quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Arte em tempos de Repressão e o Pessoal do Ceará



A produção artística cearense teria grande importância na conjuntura das lutas populares nos anos 1960 e mesmo de resistência à Ditadura Militar, no período de 1964 a 1985. Em 1963 foi fundado no Ceará o Centro Popular de Cultura-CPC – da UNE, tendo como um dos organizadores, Augusto Pontes, que se revelaria um dos mais polêmicos intelectuais cearenses no final do século XX. O CPC fazia uma cultura politicamente engajada – apresentava peças, fazia shows enquetes, etc, tudo misturado com discussões sobre problemas da população,  como o custo de vida, o ensino público, a carência de transportes. Com o golpe de 64, o CPC  foi desmobilizado, vários de seus dirigentes foram presos ou processados. Mas a experiência daria margem para o surgimento de outros grupos culturais nos anos seguintes, como o CACTUS – grupo criado em 1965 por Cláudio Pereira, Iracema Melo, Olga Paiva, Petrúcio Maia, e Rodger Rogério, que apresentava shows de protesto – e o GRUTA – Grupo Universitário de Teatro e Arte.
A atuação do Gruta no movimento cultural foi expressiva. No período correspondente aos anos 66 a 68, ele se direcionou basicamente na organização das chamadas “Caravanas da Cultura” e na realização dos festivais de música. Tais caravanas se dirigiam ao interior cearense – Sobral, Crato, Juazeiro, Barbalha, a estados e cidades vizinhos Teresina, Natal, Mossoró e até ao exterior – Argentina e Chile. A crítica transmitida pelo Gruta  fez com que algumas de suas peças fossem censuradas pela Ditadura e uma apresentação em Barbalha, proibida.

 capa do disco
 
Os ritmos nacionais das décadas de 50 e 60 (Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicália) influenciaram os cantores e compositores cearenses, os quais apresentavam como principais espaços para divulgar seus trabalhos os festivais de músicas e os programas de auditório em rádio e televisão. Em 1969 o estudante de medicina de Sobral Carlos Belchior, poeta-músico dos mais expressivos daquela geração, produzia um programa musical na TV Ceará canal 2 especialmente para a revelação de novos talentos.
Em 1971 surgiram os festivais nordestinos da extinta TV Tupi e o Festival Astra de Música Carnavalesca, que projetaram nomes locais como Rodger Rogério, Ednardo, Ricardo Bezerra, Petrúcio Maia, Belchior, Fagner, Lauro Benevides, Jorge Melo, Cirino, Luiz Fiúza, Ribamar, Pretextato Melo, Dedé, Branquinho, Sérgio Pinheiro e Manassés.


Manassés em desenho de Fausto Nilo (fonte: http://musicadoceara.blogspot.com.br)


No geral eram jovens de classe média com formação universitária – muitos abandonaram a universidade para seguir a carreira artística, numa época de grande preconceito contra artistas. 
Naquele início dos anos 70, ante a censura, o autoritarismo a repressão da ditadura, a arte assumia uma forma de comunicar as ideias e as ações reprimidas.   Os talentosos artistas, não obstante, viam-se obrigados a deixar o Estado para alçar voos mais altos, nacionais. O primeiro a sair foi Belchior, em 1971, ganhando um festival no Rio de janeiro com a música Na Hora do Almoço, fato que repercutiu na carreira do sobralense e abriu as portas para outros cearenses.


Ednardo, Téti e Rodger Rogério no lançamento  do disco Pessoal do Ceará

Por essa época, Raimundo Fagner, natural de Orós e estudante de arquitetura em Brasilia, teve canções premiadas em festivais; foi outro que ao lado de Rodger Rogério, Téti, Cirino, Jorge Melo tentou a sorte no Sul do País, ainda em 1971.
Ednardo, estudante de química e funcionário da Petrobrás, seguiu no ano seguinte. O maranguapense Manassés foi em 1973, passando depois a residir na Europa, alcançando grande sucesso. 
Com dificuldades, esforço e apoio de artistas do Centro-Sul, os cearenses conseguiram firmar-se nacionalmente com propostas  estético-musicais bem definidas – participavam de programas televisivos, faziam shows, gravavam discos. Surgiu então, em 1972, a ideia de de gravar um disco com todo o grupo de músicos cearenses, o clássico O Pessoal do Ceará, um verdadeiro marco musical, do qual Fagner e Belchior não participaram por terem contratos com outras gravadoras.




extraído do livro de Aírton de Farias
História do Ceará    

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