sua contribuição. Em 1929, o Dr. Samuel Uchoa ao assumir a direção do Serviço de Saneamento Rural, resolveu priorizar investimentos no leprosário, e iniciou um movimento em favor dos filhos sadios dos pacientes, inaugurando a 29 de maio de 1930, a Creche Silva Araújo, que contava com dois dormitórios de 15 lugares cada um, para meninos e meninas. A exemplo do que já ocorria com o lazareto, a direção da creche também, foi confiada às Irmãs Capuchinhas.


Apesar de as autoridades terem passado a dar mais atenção ao leprosário, a crise se aprofundava e a doença se alastrava. No início dos anos 30, a colônia de Antônio Diogo já abrigava mais de 200 doentes, além dos muitos que perambulavam esmolando pelas ruas de Fortaleza, que não eram recolhidos ao Leprosário por falta de vagas.

Nos anos 40 foi criado o Serviço de Profilaxia da Lepra, através do Decreto-Lei n° 686, de 13 de março de 1940, durante o governo do interventor Menezes Pimentel, o que deu novo impulso ao tratamento e controle da hanseníase no Ceará. O Serviço de Profilaxia encampou o Leprosário Antônio Diogo, que tornou-se instituição estadual subordinada ao Departamento Estadual de Saúde e passou a ser denominada Colônia Antônio Diogo. Em 12 de agosto de 1977, tornou-se Hospital de Dermatologia Sanitária Antônio Diogo, através do Decreto Estadual nº 12.435. Depois foi transformado no Centro de Convivência Antônio Diogo que congrega e assiste ex-pacientes e seus familiares, que não puderam ou não quiseram abandonar o local depois de curadas da hanseníase.


a Lei Federal nº 610, de 13 de janeiro de 1949, recomendava o isolamento compulsório dos pacientes em colônias, chamadas à época de leprosários. A mesma lei ordenava a entrega dos bebês de pais com hanseníase à adoção, o que levou à separação de milhares de famílias. Esta situação perdurou até 1986, quando os antigos hospitais colônias foram transformados em hospitais gerais.

Além do isolamento, até meados do século XX, os doentes tinham seus pertences queimados, uma política que visava muito mais ao afastamento dos portadores do que a um tratamento efetivo. Apenas em 1962 a internação compulsória dos doentes deixou de ser regra. No Ceará, até 1973, eles ainda eram segregados nos leprosários. 

O fim do isolamento compulsório decretou a libertação dos doentes que viviam confinados entre os muros da Colônia, possibilitando a reintegração no seio da família e da sociedade da qual foram compulsoriamente excluídos. Mas, boa parte dos antigos internos, não conseguiu se readaptar a essa nova vida, seja por terem perdido por completo o contato com os familiares, seja por ainda se acharem discriminados.  

Centro de convivência Antônio Diogo atualmente

Atualmente cerca de 100 pessoas moram nas dependências do Centro de Convivência, que completa 91 anos em 2019. A unidade abriga 42 pacientes remanescentes da Colônia de Antônio Diogo em dois pavilhões, e 65 casas, quase todas ocupadas por famílias de ex-internos. O equipamento atua com um serviço ambulatorial de dermatologia para atendimentos de pacientes da unidade e da região, promovendo reabilitação física e social.


Fontes: 
Feitosa, Adilia Maria Machado. A Institucionalização da Hanseníase no Ceará: do Leprosário de Canafístula ao Centro de Convivência Antônio Diogo. 2008. Dissertação de Mestrado em Políticas Públicas. Universidade Estadual do Ceará. 2008.
Leite Filho, Rogaciano. A História do Ceará passa por esta rua. Fortaleza, Fundação Demócrito Rocha, 1988.
Doentes ainda sofrem isolamento. Jornal Diário do Nordeste, edição de 19 de agosto de 2014
fotos: 
Brasiliana Fotográfica, Fundação Fiocruz e Centro de Convivência Antônio Diogo

   

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Missão Velha

Em fins do século XVII o vale do Cariri era povoado por indígenas da nação homônima, oriundos do planalto da Borborema, refugiados da guerra da repressão que os portugueses moviam contra a coligação de tribos indígenas nordestinas, impropriamente denominada de 'Confederação dos Cariris' (1683-1713); efeito tardio da indisciplina e rebelião implantada durante o domínio holandês. Em defesa e, para a pacificação dos indígenas, ocorreram missionários de diversas ordens religiosas. Os jesuítas, agrupando-os sob sua autoridade eclesiástica em aldeias ou missões, criaram, entre outras no sítio Cachoeira, a de São José, que seria a célula-mãe do Município de Missão Velha.

Praça São José - imagem IBGE s/data

Nestas terras veio estabelecer-se, em 1707, um baiano emissário da Casa da Torre chamado João Correia Arnaud (descendente do Caramuru), com mulher, nove filhos, parentes e escravos, dando início à colonização da região. Em 28 de janeiro de 1748, sob a invocação de Nossa Senhora da Luz,
foi criado, desmembrado do curato de Icó, na região dos Cariris Novos, o Curato Amovível das Minas dos Cariris Novos. Por provisão do bispo de Olinda, de 3 de maio de 1760, foi autorizada a criação da Matriz de São José, no sítio da antiga capela do aldeamento indígena, passando o curato a denominar-se desde então, 'São José da Missão Velha do Cariri'.

Por volta de 1750, espalhou-se por todo o Nordeste, a notícia da suposta riqueza aurífera do vale do Cariri. A fim de que os serviços de mineração tivessem maior eficiência, foi organizada, em 1756, a Companhia do Ouro das Minas de São José dos Cariris, dois anos depois dissolvida, em vista da 'pouca utilidade que poderiam dar as ditas minas a quem as cultivasse'.

Feira da Rua D. Pedro II - foto IBGE s/data

Desaparecido o interesse do ouro, voltaram-se os habitantes para a agricultura. A fertilidade do solo caririense, suas fontes e rios quase perenes, a fartura de frutos silvestres. foram importantes fatores, que provocaram a afluência de renovadas ondas de povoamento.

Seus habitantes tomaram parte ativa na Confederação do Equador (1824) e na revolta de 1831, consequência da abdicação de D. Pedro I. Na crônica histórica de Missão Velha figuram vários e emocionantes episódios, inclusive a luta pela sua posse entre as tropas chefiadas por Pinto Madeira, o Padre Antônio Manuel de Souza, o célebre "benze cacetes" e as do Presidente da Província, José
Mariano de Albuquerque Cavalcante. Durante os combates, a então vila de Missão Velha mudou de mãos algumas vezes, culminando com a derrota das forças de Pinto Madeira, que era o líder da rebelião denominada "abrilada", porque defendia o retorno de Dom Pedro I, que abdicara no dia 7 de abril de 1831.

O Município de Missão Velha surgiu, desmembrado do de Barbalha, em 1864. Segundo alguns historiadores, o nome do município é devido ao fato de os jesuítas terem fundado outras missões na região, passando a primeira delas a ser denominada de Missão Velha.

Distrito criado com a denominação de Missão Velha em 1748 e elevado à categoria de vila com a denominação de Missão Velha, em 1864, desmembrado de Barbalha. Elevado à condição de cidade com a denominação Missão Velha, pelo decreto, nº 262, de 28 de julho de 1931. Atualmente o município é constituído de 4 distritos: Missão Velha, Jamacaru, Missão Nova e Quimami.


vista aérea - imagem Câmara Municipal de Missão Velha

Limita-se ao Norte com os municípios de Aurora e Caririaçu; ao Sul: Brejo Santo, Porteiras e Jardim; a Leste: com as cidades de Milagres e Abaiara; e a Oeste, com Juazeiro do Norte e Barbalha. Localizada na região do Cariri cearense, fica a cerca de 535 km da capital Fortaleza.
População do último Censo (2010) - 34.274 habitantes; 
População estimada (para 2018) - 35.662 habitantes.

Atrativos Naturais

Balneário Dr. João de Castro
Cachoeira de Missão Velha
Bica de Jamacaru
Gameleira do Pau
Fonte da Pendência
Recanto da Divina Misericórdia

Igreja Matriz de São José


foto IBGE-1983

Por provisão do bispo de Olinda, de 3 de maio de 1760, foi autorizada a construção da Matriz de São José, no sítio da antiga capela do aldeamento indígena passando a denominar-se desde então, “São José da Missão Velha do Cariri”.
O surgimento do povoado aconteceu primeiramente com a criação de uma pequena capela, ao redor da qual iam se instalando casas e fazendas, que atraíam novas moradores. E assim nasceu a maioria das cidades do Ceará, à sombra das igrejas católicas, sob o signo da cruz dos colonizadores e dos padres jesuítas que aqui chegavam pregando o catolicismo. Uma igreja e uma praça era regra geral nas povoações antigas. Os templos, seculares ou regulares, raramente eram sobrepujados em importância por qualquer outro edifício.

Cachoeira de Missão Velha

foto: g1-globo.com

Localizada no Sitio Cachoeira, a 3 km da cidade de Missão Velha, a região abriga uma das paisagens mais exuberantes do Cariri, com quedas d’água de até 12 m, formadas pelas águas do Rio Salgado. Considerado como a porta de entrada da colonização do Cariri, esse ecossistema, possui elementos históricos e culturais muito importantes. Próximo à cachoeira, encontra-se uma trilha que leva aos restos da casa de pedra do século XVII. Além disso, tal cenário já foi palco de encontros entre cangaceiros, no início do século XX. 

Foto Diário do Nordeste

A história do Geosítio Cachoeira de Missão Velha é relacionada ao contexto da escassez da água no Sertão, pois lá era um dos poucos lugares onde se podia encontrar água durante todo o ano. Como todo bom sitio turístico e cultural que se preza, o lugar, guarda consigo muitas lendas que foram passadas de geração a geração. Contam os mais velhos da existência de uma mãe d’água,  de voz misteriosa e mágica, que atraia os banhistas para locais perigosos, levando-os assim a morte. É raro o ano em que pessoas não morrem afogadas na Cachoeira de Missão Velha. 

Estação Ferroviária


foto do site estações ferroviárias

A Estação Ferroviária de Missão Velha foi inaugurada em 1925. Dali estava prevista uma ligação ferroviária que ligava a região a Petrolina, na divisa de Pernambuco com a Bahia, onde terminava a concessão da linha da antiga Leste Brasileiro. Atualmente está desativada.

A Missão Velha dos dias atuais apresenta 9.7% de domicílios com esgotamento sanitário adequado, 85.6% de domicílios urbanos em vias públicas com arborização e 2.2% de domicílios urbanos em vias públicas com urbanização adequada (presença de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio). Quando comparado com os outros municípios do estado, fica na posição 135 de 184, 118 de 184 e 120 de 184, respectivamente. Já quando comparado a outras cidades do Brasil, sua posição é 4388 de 5570, 1930 de 5570 e 4039 de 5570, respectivamente.

fontes:
IBGE
Anuário do Ceará
Prefeitura de Missão Velha
Geopark Araripe
Turismo no Cariri





sábado, 29 de setembro de 2018

A Arquitetura dos Sertões

Icó - Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Monte

A luta dos povoadores no interior contra as várias nações indígenas, foi homérica. Trazidos pela esperança de encontrar campos de boas pastagens para a criação de gado, pois a região não oferecia as tentações dos latifúndios açucareiros, nem do ouro ou diamantes. Esses povoadores vinham da Paraíba, Pernambuco e de Alagoas, pelo sul, espraiando-se nas ribeiras ou vales dos rios, rumo da costa. 

Assim, o povoamento se fez do interior para o litoral. Fundaram as primeiras povoações que mais tarde, se tornariam vilas e cidades: Crato, Lavras da Mangabeira, Cachoeira, Icó. Ocuparam a região do Banabuiú, do Quixeramobim, e do Jaguaribe pelo curso do qual vieram até Aracati, quase na foz. Dali se espalharam para outros pontos do território.

O gado marchava à frente deles. Tomavam conta das terras e levantavam a casa grande de taipa da fazenda. Cercavam-se de agregados e vaqueiros, geralmente índios ou mestiços. Tinham poucos escravos, os necessários aos serviços domésticos. Dominavam como verdadeiros senhores feudais e, às vezes guerreavam entre si. Assim, iam se apoderando dos sertões imensos. E esses desbravadores escreveram o chamado Ciclo do Gado.

Em todos os ciclos da história brasileira, é a religião quem inspira e norteia a arte, pois é nas igrejas, capelas e conventos que ela se sublima. Os solares, os edifícios civis ou militares, sempre ficam em segundo plano. O Ciclo do Açúcar povoa de mosteiros e templos, a Bahia e Pernambuco. O Ciclo do Ouro coroa os montes de Minas Gerais com as capelas e igrejas, recheadas de talhas douradas. A arte do Ciclo do Gado é a mais humilde, toda a sua arquitetura se faz, pela falta da pedra apropriada para a obra, em simples alvenaria, na qual se executa uma ornamentação própria. Nem esculturas, nem cinzeladuras, nem obras de talha, nem ouro, nem mármore e nem azulejos. Os artistas anônimos obtêm com linhas, na combinação ingênua das curvas e dos ornatos rectilíneos, os efeitos decorativos.

Até agora, pouco se pesquisou sobre essa arte escondida, filha da pobreza dos sertões nordestinos e por isso, talvez, mais cheia de sentimento e de humanidade. Pouco se sabe ou mesmo nada se sabe sobre os seus autores. No entanto, onde ainda não foram desfiguradas, as suas construções de pedra e cal, ornamentadas com volutas e arrecadas de simples reboco, se mostram como documento vivo, de um passado absolutamente brasileiro, sem nenhuma influência do aventurismo interesseiro do diamante ou da produção de açúcar, que atraiu o holandês às nossas plagas e quase deixa em suas mãos heréticas, uma bela parte do velho Brasil. 

Com relação aos templos do sertão, segundo o professor Liberal de Castro, em boa parte, as igrejas paroquiais e outras igrejas de porte, iniciadas no século XVIII conheceram posterior conclusão. Sempre edificadas de modo parcelado, geralmente tinham como núcleo gerador pequenas capelas de fazendas ou de missões, ampliadas por sucessivos acréscimos. Essas adições tendiam a busca de um traço oitocentista, conseguida com uma planta final de desenho retangular, na qual a pequena capela primitiva, absorvida pelo conjunto, se transformava na capela mor da igreja ampliada.
Nesse processo de seguidos acréscimos, são raras as exceções, identificando-se como obras integralmente executadas no século XVIII, apenas a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Viçosa do Ceará (iniciada em 1695), e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala (primeira metade do século XVIII).

A Igreja de Almofala, localizado no norte do Estado, erguida perto do mar por uma irmandade local, encontra-se atualmente descontextualizada de sua ambientação original. Permaneceu quarenta anos soterrada pelas dunas, quando ressurgiu por força dos mesmos ventos que a haviam sepultado. Ao que se supõe, obedeceu a projeto de feição barroca, vindo da Bahia, com torre filiada às do convento lusitano de Mafra. 


Igreja de Nossa Senhora da Conceição de  Almofala 

A Igreja de Almofala foi concluída em 1712, levantada pelas antigas missões jesuítas sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição.

Na primitiva igreja da missão Jesuítica na Ibiapaba, praticamente refeita no século XIX, restaram talvez somente uma das torres e a capela-mor, em cujo forro subsiste um magnífico conjunto de doze painéis pintados com alegorias barrocas, dedicados às virtudes capitais e cardeais e aos sentidos humanos.


Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Viçosa do Ceará

A mais antiga do Estado, construída pelos jesuítas, entre 1695 e 1700. Na época, os jesuítas catequizavam os índios Tabajaras e, para atraí-los à fé católica, esculpiram a imagem de Nossa Senhora da Assunção à imagem e semelhança das mulheres daquela etnia. Ao longo dos anos, a igreja – em estilo barroco e fachada eclética – foi sendo reformada e descaracterizada, perdeu o altar do coral, e houve a inclusão de cerâmicas em seus interior e pedras na fachada.

Muitas igrejas, embora guardassem nas fachadas traços de um barroco sertanejo, muitas tiveram seus espaços alterados por introdução de arcaria interna, por influência do plano matriz da capital. Filiam-se a essas expressões formais mistas, a Sé de Sobral, de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara, a matriz da Expectação, em Icó, a Igreja do Rosário em Aracati, a matriz do Rosário, em Tauá, a de São José, na Granja e em Aquiraz, da Palma, em Baturité, de Santo Antônio, em Quixeramobim. Muitas dessas igrejas cearenses, mostram-se prejudicadas pelo desenho oitocentistas das torres, quase sempre piramidais, por vezes com perfis desproporcionais e até grosseiros. São elas:
    
Aquiraz – Igreja matriz de São José de Ribamar 

foto de Muhammad Said


Construída no século XVIII, por volta de 1713, é a segunda igreja mais antiga do Ceará. O templo apresenta ecletismo no estilo, predominando os traços barrocos e neoclássicos, frutos das várias modificações que passou ao longo dos anos. Alguns detalhes, ainda originais, impressionam por sua beleza e requinte. São eles, dentre outros; As três grandes portas almofadadas da entrada principal, o púlpito de madeira lavrada e os painéis pintados no forro da capela-mor, os quais provavelmente foram obras de índios catequizados. Destaca-se no nicho central do altar-mor a imagem do padroeiro São José de Ribamar, calçado de botas, relembrando o bandeirante audaz. O templo tem a planta em forma de retângulo, a coberta em telha canal com madeiramento aparente, sem forro na nave. Teve sua coberta e madeiramento recuperados em 1980, frente ao precário estado em que se encontravam. Apresenta em elevação, duas torres quadrangulares encimadas por pirâmides de base octogonal. Seu desenho é muito simples, mostrando “uma herança plástica das primeiras capelas nacionais de origem jesuítica, espalhadas por todo o Brasil e que teriam como provável fonte nordestina, a Igreja da Graça em Olinda.

Sobral – Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara
Igreja da Sé

Construção iniciada em 1746. Esta igreja, embora simbolicamente muito importante para a região, não teve uma construção muito sólida, pois com apenas 14 anos de construída já ameaçava ruir. Em 1762, por razões de segurança, foi demolida a capela mor e no ano de 1778 foi levantada ao seu lado a nova matriz que perdura até os dias atuais. À época da construção, Sobral já era uma próspera vila, e a igreja ficou conhecida como a Matriz da Caiçara. Sua história se funde com o povoamento de Sobral. A Matriz mistura elementos do estilo tardo-barroca (ou rococó) com acréscimos decorativos como movimento ondulatório nas cornijas, os frontões altos, tratamentos em relevos esculpidos e coroagem com bulbosos das torres. No pórtico frontispicial a construção tem acabamentos com acervos de pedraria em lioz, vindos de Portugal. Segundo Liberal de Castro, a Sé de Sobral conta com o frontispício mais elegante do Ceará. 

Icó - Igreja de Nossa Senhora da Expectação


O templo é a construção mais antiga de Icó, datada de 1709. Em 1728 passou a ser chamada de Nossa Senhora da Expectação do Icó, e mais tarde, apenas Igreja de Nossa Senhora da Expectação. Nas igrejas cearenses há raríssimos casos de sacristias perpendiculares ao eixo da igreja, como ocorre na Matriz da Expectação do Icó. O espaço interno sofreu alterações, como a abertura de arcadas para os corredores laterais. A igreja ainda conserva o sacrário original em talha, a prataria e imagens antigas. O retábulo original, entalhado por António Corrêa d’Araújo, natural da freguesia de São Miguel de Seide, já não mais existe.

Aracati – Igreja do Rosário


A Igreja de Nossa senhora do Rosário dos Brancos é uma construção dos primeiros anos do século XVIII, concluída na segunda metade do século XIX.  Segundo o livro da Irmandade do Santíssimo Sacramento, uma capela deu origem à igreja. Era coberta de palha, tinha a fachada de tijolos e as paredes laterais de taipa. Em sua estrutura física encontra-se uma porta central ladeada por duas outras entalhadas a ponta de faca e com almofadas em relevo. Na fachada podem-se observar os sinos, o relógio carrilhão e o registro da data de sua edificação escrita em romanos o ano de 1785. Seu interior é rico em obras de talha e imagens.  A exemplo da grande maioria das igrejas cearenses, a igreja de Nossa Senhora do Rosário se insere na lógica da organização espacial dos templos religiosos brasileiros com herança lusitana. A planta retangular apresenta nave central com corredores laterais que dão acesso à sacristia e ao consistório. Ao contrário da maioria das igrejas cearenses, a planta da Matriz do Aracati não foi alterada com a introdução de aberturas em arcos nas paredes dos corredores laterais que dão para a nave central. Como outras igrejas do Ceará, possui uma única torre, decorrente da falta de meios para a construção da segunda. A fachada é alinhada por cunhais e as três portadas marcadas com um trabalho de arenito baiano. Um frontão triangular com linhas curvas e volutas arremata o corpo principal da igreja. 


Tauá – Igreja do Rosário

foto do site férias tur - fotógrafo Aragão 


Situada à margem esquerda do rio Trici, a Igreja matriz de N. Sra. Do Rosário foi construída em 1762 e, em volta dela, cresceu a cidade de Tauá. Situada em terreno mais elevado, ainda se destaca na paisagem urbana, como ponto focal da Praça Dr. Alberto Feitosa lima. De desenho simples, com poucos ornamentos, a edificação possui planta retangular, nave principal e naves laterais ligadas à capela-mor por arcos plenos, possivelmente acrescidas em época posterior. Separando a nave principal das duas laterais, grossas paredes de 1,00m de espessura, formam quatro arcos plenos com detalhes em alvenaria de cada lado. Os altares são trabalhados em alvenaria e sobre a nave principal, existe uma abóbada em pedra bruta, característica marcante da construção, que a distingue das demais da região. A imagem da padroeira, no altar principal, foi importada de Portugal ainda na época da colônia. O forro do altar é executado em madeira, pintado de azul com detalhes na cor prata. A igreja não possui coro, destacando-se a abóbada da nave como significativo elemento arquitetônico do templo. 

Granja – Igreja de São José


foto Wikimedia Commons

A primitiva matriz de Macaboqueira (atual Granja) foi inaugurada no dia 8 de setembro de 1759, em louvor a São José. No dia seguinte foi criada e instalada a Confraria ou Irmandade do Santíssimo Sacramento. Ao longo dos anos passou  por várias reformas e ampliações. No ano de 1879, aproveitando a mão de obra de milhares de retirantes que se refugiaram em Granja, na grande seca de 1877/79, o templo passou pela maior das reformas: foram abertas 6 arcadas do corpo da igreja, e mais duas portas da frente, por existir somente uma, a principal; foram feitos os dois corredores, as tribunas soalhadas, as grades, soalhos e forrado o corpo da igreja; limparam e montaram todo edifício; colocaram grades de ferro e vidraças nas janelas do coro, reformaram o frontispício, colocaram nele cruz de ferro, relógio e construíram o patamar, dando tudo por concluído no princípio de 1880, quando terminou a terrível seca. 

Baturité – Igreja da Palma


O templo foi construído em meados do século XVIII, quando da fundação da antiga Vila Real de Monte Mor o Novo d’América, atual cidade de Baturité. Com arquitetura em estilo bizantino gótico com predominação no barroco, a igreja venera a padroeira Nossa Senhora da Palma, desde a criação da freguesia a 8 de maio de 1758. Em 1824, durante a adesão de Baturité ao movimento revolucionário conhecido por Confederação do Equador, a Matriz virou barricada, por ser o maior prédio do lugar. Um dos chefes do movimento, Tristão Gonçalves enviou 180 barris de pólvora, 220 carros de granadeiros, 3 barris de chumbo, um quintal de ferro e uma roda de aço, ficando toda essa carga guardada na Igreja Matriz, em cuja porta estavam sentinelas armadas. A igreja dispõe de duas naves, sete altares, três sinos e um grande relógio público. Comporta até 3 mil pessoas. No seu interior há ilustrações de cenas bíblicas em pintura a óleo, em estilo clássico, executadas por artistas da região. Hoje, a Matriz, encontra-se bastante modificada no seu interior. As reformas não respeitaram suas características originais, mas a população orgulha-se de seu templo bicentenário. A edificação encontra-se em lugar privilegiado, no centro da cidade, na  Praça da Matriz.

Quixeramobim – Igreja de Santo Antônio

foto Flick - Consuelo Lima

Foi fundada em 1755, pelo portuense capitão Antônio Dias Ferreira, que situando naquelas terras sertanejas, sua Fazenda de Santo Antônio do Boqueirão, logo tratou de erigir nas proximidades da sua casa, em 1730, uma pequena capela sob invocação de Santo Antônio de Lisboa ou Pádua. Vinte e cinco anos mais tarde, a capelinha arruinada era substituída pela igreja que seria a matriz da futura cidade, construída pelo mesmo Antônio Dias Ferreira, homem devoto, solteiro e dono de grande fortuna. Mas não teve o fundador da fazenda Boqueirão, e da Igreja de Santo Antônio, a ventura de ver esse templo elevado à categoria de matriz, a 15 de novembro de 1755. Falecera um ano antes, deixando as obras por terminar. Estas somente vieram a termo no ano de 1770, quando já criada a freguesia sob a direção do capitão João Francisco Vieira. Com suas duas torres e o frontispício neoclássico, a atual matriz de Quixeramobim conserva a estrutura fundamental da construção barroca do século XVIII, quando tinha uma única torre e o seu frontão ascendia em curvas simétricas. Mudou bastante sua forma; mas a alma do templo quase três vezes centenário continuou a mesma. 


A Capitania do Ceará não conheceu conventos ou instalações similares, que representaram centros valiosos de difusão da arte barroca no Brasil. O fato, aliado à pobreza da terra, justifica a ausência de obras realmente barrocas no Ceará. A Companhia de Jesus, a única ordem religiosa a se estabelecer arquitetonicamente no Ceará, permaneceu por tempo relativamente curto, com ação reduzida a conjunto missioneiros marcados por arquitetura efêmera. Como obra de vulto dos jesuítas, restaram apenas a já mencionada Igreja da Senhora de Assunção, em Viçosa do Ceará, praticamente refeita no século XIX, e as ruínas de um hospício em Aquiraz, fundado em 1717 e demolido em 1854, por ordem dos bispos de Olinda.   


Fontes:
Arquitetura no Ceará, o século XIX e algumas antecedências de José Liberal de Castro – Revista do Instituto do Ceará – 2014
À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso - Imprensa Universitária do Ceará - 1962
fotos IPHAN e IBGE