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domingo, 1 de dezembro de 2013

Os Movimentos Messiânicos

Na segunda metade do século XIX cada vez mais pessoas pobres passaram a seguir lideres religiosos em movimentos messiânicos, chamados preconceituosamente pelas elites, cúpula do Estado e pela igreja, de fanáticos. Tidos como uma ameaça real à ordem estabelecida, logo vieram as perseguições e massacres.

 Seguidores do beato Antônio Conselheiro presos pelas tropas do Exército, no Arraial de Belo Monte, em Canudos (foto JB)

Misturando interpretações da Bíblia, tradições cristãs como o fim dos tempos e criação do paraíso, com mitos a exemplo do retorno de D. Sebastião, tais movimentos representavam, paradoxalmente, não uma fuga da realidade, mas uma crítica implícita, silenciosa, á estrutura socioeconômica vigente. Apegava-se aos céus porque a vida terrena era de sofrimento. O povo se voltava para a religião implorando dádivas e perdão dos seus pecados, os quais supunham serem os causadores do martírio que sofria, esperando a criação de um tempo novo, de paz, de prosperidade e de justiça, onde os pobres seriam abençoados e os ricos e perversos, castigados.

 ruínas da comunidade de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro
 
Por essa época, o catolicismo praticado na maior parte do Nordeste, era produto de profundo sincretismo, decorrente da fusão do catolicismo português com as tradições indígenas e africanas. A esse catolicismo mestiço, diferente do praticado pelas altas hierarquias eclesiásticas, os historiadores chamaram de catolicismo popular. É uma espiritualidade repleta de benzedores, curandeiros, rezadeiras, milagreiros, crenças em talismãs, fórmulas mágicas, sacrifícios, penitências e coisas semelhantes.

seguidores do beato José Lourenço, no Sítio Caldeirão

No mundo profundamente místico sertanejo, escasseavam sacerdotes. Para se ter ideia, no início da década de 1860, para uma população de 720 mil habitantes, possuía o Ceará apenas 33 padres, dos quais mais de dois terços, tinham família constituída e cujo prestígio entre os fiéis era baixíssimo.
A falta de padres e o isolamento dos sertões faziam com que pessoas que se destacassem em suas comunidades, por conhecimento e piedade, rotineiramente se ocupassem das práticas religiosas mais comuns – pregar, batizar, rezar, encomendar os mortos. Algumas vezes esse verdadeiro clero laico chegou a celebrar arremedos de missas. Esse fenômeno foi comum no interior do Nordeste e mesmo no Sul. Nos sertões, esse clero laico tinha até uma hierarquia informal. Os beatos tiravam rezas, puxavam o terço, cantavam ladainhas, esmolavam para as igrejas; os mais informados e inseridos nas coisas sagradas eram conselheiros, os quais pregavam e aconselhavam os fiéis. Na maioria das vezes, os conselheiros possuíam sob sua influência um ou mais beatos.

 beato José Lourenço (centro) foto do blog Lampião Aceso

As pessoas de fé não eram tratadas como exóticas ou loucas pelos populares. Ao contrário, constituíam-se figuras comuns nas comunidades, com funções e atribuições aceitas e delimitadas. Assim, os sertões eram trilhados por dezenas de andarilhos que visitavam as localidades desprovidas de párocos e mesmo aquelas que os tinham. Por longo tempo houve um contato semioficial do clero com aquelas lideranças religiosas leigas. Sacerdotes cediam os púlpitos para beatos e conselheiros e alguns chegavam a incentivar tais formas de vida.
Esses homens e mulheres de Deus participavam da orientação social, política e ideológica do povo sofrido do interior nordestino. Traziam-lhe conforto espiritual e mesmo ajuda material. 

 Padre Cícero, o maior lider religioso que o Nordeste conheceu

Alguns desses lideres messiânicos eram extremamente carismáticos, apresentavam atributos extraordinários e sobrenaturais, e eram tidos como profetas ou portadores de uma nova mensagem de esperança e de um mundo melhor. Com esses atributos, fica fácil entender o que levava milhares de pessoas a ouvir e seguir líderes como Antônio Conselheiro, beato José Lourenço e mesmo integrantes da hierarquia católica que adotavam aquelas práticas de catolicismo popular, como Padre Cícero, Padre Ibiapina.

O Lendário Rei D. Sebastião, o Desejado



Dom Sebastião I de Portugal, nasceu em Lisboa, em 20 de Janeiro de 1554 e faleceu na batalha de Alcácer-Quibir em  4 de Agosto de 1578, com apenas 24 anos de idade. Foi o décimo sexto rei de Portugal, cognominado O Desejado por ser o herdeiro esperado da Dinastia de Avis, mais tarde nomeado O Adormecido. Foi o sétimo rei da Dinastia de Avis, neto do rei João III de quem herdou o trono com apenas três anos. A regência foi assegurada pela sua avó Catarina da Áustria e pelo Cardeal Henrique de Évora.
Aos 14 anos assumiu a governação manifestando grande fervor religioso e militar. Solicitado a cessar as ameaças às costas portuguesas e motivado a reviver as glórias do passado, decidiu a montar um esforço militar em Marrocos, planejando uma cruzada após Mulei Mohammed ter solicitado a sua ajuda para recuperar o trono. 


A derrota portuguesa na batalha de Alcácer-Quibir em 1578 levou ao desaparecimento de D. Sebastião em combate e da nata da nobreza, iniciando a crise dinástica de 1580 que levou à perda da independência para a dinastia Filipina e ao nascimento do mito do Sebastianismo.
D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir ou foi morto depois desta terminar. É provável que seu corpo tenha sido enterrado logo depois, em Ceuta, mas para o povo português, o rei havia apenas desaparecido.  Tornou-se então numa lenda do grande patriota português - o "rei dormente" (ou um Messias) que iria regressar para ajudar Portugal nas suas horas mais sombrias.
Já em fins do século XIX, no sertão da Bahia, no Brasil, camponeses acreditavam que o rei D. Sebastião, iria regressar para ajudá-los na luta contra a "república ateia brasileira", durante a Guerra de Canudos. O mesmo repetiu-se no sul do Brasil, no episódio da Guerra do Contestado.
(Não esquecer que Antônio Conselheiro era homem culto e monarquista e provavelmente, foi através dele, que os camponeses passaram a cultuar a lenda de D. Sebastião)  


Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias
wikipédia

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Beato José Lourenço e a Sociedade do Caldeirão

Beato José Lourenço (acervo do Museu do Ceará em foto de Fátima Garcia) 

Aos vinte anos de idade chegava a Juazeiro o paraibano José Lourenço Gomes da Silva, em busca de orientação do Padre Cícero, então no auge dos acontecimentos milagrosos. O padre recomendou a José Lourenço que fizesse penitência durante um determinado período e voltasse à sua presença. 
No fim do tempo marcado, Padre Cícero dizendo ter para ele uma missão, mandou  que se estabelecesse no Sítio Baixa Danta, na qualidade de rendeiro. José Lourenço transformou com trabalho diligente e planejado, uma terra árida numa das propriedades mais férteis da região. 
Lavrador primoroso, nas cerimônias religiosas vestia um hábito de beato, carregando às costas uma cruz, conduzindo penitentes ou simples devotos em procissões. Solteiro, dividia o produto do seu trabalho com os mais necessitados. O padre mandava para Baixa Danta os romeiros mais desvalidos, os fugitivos de perseguições, os que precisavam ser reeducados no trabalho. 

 Beato José Lourenço e a Santa Cruz do Deserto em 1937 
(foto do site  http://www.onordeste.com)

Personalidade marcante pelo número de adeptos que o seguia em todas as decisões,  despertava entre a população regional, muito respeito ou muita inveja. Era da total confiança do Padre Cícero que o usava como mensageiro em missões que requeressem sigilo, além de lhe confiar o trabalho de doutrinação de muitos romeiros. Apesar de analfabeto é lembrado por seus seguidores como um grande conselheiro, alguém que nunca errou uma orientação dada a seu povo. 
Na década de 1920, o Padre Cícero entregou a seus cuidados um touro que recebeu de presente. José Lourenço que dispensava um carinho especial aos animais, desde seu cavalo até o vasto criatório de aves domésticas e pássaros de todas as plumagens, recebeu com redobrado cuidado o boi “mansinho”, que logo se tornou um belo espécime da raça guzerá. Muitos criadores pediam emprestado o touro para cruzar em suas fazendas. O povo do beato tratava com esmero o “boi do meu padrinho”.  
Em pouco tempo os jornais denunciavam a crença no Boi Ápis que se desenvolvia no Juazeiro. Os padres, do púlpito, pediam às autoridades para combater a “nefanda heresia”, que se estabelecera entre os seguidores de José Lourenço. 

José Lourenço e alguns de seus adeptos (foto do site O Nordeste.Com)
 
Para acabar com a campanha de difamação, mesmo convencido da inocência do beato, Floro Bartolomeu mandou prender José Lourenço, matando o boi e tentando obriga-lo a comer de sua carne. Seus seguidores relataram que o beato resistiu dezoito dias na prisão, sem comer, ao final dos quais o Padre Cícero foi tirá-lo e mandou-o de volta a Baixa Danta.
Após a morte de Floro Bartolomeu, em 1927, o proprietário da Baixa Danta vendeu o sítio e José Lourenço perdeu todo o trabalho e os beneficiamentos feitos na terra. Padre Cícero então o desloca com toda a sua gente, longe dos olhos invejosos, para um grande terreno de sua propriedade, na Serra do Araripe – a Fazenda Caldeirão.

seguidores do Beato José Lourenço no Sítio Caldeirão. O massacre promovido pela polícia vitimou adultos e crianças (foto do quadro pertencente ao acervo do Museu do Ceará, por Fátima Garcia) 
No Caldeirão a obra de José Lourenço toma, em bem menores proporções demográficas, a dimensão social da comunidade religiosa de Antônio Conselheiro. Em pouco tempo, o Caldeirão torna-se fornecedor de mão-de-obra para as empresa agrícolas da vizinhança, além da fértil propriedade com engenho de rapadura, extensa plantação de cana, grande produção de gêneros alimentícios e algodão, além de diversificado criatório de gado vacum, caprino, ovino e suíno. Era o rico manancial de fartura a que seus sobreviventes se referem como ao “mundo de Deus que o pecado de Satanás fez desaparecer”.


Por testamento, Padre Cícero deixou a Fazenda Caldeirão para os padres salesianos. A partir da morte do padre, a Diocese do Crato tenta impugnar seu testamento com o objetivo de se apossar dos bens deixados por ele. Desenvolveu-se acirrada polêmica  com o bispo advogando o direito de confisco desses bens  para o patrimônio do bispado. 
A justiça brasileira fez cumprir as disposições testamentárias, entregando o espólio aos herdeiros nomeados, que assumiram o compromisso de respeitar a vontade do Padre, no sentido de construir um colégio em Juazeiro, proteger as romarias, e posteriormente, trazer a ordem de São Francisco para se estabelecer na cidade. 
Tomando posse de todas as propriedades que herdaram em 1936, os Salesianos, embora José Lourenço lhes pagasse fielmente a renda da terra e lhes trouxessem cargas e mais cargas de produtos do Caldeirão, deliberaram o despejo do beato e sua gente. Inicia-se então uma campanha de difamação contra ele, que era acusado de promiscuidade sexual, práticas diabólicas, dentre outras acusações. Dizia-se até que “aquilo ia ser igual a Canudos”. 

Moradores do Sítio Caldeirão 
(quadro do  acervo do Museu do Ceará em foto de Fátima Garcia) 
No dia 11 de novembro desse ano, o capitão do exército Cordeiro Neto, Secretário de Segurança do Ceará, fez uma primeira incursão à fazenda. O pretexto fora a informação de que José Lourenço havia recebido três caixas de armamentos e munições, que deveriam ser entregues ao governo. O beato mostra haver nas caixas apenas algumas imagens de santos. Não convencido dos propósitos pacifistas de José Lourenço, o secretário deixa no Caldeirão o tenente Germano, que lá permanece por um mês. Segundo os sobreviventes, ele ficou para fazer um reconhecimento da região e dos hábitos do povo, bem como arrolar todos os bens existentes na fazenda, que mais tarde seriam roubados pelas tropas.


Em 1937 o Caldeirão é atacado pelo oficial de Polícia José Bezerra. Diante da ferocidade do ataque-surpresa, o povo do Caldeirão reage, travando-se violento combate no dia 10 de maio, onde morreram José Bezerra, o filho, o genro e um cabo. Do lado do beato morreram quatro seguidores, entre eles Custódio Pereira Barros, valente romeiro paraibano, que vendo o beato em perigo, organizara a resistência, pagando com a vida sua fidelidade. Nesse embate repete-se a prática de cortar as cabeças dos inimigos mortos.

 ruínas da casa onde morou o beato José Lourenço (foto do Diário do Nordeste)
Fugindo para a serra, o beato já se dirigia com sua gente para o Estado de Pernambuco, quando foram alcançados pelas tropas, que desfecharam um ataque arrasador por terra e por ar, matando, e prendendo muita gente, no afã de prender José Lourenço  que se evadira. Os prisioneiros, apesar de torturados, não revelaram o paradeiro do beato. De 1937 a 1940 o governo persegue sistematicamente os ex-moradores do Caldeirão, que se dispersam por várias localidades. 
Com algumas pessoas, José Lourenço se estabelece na Fazenda União em Exu, Pernambuco, enquanto os policiais saqueavam o Caldeirão, incendiando o que não podia ser levado, e vendendo todos os bens móveis.

 das várias construções edificadas no Sítio Caldeirão para abrigar os camponeses participantes do movimento, restam a pequena capela de Santo Inácio de Loyola, relativamente conservada, e poucas casas em ruínas. Quanto à árida paisagem de entorno, esta permaneceu praticamente inalterada. (Foto Secult)

Com o fim das perseguições, em 1944, o beato tenta através do advogado Dr. Antônio de Alencar Araripe, uma ação judicial contra o Estado do Ceará, por agressão e furtos, solicitando uma indenização. O procurador do Estado declara a prescrição do seu direito de agir contra o Estado.
No dia 12 de fevereiro de 1946, José Lourenço morre de morte natural na Fazenda União. Seus seguidores atravessando a serra carregam seu corpo por treze léguas. Caminham por toda a noite e, ao raiar do dia chegam a Juazeiro, onde o beato é velado pelos romeiros.  José Lourenço foi enterrado no Cemitério do Socorro, bem ao lado da igreja onde se encontra o corpo de Padre Cícero.

fonte:
O Movimento Religioso de Juazeiro do Norte. Padre Cícero e o Fenômeno do Caldeirão.
de Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros 
(em História do Ceará, Coordenação de Simone de Souza)