Corria o ano de 1984 e a abertura democrática avançava rápido, a Ditadura estava com os dias contados. Aconteceu, porém, em Fortaleza um fato discrepante: dois jovens simpatizantes da esquerda, sem filiação partidária, moradores do Conjunto Ceará, influenciados pelo livro A Ilha, de Fernando Morais, sequestraram um avião lotado, desviando o voo para Cuba. Os rapazes esperavam aprender técnicas de guerrilhas, para fazer a revolução no Brasil. Os terroristas cearenses eram João Luís Araújo e Fernando Santiago, que ainda levou a tiracolo a esposa Raimunda Aníbal e a filha Fernanda, então um bebê de três meses de idade.
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O voo sequestrado era o de número 302 da Cruzeiro do Sul, que teve início no Rio de janeiro com destino a Manaus com 176 pessoas, dos quais 158 eram passageiros. O voo partiu do Aeroporto de São Luís – que era uma das escalas – na sexta-feira, 3 de fevereiro e pousaria em Belém, no dia seguinte pela manhã. De acordo com um porta-voz da Cruzeiro do Sul, antes que o avião chegasse a Belém os sequestradores entraram na cabine e forçaram o piloto a desviar o voo.
Durante a operação, diziam que, se não fossem atendidas suas exigências, explodiriam uma bomba no avião. Era tudo mentira, mas, como ninguém quis arriscar e verificar se era ou não verdade, os sequestradores dominaram a situação. Quando chegaram à Guiana, trocaram os passageiros por combustível, e mantiveram a tripulação na aeronave.
Os passageiros não foram avisados de que o avião havia sido sequestrado e inicialmente achavam que más condições tinham atrasado o pouso em Belém; mas pela hora em que o avião pousou no aeroporto da Guiana, sabiam que haviam sido sequestrados, mas não sabiam aonde estavam.
A demonstração de despreparo e ingenuidade dos dois rapazes, verificou-se com um fato jocoso: o piloto do avião não dispunha de mapas para voar até Cuba. Fernando Santiago disse que tinha um mapa consigo na mochila – e apresentou um mapa num livro escolar.
Apesar do mau planejamento, conseguiram chegar à Havana. As autoridades da ilha permitiram que a tripulação levasse a aeronave de volta para o Brasil. Quanto aos sequestradores, estes permaneceram mais de um mês em observação, sabatinados com perguntas que tinham o objetivo de descobrir intenções ocultas naquela aventura.
Depois de muito interrogatório, as autoridades cubanas chegaram à conclusão que os rapazes falavam a verdade, e a partir daí, receberam apoio oficial. Ficaram em Cuba por dez anos, tendo os estudos custeados pelo governo.
Todos retornaram ao Brasil em 1995, com a prescrição do crime. Fernando passou a viver no Acre, trabalhando como historiador; João Luís, psicólogo de profissão, foi morar em Crateús. Raimundo Aníbal separou-se de Fernando ainda em Cuba e casou-se novamente com um cidadão cubano, de quem depois enviuvou. E todos os envolvidos viveram felizes para sempre.
Fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Wikipédia
