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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Benjamin Abraão – O Polêmico Secretário do Padre Cícero



Ele foi tido como conterrâneo de Jesus e, por isso mesmo, um segundo enviado de Deus quando chegou a Juazeiro do Norte, no Ceará, e se apresentou como o homem que nasceu em Belém, na Terra Santa. O nome? Benjamin Abrahão. O sírio caiu nas graças do religioso mais famoso do Nordeste, o Padre Cícero, e logo se tornou seu secretário pessoal. Daí em diante, Abrahão se fez na vida. Pois, apesar de ter sido considerado um santo, soube aproveitar as oportunidades para colocar em prática as malandragens dos homens de carne e osso, chegando a ser fotógrafo particular de Lampião para ganhar uns tostões.



Esse sírio – chamado de turco pelos inimigos – chegou ao Brasil com 14 anos, em 1915. Veio fugido das perseguições do Império Otomano pela qual passava a Síria, e da ação sanguinária do general Jamal Pachá, que alistava jovens como Benjamin no Exército. Foi morar com uns parentes distantes, os Elihimas, no Recife, que por sua vez faziam a vida vendendo miudezas no comércio. Virou caixeiro-viajante e começou a explorar a credulidade do povo: contava sua vida na Terra Santa e, entre uma história e outra, vendia os produtos. 

Depois de dois anos perambulando pelo sertão, ele se deparou com um grupo de  romeiros indo a Juazeiro para receber a bênção de Padre Cícero. Decidiu se juntar a eles e, quando chegou, o padre reconheceu Abrahão como diferente em meio a tantos caboclos. Porque era um indivíduo branco, meio alourado e bem mais alto que a média. 

A beata Mocinha (Joana Tertuliana de Jesus, secretária e tesoureira do padre Cícero) se aproximou, a mando do padre, para saber de onde vinha o forasteiro. O sotaque estrangeiro o denunciou e foi aclamado por todos quando disse que vinha da Terra Santa. “Padre Cícero se dirige aos fiéis e diz: meus amiguinhos, Benjamin que está aqui é conterrâneo de Jesus”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello.



Bastaram 15 dias para Abrahão se converter e ser nomeado secretário pessoal do padre. A beata Mocinha era chefe de uma ordem que tinha por objetivo arrecadar donativos para mandar aos padres que cuidavam do Santo Sepulcro na Terra Santa. A presença de Abrahão ali, então, era como uma purificação para a casa. 

O sírio foi esperto. Já no início, ele se declarou ourives e passou a cuidar das joias do religioso. Não demorou a prosperar na vida: comprou ternos de casimira inglesa e gravata de seda pura. Algumas testemunhas contavam que ele cuidava de joias belíssimas que deviam ser de Padre Cícero.


Rua de Juazeiro na década de 1920
 
Para Benjamim Abraão, os anos de 1917 a 1934 – tempo em que viveu ao lado do padrinho – nunca mais seriam os mesmos. Abrahão virou um homem da sociedade.A morte do Padre Cícero, aos 90 anos, fez com que Benjamin caísse em desespero. O padre era o ganha pão do sírio. Para salvar o bolso, então, ele filmou o enterro do padre para a Aba film e, malandro, abriu as portas para depois oferecer à mesma Aba film uma película (e fotos) de Lampião e de seu bando – já que desde 1930 o jornal New York Times noticiava as muitas façanhas de Lampião.

Abrahão tinha, estranhamente, uma credencial de jornalista quando chegou ao Brasil, escrita em francês. Em certa ocasião conheceu o pioneiro do cinema no Brasil, Ademar Albuquerque, que mais tarde criou a Aba Film. Conseguiu filmadora, tripé e uma máquina fotográfica e foi atrás do grupo, pois já conhecia Lampião de uma visita que o cangaceiro fez ao Padre Cícero em 1926, no Juazeiro.




Lampião não apenas fez pose para a foto como chamou o bando de todo o Nordeste para se reunir na filmagem. O resultado:  Noventa fotos de qualidade heterogênea e um filme de 35 mm (hoje restam 15 minutos dele na Cinemateca Brasileira) em que Lampião é transformado em garoto propaganda da Bayer, que patrocinou o filme. Alegremente agitado, ele diz na gravação que até Lampião usa cafiaspirina quando tem dor de cabeça...

Abraão morreu em 1938, em Serra Talhada (PE), assassinado com quarenta e duas punhaladas, sem que o crime jamais viesse a ser esclarecido, tanto na autoria como na motivação, donde se especula ter sido mais uma das mortes arquitetadas pelo Estado Novo uma vez que o sírio teve seus trabalhos apreendidos pela ditadura de Getúlio Vargas, que nele viu um antagonista do regime. Mas também existe a versão de que o fotógrafo sírio-libanês teria sido vítima de um ladrão, apesar de com este nada de valor haver. 


fontes:
Benjamin Abrahão, Entre Anjos e Cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello. Ed. Escrituras. 352 páginas.
wikipédia 
fotos Aba Film

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Limoeiro do Norte

 Praça Capitão João Enes e coluna comemorativa a fundação da Vila 

O povoamento de Limoeiro do Norte teve início em 1687, com a vinda do sargento-mor João de Sousa Vasconcelos, do sertão do São Francisco para a ribeira do Jaguaribe, onde depois de constantes lutas com os índios paiacus, se estabeleceu no sítio São João das Vargens, que logo se tornou desenvolvido arraial.
As terras férteis ribeirinhas, que ofereciam vantagens para a agricultura e a pecuária, foram ocupadas aos poucos por imigrantes provenientes do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, surgindo novos núcleos como o de Tabuleiro de Areia e o de Limoeiro, cuja origem data de 1708, quando o Desembargador Cristóvão Soares Reimão, encarregado de tombar as terras do Baixo Jaguaribe, demarcou légua e meia  de terras do rio Jaguaribe, com meia légua de cada lado, subindo o rio, a partir do marco do poço das Aningas, até a última meia légua que abrangia a propriedade do sargento-mor – local onde hoje está a cidade de Limoeiro do Norte.

 moradores na Praça José Oster, em frente à residência do Padre Acelino 

O sitio Limoeiro veio a pertencer a Antônio Rodrigues da Silva, que o passou ao seu genro Manuel José da Silva. Já em 1778, a pequena fazenda Limoeiro tomava corpo, com suas atividades econômicas em franco desenvolvimento e crescente população. Com a morte de Manuel José da Silva, presumivelmente na primeira década do século XIX,  seus filhos lançaram a ideia da construção de uma capela doando 600 braças de terras em 1818.
Iniciada a construção em terras de Bonifácio José Carneiro e Joaquim da Costa Barros, a capela foi construída e benta em 9 de dezembro de 1845. Com a criação da freguesia  de Nossa Senhora da Conceição, inaugurada canonicamente em 1864, a capela passou por reparos e foi transferida para  a povoação de São João de Jaguaribe.

 Igreja Matriz de N. S. da Imaculada Conceição 

O distrito de paz de São João de Jaguaribe foi criado pela Câmara Municipal de Russas em 1830, e recebeu foros de vila  em 22 de dezembro de 1868, sendo transferida, antes de inaugurada para a povoação de Limoeiro, que passou a ser sede do município, com território desmembrado de São Bernardo das Russas (atual Russas), dando-se sua instalação em 30 de julho de 1873. 

 No centro da foto, Maria Bonita e Lampião 

A vila foi elevada à categoria de cidade pela Lei n° 364, de 30 de agosto de 1897. A 15 de junho de 1927, Limoeiro viveu momentos de intensa expectativa e justificado temor. O célebre cangaceiro Lampião, vindo de Mossoró, ocupara a cidade com 42 homens. Antes, Virgulino Ferreira da Silva havia atacado Mossoró, onde houve cerrado tiroteio, quando morreram alguns bandidos de fama. Mas, chegando a Limoeiro, e ciente de que pisava em terras cearenses, Lampião ordenou aos seus bandoleiros que nada roubassem, pois em solo em que pontificava o padre Cícero não era para ser atacado. Supersticioso, o cangaceiro tinha pelo velho padre verdadeiro fanatismo. Os fazendeiros cearenses foram por isso, poupados da sanha destruidora de Lampião e seu bando. 
Antes de atingir a cidade, Lampião hospedou-se na casa de fazenda do coronel Anísio Batista dos Santos na Lagoa da Rocha, distante da sede 36 quilômetros. No dia 15 de junho, Virgulino Ferreira encontrou-se com o prefeito, coronel Felipe Santiago, exigindo deste a quantia de 15 contos de Reis pelo resgate da cidade que fora quase que totalmente abandonada pela população. O prefeito expôs a situação ao vigário padre Vital Gurgel Guedes e a outras autoridades. Foi então feito um apelo ao cangaceiro para que reduzisse a quantia imposta, pois as pessoas de posses haviam se retirado para um lugar seguro diante da aproximação do bando.
Lampião diminuiu para 6 contos de Réis, ao que as autoridades asseguraram ser impossível juntar, acrescentando que só dispunham de 2 contos, o que levou Sabino, valente cangaceiro, a dizer que aquilo era uma ninharia. Lampião notando a intromissão de Sabino sem que tivesse sido chamado a isso, aceitou os 2 contos sem protesto. 
 
 foto do bando em Limoeiro, onde se avistam alguns moradores (2a fila à esquerda) 

O cangaceiro esteve em visita ao lado das autoridades locais a vários pontos da cidade e até depositou esmolas na Matriz. Sabedor de que estavam em seu encalço forças policiais do Ceará e Rio Grande do Norte, saiu de Limoeiro e tomou rumo ignorado. 

rua principal em foto antiga 

Localização:  na zona Fisiográfica do sertão do baixo Jaguaribe, em pleno polígono das secas, Limoeiro do Norte se estende desde as famosas várzeas aluvionais formadas pelos rios Jaguaribe e Banabuiú até a Chapada do Apodi, nos limites com o Rio Grande do Norte. 
O município é constituído de 2 distritos: Limoeiro do Norte e Bixopá

 Inauguração da praça Pandiá Calógeras, hoje N. S. Assunção - 1954 

Limites: Norte: Russas e Quixeré;
Leste: Governador Dix-Sept Rosado,
Sul: Tabuleiro do Norte, São João do Jaguaribe;
Oeste: Morada Nova
Distância até a capital: 198 km
População: censo 2010 – 56.264 habitantes
estimada 2013 – 57.372 habitantes

fonte: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros
IBGE-1959 
fotos do Arquivo Nirez e IBGE

sábado, 23 de novembro de 2013

Cego Aderaldo


Aderaldo Ferreira de Araújo, figura lendária da poesia nordestina e mestre de cantadores e violeiros, nasceu no Crato em 24 de junho de 1878. Tendo mudado desde cedo para Quixadá, é identificado com o sertão central cearense. Se para o acidente que causou sua cegueira existe mais de uma versão, sua carreira de menestrel popular é lenda do principio ao fim. Cego aos 18 anos, sem saber ler nem escrever, foi estimulado por sua mãe a cantar para ganhar algum dinheiro, o que fez depois de um sonho onde fazia os seguintes versos para São Francisco:


Oh Santo de Canindé
Que Deus deu cinco chagas
Fazei com que este povo
Para mim faça as pagas
Uma sucedendo as outras
Como o mar soltando vagas.


imagem: Diário do Nordeste - blog de cinema

Quando faleceu sua mãe, feito o enterro, Aderaldo pediu que lhe indicassem o lado do nascente. Tomou o rumo de Serra Azul, iniciando a caminhada pelos sertões em busca de fama. Cantou para as humildes populações sertanejas e para figuras como o Padre Cícero (de quem era afilhado), Lampião (de quem ganhou uma pistola de presente) e políticos como Ademar de Barros e Juscelino Kubitscheck.


imagem: Diário do Nordeste-blog de cinema

Rachel de Queiroz, que conheceu de perto o cantador, diz que mais que os desafios que o tornaram afamado, Aderaldo gostava de cantar modinhas, romances sertanejos e velhas xácaras portuguesas adaptadas ou deformadas. Em suas viagens carregava também um projetor manual, com o qual encantava as pessoas, mostrando e narrando velhos filmes mudos.
Um ano antes de morrer, sem mais poder cantar, teve certo dia um novo apelo:


Voltei de novo a cantar
Porque esta é a minha sorte
Minhas cantigas me dão
Roupa, comida e transporte
Deixarei este dever
Quando um dia receber
O beijo fatal da morte.

Morreu a 29 de junho de 1967 e foi conduzido ao cemitério por intelectuais, políticos e principalmente por seus amigos violeiros.


extraído do livro
O Ceará dos Anos 90 - Censo Cultural

domingo, 18 de março de 2012

Sobre Cangaço e Cangaceiros

De acordo com folcloristas, cangaço vem da palavra canga, o conjunto de arreios usados para amarrar o boi ao carro – é provável que o termo tenha sido utilizado porque os bandoleiros usavam espingardas a tiracolo ou com correias cruzadas  no peito, lembrando o boi no jugo. Já em 1834, são registradas as primeiras descrições dos bandos que ficaram conhecidos por cangaceiros: chapéu de couro, clavinotes, cartucheiras de pele de onça pintada, longas facas enterçadas, batendo nas pernas, praticamente a mesma indumentária de Lampião.

 Virginio Fortunato vulgo Moderno (no centro) era cunhado de Lampião e liderou seu próprio grupo. Era casado com Durvinha, com quem teve dois filhos. 

Bandidos errantes sempre existiram por todo o país, desde o período Colonial – grupos de assaltantes de estradas que intranquilizavam os viajantes  e eram sistematicamente combatidos pelas autoridades. O cangaço, contudo, foi um fenômeno típico da região Nordeste. A expressão designava os grupos armados sob a liderança de um chefe, que se mantinham nômades e autônomos, vivendo de assaltos e saques e não se ligando permanentemente a nenhuma liderança politica ou latifundiário.

no furo das balas ou no corte das lâminas, vários foram o poder das armas. Serviram a cangaceiros, e coronéis do sertão, a pistoleiros e policiais. Acervo do Museu do Ceará (foto Fátima Garcia)

Há quem veja os cangaceiros como espécies de Robin Hood dos sertões, tirando dos ricos e dando aos pobres. Bandoleiros como Antônio Silvino, que se autoproclamava o “governador dos sertões”, quando assaltava uma localidade, na maioria das vezes dava um passeio  de braços dados com o prefeito ou o delegado de polícia, fazendo depois a bolsa, ou seja, coletava dinheiro entre os proprietários e comerciantes, ficando com a quantia da qual necessitavam e distribuindo o restante entre os populares.
Os cangaceiros obtinham apoio também pela coação e medo. Para os populares e coronéis as únicas alternativas eram ajudar os bandoleiros, ou então sofrer perseguições. Os bandos do cangaço eram extremamente brutais com quem os traía ou ajudava os inimigos. A simples suspeita já bastava para os atos de crueldade. Puniam não só os faltosos, mas também a família destes e até mesmo o povoado onde por acaso residisse. 

 O Punhal que pertenceu a Virgulino Ferreira, O Lampião, hoje faz parte do acervo do Museu do Ceará (foto Fátima Garcia)
punhais que pertenceram a cangaceiros, recuperados pelas volantes. Acervo do Museu do Ceará (foto Fátima Garcia)

Os cangaceiros eram mestres em sangrar pessoas, enfiando-lhes longos punhais entre  a clavícula e o pescoço. Marcavam mulheres com ferro quente, arrancavam os olhos, cortavam línguas, orelhas, castravam homens, violências iguais às cometidas pelos policiais e as volantes. Estes, na ânsia de saber o rumo dos cangaceiros, realizavam crimes hediondos contra a população rural. Muitos policiais, no entanto, chegavam a vender armas e munição  para cangaceiros ou se corrompiam, protegendo ou facilitando suas fugas. Sobre o comandante da expedição que matou Lampião em 1938, capitão João Bezerra, pesavam acusações desse tipo. 

 Cartaz do governo oferecendo 50 contos de reis de recompensa pela captura de Lampião. Uma pequena fortuna, na época. imagem do Blog do Nogueira disponível em 

Os grupos de cangaceiros eram, em geral, pequenos, com três a dez homens no máximo, embora  houvesse bandos maiores, como o do próprio Lampião, que chegou a reunir 100 componentes. Os grupos eram conhecidos pelo nome do chefe. Este selecionava os homens que entrariam no bando, armava-os, atribuía-lhes apelido e determinava as normas de comportamento. A palavra do chefe era inquestionável, sendo ele chamado de patrão. O chefe monopolizava os contatos com os coronéis, coiteiros,  e fornecedores, era quem ficava com a maior parte dos recursos produzidos nas ações criminosas.
Entrando para o cangaço, o individuo  dificilmente saía dele vivo. Mesmo o que se entregava, acabava morto por desafetos, parentes de suas vítimas ou pelos antigos companheiros, os quais temiam que os segredos do grupo fossem  revelados. Quando capturados os cangaceiros eram sumariamente fuzilados, só conduzia-se para a cadeia um ou outro nome mais conhecido, como aconteceu com jararaca – José Leite Santana – baleado e preso no dia seguinte ao assalto malogrado à cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Depois de prestar minucioso depoimento, é levado para o cemitério e ali morto pela polícia. 
Os cangaceiros não deixavam que a polícia avaliasse o resultado dos combates. Conduziam os mortos ou, na impossibilidade, cortavam-lhes as cabeças, dificultando a identificação. Quando assassinados pela polícia, esta igualmente decapitava os mortos, para comprovar o fato e receber as recompensas pagas pelas autoridades. 
Foi o que ocorreu com o bando de Lampião. As cabeças do rei do cangaço e de mais onze companheiros foram colocadas em latas de querosene, cheias de sal grosso para conservá-las. Os corpos foram atirados num riacho seco. Mumificadas, as cabeças ficaram expostas no museu Nina Rodrigues, de Salvador, até 1969, quando familiares conseguiram autorização para fazer o sepultamento. 

Dadá e Corisco. 
Corisco sequestrou Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, quando ela tinha apenas treze anos. Usou da força bruta para que a moça permanecesse com ele, e mais tarde o ódio se transformou em  um grande afeto. Corisco ensinou Dadá a ler, escrever e usar armas, e permaneceu com ela até no dia de sua morte. Os dois tiveram sete filhos, mas apenas três deles sobreviveram. 

Após a morte de Lampião em Angicos, em 1938, Corisco – Cristiano Gomes da Silva Clero – que não se encontrava naquela localidade e ocasião, assumiu a tarefa de vingar a morte do ex-chefe e amigo. Matou várias pessoas suspeitas de terem traído Virgulino Ferreira. Corisco chegou a enviar cinco cabeças num saco para o prefeito de Piranhas-AL.  No ano de 1940, Corisco foi ferido e morto pela polícia – a sua mulher Dadá, sobreviveu, perdendo uma perna – A morte do Diabo Louro simbolicamente significou o fim do cangaço.


Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias   
wikipédia      

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Encontro de Padre Cícero com Lampião

Um dos fatos mais pitorescos da passagem da Coluna Prestes pelo Ceará deu-se com o inusitado convite feito por Floro Bartolomeu ao cangaceiro Lampião – para combater os rebeldes e defender a legalidade. 
Ainda sediado em Campos Sales, com seus batalhões de jagunços, Floro teria enviado um mensageiro portando uma carta para o “rei do cangaço” – carta referendada e assinada também por Padre Cícero – pedindo a presença do cangaceiro em Juazeiro.  

Padre Cícero e Floro Bartolomeu - a união entre religião e política no sertão do Ceará

Lampião que, por ser devoto de Padre Cícero, evitava atacar o Ceará, ao receber o convite do padre apressou-se a atendê-lo, chegando a Juazeiro com cerca de 50 homens, no inicio de março de 1926, quando a Coluna já havia deixado o Estado.
Naquela cidade, num único e marcante encontro, Lampião, após ser aconselhado por Padre Cícero a deixar aquela vida de bandidagem, comprometeu-se a combater a Coluna Prestes, recebendo armas, fardamentos e uma patente de capitão do Exército.

Capitão Virgulino Ferreira

A presença de Lampião em Juazeiro provocou alvoroço. Uma multidão se formou para ver o famoso cangaceiro e seu bando. Lampião concedeu entrevistas, bateu fotos, ofertou esmolas à igreja local, recebeu visitas e foi agraciado com presentes, sem ser incomodado pela polícia. 
O bando deixou Juazeiro satisfeito, sobretudo porque o documento que dava ao chefe a “patente” de capitão – o que correspondia ao perdão de seus crimes e a não ocorrência de mais perseguições por parte da polícia – havia sido assinado a pedido de Padre Cícero pela única autoridade federal em Juazeiro, um agrônomo do Ministério da Agricultura, Pedro Albuquerque Uchoa.

Conta-se que chamado mais tarde a Recife, para explicar tamanho absurdo, o agrônomo teria dito aos seus superiores que, naquelas circunstâncias, e com o medo que tinha de Lampião, ele teria assinado até a demissão do presidente Arthur Bernardes.

Lampião, contudo, não foi combater a Coluna Prestes. O cangaceiro, agora definitivamente nomeado Capitão Virgulino Ferreira, talvez tenha temido a fama de guerreiros dos tenentes, talvez tenha ficado irritado ao descobrir que a “patente” não tinha valor legal, portanto não valia nada. 
Virgulino ainda tentou falar com Padre Cícero, mas este se recusou a recebê-lo novamente. 
O patriarca de Juazeiro foi duramente criticado pela imprensa de Fortaleza, a qual usou o episódio como prova da proteção que o padre fazia a criminosos.
Apesar do acontecido, Lampião nunca perdeu o respeito nem a admiração que tinha por Padre Cícero. 

Padre Cícero Romão Batista

Em junho de 1927, Lampião voltou ao Ceará, após uma fracassada tentativa de saquear Mossoró, no Rio Grande do Norte. O bando ocupou Limoeiro do Norte, exigindo uma quantia em dinheiro como “resgate”. 
Dias após deixar Limoeiro, Lampião sofreu uma emboscada feita por 500 policiais, perdendo grande parte das provisões, munições e montarias. 
Com poucas armas, a pé na caatinga, os cangaceiros travaram em seguida outro tiroteio com a polícia, desta vez na Serra da Macambira, em Pernambuco. apesar da escassez de armamentos, os bandidos derrotaram centenas de policiais, fazendo aumentar nos sertões a lenda do “rei do cangaço”. 
Ajudados por coiteiros, os cangaceiros escaparam para os sertões de Pernambuco.    

A Outra Versão para o Encontro

Os fiéis juazeirenses até hoje reagem com indignação a esse relato do encontro entre Padre Cícero e Lampião. Segundo uma versão que veio a público em data recente, 
Lampião teria “ouvido falar” que Padre Cícero precisava de ajuda para combater os “revoltosos”, e compareceu espontaneamente a Juazeiro. 
O padre, pego de surpresa com a presença dos cangaceiros, e sem outras opções, viu-se obrigado a hospedar Lampião, por temê-lo e para evitar um confronto do bando com a população. 
Padre Cícero encontrou-se então, duas vezes com o rei do cangaço e não lhe teria dado nem as armas nem a “patente”, porque como prefeito, não tinha poderes para tanto. 

O secretário de padre Cícero Benjamim Abraão em fotos dos anos 1930 ao lado do bando de Lampião. O libanês registrou as únicas imagens fotográficas do cangaço.

Segundo ainda essa versão, foi o secretário de Padre Cícero, o libanês Benjamin Abraão, que teria sugerido, em tom de brincadeira, que a “patente” poderia ser dada pelo agrônomo. Vendo o interesse do cangaceiro, Abraão viu-se obrigado a convencer Pedro Uchoa a redigir o documento.  

Benjamim Abraão ao lado de Maria Bonita e Lampião 


Também teria sido sua a idéia de confeccionar e dar fardamentos dos ”batalhões patrióticos” aos cangaceiros. 
Essa versão exime totalmente tanto o Padre Cícero quanto Floro Bartolomeu de qualquer responsabilidade na contratação dos serviços do bando de Lampião. 

fonte:
História do Ceará de Airton Farias

domingo, 26 de dezembro de 2010

As Mulheres no Cangaço



Um dos aspectos mais relevantes do cangaço foi a participação feminina. Antes do bando de Virgulino Ferreira, O Lampião, não se tem noticias de que mulheres tenham vivido ou participado do cangaço. Quando um cangaceiro se envolvia com uma mulher, procurava deixá-la em lugar seguro, sob a proteção de alguém de sua confiança, visitando-a quando tinha oportunidade.
A principio, o bando tinha por regra não violentar mulheres e assumir uma postura de repúdio frente a prostituição, mas pouco a pouco os bandos se afastaram dessas regras morais do cangaço. Em 1923 na cidade de Bonito da Santa-Fé – PB, Lampião deu inicio ao estupro coletivo da esposa de um delegado. Passou, então, a fazer parte da normalidade, nas festas e fazendas onde chegavam, os cangaceiros se apropriarem das mulheres, casadas ou não, para se distraírem. 

 Maria Bonita ainda em trajes normais ao lado de Lampião, já cangaceiro famoso
Imagem: http://serratalhadaa.blogspot.com/2008/08/70-anos-da-morte-de-lampioo-rei-do.html

Um novo comportamento frente ao sexo feminino, só se verificaria a partir de 1930, quando Lampião decidiu levar Maria Bonita para viver no bando. 
O nome verdadeiro da moça era Maria Gomes de Oliveira, conhecida por Maria de Déa. Morava em Santa Brígida – BA, onde tinha uma relação de muitos desentendimentos com o marido. Bonita, morena, cabelos longos, inteligente, Maria foi levada por  Lampião quando este visitava a fazenda dos pais dela,  no norte da Bahia. Ela tinha 20 anos, Lampião 33.  Os cangaceiros chamavam-na de Dona Maria ou “a mulher do capitão”.  Mais tarde, recebeu o sugestivo apelido de Maria Bonita. Depois outras mulheres se juntaram aos cangaceiros:  

Dada (de Corisco), Neném (de Luiz Pedro), Durvalina (de Moreno), 
Sila (de Zé Sereno), Lídia (de Zé Baiano), Inacinha (de Gato), Adília (de Canário), 
Cristina (de Português), Maria Jovina (de Pancada), Dulce (de Criança), 
Moça (de Cirilo Engrácia), Otília (de Mariano), Maroca (de Mané Moreno), 
Mariquinha (de Labareda), Maria Ema (de Velocidade), Enedina (de Cajazeira), 
Rosalina (de Chumbinho), Estrelinha (de Cobra Viva), Hortênsia (de Volta Seca), 
Lacinha (de Gato Preto), Iracema (de Lua Branca), Eleonora (de Azulão), 
Lili (de Moita Braba), Catarina (de Sabonete), Mocinha (de Medalha), 
Maninha (de Gavião), Maria Juriti (de Juriti), Dora (de Arvoredo), 
Marina (de Laranjeira), Dinha (de Delicado).



Uma das mais famosas, além de Maria Bonita foi Dadá, mulher de Corisco, o diabo loiro. De acordo com Dadá, a “sertaneja achava bonito era bandido, todo enfeitado, todo perfumado, todo cheio de coisas”. Além desse fascínio, a vida de cangaço permitia às mulheres escaparem das árduas tarefas diárias da vida no campo. 
A presença de mulheres no bando serviu também para reduzir a violência dos criminosos – as vitimas apelavam a sensibilidade feminina e não raro as mulheres intervinham junto aos homens. Além disso, a presença delas entre os bandoleiros significava uma garantia de respeito para as mulheres e filhas dos sertanejos surpreendidos por um ataque dos cangaceiros.
O cangaceiro Sebastião Pereira da Silva, o famoso Sinhô Pereira, o único que chefiou Lampião, declarou que ficou admirado quando soube que fora admitida a presença de mulheres entre os cangaceiros, coisa que ele próprio jamais permitiria, afinal Padre Cícero já havia profetizado que Lampião seria invencível enquanto não houvesse mulheres no bando. 

 retrato de Maria Bonita exposto na casa onde ela viveu no povoado de Malhada do Caiçara, em Paulo Afonso (g1.globo.com)

A chegada das mulheres também impôs novas regras de convivência dentro do grupo:  exigia-se respeito para com as mulheres dos companheiros; a ninguém do bando era dado o direito de ter mais de uma companheira, e estas, na maioria das vezes eram esposas devotadas e fiéis; os casos de adultério eram punidos com a morte – foi o caso de Lídia, mulher do cangaceiro Zé Baiano, morta por ele a cacetadas, por tê-lo traído com o companheiro Besouro, que teve o mesmo destino sob os olhares de aprovação de Lampião. Quando morria um companheiro, a viúva tinha que arranjar um novo parceiro. Quando isso não acontecia, as viúvas eram executadas para que não falassem muito ou não tentassem abandonar o bando, ameaçando assim a  segurança do grupo. 
As mulheres não eram guerreiras e tinham somente armas curtas de defesa. As crianças nascidas dessas uniões eram dadas a compadres, gente que tinha residência fixa, padres ou coronéis que pudessem dar-lhes uma vida tranquila e digna. 



O cangaceiro Zé Baião declarou em uma entrevista ao um jornal de São Paulo que, enquanto não havia mulheres entre eles, o cangaceiro brigava até enjoar. 
Depois disso passaram a evitar os tiroteios, e os bandos batiam logo em retirada para que fossem resguardadas a integridade física das companheiras. As mulheres tinham resistência e a valentia dos homens, mas muitas vezes atrapalhavam nas fugas por ficarem doentes ou grávidas.
De todas as mulheres, a que mais passou tempo no cangaço foi Maria Bonita, que morreu ao lado de Lampião em 1938, em Angicos. 

pesquisa:
História do Ceará, de Airton de Farias
Mulheres no cangaço. Disponível em http://tudonahora.uol.com.br/noticia/artigos/2009/03/08/47667/mulheres-no-cangaco 
As mulheres do cangaço. Disponível em