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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A Revolução de 30 no Ceará

A crise da república Velha atingiria seu ápice com a grande depressão mundial iniciada em 1929, em virtude da quebra dos Estados Unidos – o que abalou as exportações de café, principal sustentáculo das oligarquias dominantes – e com as eleições presidenciais de 1930, quando um desentendimento entre São Paulo e Minas Gerais levou ao fim definitivo da chamada política café com leite. 


Interventor Fernandes Távora em companhia de algumas autoridades em 1930: da esquerda para a direita, sentados: Moraes Correia; Juarez Távora; José Américo; Fernandes Távora; José de Borba; e César Cals. Em pé, na mesma ordem: João da Silva Leal; Magalhães Barata; Antônio Martins Almeida; Djalma Petit (piloto); Virgilio Moraes; no meio do grupo, ainda menino, o futuro governador Virgilio Távora; Landry Sales; Faustino Nascimento; e Tertuliano Siqueira. (Arquivo Nirez)

Assim, os paulistas lançam Júlio Prestes para suceder Washington Luís na presidência do país, enquanto Minas gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul formavam uma chapa oposicionista, a Aliança Liberal, em torno dos nomes de Getúlio Vargas para presidente e João Pessoa para vice.

Usando de fraudes, violências e da máquina governamental, Júlio Prestes venceu o pleito. O resultado desagradou a segmentos da classe média, burguesia e oligarquias dissidentes. Estes, então, contando com o apoio de tenentes e usando como pretexto o assassinato de João Pessoa, iniciaram a 3 de outubro, um movimento armado – a chamada “Revolução” de 30 – na qual foi deposto o presidente Washington Luis, entregando-se o poder a Getúlio Vargas. 

Juarez Távora
No Ceará, quando das eleições presidenciais de 1930, coube ao governador Matos Peixoto comandar o processo oficial de fraudes, subornos, violências e perseguições aos opositores da Aliança Liberal, cuja campanha no Estado foi entregue ao Partido Democrático de Fernandes Távora. Júlio Prestes venceu no Ceará, com larga margem de votos sobre Getúlio. Derrotados na possibilidade de chegar ao poder pelas urnas e sofrendo perseguições das oligarquias, os aliancistas passaram a articular a revolta armada que, no Norte e Nordeste foi coordenada pelo tenente Juarez Távora de seu QG na Paraíba.

Além dos meios civis liderados por Fernandes Távora, a conspiração se fez sentir com maior intensidade entre os jovens oficiais do 23°Batalhão de Caçadores e do Colégio Militar, como os tenentes Landri Sales Gonçalves, Júlio Veras, Carlos Cordeiro de Almeida, Ari Brígido Correia, Antônio Martins de Almeida, João da Silva Leal e outros.

Embora os militares cearenses não tenham promovido levantes armados como em outros Estados, as ideias tenentistas faziam ressonância entre eles. Por ocasião da Revolta do Forte de Copacabana em 1922, planejou-se sem êxito, uma revolta em Fortaleza, à frente da qual estava o capitão Atahualpa de Alencar Lima, sob cujo comando, certo dia os alunos do Colégio Militar desfilaram pelas ruas de Fortaleza, entoando a canção de protesto “Seu Mé” (referência ao presidente Arthur Bernardes), o que motivou grave incidente com a guarda policial do presidente Justiniano de Serpa.

A partir de 1927, ainda que pese a representação governamental, os segundos-tenentes recém saídos da Escola Militar Ladri Sales e Júlio Veras iniciaram um processo de desenvolvimento das ideias revolucionárias entre um pequeno e seleto número de militares do 23° BC. Quando foram ambos transferidos para o Colégio Militar, ali também conseguiram adeptos.

Em 1929, as ideias tenentistas no 23° BC intensificaram-se com a chegada do segundo-tenente Carlos Cordeiro, que estendeu seus pensamentos a outros oficiais e até a soldados, cabos e sargentos. Portanto, ao romper a “Revolução de 30”, boa parte dos militares cearenses estava doutrinada para a luta.

Com o início da revolta, no dia 3 de outubro, o governador cearense Matos Peixoto, tomou várias providências, entre as quais reforçar o policiamento da capital, censurar a imprensa, suspender o tráfego de trens em todo o Estado e efetuar a prisão de vários aliancistas locais, como a de Fernandes Távora.

Tal repressão frustrou, num primeiro momento, o movimento revolucionário no Ceará. Em consequência, os tenentes Landri Sales, João da Silva, Júlio Veras e Ari Correia entre outros, fugiram para a Paraíba., lugar em que o movimento no Nordeste era mais forte e para onde haviam sido deslocados os efetivos do 23° BC. Ali aqueles tenentes seguindo instruções de Juarez Távora, sublevam o 23°BC, num combate em que morreu o seu comandante, o governista capitão Pedro Ângelo.

O Palácio da Luz foi invadido pela população, depois da fuga do governador Matos Peixoto

Um a um caíram os governos do Nordeste: Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, enquanto os efetivos do 23ºBC iniciavam a volta, de Sousa para Fortaleza. No percurso, os revolucionários começaram o processo de desarme da jagunçada e coronéis do Cariri. A 7 de outubro, já estando a “Revolução” vitoriosa no País e não tendo como resistir, Matos Peixoto renunciou à presidência do Ceará e embarcou para o Rio de Janeiro.

A notícia foi recebida com euforia pelos setores urbanos. Uma multidão entusiasmada se formou na Praça do Ferreira para comemorar o ocorrido. Fernandes Távora foi liberto, carregado nos braços do povo e aclamado novo governador do Estado – o que mais tarde seria confirmado por Getúlio Vargas.

Já como presidente Getúlio Vargas visita o Ceará, na foto entre o interventor Menezes Pimentel e a professora Alba Frota. A esquerda, de paletó branco, está o prefeito Raimundo de Alencar Araripe. Ano 1940, tempos de Estado Novo. 

A revolução de 30 triunfava no Ceará. Mas, a exemplo de 1889, quando da Proclamação da República, as frágeis oligarquias tradicionais eram momentaneamente afastadas do poder por um evento de caráter nacional. Transferiu-se o comando do Ceará para um grupo oligárquico dissidente (os Távora) e para elementos da classe média. O movimento representou um golpe no poder dos coronéis latifundiários. Chegou-se a pensar que era o fim das velhas oligarquias, uma vez que os próprios domínios do Padre Cicero chegaram a ser vasculhados e seu retrato foi retirado da sede da Prefeitura de Juazeiro (a cidade que ele fundou).

Desarmou-se a jagunçada, combateu-se o cangaço, nomearam-se bacharéis para administrar os municípios do interior. Mas tudo isso se constituía uma ilusão, porque não se tocou na base de poder das elites nordestinas, o latifúndio. Os coronéis e as oligarquias continuariam a ter influência ainda que submetidos ao poder nacional de Vargas.

Extraído do livro
História do Ceará, de Airton Farias     
   

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Como estava o Ceará na Segunda Guerra

Getúlio Vargas no Governo Central e Menezes Pimentel no Estadual, comandaram o País e o Ceará naquele período

Com a implantação do Estado Novo – regime político implantado pelo presidente Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937, caracterizado pela centralização do poder, nacionalismo, anticomunismo e autoritarismo, que estendeu-se até 29 de outubro de 1945 –  praticamente paralisaram-se as atividades político-partidárias cearenses. O interventor Menezes Pimentel controlava o Estado com mão de ferro, reprimindo, perseguindo e calando a oposição, apoiado que era pelos setores mais reacionários da sociedade, a maioria originária da República Velha, contando igualmente com o aparato administrativo e policial da ditadura getulista e a influência social da Igreja Católica.

Navio brasileiro Alcântara, afundado na Baía de Guanabara pelos alemães

A ocorrência da II Guerra Mundial (1939-1945) e a própria conjuntura política nacional dos anos 40 (pressão para redemocratização do país), todavia, modificaram aos poucos esse quadro de imobilismo. O torpedeamento de navios brasileiros pela Alemanha em 1942, teve muita repercussão no Ceará, despertando um revoltado nacionalismo na população, sobretudo nos estudantes. Estes tentaram realizar manifestações públicas de repúdio ao nazi-fascismo, mas foram, pelo menos a princípio, proibidos pela interventoria. Menezes Pimentel temia que as manifestações juvenis levassem consigo outros segmentos sociais a questionar a ditadura e pedir reformas.

A 18 e agosto de 1942, perante uma nova onde de torpedeamentos de navios brasileiros, realiza-se na capital cearense uma grande passeata liderada pelos acadêmicos da Faculdade de Direito. Tal passeata, feita aos gritos de “morra Hitler e seus asseclas”. Acabou provocando o incidente conhecido como “quebra-quebra”, no qual a massa enfurecida depredou e saqueou vários estabelecimentos e residências pertencentes a alemães, italianos, japoneses e simpatizantes do Eixo, como as Lojas Pernambucanas, a Casa Veneza, a Camisaria O Aluard, o Consulado da Alemanha, o Jardim Japonês, e outros. No dia seguinte, o governo lançou nota oficial prevenindo os pais de família e diretores de colégios de que, se não recolhessem os estudantes, “manteria a ordem com energia” Naquele mesmo mês, o Brasil declarou guerra ao Eixo. 

uma multidão toma o centro de Fortaleza em agosto de 1942, e promove uma violenta manifestação contra os países do Eixo e a indefinição do governo brasileiro diante do conflito

No segundo semestre de 1942, universitários promoveram a I Semana antinazista no Teatro José de Alencar, enquanto o Centro Médico Cearense lançava manifesto a favor da participação brasileira na guerra. Jovens intelectuais realizavam ainda o I Congresso de Poesia do Ceará, desejando expressar o repúdio às ideias de extrema-direita com uma mensagem de paz e culto às artes (desse congresso sairiam as bases para a criação do famoso movimento literário conhecido por CLÃ – Clube Literário e Artísticos). 

Em novembro de 1942 instalava-se a seção local da Liga de Defesa Nacional, que em campanha junto à população, articulou a arrecadação de ferro, alumínio, e outros metais para a construção de artefatos de guerra (capacetes, armamentos, embarcações, etc). A campanha trouxe o “espirito de guerra” à população, fazendo surgir na capital e em outras cidades verdadeiras pirâmides de ferro. Na inauguração delas, acontecia geralmente, uma solenidade simples onde oradores exaltavam os aliados e atacavam os países do Eixo. 

Bombardeiro B-25 no céu de Fortaleza     

O jornalista Jáder Carvalho, por haver pronunciado na instalação da pirâmide Stalingrado, um discurso tido como ofensivo às autoridades – por ter elogiado o comunismo e defendido a libertação de Luís Carlos Prestes – foi processado e condenado a cinco anos de reclusão.

Os jornais locais davam atenção ao confronto. A PRE-9 Ceará Rádio Clube mantinha um programa ao meio-dia dedicado especialmente aos pracinhas (soldados brasileiros que foram enviados para lutar na Europa). Em 1943, os acadêmicos de Direito motivados com os Aliados, dois anos antes do encerramento do conflito, ergueram o obelisco da Praça Clóvis Beviláqua, em comemoração à derrota do nazismo. Os triunfos aliados eram euforicamente recebidos pela população.

A vida cotidiana de Fortaleza, com suas rodas de cadeiras no final da tarde, modificou-se com a participação brasileira no confronto. Houve racionamento de comida, combustível e energia – grandes filas eram formadas para adquirir produtos básicos. Por medida de economia os carros particulares foram proibidos de circular. Foram realizados exercícios de defesa antiaérea, nos quais se desligava a precária iluminação pública, de modo que a cidade ficasse totalmente as escuras à noite para não virar alvo de inimigo. 

Os moradores deveriam tomar seus próprios cuidados nas residências, colocando abajures em volta das lâmpadas e panos ou papelões pretos nas portas e janelas de vidro para não revelar a luz. Decretou-se toque de recolher às 22 horas. Patrulhas do Exército vasculhavam as ruas da cidade e foi criada figura do Inspetor de Quarteirão, um morador da quadra que deveria vigiar o comportamento das demais famílias. 

Desfile dos integrantes da FEB pelas ruas de Fortaleza antes do embarque para a Itália

Cerca de 337 cearenses foram engajados nas tropas da FEB – Força Expedicionária Brasileira, lutando na Itália. Em geral, esses pracinhas vinham de famílias de classe média baixa, originários de vários municípios cearenses. Seis morreram na guerra. 

O ano de 1945 que assinalou o fim do conflito, encontrou o Ceará com aproximadamente 1 milhão e 500 mil habitantes, dos quais apenas 205 mil residiam na capital. Continuava a ser um Estado rural e pobre, com enorme concentração latifundiária e profundas contradições sociais, cuja economia girava em torno do comércio e do binômio pecuária-agricultura. As atividades industriais eram pequenas, limitadas quase ao uso de algodão e ao beneficiamento de algumas oleaginosas como oiticica e mamona. 

Fortaleza constituía-se o grande polo de desenvolvimento, estando já consolidada sua condição de centro hegemônico urbano do Estado. Nela esta centrada a sede do governo e as estruturas do serviço público e privado, sendo o ainda inconcluso Porto do Mucuripe seu mais importante canal de escoamento da produção interiorana, e de recepção dos produtos industrializados de outras regiões e do exterior. Outras cidades como Crato, Juazeiro e Sobral, devido ao comércio, também prosperavam, mas em grau menor.  

fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Interventoria de Menezes Pimentel (1937-1945)

Com o golpe do Estado Novo, as Casas Legislativas foram fechadas. O Governo Federal escolhia os governadores do Estado, e estes, nomeavam os prefeitos. Fachada da antiga Câmara Municipal, onde hoje funciona o Museu do Ceará  
(foto do arquivo Nirez)

Menezes Pimentel, professor, diretor da Faculdade de Direito do Ceará, político extremamente conservador, foi eleito - em 1935 - pela maioria dos deputados da LEC – Liga Eleitoral Católica – na Assembleia Legislativa para governador constitucional do Estado, derrotando por 16 votos contra 14, o candidato do PSD – Partido Social Democrata – José Accioly, filho de Nogueira Accioly, numa eleição por via indireta. 
Seu governo foi marcado pelo autoritarismo, perseguição aos adversários políticos do PSD, destituição de prefeitos e funcionários públicos que não apoiassem o seu grupo político. Cerca de duas mil pessoas foram presas em Fortaleza neste período. 
A eclosão da Intentona Comunista em 1935, em Natal, Recife e Rio de Janeiro, foi usada como pretexto por Menezes Pimentel para perseguir adversários que foram considerados subversivos. 


Palácio da Luz, sede do Governo do Estado e residência do governador até 1963. Na mesma  década de 1960 o palácio perdeu parte de sua fachada e o jardim interno, visto na segunda foto (Arquivo Nirez) 


O golpe do Estado Novo (10/11/1937) implantou uma ditadura em nível nacional, e contribuiu para aumentar o poder dos governadores dos Estados. Menezes Pimentel foi mantido no cargo por Getúlio Vargas, agora na condição de Interventor Federal. Seu autoritarismo foi, portanto fortalecido, já que o país se encontrava sob regime ditatorial. 



 atual prédio da Polícia Civil na Praça do Voluntários, sede do DOPS durante o Estado Novo (foto Panorâmio) 

A Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) passou a ter poderes para perseguir tantos quantos não se enquadrassem na política instituída pelo interventor.  Em nome da fé, das tradições familiares, da Pátria, se instituiu a delação, a perseguição política, as prisões arbitrárias, a tortura. Muitos intelectuais foram detidos, presos e humilhados pelo crime de pensar, de desenvolver o senso critico, de ansiar uma visão social humanista.  Entre os muitos perseguidos pelo interventor no Ceará – merecem destaque, pelo legado intelectual que deixaram para o Brasil – estavam Rachel de Queiroz  e Jáder de Carvalho.


a escritora Rachel de Queiroz foi presa incomunicável no Quartel do Corpo de Bombeiros em Fortaleza, pela polícia de Menezes Pimentel e Getúlio Vargas. Seu romance Caminho das Pedras foi apreendido e queimado junto com seus dois livros anteriores, O Quinze e João Miguel

Com Menezes Pimentel a Igreja continuou firme, influenciando a sociedade civil, em nome da moral e dos bons costumes. O regime instaurado fechou as lojas maçônicas, os centros espíritas e os terreiros de candomblé na capital e no interior do Estado; as livrarias tiveram os estoques revisados para apreensão de livros e de revistas portadoras de ideias amorais ou subversivas. Instalou-se um serviço de controle de pensões e hotéis no sentido de controlar os hóspedes. Até os aparelhos de rádio deveriam ser registrados na polícia.

Interventor Francisco de Menezes Pimentel

Menezes Pimentel permaneceu no poder até 27 de outubro de 1945, quando Getúlio Vargas baixou um decreto, exonerando o Interventor, fiel aliado na implantação da ditadura do Estado Novo no Ceará. Os motivos da demissão nunca foram completamente esclarecidos, mas especulou-se na época que Pimentel não estava empenhado na campanha de manutenção de Getúlio Vargas no poder.


Sobre o Estado Novo


Getúlio Dorneles Vargas governou o Brasil entre os anos 1930 e 1950, como presidente e como ditador

Instituído por Getúlio Vargas na segunda metade da década de 1930, centraliza o sistema político brasileiro. O governo federal passa a escolher os governadores dos Estados, que por sua vez, nomeiam os prefeitos. 
O getulismo também fecha as casas legislativas - federal, estaduais e municipais. Foi um período em que o discurso do progresso e da civilidade, tentou minimizar os problemas sociais da cidade, que já apresentava problemas decorrentes do crescimento populacional.
Apesar de o Estado Novo terminar em 1945, a nomeação dos gestores municipais perdura até o final de 1947. A época foi marcada pela quebra de continuidade administrativa. Em apenas três anos, Fortaleza conheceu nada menos de seis prefeitos.
Em 1948, com a volta das eleições diretas para prefeito, Fortaleza assiste à surpreendente vitória do candidato Acrísio Moreira da Rocha (PR). A imprensa da época dava como certo que a disputa se restringiria aos candidatos dos dois principais grupos políticos nacionais da época: Diogo Vital de Siqueira, da UDN, e Stênio Gomes da Silva, do PSD. 

Fontes:
História do Ceará, de Nelson Campos
Revista Fortaleza, Fascículo 4, de 30 de abril de 2006.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Fim do Ciclo do Cangaço e dos Movimentos Messiânicos

No período da ditadura Vargas (1937-1945), episódios como a morte de Lampião em 1938 e de Corisco, dois anos depois, em 1940, a destruição da comunidade religiosa do Caldeirão, e a perda de poder  político do Padre Cícero, marcaram a derrocada do cangaço e dos movimentos messiânicos. 
sobreviventes do Sítio Caldeirão comunidade religiosa liderada pelo beato José Lourenço destruída por forças policiais, em 1937, no Crato - Ceará.
Essas formas de expressão de inconformismo sertanejos chegaram ao fim por vários motivos. Em primeiro lugar, devido a centralização de poder imposta por Getúlio, que não admitia núcleos de contestação à ordem e ao império da lei. 
Assim era inadmissível que um bando de cangaceiros continuassem a agir impunemente  ou que líderes religiosos desafiassem os ditames das autoridades e colocassem em xeque a estrutura socioeconômica. 
cangaceiros capturados e mortos por forças policiais, as chamadas "volantes" 
A repressão aos cangaceiros foi intensificada, os interventores promoveram campanhas de desarmamento nos sertões e puseram a premio a cabeça dos principais bandoleiros, ao mesmo tempo em que acenava com o perdão para quem depusesse as armas. 
O Estado exigia o monopólio do uso da violência, então os coronéis e seus jagunços também foram desarmados, alguns até foram presos.  Muitos coiteiros deixaram de colaborar com os cangaceiros para ajudar as volantes. 
Corisco, o Diabo Louro foi morto em 1940
Conta-se que Lampião e os demais chefes nos últimos tempos, tiveram enormes dificuldades para conseguir armas e munições, e as relações com seus fornecedores, tornaram-se puramente comerciais. 
Um segundo fator para o fim do cangaço e do messianismo foi o crescimento econômico brasileiro: a industrialização e a expansão do setor de serviços nos centros urbanos do Centro-Sul, o novo ciclo de extração da borracha na Amazônia, a abertura de novas frentes agrícolas no Sul e no Centro-Oeste. 
Com isso criava-se alternativa  de vida para os moradores do sertão.  Para o sertanejo inconformado, carente, perseguido ou apenas numa situação de miséria absoluta, havia agora uma opção menos traumática: migrar. A partir dos anos 1930, a emigração de nordestinos para São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, Amazonas, se intensificou, todos em busca de abastança, riqueza e melhores condições de vida. 
O censo realizado em 1950 mostrou a realidade das migrações: cerca de dois milhões de nordestinos –10% da população do Ceará,  mais de 13% da população do Piauí, mais de 15% da população da Bahia, 17% da população de Alagoas – tinha migrado.
 migrantes nordestinos. O deslocamento se dava a pé, de trem ou em caminhões pau-de-arara.
Não somente o Sul,  mas os próprios centros urbanos do Nordeste funcionaram como polo de atração das populações rurais, criando novos problemas para os centros urbanos. A maioria dos sertanejos não conseguiu realizar as expectativas, nem se inserir no mercado de trabalho. As cidades cresceram  desordenadamente, apareceram favelas, aumentou a violência, a mendicância, a prostituição, e os problemas ligados a moradia. 
No decênio entre 1940-1950, o êxodo rural possibilitou um aumento de 75% da população de Recife, 70% dos habitantes de Salvador e 62% dos moradores de Fortaleza, que passou de 180 mil habitantes em 1940, para 270 mil em 1950. 
Por fim, outro fator que contribuiu para a derrocada de fanáticos religiosos e cangaceiros, foi a evolução ainda que pequena, dos meios de comunicação e do transporte, que promoveu uma integração dos sertões nordestino com o resto do Brasil. 
patrulhas de combate ao cangaço
Contando com mais ferrovias e estradas, trens, automóveis e caminhões passaram a transitar intensamente, transformando as veredas do interior em rodovias largas e policiadas, onde o cangaço não poderia sobreviver. 
O resultado dessa nova realidade foi que os coronéis, impossibilitados de manter grupos armados para resolver suas disputas políticas ou pessoais, passaram a adotar a frieza e covardia dos denominados pistoleiros de aluguel. 
Estes indivíduos ao contrário de jagunços e cangaceiros – capazes de matar e morrer pelos seus chefes – agiam exclusivamente por dinheiro, onde existia até uma tabela de preços para homicídios, que variava de acordo com a importância da vítima.   

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias