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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Frei Vidal da Penha, o Profeta do Sertão

Os missionários capuchinhos marcaram presença no Brasil desde 1612, quando Cláudio de Abbeville e Ivo d’Evreux, cada um com seus escritos, iniciaram a moderna história do Maranhão. Desde então passaram a visitar o Brasil e mais especialmente o Nordeste, onde promoviam a catequese e a evangelização da população.   

Frei Vidal da Penha foi um desses capuchinhos. Entre 1780 e 1820 pregou em toda a região nordestina e ficou imortalizado no imaginário popular por seus inflamados sermões versando sobre as virtudes humanas. Virou tema da literatura de cordel por causa de suas profecias sobre o fim do mundo. Contam que Frei Vidal, em suas andanças pelo sertão, era conduzido em uma rede. Onde chegava, juntava-se uma turma de homens que o conduzia até a próxima parada.


O povo simples do sertão tinha muita fé no religioso que era considerado um santo. Nos lugares que passava, tinha o costume de erguer igrejas e cruzeiros nos locais em celebrava missas e fazia pregações. Muitos deles foram marcos para o começo de povoados e futuras cidades, a exemplo de Itapajé e Bela Cruz no Ceará. Muitas outras localidades contaram com alguns exemplares dessas edificações, hoje desaparecidas, testemunhos da passagem de Frei Vidal, por várias regiões do Ceará.     

Seu verdadeiro nome era Vitale da Frascarolo. O missionário também é citado como Frei Vidal de Fraccardo. O nome “da Penha” é em alusão ao convento de Nossa Senhora da Penha, localizado em Recife em Pernambuco, onde o mesmo vivia antes das suas missões. Italiano que peregrinava pelos sertões de Pernambuco e Ceará nos últimos anos do século XVIII, o frade tinha como marca registrada a catequese dos habitantes e índios da região. Mas Frei Vidal não catequizou apenas selvagens. Contribuiu com seus esforços para uma outra catequese – a do civilizado – talvez a mais difícil, mostrando do púlpito seus erros, suas paixões, seus desvios, chamando-o ao bom caminho.

Certo dia o religioso missionava em Campo Grande sobre a Serra da Ibiapaba. Num dos sermões falou sobre os sambas e toques de viola, então muito em voga nos sertões cearenses. Do púlpito, pediu que os possuidores de violas, as trouxessem sob pena de excomunhão. O efeito foi imediato. Foi como se uma bomba estivesse estourado no seio daquela população inculta.

Surgiram violas de todos os cantos, e em poucos dias a casa de hospedagem do padre estava entulhada desse instrumento. O missionário mandou dependura-las nos galhos de uma árvore seca, arrumando uma parte dela embaixo da mesma árvore. Feito isso, ateou fogo à pilha de violas que arderam, e ao queimarem-se as cordas das violas vibravam, e o som era ouvido pelos assistentes.   

Também ficou famoso por suas profecias catastróficas de fim do mundo, que por muitos anos permaneceram no imaginário da população local, que acreditava em suas palavras, e propagavam seus relatos. Um fato peculiar de suas profecias lendárias é que ele sempre mencionava "o rabo baleia" ou "a baleia adormecida", animal que segundo ele, vivia adormecido sob as cidades da região. Segundo ele, ao acordar e se mover nas entranhas da terra, a "baleia" provocaria grande devastação.

Em Santana do Acaraú, um gaiato pregou uma peça de extremo mau gosto no sacerdote. Conta-se que tendo parado às margens do rio que corta aquela cidade, Frei Vidal aproveitou para beber água e banhar-se, tendo deixado o seu chapéu no galho de uma árvore. Um sujeito de maus bofes aproveitou sua distração para defecar dentro do mesmo. Ao sair dali, Frei Vidal retirou suas sandálias, bateu o pó que as impregnava e vaticinou que Santana estaria fadada a tornar-se “cama de baleia” e crescer sempre baixo, como o rabo de sua alimária. As cidades que nasceram às margens do Rio Jaguaribe também foram ameaçadas com igual vaticínio, pois segundo ele, Aracati seria a primeira da lista e as águas invasoras de um possível Tsunami iriam transformar a distante Icó em porto de navio.

Açude Araras construído sobre o leito do Rio Acaraú (imagem Tribuna do Ceará)

Santana do Acaraú e as cidades vizinhas seriam inundadas devido ao arrombamento de um açude pelo movimento do lendário mamífero adormecido nas entranhas da terra. Previa ainda que esse açude seria construído no Rio Acaraú, e que o açude teria nome de um pássaro. Lenda ou não o açude realmente foi construído, o Açude Araras, e nos últimos anos diversas cidades da Região Norte do Ceará, próximas a Sobral sofreram abalos sísmicos.

Por onde passava, a multidão ouvia-o enternecida à sua palavra de ouro e fé. Ao longo do vale de Crateús, certo dia, Frei Vidal bate a porta da casa grande da fazenda do Coronel José Ferreira de Melo, onde foi recebido alegremente. Era uma honra hospedar a figura singular e marcante do notável missionário. Anunciada a prédica, juntou-se uma multidão de gente, vinda de toda parte. Foi nesta oportunidade que Frei Vidal, fez veemente um apelo ao rico fazendeiro, no sentido de que mandasse construir uma capela. Homens daqueles tempos idos e vividos, não faltavam com a palavra, promessa feita, promessa cumprida.

Igreja Matriz de N. S. Santana em Independência (imagem IBGE) 

O sertanejo acedeu, dando início às obras, que foram concluídas em 1810. Aos poucos, foi-se chegando gente e principiou um modesto arruado, em forma de quatro, ao redor da capela de Nossa Senhora Santana. A florescente povoação elevou-se a distrito de Paz com o nome de Pelo Sinal, por resolução n.º 56 de 6 de setembro de 1836. No local hoje encontra-se a cidade de Independência.

Considerado o maior missionário que estas paragens já conheceu, com suas missões nunca esquecidas, e que se tornaram lendárias, sua fama era tamanha, que para sua aposentadoria, o Senado da Câmara de Fortaleza, arranjou-lhe a melhor casa da Villa, a então residência do mestre alfaiate Salvador José Quaresma.


Fontes:
Revista do Instituto do Ceará – “No Tempo de Frei Vidal...” de Eusébio de Sousa
http://acordacordel.blogspot.com.br
figura do cordel Revistas USP


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Independência – Ceará

 pórtico de entrada da cidade (foto www.tripmondo.com)

Independência faz parte do Vale de Crateús, comprado em 1721, por D. Ávila Pereira pelo preço de quatro mil cruzados.  A posse dessas terras lhe foi dada na fazenda Lagoa das Almas, 18 quilômetros ao sudoeste da Vila príncipe Imperial (Crateús) por um ouvidor vindo de Oeiras (Piauí). Quando aí passou, em fins do século XVIII, chegando Frei Vidal da Penha à fazenda de José Ferreira de Melo, aconselhou que ali se fizesse uma capela. O sertanejo acedeu, dando logo início às obras que foram concluídas depois de 1810.

 Igreja matriz de Sant'Ana (foto do site www.tripmondo.com)

Construídas as primeiras habitações em torno do templo, a florescente povoação foi elevado a distrito de paz com o nome de Pelo Sinal, por Resolução n° 56, de 6 de setembro de 1836. A criação da freguesia data de 15 de setembro de 1853, sendo seu primeiro vigário o padre Antônio Ricardo Cavalcante de Albuquerque, natural de Pernambuco, a cuja frente se manteve por cerca de 20 anos. Pertencia a freguesia de Santana de Independência ao bispado do Maranhão, do qual fazia parte o território da província do Piauí. 
Em princípios de 1857 os habitantes da povoação de Pelo Sinal reclamavam a situação de dependência da vila do Príncipe Imperial, o que lhe obstava o desenvolvimento, exigindo a urgente criação do município. A reivindicação mereceu acolhida e, em Oeiras, Capital da Província do Piauí, a 24 de julho do mesmo ano, foi expedido o Decreto n° 436, criando o município, com sede no antigo povoado de Pelo Sinal, elevado à categoria de Vila com território desmembrado do município do Príncipe Imperial  e denominado de Independência, sendo instalado em 1° de março de 1858. 

 vista aérea de Independência (foto do site www.tripmondo.com)
 
Em 1880 por lei geral de n° 3012, o território do município foi desanexado do Piauí e incorporado à Província do Ceará.
Lei estadual n° 107, de 20 de setembro de 1893 suprimiu o município, restaurado pela Lei n° 294, de 7 de agosto de 1896. Sua reinstalação ocorreu a 16 de novembro do mesmo ano. O Decreto Estadual n° 193, de 20 de maio de 1931 extinguiu vários municípios do Ceará, dentre eles o de Independência, que pela segunda vez perdia sua autonomia, reconquistando-a somente a 4 de dezembro de 1933. 

 localização de Independência no mapa do Estado

Em divisão territorial datada de 17 de janeiro de 1991, o município é constituído de 4 distritos: Independência, Ematuba, Iapi e Jandrangoeira. Pela lei municipal nº 326, de 04 de dezembro de 1992, é criado o distrito de Tranqueiras e anexado ao município de Independência.
Pela lei municipal nº 327, de 04 de dezembro de 1992, é criado o distrito de Monte Sinai com terras desmembradas do distrito de Iapi e anexado ao município de Independência. Em divisão territorial datada de 1 de junho de 1995, o município é constituído de 6 distritos: Independência, Ematuba, Iapi, Jandrangoeira, Monte Sinai e Tranqueiras. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 2005.

 Estação ferroviária de Independência -A implantação e construção do trecho ferroviário Crateús a Piquet Carneiro remonta aos anos de 1951/1952. O trecho total teria 181 km e o trecho até Independência foi concluído em 1961

Localização – totalmente incluído no Polígono das Secas, o município de Independência situa-se na zona do sertão do Sudoeste. O território se estende pelos afamados sertões de Crateús, propício à criação de gado, no vale do Rio Poti, abrangendo parte da Serra Grande, nos limites com o estado do Piauí.

 rua de Independência (foto do site www.tripmondo.com)

Limites:  Norte: Tamboril e Monsenhor Tabosa;  Leste: Boa Viagem, Pedra Branca e Tauá, Sul: Tauá; Oeste: Quiterianópolis, Novo Oriente e Crateús
Distância de Fortaleza: 310 km
Área do território: 3.218.678 km², sendo atualmente o 4° maior município do Estado do Ceará em área territorial. 
População estimada (IBGE 2012): 25.620 habitantes  


fontes:
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros - 1959
wikipédia
IBGE

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A Pedra Santa de Independência – Ceará


Nessa região árida são comuns as formações rochosas que se espalham por vários pontos da serra, formando figuras e fendas. Uma delas lembra a imagem de uma santa.

Vistas de perto, parecem simples e grandes pedras acopladas naturalmente umas às outras. Um pouco mais distante e de ângulos específicos, as pedras tomam forma semelhante a uma imagem. De Nossa Senhora, dizem os fiéis. A formação rochosa  fica no distrito de Jandrangoeira,  município de Independência, sertão dos Inhamus.  A designação de Pedra Santa foi dada pelos antigos moradores da região incluindo a localidade de Antônio Bento, a mais próxima da Pedra Santa. Atualmente apenas duas famílias vivem em Antônio Bento.
Os pedidos mais comuns, segundo moradores, são alusivos ao inverno,  pedidos de chuva e água para a região. 
A escassez de água, a aridez do solo, os problemas climáticos e a falta de políticas públicas desfavoreceram o município ao longo da história. Independência se enquadra no polígono das secas e muito tem sofrido por esse motivo. 
De acordo com pesquisas científicas é um dos municípios mais áridos e com maior índice de desertificação do Estado.

Caminho até a Pedra Santa: difícil acesso

Para chegar até a Pedra Santa, é preciso percorrer quarenta quilômetros de estrada de terra, com muitas pedras. Ao todo, é preciso abrir e fechar dez cancelas. Além disso, é necessário andar cerca de 400 metros em um trecho cheio de pedras. A vegetação local é composta de chique-chique, favela, mandacaru e malva, resistentes à seca.
Conforme declaração de um morador, há mais de dez anos, fazendeiros que possuem propriedades na região, teriam pedido aos gestores municipais para não recuperarem as estradas, com receio de roubo de animais, o que acabou contribuindo para o isolamento do local. Hoje, poucos visitam a Pedra santa devido a dificuldade de acesso.
Para o padre Manoel Machado, da paróquia do município, a crença na Pedra Santa é conhecida, apesar de não saber da ocorrência de milagres ou procissões.  Conta ainda, que ali era uma região bem povoada, mas de uns 20 anos para cá, as pessoas começaram a se mudar. Hoje o distrito é tão desabitado que apenas uma festa religiosa ocorre na região, na Vila de Jandrangoeira, na Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

fonte: 
Diário do Nordeste