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terça-feira, 16 de maio de 2023

A Segunda Tentativa de Colonização do Ceará

 Mal Pero Coelho de Souza havia se retirado da região, derrotado pelos ataques indígenas e pela violenta estiagem que ainda assolava a capitania do Siará Grande, quando em janeiro de 1607, dois religiosos portugueses da ordem dos jesuítas, se assentaram na capitania, dispostos a conquistar os indígenas, não pela força das armas, mas pelos ensinamentos cristãos. Os padres Francisco Pinto e Luís Figueiras tinham o Maranhão como destino, onde pretendiam enfrentar os franceses e organizar uma missão religiosa da Companhia de Jesus, destinada a catequizar os nativos.




Vindos de Pernambuco e tendo desembarcado em Mossoró, os dois religiosos acompanhados de cerca de 70 índios cristianizados, caminharam até as dunas do Mucuripe, onde se estabeleceram depois de fazerem as pazes com um morubixaba de grande prestígio na região, o famoso chefe Amanai, nome que os historiadores traduziam por Algodão. Pregando habilmente os ensinamentos cristãos, converteram inúmeros selvagens e, auxiliados por eles, fundaram aldeamentos juntos às tribos dos Aratanhas, Caucaias e Parangabas, dando início ao núcleo de evangelização que serviriam de base para pequenos povoados nas imediações da futura cidade de Fortaleza.


Fundaram no seio das tribos das redondezas, que acampavam às margens de lagoas ou na aba das serras próximas, quatro aldeias ou reduções que ainda hoje figuram na toponímia local: Pitaguari, na Aratanha, Caucaia, Paupina e Parangaba, antigos aldeamentos, hoje integrados à Fortaleza ou à sua Região Metropolitana.


Os aldeamentos representaram uma forma diversa de violência, às vezes mais sutil, mas não menos prejudicial à integridade dos povos indígenas. Os missionários, imbuídos da necessidade de ensinar aos nativos a verdadeira religião cristã, escandalizavam-se com os hábitos e costumes locais, que incluíam as práticas pagãs, a nudez, a poligamia, encaradas como satânicas e pecaminosas. Deu-se então o inevitável confronto entre duas culturas desiguais.



Villa Nova de Arronches - antigo aldeamento da Parangaba
Gravura de José Reis de Carvalho que participou da Comissão Científica do Império, e visitou o Ceará entre 1859 e 1861.

Os jesuítas não entendiam que a relação dos nativos com a terra era bem diferente da visão mercantilista do mundo europeu. A maioria dos indígenas recusavam a delimitação da área do aldeamento, e ao trabalho de cultivar a terra, preferindo a liberdade natural de rios e matas.


Findos os trabalhos e deixando essas reduções funcionando, os dois sacerdotes deixaram essas reduções e continuaram sua marcha onde chegaram à Serra Grande ou Ibiapaba, reduto dos índios Ipus.


Depois subiram a serra e fizeram contato com os índios da nação dos Tabajaras, que os apelidaram abaúnas (homens pretos). Os jesuítas encontravam-se no seio da maior taba daquelas paragens, espécie de capital das nações indígenas, aliadas aos franceses que haviam enfrentado as tropas de Pero Coelho de Souza em 1604, e sido derrotados.


A indiada, ainda ressabiada com a derrota, recebeu-os com grande desconfiança, olhando com descrédito aqueles homens vestidos de preto e palavras mansas que lhe falavam de um Deus desconhecido. Alguns franceses que ainda permaneciam no meio dos gentios, os incitavam às escondidas contra os religiosos. Todavia, estes conseguiram com grandes esforços erigir uma capela, onde rezavam missa, pregavam e batizavam. 

 


chacina do Padre Francisco Pinto em 1608  
Por Michiel Cnobbaert - Biblioteca Nacional, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=17315678


Da mesma forma que ocorreu com Pero Coelho, a história não acabou bem para os dois jesuítas. Padre Francisco Pinto foi flechado e morto a golpes de tacape em janeiro de 1608, enquanto rezava uma missa na capela que ajudara a construir na Ibiapaba.  O padre Luiz Figueira escapou do ataque, e ajudado por alguns indígenas, varou os sertões inóspitos, alcançou as aldeias do litoral, onde o foi acolhido pelo chefe Algodão. O padre continuou sua missão evangelizadora até 1637, quando também foi morto por indígenas na Amazônia.



Fontes:

História urbana e Imobiliária de Fortaleza, de Lira Neto e Cláudia Albuquerque.

À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso 

imagens da Internet   


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O Assassinato do Juiz de Vila Nova D’El Rei

Tudo começou numa corrida de cavalos. O do juiz ordinário da Vila Nova D’El Rei, depois Campo Grande, atual Guaraciaba do Norte, na serra da Ibiapaba, Ceará, ganhou um páreo contra o do poderoso coronel Manuel Martins Chaves, mandachuva da região do Acaraú. O coronel quis comprar ali mesmo o animal vencedor. O dono recusou-se a vende-lo. Discutiram, com os ânimos exaltados. E dois sobrinhos do mandachuva mataram o animal. Não podiam admitir, no seu orgulho semifeudal, fosse o tio, homem de vasta influência, ligado à celebre família Feitosa, dona daquelas terras, contrariado em seus desejos. Para eles, aquela recusa era uma afronta.

Manuel Martins Chaves fizera de sua vontade a lei daqueles sertões e, para exercê-la, não hesitava em cometer quaisquer atos, por violentos, arbitrários ou reprováveis que fossem. Sob seu patrocínio, grandes grupos de malfeitores viviam a depredar e a perseguir a população, prontos ao serviço, submissos as determinações do despótico patrono.

Rua Duque de Caxias - anos 50

A questão do cavalo rematava uma velha rixa entre o coronel e o juiz ordinário Barbosa Ribeiro, motivada pelo favor que a este dispensara, em detrimento do coronel, o então governador Cláudio Montaury durante sua gestão, e ainda pela eleição do magistrado, que contrariava os desejos de Manuel Martins. Estava, pois condenado à morte, e foi barbaramente executado no dia 3 de março de 1795. 

Um grupo composto de cerca de 30 indivíduos, alguns usando máscaras, invadiu a casa, nos fundos da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, arrombando as portas e ferindo-o a tiros e golpes de espada.
O juiz correu, todo ensanguentado, a abraçar-se com o cruzeiro do templo, suplicando que lhe permitissem confessar-se ao vigário, que, impotente e estarrecido, assistia a chacina. Mas os matadores não lhe deram ouvidos e o assassinaram com estocadas no lombo, facadas no estômago, e quase lhe decepando a cabeça a foiçadas. Seu afilhado João do Nascimento tentou defendê-lo e também foi morto. Outros dois que tentaram defende-lo, saíram feridos.

Igreja Matriz de N. Senhora dos Prazeres, fundada em 1761, em estilo barroco

Por essa época, governava a Capitania do Ceará, Luis da Mota Feo e Torres, a quem o crime deixou muito indignado. Abriu-se rigorosa devassa que o Ouvidor José Vitorino da Silveira concluiu em setembro de 1796. Apurou-se no inquérito que os mandantes tinham sido o coronel Manuel Martins Chaves e seu sobrinho, o capitão-mor Bernardino Gomes Franco, e os mandatários Felipe Néri, inimigo do juiz pela morte de seu irmão, seus filhos Sebastião e Manuel, seus sobrinhos Vitor e Raimundo; os cabras Teodósio, João Pereira, Manuel Ferreira, João Fernandes, Felipe Marçal, seu irmão Antônio, João Martins, João de Araújo, José Dias, Francisco Ribeiro, Luis Antônio, Domingos Ferreira, o crioulo Simeão e o africano Pedro.

Desde o ano de 1796, o governo da Colônia se empenhou em prender Martins Chaves e seus principais colaboradores. Mas foram vãos todos os esforços dos governadores, ouvidores, capitães-mores e juízes ordinários, durante muitos anos, até que realizou a prisão do potentado um jovem governador do Ceará, João Carlos Augusto Ulrico Oyenhausen e Grevenburgh (1803-1807), da nobreza lusa e austríaca, que seria Marquês de Aracati, por Decreto de 12 de outubro de 1826.

prédio da antiga Cadeia de Guaraciaba do Norte 

De acordo com relatos do Barão de Studart, o governador João Carlos anunciou uma revista geral nas tropas de Vila Nova D’El Rei. Martins Chaves, com alguns membros mais importantes de sua clientela, quis ser agradável ao governador, decidiu-se a acompanha-lo até certa altura do trajeto. No Sítio Barriga, o proprietário, um padre, insinuou-lhe que se escondessem, por ter motivos para desconfiar das intenções do governador.

Martins Chaves e o sobrinho Francisco Xavier desprezaram o aviso e seguiram com a comitiva do governador até Ibiapina, onde já havia um plano traçado. Para o local já seguira com 400 índios, Manuel da Silva Sampaio, diretor dos índios de Viçosa. Ali chegados, encontraram um barracão onde o governador deveria descansar, e em cujo centro havia uma mesa. Dentro do barracão, João Carlos retirou de dentro de uma das malas uma coroa real, colocou-a sobre a mesa, e dirigindo-se a Martins Chaves perguntou se conhecia de quem era aquela coroa. Respondeu o interpelado que era de sua majestade, sua soberana.

O governador afirmou – pois em nome dela se considere preso! Martins Chaves tirou a espada da cinta e entregou-a ao governador, considerando-se assim, prisioneiro. Francisco Xavier, vendo a cena, convidou João Carlos para um particular, que retorquiu:  – não tenho particulares, siga o exemplo de seu tio!

A comitiva, com os presos sob custódia, cumpriu o seguinte percurso: de Ibiapina a Sobral sob a guarda do capitão de cavalaria Alexandre Neri Pereira; de Sobral a Acaraú e daí a Fortaleza. Da capital passaram a Aracati, onde foram embarcados para Recife. De Recife a Lisboa foram conduzidos pelo ajudante de cavalaria Alexandre José Leite Chaves.

Cadeia do Limoeiro em Lisboa, entrada principal
imagem:http://lisboadeantigamente.blogspot.com.br

Da cadeia de Limoeiro, Manuel Martins Chaves e Francisco Xavier de Araújo Chaves requereram ao príncipe regente o seu livramento, historiando a maneira como foram presos. Nada conseguiram, pois Oyenhausen, foi bastante elogiado pelo feito. Os presos ainda tiveram seus bens confiscados.

Manuel Martins Chaves faleceu na cadeia de Limoeiro, a 27 de maio de 1809, de febre maligna, e Francisco Xavier voltou ao Brasil, ignorando-se a data de sua soltura. Sua filha Antônia, casou com Antônio Ferreira Sampaio, e desse casamento nasceu Antônio Sampaio, o herói cearense notável pelos seus feitos militares.


Assim, o General Sampaio, patrono de nossa infantaria, era sobrinho-neto do coronel Manuel Martins Chaves.

Extraído do livro
A Margem da História do Ceará
De Gustavo Barroso
Fotos IBGE
Fortaleza em Fotos


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

As Primeiras Visitas ao Ceará


A primeira notícia oficial de impacto e de realce histórico referente ao Ceará, após o descobrimento do Brasil, seja por Pinzon ou por Cabral, aparece pouco depois de um século, em 1603, quando Pero Coelho de Souza, homem nobre e fidalgo, casado, soldado velho, resolveu, por sua conta e risco, organizar uma bandeira para recuperar os prejuízos que amargou em consequência de uma desastrada parceria com seu cunhado, Frutuoso Barbosa, então donatário da Capitania da Paraíba.


Pretendia, conforme acerto com o então governador geral Diogo Botelho, procurar  minas de ouro e prata, expulsar os franceses que desejavam montar a França Equinocial no Maranhão e estabelecer a paz com os nativos. Não alimentava qualquer pretensão civilizatória.

Saiu da Paraíba a pé, rumo ao Maranhão, acompanhado de uma comitiva formada de 65 soldados (entre eles o jovem Martim Soares Moreno) e 200 índios frecheiros (ou mansos, já sob domínio do conquistador), até atingir, dias depois, a foz do Rio Jaguaribe, onde, após um reconhecimento preliminar da região, identificou uma área rica em salinas, grande quantidade de âmbar e algodão.

Deu prosseguimento à sua expedição até atingir a Ponta do Mucuripe, rumando depois, em direção à Ibiapaba, quando travou combates com os índios tabajaras e comandos franceses, então aliados dos nativos. Derrotando-os, mas sofrendo consideráveis baixas, retomou sua viagem em direção ao Maranhão, atingindo o rio Parnaíba, no Piauí, quando, em razão de seus homens estarem exaustos, esfarrapados e famintos, decidiu retornar ao Ceará.

Estabeleceu-se na Barra do Ceará, onde levantou um pequeno forte, chamando-o de São Tiago. A região em redor chamou de Nova Lusitânia, que imaginava um dia ser a Nova Lisboa, a capital. Nos seus relatos, Pero Coelho refere-se várias vezes ao algodão, “uma planta que aparece por todos os lados”.

uma cruz assinala o local onde esteve o desaparecido forte de São Tiago, na Barra do Ceará (foto do arquivo Nirez)

A presença de Pero Coelho de Souza nesse lugar, formado por uma tosca paliçada de paus de quina e umas poucas casinhas de taipa, foi rápida. Seguiu para Recife, a fim de recolher sua mulher Thomazia e seus cinco filhos, para se estabelecer definitivamente em São Tiago. Em seu lugar, deixou Simão Nunes Correia e cerca de 50 homens. No contrato que fez com o governador, recebia 1 mil cruzados ao mês, que lhe seria repassado por João Saromenho.

Um ano e meio depois de sua saída da Paraíba, acompanhado de outros 50 homens, já com a família, viajando numa caravela, Coelho de Souza chegou a São Tiago, e logo percebeu que o relacionamento entre seus soldados e os índios estava deteriorado. Era o resultado da rigorosa obediência que cobravam dos índios. Para impor sua autoridade, implantou o ódio e a discórdia.

É-lhe atribuída a pecha de sanguinário, tendo sido acusado e responsabilizado também pela morte de índios. Até hoje a historiografia do Ceará não entende as razões pelas quais Coelho de Souza exagerou nas suas obrigações. Sua presença em Itarema ou na Barra do Ceará não gerou consequências.

Instigado pelo inimigo e por isolados franceses que ainda se achavam na região, decidiu mudar-se para o outro lado do Estado, para a foz do Rio Jaguaribe. Existem, entretanto, duas outras razões que forçavam sua retirada de São Tiago: o assédio constante e cada vez mais agressivo dos índios locais – Tremembés – e uma rigorosa seca (1605-1607) que assolava o Ceará. Sua retirada era questão de sobrevivência.

Para completar, João Saromenho não lhe pagava. Denunciado, este foi julgado e condenado por não ter pago os soldos do seu superior. Cumpriu pena de detenção na prisão de Limoeiro, em Lisboa, onde morreu.

Estrada em jaguaribe. (se era assim nos anos 1960, imagine em 1600...) foto IBGE
 
A viagem de Pero Coelho de Itarema ou da Barra do Ceará para a foz do Jaguaribe coincidiu com o auge da estiagem, em 1606, cuja mortalidade atingiu índices catastróficos. Os rios e reservatórios naturais de água estavam secos, as matas ciliares murchas, produzindo um quadro dantesco de miséria, fome e desespero. Pelas trilhas espalhavam-se as marcas da destruição com dezenas de carcaças de animais.

Havia gente caminhando sem destino, pelas trilhas sem fim. Faltava água e alimentos, as doenças se proliferavam com rapidez. Para completar a dramaticidade do quadro, apareceu nos céus o cometa de Halley, que os índios chamavam de “tata-bebe”, ou fogo voador, de acordo com o registro feito pelo padre missionário Luiz Filgueira no seu diário pessoal. O temor era procedente. Os cometas eram considerados pelos antigos como fenômenos atmosféricos. Nenhum outro fenômeno celeste despertou tanto interesse como os cometas, talvez por inspirar aos povos antigos, terror e superstição.

Em sua dolorosa viagem, Coelho de Souza enfrentou os momentos mais cáusticos da seca, perdeu alguns soldados e o seu filho mis velho, que morreram de inanição, de fome e de sede. Thomazia, mulher frágil, chegou ao Jaguaribe esquelética, transportada numa espécie de maca, quase morta. Mas resistiu. 
Forte dos Reis Magos em Natal RN (imagem blog AratacAndarilho)

Do Jaguaribe, com pouco mais da metade dos 50 homens que tinham iniciado a triste jornada, Coelho de Sousa deslocou-se até o Forte dos Reis Magos em Natal, depois à Paraíba, onde embarcou para Lisboa. Na Corte fez um relato dramático das suas andanças pelo Nordeste brasileiro, na perspectiva de receber uma indenização pelos seus serviços. Não sensibilizou ninguém, porque todos conheciam sua impetuosidade. Martim Soares Moreno, que o acompanhara na primeira bandeira como soldado, registrou na sua Relação, sem identificar nomes, que “ali (em São Tiago) houve muito desassossego dos índios sem razões”.

Morreu sem receber nada, devido ao insucesso de sua missão fracassada, da mesma forma como fracassou a primeira tentativa de colonização do Ceará. 


Extraído do livro
Caravelas, Jangadas e Navios uma história portuária
de Rodolfo Espínola

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Frei Vidal da Penha, o Profeta do Sertão

Os missionários capuchinhos marcaram presença no Brasil desde 1612, quando Cláudio de Abbeville e Ivo d’Evreux, cada um com seus escritos, iniciaram a moderna história do Maranhão. Desde então passaram a visitar o Brasil e mais especialmente o Nordeste, onde promoviam a catequese e a evangelização da população.   

Frei Vidal da Penha foi um desses capuchinhos. Entre 1780 e 1820 pregou em toda a região nordestina e ficou imortalizado no imaginário popular por seus inflamados sermões versando sobre as virtudes humanas. Virou tema da literatura de cordel por causa de suas profecias sobre o fim do mundo. Contam que Frei Vidal, em suas andanças pelo sertão, era conduzido em uma rede. Onde chegava, juntava-se uma turma de homens que o conduzia até a próxima parada.


O povo simples do sertão tinha muita fé no religioso que era considerado um santo. Nos lugares que passava, tinha o costume de erguer igrejas e cruzeiros nos locais em celebrava missas e fazia pregações. Muitos deles foram marcos para o começo de povoados e futuras cidades, a exemplo de Itapajé e Bela Cruz no Ceará. Muitas outras localidades contaram com alguns exemplares dessas edificações, hoje desaparecidas, testemunhos da passagem de Frei Vidal, por várias regiões do Ceará.     

Seu verdadeiro nome era Vitale da Frascarolo. O missionário também é citado como Frei Vidal de Fraccardo. O nome “da Penha” é em alusão ao convento de Nossa Senhora da Penha, localizado em Recife em Pernambuco, onde o mesmo vivia antes das suas missões. Italiano que peregrinava pelos sertões de Pernambuco e Ceará nos últimos anos do século XVIII, o frade tinha como marca registrada a catequese dos habitantes e índios da região. Mas Frei Vidal não catequizou apenas selvagens. Contribuiu com seus esforços para uma outra catequese – a do civilizado – talvez a mais difícil, mostrando do púlpito seus erros, suas paixões, seus desvios, chamando-o ao bom caminho.

Certo dia o religioso missionava em Campo Grande sobre a Serra da Ibiapaba. Num dos sermões falou sobre os sambas e toques de viola, então muito em voga nos sertões cearenses. Do púlpito, pediu que os possuidores de violas, as trouxessem sob pena de excomunhão. O efeito foi imediato. Foi como se uma bomba estivesse estourado no seio daquela população inculta.

Surgiram violas de todos os cantos, e em poucos dias a casa de hospedagem do padre estava entulhada desse instrumento. O missionário mandou dependura-las nos galhos de uma árvore seca, arrumando uma parte dela embaixo da mesma árvore. Feito isso, ateou fogo à pilha de violas que arderam, e ao queimarem-se as cordas das violas vibravam, e o som era ouvido pelos assistentes.   

Também ficou famoso por suas profecias catastróficas de fim do mundo, que por muitos anos permaneceram no imaginário da população local, que acreditava em suas palavras, e propagavam seus relatos. Um fato peculiar de suas profecias lendárias é que ele sempre mencionava "o rabo baleia" ou "a baleia adormecida", animal que segundo ele, vivia adormecido sob as cidades da região. Segundo ele, ao acordar e se mover nas entranhas da terra, a "baleia" provocaria grande devastação.

Em Santana do Acaraú, um gaiato pregou uma peça de extremo mau gosto no sacerdote. Conta-se que tendo parado às margens do rio que corta aquela cidade, Frei Vidal aproveitou para beber água e banhar-se, tendo deixado o seu chapéu no galho de uma árvore. Um sujeito de maus bofes aproveitou sua distração para defecar dentro do mesmo. Ao sair dali, Frei Vidal retirou suas sandálias, bateu o pó que as impregnava e vaticinou que Santana estaria fadada a tornar-se “cama de baleia” e crescer sempre baixo, como o rabo de sua alimária. As cidades que nasceram às margens do Rio Jaguaribe também foram ameaçadas com igual vaticínio, pois segundo ele, Aracati seria a primeira da lista e as águas invasoras de um possível Tsunami iriam transformar a distante Icó em porto de navio.

Açude Araras construído sobre o leito do Rio Acaraú (imagem Tribuna do Ceará)

Santana do Acaraú e as cidades vizinhas seriam inundadas devido ao arrombamento de um açude pelo movimento do lendário mamífero adormecido nas entranhas da terra. Previa ainda que esse açude seria construído no Rio Acaraú, e que o açude teria nome de um pássaro. Lenda ou não o açude realmente foi construído, o Açude Araras, e nos últimos anos diversas cidades da Região Norte do Ceará, próximas a Sobral sofreram abalos sísmicos.

Por onde passava, a multidão ouvia-o enternecida à sua palavra de ouro e fé. Ao longo do vale de Crateús, certo dia, Frei Vidal bate a porta da casa grande da fazenda do Coronel José Ferreira de Melo, onde foi recebido alegremente. Era uma honra hospedar a figura singular e marcante do notável missionário. Anunciada a prédica, juntou-se uma multidão de gente, vinda de toda parte. Foi nesta oportunidade que Frei Vidal, fez veemente um apelo ao rico fazendeiro, no sentido de que mandasse construir uma capela. Homens daqueles tempos idos e vividos, não faltavam com a palavra, promessa feita, promessa cumprida.

Igreja Matriz de N. S. Santana em Independência (imagem IBGE) 

O sertanejo acedeu, dando início às obras, que foram concluídas em 1810. Aos poucos, foi-se chegando gente e principiou um modesto arruado, em forma de quatro, ao redor da capela de Nossa Senhora Santana. A florescente povoação elevou-se a distrito de Paz com o nome de Pelo Sinal, por resolução n.º 56 de 6 de setembro de 1836. No local hoje encontra-se a cidade de Independência.

Considerado o maior missionário que estas paragens já conheceu, com suas missões nunca esquecidas, e que se tornaram lendárias, sua fama era tamanha, que para sua aposentadoria, o Senado da Câmara de Fortaleza, arranjou-lhe a melhor casa da Villa, a então residência do mestre alfaiate Salvador José Quaresma.


Fontes:
Revista do Instituto do Ceará – “No Tempo de Frei Vidal...” de Eusébio de Sousa
http://acordacordel.blogspot.com.br
figura do cordel Revistas USP


domingo, 15 de abril de 2012

Lugares e Paisagens da Serra da Ibiapaba



A Serra da Ibiapaba, também conhecida como Serra Grande, é uma região montanhosa que se localiza nas divisas dos estados do Ceará e Piauí.
Trata-se de uma região atraente em riquezas naturais que já era habitada por diversas etnias indígenas. Os povos que  viviam na região,  já negociavam diversos produtos naturais com povos europeus, tais como os franceses, antes mesmos da chegadas dos portugueses.
A cidade mais antiga da serra é Viçosa do Ceará, que foi colonizada pelos jesuítas da Companhia de Jesus no século XVIII. Também se encontram as cidades de Tianguá, Ubajara,  São Benedito, Ibiapina, Croatá, Guaraciaba do Norte – onde se encontra a cidade de pedras – Carnaubal e outros diversos lugarejos.
A Serra é grande produtora de hortaliças e flores que são exportadas para a Europa e também é grande produtora de cana-de-açúcar e derivados como rapadura e mel  entre outros, distribuindo estes produtos para toda a Região Norte do Ceará e parte do Piauí.

Cidades da Serra da Ibiapaba e suas altitudes

Guaraciaba do Norte 903 metros
São Benedito (Ceará) 903 metros
Ibiapina 878 metros
Ubajara 847 metros
Tianguá 775 metros
Carnaubal (Ceará) 763 metros
Viçosa do Ceará 740 metros
Croatá 571 metros



 Parque Nacional de Ubajara

Igreja do Céu, o ponto mais alto de Viçosa do Ceará
o acesso à Igreja do Céu pode ser feito à pé, ou de carro.
 Viçosa do Ceará vista do alto da Igreja do Céu

lago da barragem - Ubajara
Cachoeira do Boi Morto - Ubajara
 vista da serra
Mirante
 Igreja no centro de Tianguá
 Coluna da Hora - centro de Tiangua
 na estrada
Praça em São Benedito
trecho entre São Benedito e Ibiapina

fotos:
Rodrigo Paiva
Fátima Garcia