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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Lendas e Histórias do Ceará

Ipueiras 

 Arco de N. S. de Fátima
Estação Ferroviária    

O município de Ipueiras surgiu a partir da prisão de Manoel Martins Chaves, potentado do lugar. Acusado de ter mandado matar o Juiz Ordinário de Vila Nova d’El-Rei, contam os historiadores, que o então governador da província do Ceará, João Carlos Augusto Oeynhausen e Grwembourg resolveu prender o coronel e, para isso, decidiu viajar para a Ibiapaba. 
A intenção do governador, aparentemente, era a de passar revista no Regimento da Capitania. Assim, foi recebido por Manoel Martins Chaves que, para ser útil ao governador, o acompanhou por algum tempo até que Oeynhausen resolveu revelar a sua verdadeira intenção. Estava com o coronel em Ibiapina quando mostrou uma réplica da coroa portuguesa para ele e perguntou se sabia de quem era. O coronel disse que era da rainha, Sua Senhora. Oeynhausen, diante disso, acrescentou: “pois, diante desta coroa, o senhor está preso” e disse lá o motivo. Levado para Fortaleza, Manoel Martins foi em seguida, transferido para Lisboa onde foi recolhido na prisão de Limoeiro. 
Morto em 1808, justamente no ano em que a Família Real partia de Portugal para o Brasil, as terras do coronel foram vendidas em Vila Nova d’El-Rei. Dentre elas a Fazenda Ipueiras que, com o tempo, foi doada à freguesia de Nossa Senhora de Assunção e hoje dá nome à cidade que dista 298 quilômetros de Fortaleza.

Pedra-Lascada - Itapipoca

Igreja Matriz de N. S. das Mercês

A lenda de Itapipoca é indígena. Denominada “pedra lascada” em tupi-guarani, há quem diga que esta lenda data do tempo do dilúvio. Neste tempo, enquanto Noé singrava os mares por cima da Mesopotâmia, as águas da praia da Baleia invadiam a região de Uruburetama e tomavam conta do lugar. Quando o dilúvio acabou, Noé se deparou com o arco-íris. Em Itapipoca, o que surgiu foi uma pedra, justamente aquela que dá nome à cidade e que ainda hoje pode ser vista em Vila Velha do Arapari, com o nome de Itaquatiara, em tupi-guarani, ou “pedra-d’água” em português.

Tesouros e Dragões do Ipu 

Igreja de São Sebastião
Vista parcial da cidade 

Ipu, a região para onde a índia Tabajara Iracema, protagonista do romance de José de Alencar, se dirigia para tomar banho em uma bica, também tem suas lendas. A Grécia fala de um velocino de ouro, guardado por um dragão, a Alemanha de um anel, o de Nibelungo, guardado por outro dragão. No Ipu também havia um dragão que guardava um tesouro, mas que foi vencido por um holandês. Descobrindo uma forma de fazer o monstro dormir, este holandês, que não tem nome conhecido, conseguiu roubar um pouco do tesouro que o monstro guardava em sua gruta. Feito isso, levou-o para a frente da Igreja de São Sebastião, que estava sendo construída em Ipu, e o enterrou para que toda a sua riqueza fosse protegida pelo santo. Em seguida, partiu para a gruta novamente. A intenção, desta vez, era a de levar todo o ouro que existia no local. Mas como não conseguiu adormecer o dragão, suficientemente, foi morto por ele.
A lenda, no entanto, se espalhou e, em pouco tempo, apareceu muita gente disposta a explorar a gruta do holandês. A pessoa que se deu bem, no entanto, não precisou ir até lá. Trata-se de um homem chamado João da Costa Alecrim que, sem precisar enfrentar nenhum monstro nem entrar em nenhuma gruta, deu com o tesouro do holandês diante da Igreja de São Sebastião. Assim, ficou rico da noite para o dia. Toda vez que saía de casa, porém, era recebido com indiferença pela população do Ipu, que considerava que todo aquele ouro estava sob a guarda de um santo (São Sebastião), e não admitia que ninguém se servisse dele tal como fez Alecrim. Assim, toda vez que passava pelas ruas do povoado, a população dava-lhe as costas.

A Cruz Milagrosa de Solonópoles

Igreja matriz de Bom Jesus Aparecido
 Praça Silvino

Solonópoles é tida e havida como terra de muita fé. Foi ali que se deu um caso até hoje contado como intrigante. Pastoreando os rebanhos do tenente general Manuel Pinheiro do Lago, um de seus escravos viu reluzir, por entre o matagal rarefeito, um objeto de metal. Percebendo que era um crucifixo que media mais ou menos um palmo de comprido e largura, pegou-o e o levou, imediatamente, para a casa grande sem se importar mais com as ovelhas do general. 
Na casa grande, entregou a cruz para a mulher do general, dona Rita das Dores Pinheiro, que levou a cruz para a capela da fazenda. No dia seguinte, porém, a cruz havia sumido. Procurada por todo canto, ninguém dava com ela até que o mesmo negro a descobriu no mesmo local. Colocando a cruz em um baú, desta vez, dona Rita esperou para ver o que haveria de acontecer e, para sua surpresa, a cruz sumiu outra vez sem ninguém forçar o baú para o abrir. 
Diante disso, dona Rita resolveu reunir a família na fazenda e discutir a situação. Terminada a reunião, foi tomada a seguinte decisão: dona Rita haveria de construir uma capela para aquela cruz no mesmo local onde ela apareceu a primeira vez. Tomada essa decisão, algo quase inacreditável aconteceu: a cruz reapareceu novamente. Desta vez dentro do baú sem que, como antes, fosse forçado. Diante disso, a capela foi construída, rapidamente, e o primeiro milagre da cruz aconteceu. A filha do coronel Simeão Correia Lima Landim era muda e, por algum motivo, transportava a cruz de metal de um lugar para outro. Durante este percurso, abriu a boca e falou. Toda população de Solonópoles testemunhou o ocorrido e, desde então, a capela de Bom Jesus Aparecido da Cachoeira, atual Solonópoles, nunca mais deixou de ser frequentada pelos fieis. 

Os Camelos de Fortaleza 

 Praia do Pirambu
Riacho Pajeú e a amurada do Forte N.S. de Assunção

Recém-chegado ao Ceará em 1859, o pintor francês, F. Biard, não ficou nem um pouco surpreso quando se deparou com alguns camelos nas praias de Fortaleza. Para ele isso era muito natural. Mas não para a população, que ficou extasiada com a chegada daqueles ruminantes.

A ideia, na verdade, partiu da Comissão Científica, formada no Rio de Janeiro em meados do século XIX e que tinha o objetivo de viajar por todo o Brasil coletando amostras da fauna e da flora do País. Acreditando que o clima cearense era propício para a criação de camelos e dromedários, a Comissão, também chamada “das Borboletas”, por causa de sua aparente inutilidade, aconselhou Dom Pedro II a praticar esta experiência científica.

Assim, no dia 14 de setembro de 1859, Fortaleza assistia estupefata, a chegada de 14 animais totalmente estranhos ao seu meio ambiente. Impressionado com aquilo, o povo de Fortaleza foi para o cais ver a chegada dos camelos e dos quatro árabes que os acompanhava. Como a Comissão Científica queria saber se os animais se adaptariam de fato, ao clima seco do Ceará, promoveu uma pequena caravana, dirigida por um dos árabes, que tinha, como finalidade, partir de Fortaleza e chegar a Baturité.

Não se sabe se a caravana foi ou não bem sucedida. O certo é que, com o tempo, os camelos deixaram de ser meios de transporte, no Ceará, e tornaram-se atração turística. Eram levados para Pernambuco, por exemplo, onde os jornais locais anunciavam a chegada deles da seguinte forma: “No botequim do Buessard, camelos aclimatados no Ceará. Entrada: 500 reis”.


transcrito do portal "O Estado" 
fotos do IBGE
 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A Lenda de Jericoacoara


Contam antigas lendas que, sob o serrote de Jericoacoara, ali onde o sertão adentra o mar, numa gruta ornada de tesouros e objetos mágicos,  vive encantada uma princesa moura. Prisioneira de terrível maldição expia a princesa tenebrosa pena, transformada em serpente, com cabeça e pés femininos. Dizem os adivinhos que, no momento em que algum ser natural ou sobrenatural, traçar no dorso da cobra, uma cruz com sangue humano, a princesa desencantará. Reza ainda lenda que, em torno da princesa encerrada na gruta, estende-se oculta uma cidade de muitas gentes. Conhecedor de tão inverossímil história, narra Joaquim Canuto, o contador de trancosos oficial do lugar, que um feiticeiro espanhol de nome Manoel Queiroz decidiu desfazer o encanto.


Corria o ano de 1938, quando o feiticeiro, fascinado pelos encantos da princesa, e querendo arrebatar sua beleza e riqueza, convocou os moradores do pequeno arruado para a empreitada. Em grande romaria, caminharam por sobre maravilhosas dunas de areias  alvas e finíssimas, contornadas por verdes coqueirais, onde o vento tocava uma música mágica, tangendo-lhes as palmas como se fossem cordas de uma sublime harpa.


Beirando a esmeralda cristalina do mar, deram de frente à gigantesca porta da gruta. Acenderam tochas para iluminar a trilha e os mais destemidos já se preparavam para adentrar o misterioso recinto, quando teve início uma grande controvérsia entre os circunstantes. O feiticeiro penhorava o sacrifício de alguém, pois só desse modo poder-se-ia libertar a cidade e desencantar a princesa. Porém, ninguém queria se apresentar como voluntário. Foi quando, após atordoante estrondo, surgiu no portão da gruta a horrenda serpente, na qual a princesa fora encantada. Alguns juram ter ouvido o alarido de animais e gentes da cidade.

Ninguém, entretanto, ousou enfrentar o monstro. O primeiro a fugir foi o feiticeiro, o que causou revolta no povo, que o conduziu a cadeia da vila mais próxima. Antes que a prisão se consumasse, desgostoso e desesperado, o espanhol Manoel Queiroz pulou do alto do penhasco que encima o serrote.

extraído do livro
O Ceará dos anos 90 - censo cultural
fotos de Jericoacoara - Ricardo Vianna

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Lobisomem do Cariri

A lenda do lobisomem tem origem provavelmente na Europa do século XVI, embora traços do personagem  apareçam em alguns mitos da Grécia Antiga. Do continente europeu, espalhou-se por várias regiões do mundo. Chegou ao Brasil através dos portugueses que colonizaram nosso país, a partir do século XVI. Este ser sobrenatural possui um corpo misturando traços de ser humano e lobo.
De acordo com a história, um homem foi mordido por um lobo em noite de lua cheia. A partir deste momento, passou a transformar-se em lobisomem em todas as noites em que a Lua se apresenta nesta fase. Caso o lobisomem morda outra pessoa, a vítima passará pelo mesmo feitiço.

Estrada Barbalha Crato - 1962 (foto IBGE)

No Ceará, aqui e ali aparecem histórias dando conta do aparecimento de estranhos personagens, geralmente associados ao lendário lobisomem, que assustam as populações de pequenas localidades. Em 2008, na zona rural de Tauá, um “lobisomem”  furtava ovelhas e arrombava residências na região.  Era descrito por testemunhas como um individuo meio homem e meio lobo, que emitia ruídos estranhos e arrastava correntes. O delegado da cidade chegou a registrar dois Boletins de Ocorrência, feitos por moradores que viram a aparição. 
Uma das histórias de lobisomem mais conhecidas é a de Vicente “Finim”, morador do Cariri que, segundo a lenda, virava lobisomem nas noites de quinta para sexta-feira. Segundo a história, quando uma mulher tem sete filhas e o oitavo filho é homem, esse menino será um lobisomem. Também o será, o filho de mulher amancebada com um padre. Sempre pálido, magro e orelhas compridas, o menino nasce normal. Porém, logo que ele completa 13 anos, a maldição começa. Na primeira noite de terça ou sexta-feira, depois do aniversário, ele sai à noite e vai até um encruzilhada. Ali, no silêncio da noite, se transforma no “tal bicho” pela primeira vez, e uiva para a lua. 


Prédio da Prefeitura de Barbalha anos 50 (foto IBGE)

No caso de Vicente Finim, cujo nome verdadeiro é Vicente Araújo, a maldição de virar lobisomem lhe foi imposta porque ele teria de provocado o assassinato de sua mãe. A lenda conta que Vicente, ao levar o almoço do seu pai que trabalhava na roça, comeu a carne no caminho e disse que teria sido um homem que estava com sua mãe. O velho voltou para casa enciumado e matou a esposa à facadas. Ao morrer, a mãe de Vicente Finim teria deixado à maldição, dizendo que a pessoa que levantou aquele falso, ia ser transformado em lobisomem.
Daí em diante, toda terça ou sexta-feira, ele corria pelas ruas ou estradas desertas com uma matilha de cachorros latindo atrás. Nessa noite, ele visitava, sete partes da região, sete pátios de igreja, sete vilas e sete encruzilhadas. Por onde passava, açoita os cachorros e apagava as luzes das ruas e das casas, enquanto uivava de forma horripilante. Antes de o Sol nascer, quando o galo canta, o lobisomem volta ao mesmo lugar de onde partiu e se transforma outra vez em homem. Para quebrar o encanto, era preciso chegar bem perto, sem que ele perceba, e bater forte em sua cabeça. Se uma gota de sangue atingir a pessoa, ela também vira o bicho.


Praça Filgueiras Sampaio, em Barbalha,  década de 50 (foto IBGE)

A história de Vicente Finim correu o mundo, fazendo medo a crianças e adultos. Entrou para o folclore regional, foi contada em versos pelos cordelistas. Ele morreu em 1985, no Sítio Cabeceiras, Município de Barbalha, negando as acusações. Mas nas entrelinhas deixava uma dúvida. Confessava que gostaria muito de namorar e trocava o dia pela noite à procura de um amor proibido.


Fonte
Diário do Nordeste 20.08.2006

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Três lendas sobre Padre Cícero, o Patriarca de Juazeiro

 Rua do Juazeiro - data não especificada

1 – o nascimento de Padre Cícero

História atribuída a Tereza do Padre, antiga serviçal da família Romão Batista. 
Ao nascer o primeiro filho do casal Joaquim e Vicência Romana, um anjo apareceu no quarto de Dona Quinou (como era chamada a mãe do Padre Cícero), trazendo nos braços uma criança loira e de olhos azuis. 

Ante a claridade desprendida pela aparição do anjo, Dona Quinou cegou e não viu a troca efetuada. A criança que se encontrava ao lado da mãe foi retirada, e em seu lugar ficou o menino trazido pelo anjo. 

Daí vem a crença de que o Padre Cícero seria uma das três pessoas da Santíssima Trindade e que Dona Quinou ficou cega para que não visse a troca de crianças e não pudesse tornar público o acontecido.


2 – o homem que quis matar o Padre Cícero

Suspenso de ordens, era hábito do Padre Cícero fazer uma pregação à tarde, em frente à sua residência. Ali se juntavam os romeiros vindos dos lugares mais distantes para ouvi-lo. 

Uma certa pessoa, que nutria grande ódio pelo padre, objetivando matá-lo, usou a seguinte artimanha: fingindo-se doente, deitou-se numa rede, onde levava uma arma, e mandou que seus cabras o levassem até a Casa do Padre Cícero. Quando estivesse próximo ao padre, o mataria. 

E saiu o cortejo até a casa do padre. Lá chegando, um dos acompanhantes falou:
 – Seu Padre, aqui está um homem muito doente que deseja receber a extrema-unção.
O padre respondeu:
não é necessário, este homem está morto.

Apavorados, os cabras baixaram a rede e verificaram que tal pessoa realmente havia morrido pelo caminho. Arrependidos, ajoelharam-se aos pés do padre e contaram tudo, pedindo perdão.

 dia de feira em Juazeiro

3 – Maria Belmira

Quando da chegada de Padre Cícero a Juazeiro do Norte, quase todas as noites o samba imperava entre a população da antiga fazenda Tabuleiro Grande. Certa feita o padre resolveu acabar com o frege. Alegava o sacerdote ser aquilo um antro de perdição, coisa do diabo. 

Brandindo seu bastão, o padre chega ao local e encontra Maria Belmira, mulher do povo, cantando:

São quatro umbigadas, menina
São quatro fulô
São quatro umbigadas, menina
Bonita que eu dou
E quando eu quero, eu quero
E quando eu quero, quero já

O Padre Cícero se aproxima e pergunta:
o que queres mulher?
Ante o olhar severo do sacerdote, a mulher responde:
 – Eu quero...eu quero... é me confessar, seu padre
Depois do ocorrido, tornou-se Maria Belmira um poço de virtudes até o fim dos seus dias.

  

 
Autor do texto: Francisco Renato Sousa Dantas
Extraído do livro Antologia do Folclore Cearense, de Seraine Florival
fotos de Juazeiro - Biblioteca do IBGE