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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Feitosas X Montes - Os Poderosos rivais do Sertão dos Inhamuns

 Uma das várias versões para a origem da família Feitosa, é que o tronco do clã é um português de nome João Alves, nascido numa ilha chamada Feitosa. Daí que ficou conhecido como João Alves Feitosa que um dia deu com os costados em terras brasileiras; teria, supostamente, chegado ao Brasil na primeira metade do século XVII, casando-se com uma filha do coronel Manuel Martins Chaves, alagoano de Penedo. Tiveram dois filhos: o comissário Lourenço Alves Feitosa, casado com Antônia de Oliveira Leite, e o coronel Francisco Alves Feitosa, casado com Isabel do Monte.


As Sesmarias eram terrenos doados pelo governo português para exploração e povoamento. Eram preferencialmente instaladas próximas a cursos d'água,  como o Rio Jaguaribe (foto do IBGE nos 60) 

Residentes no Engenho Currais de Serinhaém, em Pernambuco, a família Feitosa, que se supõe haver-se comprometido em levantes ocorridos na província, e temendo sofrer perseguições, fugiu para o interior do Ceará, onde se fixou nas proximidades do Icó. Lourenço Alves Feitosa, o chefe da família, que aqui tomou o título de Alferes Comissário, deixou sua família em Pernambuco e veio em companhia do irmão, Francisco Alves Feitosa, do Coronel Pedro Alves Feitosa e de Manuel Ferreira Ferro. Lourenço se estabeleceu na Fazenda Cachoeirinha, que adquiriu no riacho Cariuzinho.


Francisco Alves Feitosa se casou com uma viúva irmã do Capitão- Mor Geraldo do Monte, e em pouco tempo os cunhados se desentenderam por questões de negócios e de posse de terras. Os coronéis Francisco Alves Feitosa e Lourenço Alves Feitosa ao chegarem ao sertão dos Inhamuns estruturam a maior comunidade rural da Capitania do Ceará. O comissário Lourenço Alves Feitosa chegou a ter 22 sesmarias e com o seu irmão Francisco Alves Feitosa dominaram uma área de aproximadamente 30.000 quilômetros quadrados.


A família da esposa de Francisco Alves Feitosa, era contemporânea dos Feitosas, cujo chefe era Geraldo do Monte, procedente da Vila de Penedo, que veio para a Capitania do Ceará trazendo consigo filhos, sobrinhos e outros parentes que se espalharam pelos sertões, adquirindo fazendas de criar gado, nos últimos anos do século XVII ou início do século XVIII.

 

Francisco do Monte, irmão de Geraldo, fixou-se no Icó, e lá perdeu uma filha, que para pesar de sua mãe, foi enterrada no campo por falta de uma igreja. Seu marido para a consolar, prometeu que os restos mortais da filha seriam transferidos para uma igreja, e para isto, tratou de estabelecer um patrimônio de meia légua de terras, no centro do qual edificou uma capela a Nossa Senhora da Expectação, ainda na primeira metade do século XVIII. Algum tempo depois a capela serviu de matriz à freguesia criada no Arraial do Icó.


Igreja N.S. da Expectação, em Icó, era originalmente uma pequena capela construída por Geraldo do Monte (imagem IBGE)


Francisco Alves Feitosa, receoso da fama de valente de seu cunhado Geraldo do Monte, retirou-se para uma fazenda que possuía na ribeira dos Bastiões, e durante sua estadia naquele sítio travou relações com o chefe da tribo dos índios Jucás, que o levou a um local onde assistiam na ribeira do riacho Jucá, um dos afluentes do Jaguaribe, que se lança nele, abaixo de Arneirós.


Os Feitosas foram informados por esse irmão da grande oportunidade que era essa ribeira para a criação de gado, e resolveram solicitar por sesmaria, mas não guardaram o devido sigilo, e Geraldo do Monte, informado das descobertas feitas pelos Feitosas, então seus inimigos declarados, antecipou-se ao cunhado e solicitou a posse dos terrenos de Jucá, no que foi atendido.


Mas a concessão de sesmarias estava sujeita a prazos para ocupação, demarcação e medição das terras. Como esse prazo não foi cumprido, Francisco Alves Feitosa conseguiu, 6 anos depois, anular a concessão dada a Geraldo do Monte, obtendo a posse do território do qual fora descobridor, e providenciou a medição e ocupação.


Geraldo do Monte, despeitado com a atitude do cunhado, tentou de todas as maneiras evitar a posse dos terrenos. Depois de uma longa questão entre os dois poderosos rivais, estes acabaram lançando mãos das armas e deram início a um longo conflito entre as duas famílias. A partir dessa primeira desavença, houve uma série de confrontos que foram ficando cada vez mais mortíferos. Os chefes de uma e outra parte viviam incessantemente debaixo de armas e prontos a atender a qualquer demanda. Toda a capitania acabou sofrendo as consequências dessa luta. A população, refém, viu-se obrigada a pronunciar-se em favor de uma ou de outra parte, porque a neutralidade era vista como crime capital.


Os Feitosas abandonaram as imediações do Icó território dos inimigos e foram se aquartelar nas terras do vale do Jucá e do Alto Jaguaribe, cuja população se pronunciou a favor deles. Dos encontros sangrentos havidos entre os dois grupos, muitas localidades receberam denominações que ainda conservam, provenientes de algum episódio desta contenda. Na Ribeira do Salgado existem o Sítio das Emboscadas, Tropas, Arraial da Pendência; no Jaguaribe encontra-se o das Almas, dos Defuntos, dos Ossos, das Trincheiras, do Bom Sucesso, o Saco das Balas e muitos outros, celebrizados por algum incidente sinistro.


O conflito teve início em 1714 e terminou em 1724, depois de muitas intervenções do governo, que nomeou juízes, mediadores, ouvidores e até governadores para intermediarem a contenda. As mortes de indígenas, colonos, fazendeiros foram incontáveis, visto que não havia controle sobre os embates. Depois que o governador da capitania decidiu desarmar as duas famílias e sendo o coronel Feitosa avisado por um oficial, refugiou-se em sua fazenda Buriti, no Piauí. Já Geraldo do Monte foi forçado a abandonar sua fazenda das Cabaças, recolhendo-se ao Boqueirão, na margem do Jaguaribe, onde se supõe, terminou os seus dias.  


O comissário Lourenço Alves Feitosa, que foi o maior sesmeiro do Ceará, perdeu mulher e seu único filho, e quando faleceu deixou toda a sua fortuna para seu irmão Francisco Alves Feitosa, que passou a condição de maior latifundiário do sertão dos Inhamuns.



Sertão dos Inhamuns - imagem recente (fonte Diário do Nordeste)

Os descendentes dos Feitosas continuaram a ocupar a região, no sertão dos Inhamuns, onde fundaram a Vila de Cococi, situada dentro de uma grande fazenda. Depois foi elevado à categoria de Distrito, anexado ao município de Tauá. Em 1956, o distrito do Cococi passou a fazer parte do recém-criado município de Parambu. Pela lei estadual nº 3858, de 17 de outubro de 1957, o distrito de Cococi foi elevado à condição de município, desmembrado de Parambu.


No Censo demográfico realizado em 1960, o município do Cococi contava com 4.064 habitantes, 2.181 homens e 1.883 mulheres. Passados pouco mais de oito anos, uma nova lei estadual, a de n° 8339, de 14 de dezembro de 1965, extinguiu o município de Cococi que voltou a ser distrito subordinado a Parambu.



Casa abandonada no Cococi (imagem Pinterest)

Os motivos nunca ficaram claros: a versão mais conhecida conta que o prefeito teria cometido irregularidades como desvio de verbas destinadas ao município, o que teria desagradado ao Governo Federal, que teriam determinado a extinção. Mas podemos observar que a extinção de Cococi foi viabilizada por meio de uma lei estadual (8339), no Governo Virgílio Távora (1963-1966). Pelo mesmo instrumento legal, vários municípios cearenses foram extintos, sendo que a maioria teria essa condição revogada mais tarde, recuperando o status de cidades com autonomia administrativa. 

   

Na sua curta existência como município, Cococi teve 2 prefeitos, ambos da família Feitosa. O município estava instalado em terras particulares, de uma única família. À época da extinção, o prefeito, secretários e vereadores tinham todos o mesmo sobrenome Feitosa. Tinha uma boa estrutura, contava com prefeitura, câmara municipal, uma praça, hotel, cartório, posto fiscal, escola, amplas residências e uma igreja matriz.


Igreja de N. S. da Conceição, no Cococi, construída em 1771 pelo coronel Francisco Alves Feitosa. (imagem Diário do Nordeste)

A cidade e atual distrito do Cococi nasceu com a chegada dos Feitosas e morreu aos poucos, à medida que eles se foram. Dos velhos tempos, restaram a igreja matriz, uma meia dúzia de moradores, e quase nenhuma expectativa, a não ser a vinda de alguns curiosos, que de vez em quando visitam as ruínas e o velho cemitério, que paradoxalmente, são as maiores atrações do lugar.


 

Fontes consultadas:

O Clã dos Inhamuns, de Nertan Macedo. Edições UFC, 1966

IBGE – Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – 1959

O Ceará dos Anos 90, censo cultural.

A Memória dos Conflitos Territoriais entre Famílias na construção da Sociedade nos Sertões dos Inhamuns, de Cristiane e Castro Feitosa Melo. Disponível em  https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/24857/3/2012_art_cecfmelo.pdf

  

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As Guerras entre Famílias: Montes x Feitosas


Siará (1647) de Franz Post - mostrava a fortificação que daria inicio a Fortaleza (arquivo Nirez)  

À medida que os recursos do País iam se desenvolvendo, e o interior do Ceará ia sendo desbravado, a violência e a lei do mais forte passaram a vigorar nos lugarejos habitados. Os grandes proprietários, beneficiados com terras doadas pelo governo, e outras benesses que lhes permitiram acumular grandes riquezas, se constituíam em verdadeiros tiranos, dominando hordas selvagens, com armas e ameaças.

Longe da autoridade legalmente constituída, cuja ação ficava enfraquecida pela distância e pela dificuldade de acesso, esses homens viviam de acordo com suas vontades e dominavam os demais colonos de modo completo. Nos pontos mais longínquos, sobretudo, só uma vontade dominava, que era a lei do mais rico; os direitos dos demais, e o dever eram coisas totalmente ignoradas.

 Cidade de Icó, em data não especificada (arquivo IBGE)

A família Feitosa,  originária de Portugal instalou-se inicialmente em Alagoas  e mudou-se para o Ceará por volta de 1707, obtendo várias sesmarias na região dos Inhamuns, tornando-se grande criadora de gado. Gozava de grande prestígio, tanto que um dos seus membros, Francisco Alves Feitosa, foi  designado comandante de uma das milícias da área,  em 1719. 

Os Montes, naturais de Sergipe se instalaram  na região de Icó, por volta de 1682, obtendo igualmente vastas porções de terras. A princípio, essas famílias se uniram para combater os indígenas que resistiam aos conquistadores brancos. Mas essa cooperação transformou-se posteriormente numa luta sanguinária, que pôs em polvorosa a zona sul cearense.

Na época em que o capitão-mor e governador do Ceará Manoel Jaime da Fonseca (1715-1717) concedia doação das terras devolutas ao sul da capitania, se destacavam em poderio dois colonos – o capitão-mor Geraldo do Monte, na margem do Jaguaribe (Boqueirão do Orós) e Lourenço Alves Feitosa, chamado “o comissário”, muito acima, entre os índios Inhamuns.

Um irmão de Lourenço, o coronel Francisco Alves Feitosa, contraiu casamento com uma viúva, irmã de Geraldo do Monte, e por motivos de honra tinha rompido relações com este, quando Feitosa, conduzido por índios da nação Jucá, desbravou a bacia do rio do mesmo nome, e conheceu os vastos sertões que até então só os índios dominavam.

Tendo notícia da descoberta, Monte apressou-se em solicitar uma sesmaria e obteve-a do governo, a despeito de seu cunhado. No entanto, deixou de tomar posse dos terrenos, e decorridos seis anos, Francisco Feitosa conseguiu anular a doação, sob alegação de que as terras estavam abandonadas, obtendo para si a posse do território. Foi o início de um conflito armado que abalou as estruturas do interior  cearense.

Rio Jaguaribe em Jaguaribe, data não especificada (arquivo IBGE)

Durante os anos de 1724 e 1725 as duas famílias se envolveram em grandes hostilidades que repercutiram nos anos subsequentes. As práticas rotineiras de saques, emboscadas, combates abertos, incêndios, assassinatos de índios, vaqueiros e gado, levavam pânico às populações e mostravam a fragilidade dos sistemas jurídico e governamental vigentes. 

As duas facções procuravam manter tropas regulares. Sendo ambos  oficiais superiores de milícias e consideravelmente ricos, formaram pequenos exércitos de índios e mamelucos com os quais sustentaram a guerra durante muito tempo. 

A situação se agravou quando o primeiro ouvidor do Ceará, José Mendes Machado, envolveu-se no conflito tomando partido dos Feitosas quando realizava uma de suas viagens de correição pelo sul do Ceará. Chegou, inclusive, a autorizar ataques à família Montes. O ouvidor, que ganhou o apelido de Tubarão, acabou incompatibilizado com o capitão-mor Manuel Francês e com a Câmara de Vereadores de Fortaleza.

sertão dos Inhamuns, palco de lutas sanguinárias pela posse de terras (foto do livro Ceará de Luz)

Dessas excursões e combates à margem dos rios Salgado, Jaguaribe e outros, cujos vales eram mais conhecidos, ficaram algumas denominações que permaneceram após o conflito. Desse modo alguns sítios à margem do Rio Salgado ficaram conhecidos como Pendência, Arraial, Batalha, Tropas e Emboscadas.  O Sítio Defuntos, no Jaguaribe, tirou também dali a sua denominação, e da mesma forma que o Riacho do Sangue, onde ocorreram verdadeiras carnificinas entre os índios de uma e de outra parte. 

Nos Inhamuns ficaram assinalados os sítios Trincheiras, Cruzes e Saco de Balas. Durante um confronto, um dos Feitosas perdeu um saco de balas que foram encontradas muitos tempo depois. Foi durante essa luta que teria tido início o Arraial de S. Matheus, nas cabeceiras do Rio Jaguaribe, o qual foi o primeiro povoado daquele lado da província. 

A persistência do conflito entre as famílias levou o capitão-mor Manuel Francês a uma intervenção mais objetiva. Em 1725 ordenou aos dois grupos Montes e Feitosas que largassem as armas sob ameaça de pena de morte e confisco de bens.  O número de mortos era de cerca de 400 pessoas dos dois lados. 

Francês determinou ainda que o Ouvidor Tubarão retornasse imediatamente a Aquiraz, mas o Ouvidor preferiu abandonar o cargo e fugir para a Bahia. O capitão-mor dirigiu-se à região dos Inhamuns para ver cumpridas suas determinações. Só assim a luta arrefeceu, embora, vez ou outra ainda acontecessem lutas eventuais.

Foi instalado um processo para apurar as responsabilidades do ocorrido, sem nenhum resultado efetivo.  Os latifundiários saíram impunes, como se nada tivesse acontecido. 

É ignorado que fim levou Geraldo do Monte; quanto a Francisco Feitosa, sabe-se que, avisado por um oficial, por quem o governo o mandara prender, se retirara para o Buriti, no Piauí , de onde mandou matar, na fazenda Cabaças, em sucessivas emboscadas, nove indivíduos ligados a Geraldo do Monte, inclusive dois irmãos deste, colocando-se em tais apuros que se viu obrigado a abandonar aquela sua fazenda e ocultar-se no Boqueirão, onde morreu, segundo se crê.
Os Montes, segundo registros dos historiadores, saíram do conflito empobrecidos e dizimados, enquanto os Feitosas continuaram fortes e a exercer seu poder nos anos seguintes.
Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
Ceará (Homens e Fatos) de João Brígido