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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

José de Alencar e a Abolição da Escravatura


Em 1867, José de Alencar publicou uma série Ao Imperador: Novas Cartas Políticas de Erasmo. São sete cartas abertas dirigidas a Dom Pedro II, das quais três tratam abertamente da defesa da escravidão negra no Brasil. O escritor era então deputado no Rio de Janeiro, eleito pelo Ceará, e tentava convencer ao imperador a abandonar a ideia da abolição dos escravos.  O imperador fazia grande pressão pelo fim do comércio humano – ameaçava até desistir do trono se os parlamentares não votassem pelo fim dos cativeiros.

D. Pedro II em 1870
Depois que a liberdade dos escravos se tornou uma conquista, a série de cartas desapareceu. Não entrou nas obras completas do escritor, publicadas em 1959. Até serem redescobertas em 2008, pelo historiador paulista Tâmis Parron, ficaram desaparecidas por 140 anos. 
Curioso é que os motivos de J. de Alencar contra a abolição parecem mais simpáticos aos negros do que os argumentos em favor da liberdade. Nos discursos pró e contra a escravatura do século XIX, os parlamentares se baseavam em razões que hoje parecem insanas. Nenhum negro gostaria de ouvir, por exemplo, o argumento abolicionista de que os africanos formavam uma raça inferior e por isso era necessário parar imediatamente de trazê-los para o Brasil, para que não prejudicassem o futuro do país. 

Já os defensores da escravidão tinham razões politicamente corretas. O mais conhecido deles, o senador Bernardo de Vasconcelos, dizia que a África civilizava o Brasil, portanto a imigração de negros africanos enriquecia a cultura brasileira.

dança dos escravos - pintura de Rugendas

A argumentação de José de Alencar vai nessa linha. Ele não defendia o sistema escravocrata por acreditar que os negros tinham um cérebro menos dotado, mas porque via neles um grande potencial de crescimento e auxílio no progresso do país. Chega a citar negros ilustres da história brasileira, como Henrique Dias, herói da expulsão dos holandeses em Pernambuco: “sem a escravidão africana e o tráfico que a realizou, a América seria hoje um vasto deserto”, diz Alencar na segunda carta ao Imperador. “Três séculos durante, a África despejou sobre a América a exuberância de sua população vigorosa”.

De acordo com José de Alencar, toda nova civilização da história floresceu por meio da escravidão de civilização decadente. O trabalho forçado seria uma “educação pelo cativeiro”, ou seja, um modo de tirar indivíduos da selva e dar-lhes acesso a instrução. O escravo durante anos de servidão, iria adquirir qualidades morais suficientes para ser um novo membro da sociedade. Como mostra desse fenômeno, Alencar cita o alto número de escravos alforriados no Brasil que compravam a liberdade ou a ganhavam de presente.

pintura de Debret 

Segundo o escritor “se a escravidão não fosse inventada, a marcha da humanidade seria impossível, a menos que a necessidade não suprisse esse vínculo por outro igualmente poderoso. Desde que o interesse próprio de possuir o vencido não coibisse a fúria do vencedor, ele havia de imolar a vítima. Significara, portanto, a vitória na antiguidade uma hecatombe; a conquista de um país, o extermínio da população indígena".

pelourinho - pintura de Debret

Muita gente considera importante preservar os costumes nacionais contra influência estrangeira. Alencar e seus colegas do Partido Conservador usam esse argumento para defender a exploração dos negros. A escravidão, para eles, fazia parte da tradição brasileira – era importante para a identidade nacional.
Por essa razão o país não deveria ceder às pressões abolicionistas da França e da Inglaterra, as duas grandes potências da época. Alencar pede a D. Pedro II que pare de se preocupar com a opinião internacional e valorize as instituições brasileiras. “São muitos os cortejos que já fez a coroa imperial à opinião europeia e americana. Reclama sério estudo cada um destes atos, verdadeiros golpes e bem profundos, na integridade  da nação brasileira”.

D. Pedro I deveria ter respondido ao escritor que: deixar o patriotismo de lado e aceitar a influência estrangeira pode salvar um país de costumes bárbaros.

Extraído do livro:
Guia politicamente incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch

   

sexta-feira, 25 de março de 2016

A Libertação dos Escravos e a Corrupção na Província

130 anos após a abolição da escravidão no Ceará, pesquisa no acervo do jornal Libertador revela senhores de escravos corruptos e se beneficiando do dinheiro público destinado à compra de alforrias.

Jornal Libertador edição de 25 de março de 1884

O escravocrata Antônio Benício Saraiva libertou seus escravos cinco anos antes da princesa Isabel assinar a Lei Áurea. Fazendeiro e político, Saraiva concedeu alforria em troca de indenização paga pelo Governo Provincial. Segundo o jornal abolicionista Libertador, o escravista fez da “liberdade” um negócio lucrativo. Inicialmente soltando “seus negros” no município de Baturité, o fazendeiro levou-os para Quixeramobim e alforriou novamente os mesmos escravos – ganhando, assim, indenização em dobro.
 
A denúncia sobre o episódio envolvendo Antônio Benício Saraiva (1823–1920) foi publicada, em outubro de 1883, no jornal Libertador. A história do fazendeiro e outras irregularidades que antecederam a abolição no Ceará foram noticiadas pelo periódico oficial da Sociedade Cearense Libertadora, mais destacada agremiação abolicionista que atuou no Ceará.

Sociedade Cearense Libertadora, composta por Isaac Amaral, Papi Júnior, William Ayres, João Cordeiro, Antônio Bezerra, Dragão do Mar, Alfredo Salgado, Oliveira Paiva, João Lopes, José Amaral, e Antônio Martins. 

Debruçando-se sobre o conteúdo do jornal, o historiador cearense Américo Souza tem encontrado denúncias como: libertação dos mesmos escravos mais de uma vez, histórias de cativos vendidos por preços exorbitantes e relatos de negros “livres” que continuaram sob o domínio dos senhores. Américo é professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab) e, junto dos orientandos Ellen Jardani e George Cavalcante, tem atualizado discussão sobre os processos que levaram ao fim do regime escravocrata.
 
“A abolição da escravidão no Ceará foi, em última instância, um grande negócio, no qual os proprietários foram os que mais lucraram; o povo, especialmente os escravizados, os que mais perderam e o Estado foi quem pagou a conta”, afirma Américo. O historiador ressalta: a “esmagadora maioria” das alforrias foram obtidas por meio de indenização paga pelo Governo Provincial.
 
Criado em 1881 e tendo circulado até 1892, o jornal Libertador cobriu os bastidores da abolição cearense, ocorrida com quatro anos de antecedência em relação ao resto do País. Naquele 25 de março de 1884, Sátiro de Oliveira Dias, presidente da província do Ceará, decretou liberação de todos os escravos dessas terras. Passados 130 anos, o feito é agora analisado para muito além da obra de uma “elite branca, humanista e modernizadora que quis por fim ao regime”, como pontua Américo.

“A quota do fundo de emancipação, agora distribuída ao Ceará, será aproveitada para arranjos e outros fins inconfessáveis, como tem sucedido, se as juntas respectivas não se acautelarem contra esses negreiros infames”, publicou o jornal Libertador em 17 de Agosto de 1883. O fundo monetário estabelecido pelo Governo Imperial era destinado à libertação de escravos e distribuía recursos para a indenização dos senhores.

Sede da Assembleia Provincial do Ceará

Além do dinheiro advindo do Governo Imperial, entre 1868 e 1883, a Assembleia Provincial do Ceará, composta em sua maioria por deputados proprietários de escravizados, aprovou um conjunto de leis que autorizava o Governo Provincial a destinar grande soma de recursos para a compra de alforrias. Assim, os próprios escravocratas criaram leis para conseguir libertar seus escravos em troca de altas quantias de dinheiro.
 
“As denúncias do Libertador revelam a fragilidade do poder público em fiscalizar o cumprimento da libertação dos cativos após o pagamento das indenizações, bem como o caráter clientelista do processo de abolição que foi, em grande medida, um negócio lucrativo”, afirma Américo. Segundo o historiador, os escravocratas encontraram com a liberação dos escravos uma forma de se recuperar dos prejuízos advindos de crise econômica pela qual a Província passava desde o declínio da exportação de algodão, no final da década de 1860.

 
 
Antiga Fazenda escravocrata em Redenção, Ceará
 
Os escravos recém-libertos, por sua vez, não tiveram acesso a recursos do poder público que lhes possibilitassem uma reinserção social. Após a abolição, os ex-escravos se tornaram homens e mulheres livres, mas sem acesso a direitos como moradia e educação. A falta desses direitos, muitas vezes, lhes obrigavam a se tornar empregados de seus antigos senhores e seguir trabalhando em condições equivalentes à escravidão.
 
Outro episódio encontrado no jornal Libertador relata a batalha judicial entre escravistas da cidade de Russas e o Governo Provincial. Visando lucrar ainda mais com a libertação dos cativos, um grupo de senhores acionou o Poder Judiciário para “obrigar” o Governo a pagar quantias mais elevadas pelas alforrias. “Classificados 23 escravos, que estavam nas condições de obterem liberdade, os senhores não quiseram convencionar preço com o coletor esperando coisa melhor perante o juiz municipal”, publicou o periódico 18 de em outubro de 1883.
 
O episódio foi julgado pelo juiz de Russas – chamado na matéria por Dr. Guedes –, que concedeu ganho de causa aos escravistas. O Libertador relata que a decisão dobrou o valor da indenização para a alforria de alguns escravos e denuncia: o pai do juiz estava entre os fazendeiros beneficiados.
Segundo levantamento realizado pelo pesquisador Américo Souza e seus orientandos, o jornal Libertador denunciou – entre 1883 e 1884 – outras 17 ocorrências, além dos casos de Antônio Benício Saraiva e dos fazendeiros de Russas.
 
transcrito do Jornal O Povo

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Barão de Studart – o Historiador do Ceará

O escritor Mozart Soriano Aderaldo divide o estudo da história do Ceará em dois períodos: antes e depois do Barão de Studart. Até então, as pesquisas se baseavam mais na tradição, sem possibilidade de comprovação dos fatos.


Guilherme Chambly Studart nasceu em 5 de janeiro de 1856, em Fortaleza, filho do inglês John William Studart – primeiro vice-cônsul do Ceará e de Leonísia Castro Studart, neta do Major Facundo, político de grande influência em sua época.

Estudou inicialmente no Colégio Ateneu Cearense e em seguida no Ginásio Baiano. Em 1872, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, concluindo cinco anos depois. Exerceu a profissão por muito tempo no Hospital de Caridade de Fortaleza (Atual Santa Casa de Misericórdia).

Prédio da Faculdade de Medicina da Bahia

Católico militante, definido politicamente como Conservador, Guilherme Studart participou da campanha pela libertação dos escravos na província. Em 1880, seu nome estava incluído entre os 225 sócios da “Sociedade Cearense Libertadora”, cujo presidente João Cordeiro, defendia a libertação através de todos os meios, inclusive violência e furto de escravos. 

Depois da morte do seu pai, Guilherme Studart herdou o cargo de vice-cônsul no Ceará. Responsável por diversas transações comerciais, ligadas a proprietários de fazendas que mantinham escravos, não concordou com o caminho seguido pela “Sociedade Libertadora”  posicionou-se contrário à qualquer perturbação na ordem moral e econômica da cidade. Acreditava que a abolição seria alcançada de modo pacífico. Fundou então, ao lado de Meton de Alencar, José Martiniano de Alencar e outras personalidades,  o “Centro Abolicionista 25 de Dezembro” e escreveu seu manifesto, divulgado em 13 de abril de 1883. 

Instituto Pasteur criado pelo médico Guilherme Studart em 1918, localizado na atual Avenida Bezerra de Menezes

Guilherme Studart sofreu criticas severas dos libertadores mais radicais, por conta de tal iniciativa. Finalmente, em 24 de maio de 1883, Guilherme Studart participou no salão nobre do Paço Legislativo, da sessão em que se  declarou a libertação dos escravos em Fortaleza. Ele foi retratado, ao lado de 91 personalidades no quadro “Fortaleza Liberta”, do artista plástico José Irineu de Souza.

O interesse pelos estudos históricos surgiu quando Guilherme Studart retornou ao Ceará, depois de formado em medicina. Percebeu que, basicamente, só existiam fragmentos sobre a história de sua terra, faltando documentos informativos essenciais para a compreensão do passado. Com recursos próprios, viajou várias vezes para Portugal, onde pesquisou intensamente na Biblioteca Nacional de Lisboa. Trouxe assim, para o Brasil, documentos até então inéditos entre os historiadores cearenses.


Quadro Fortaleza Liberta – de autoria do artista cearense José Irineu de Sousa, retrata a solenidade de libertação dos escravos de Fortaleza, no salão nobre da Assembleia Provincial. Hoje o quadro faz parte do acervo do Museu do Ceará (foto do site Fortaleza em Fotos)

Publicou o primeiro livro em 1883. “História do Ceará. Família Castro. Apontamentos”. Dai por diante divulgou, através de sua própria tipografia várias obras de porte sobre a história do Ceará. Escreveu ainda trabalhos relacionados com a medicina. A produção intelectual de Guilherme Studart abrangeu diferentes áreas do conhecimento humano, daí o destaque que recebe na historiografia cearense. 

Além de dedicar-se a cultura, foi benemérito de várias entidades filantrópicas. Entre 1898 e 1931, esteve à frente do Conselho Central Metropolitano das organizações vicentinas. Em 1900, por solicitação do bispo Dom Joaquim Vieira, recebeu o título de “barão” da Santa Sé, assinado pelo Papa Leão XIII.


Registro da fundação do Centro Médico Cearense no dia 20 de fevereiro de 1913.  Nela estão da esquerda para a direita em pé: Adalberto Studart, Raimundo Gomes, José Frota, Nelon Catunda, Amâncio Filomeno, Afonso Pontes, Antônio Mesiano, Eliezer Studart e César Cals.  Sentados, na mesma direção: Meton de Alencar, Eduardo Salgado, Barão de Studart, Manuelito Moreira e Costa Ribeiro com o menino José Carlos da Costa Ribeiro Filho. A foto foi feita  na porta da Santa Casa da Misericórdia.
 (foto e identificação Nirez)

O Barão de Studart, como ficou popularmente conhecido, foi responsável pela fundação de importantes entidades cearenses: Associação Médico-Farmacêutica do Ceará – 1834; Centro Médico Cearense – 1913;  Circulo Católico – 1913; Circulo dos Operários Católicos – 1915;  Instituto Pasteur – 1918 e uma filial da Cruz Vermelha no Ceará – 1918.

Palacete Jeremias Arruda, sede atual do Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará, instituição criada pelo Barão de Studart em 1887.

Juntamente com Paulino Nogueira, Joaquim Catunda, Antônio Bezerra  e Thomaz Pompeu de Sousa Brasil, fundou o Instituto do Ceará, em 4 de março de 1887, uma sociedade civil que ainda hoje tem por finalidade o estudo da História Geográfica, antropológica e ciências correlatas. O Barão de Studart presidiu o Instituto no período de 1929 a 1938.

No dia 15 de agosto de 1894, participou da instalação de outro marco cultural para o Estado: a Academia Cearense, que em 1922 foi reorganizada com o nome de Academia Cearense de Letras, do qual é patrono da cadeira n° 11. Ao seu lado estavam Justiniano de Serpa, Farias brito, Franco Rabelo e outros escritores.

Guilherme Studart morreu no dia 25 de setembro de 1938, deixando grande quantidade de documentos originais sobre o Ceará. Infelizmente abandonado, grande parte foi destruída pelo tempo. Graças a iniciativa individual de Raimundo Girão, alguns trabalhos foram salvos, em deplorável estado de conservação, constituindo-se depois na “Coleção Studart”, do Instituto do Ceará.  

extraído do livro "A História do Ceará Passa por Esta Rua" 
de Rogaciano Leite Filho 
fotos do Arquivo Nirez

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Dragão do Mar - o jangadeiro da campanha abolicionista

Praia de Canoa Quebrada em Aracati

A luta pela libertação dos escravos no Ceará talvez não se antecipasse ao resto do país, se uma espinha de peixe tivesse provocado a morte do menino negro e mirrado, nascido em Aracati, filho do pescador Manoel do Nascimento e de Matilde Maria da Conceição, residentes em Canoa Quebrada. Com a espinha atravessada na garganta, foi desenganado pela comunidade e batizado “na hora da morte”, com o nome de Francisco José do Nascimento, que depois seria conhecido em todo o Brasil por “Dragão do Mar”.
Nascido em 15 de abril de 1839, bem cedo perdeu o pai, que se aventurou num seringal do Amazonas, atraído pela lenda de riquezas. O avô, também jangadeiro, morreu no mar. Sem condições de criar os filhos, Matilde Maria da Conceição viu-se obrigada a dar a criança de oito anos de idade para uma família de maiores recursos. O escritor Edmar Morel, autor do livro “O Dragão do Mar”, cita trecho das memórias do abolicionista: 

 – minha mãe era alta, forte, muito morena, sendo, porém mais clara do que meu pai. O seu nome era Matilde Maria da Conceição, e por isso fiquei conhecido para o resto da vida como “Chico da Matilde”. Como Chico da Matilde fui tratado pelo José do Patrocínio e até pelos jornais da Corte. 
Ainda criança Nascimento serviu de garoto de recados no veleiro Tubarão que transportava mercadorias para Natal, Recife e Fortaleza. Sem poder frequentar escola, aprendeu a ler com muita dificuldade, com 20 anos de idade. Em 1859, teve oportunidade de trabalhar nas obras do porto de Fortaleza, mas preferiu a aventura do mar. Embarcou então num navio que fazia a linha Maranhão-Ceará. 
Nesta época ficou muito impressionado com o episódio ocorrido no barco “Laura Segunda”, cuja tripulação foi dizimada pelos escravos revoltados com os castigos violentos a que eram submetidos. Os revoltosos foram presos e enforcados na Praça dos Mártires (atual Passeio Público). Nascia naquele instante a preocupação com o suplício de milhares de negros. Durante as viagens presenciava cenas de barbarismo no tráfico de homens e mulheres.
Nesse ambiente é que nascimento, já sabendo ler e escrever, sente que o drama daquele amontoado de infelizes é parte de sua vida. Ele é um homem livre, mas é um mulato e melhor do que ninguém sabe das decepções que passa, do infortúnio de sua gente, humildes pescadores do Ceará, pretos e caboclos escravizados a um patrão branco, desumano e perverso.

 Bairro do Mucuripe nos anos 40

Além do contato com marinheiros de outros países, que não tinham escravos, Francisco José do Nascimento começava a se revoltar com a própria condição de negro. Em Fortaleza, onde passou a morar, havia faixas especiais para escravos e negros nas praças. Até na igreja, ricos e brancos tinham privilégios. Sentavam-se em cadeiras pagas e numeradas.
Em 1874 foi nomeado para o cargo de segundo prático na Capitania dos Portos. Três anos depois contribuiu para o trabalho de socorro às vitimas da grande seca de 1877, que dizimou de fome e peste mais de um quarto da população cearense. Conheceu João Cordeiro, famoso por suas ideias republicanas, além de ser anti-escravagista. O tráfico de escravos para o Sul se intensificou devido a péssima situação financeira dos latifundiários, em razão da seca.
Enquanto isso, a sociedade “Perseverança e Porvir” transformada depois em Sociedade Cearense Libertadora, alforriava escravos, graças à ação de pessoas dedicadas à extinção do comércio de negros. De acordo com João Brígido, havia no Ceará 31.516 escravos. A maioria se ocupava de trabalhos domésticos em consequência da destruição da lavoura.
A sociedade promovia também roubos de escravos e desmoralizava as autoridades com suas aventuras durante a noite nas fazendas vizinhas. Os membros audaciosos levavam os escravos para lugares seguros, com a ajuda do Dragão do Mar. A reação dos grandes proprietários de terras foi logo sentida. O coronel Antônio Pereira de Brito Paiva, do Partido Liberal, acusou de furto, Nascimento, Joaquim Teles Marrocos, Xavier de Castro, Isaac Amaral e outros dirigentes da Libertadora. 

 Porto de Fortaleza

O jornalista João Brígido, conhecido por sua escrita panfletária, advogava em favor do coronel. Por parte dos abolicionistas, Alminho Álvares Afonso e Frederico Borges. O julgamento foi realizado na antiga Câmara Municipal, na Rua Floriano Peixoto.
As sessões contavam com a presença de quase toda a cidade e foram motivo de zombaria. Isto porque Isaac Amaral, proprietário de várias carroças, ordenou que enchessem todas elas com latas vazias. No mesmo horário das audiências, as carroças davam voltas no quarteirão fazendo um barulho ensurdecedor. O juiz, favorável à causa abolicionista, adiava as sessões. Depois de várias tentativas frustradas de prosseguir com o inquérito, o coronel escravagista desistiu, pedindo paz aos libertadores.
A primeira mulher de Chico da Matilde, Joaquina Francisca do Nascimento era também favorável à causa abolicionista. Ela pertencia a Sociedade das Cearenses Libertadoras, fundada em 1882, que tinha na presidência Maria Tomásia. Com residência na praia, próxima ao Seminário da Prainha, Nascimento construiu amplo galpão no fundo do quintal para esconder escravos. Por sua participação no movimento, foi ameaçado pelas autoridades.

 bairro da Prainha, onde residia o Dragão do Mar - foto de 1900

Com o crescimento da luta, Nascimento contribuiu para o fechamento do porto de Fortaleza, proibindo o embarque de escravos. É atribuída a ele a frase: “neste porto não se embarca mais escravos”.
Em 1882 a cidade ficou em festa para receber a visita de José do Patrocínio, em campanha nacional pela abolição. Na chegada, os pescadores tendo a frente Dragão do Mar, abriram as velas, num espetáculo que emocionou o visitante. No dia 24 de maio do ano seguinte, participou da sessão solene no plenário da Assembleia, quando Fortaleza libertou os escravos. O seu retrato está também no quadro de José Irineu de Sousa, que perpetuou a solenidade. Em 25 de março de 1884, a grande vitória: A libertação dos escravos em toda a província.
 Dragão do Mar dirigiu-se então à Corte Imperial no antigo barco negreiro Espírito Santo, levando a jangada que pela primeira vez impediu o tráfico de escravos no Ceará. A embarcação doada ao Museu Nacional desapareceu misteriosamente devido a pressões das autoridades que consideravam uma afronta uma entidade do governo manter um símbolo de luta e agitação. 
No dia 3 de março de 1889 foi reconduzido ao caro de prático, do qual tinha sido demitido por sua participação no movimento abolicionista. Em 1890 recebeu a patente de Major-Ajudante de Ordens do Secretário Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará.
O tempo passou e a saga do Dragão do Mar começou a ser esquecida pela população, influenciada pelos costumes europeus e preconceitos raciais. Decepcionado, longe do seu grande amigo senador João Cordeiro, Nascimento conhece o menosprezo, a ponto do Barão de Studart, no seu famoso Dicionário Bibliográfico, não tomar conhecimento da vida do praieiro, símbolo de um povo que lutou pela abolição da escravatura.


Extraído do livro
A História do Ceará passa por esta rua
De Rogaciano Leite Filho  

quinta-feira, 27 de março de 2014

Redenção, o Rosal da Liberdade e a Fazenda Gurguri

Em Redenção, três frondosas tamarineiras testemunharam que ali a Vila, então Acarape, antecipou-se ao Brasil na Abolição da Escravatura, exatamente por seis anos. Sob a copa das velhas árvores, onde castigos eram infligidos aos negros, a libertação dos escravos foi comemorada pela primeira vez em terras cearenses e não faltaram discursos, passeatas e festejos. A partir de então, a Vila, depois município, passou a se chamar redenção e ganhou o cognome de “Rosal da Liberdade”.

 
 casa grande da Fazenda Gurguri

Além das árvores centenárias, uma sala no hoje Grupo escolar Pe. Saraiva Leão, situado na mesma praça, guarda a memória de inesquecíveis acontecimentos. Nela eram realizadas as ruidosas reuniões da Sociedade Libertadora Acarapense, nas quais eram urdidos os planos contra os escravocratas.


Histórias verdadeiras ou lendárias correm na cidade, sobre a época em que os negros eram considerados bichos e os brancos seus senhores de vida e morte. Uma delas passou-se na Fazenda Gurguri, situada não muito distante da sede do município. A fazenda ainda existe com algumas modificações, posto que agora é também uma pousada.
Casa-Grande típica, paredes de meio metro de largura, capela, tronco para amarrar escravos, engenho de cana, casa de farinha, no amplo alpendre um sino de bronze para a chamada ao trabalho e um enorme muro de pedras construído pelos escravos lembram que ali o número deles era grande.

 Morro Cabeça de Negro

Conta-se que seu antigo proprietário José Bento, após surrar a mulher de um dos seus escravos, Nego Chico, foi assassinado por ele. Depois de matar o amo, Nego Chico refugiou-se num serrote, atrás da fazenda. Perseguido e na iminência de ser  capturado, decidiu-se pelo suicídio, saltando do alto de um penhasco. Em alusão ao fato, o serrote passou a denominar-se Cabeça de Negro e seu vulto enorme, cercando a fazenda, parece querer lembrar o drama do escravo fugido.  


Do livro: o Ceará dos anos 90 – Censo Cultural
fotos de Rodrigo Paiva - mar/2014