sábado, 7 de maio de 2011

Bandeira do Ceará

A Bandeira do Estado do Ceará foi criada em 25 de agosto de 1922, quando o Presidente Justiniano de Serpa baixou o Decreto n° 1971, instituindo oficialmente o símbolo estadual. 
O modelo criado era idêntico à bandeira nacional, substituindo-se o globo azul por um branco no qual figurava as armas do estado. 
A bandeira havia sido criada pelo comerciante João Tibúrcio Albano que, ao hastear a Bandeira do Maranhão, terra natal de sua esposa,  em sua residência, achou por bem ladeá-la com a Bandeira do Ceará. Mas como esta não existia,  ele resolveu a situação colocando a bandeira nacional com o escudo do Ceará no lugar do globo azul.
Em 1937, com o golpe de Getúlio Vargas que instituiu o Estado Novo, foram fechados  a Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal, além de ocorrerem mudanças nos governos estadual e municipal.
O então governador Francisco Menezes Pimentel  permaneceu no cargo porque deu apoio ao novo governo, mas na condição de Interventor. Os Estados e Municípios não podiam ter hinos, bandeiras, escudos ou armas, sendo os únicos símbolos, os nacionais.
Os símbolos só voltaram a serem usados 10 anos mais tarde, a partir de  23 de junho de 1947, quando a Assembleia Legislativa promulgou a nova Carta Constitucional do Estado Ceará.  Essa nova Constituição foi a primeira após a ditadura Vargas e também a primeira do pós-guerra.
A Bandeira do Ceará foi modificada  em 1° de setembro de 1967, por sugestão  do historiador Raimundo Girão através da Secretaria de Cultura do Estado  e sancionada pelo  governador Plácido Castelo.  Pela lei 8.889, foram definidas as dimensões da Bandeira do Ceará e alteradas as armas nela contidas, sendo retirados os ramos de café e algodão. 

O verde e o amarelo da bandeira cearense retratam as matas e as riquezas minerais. O farol, a jangada e a carnaúba simbolizam, respectivamente, Fortaleza, o cearense e o extrativismo vegetal.  

Nirez

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Criação de uma Vila no Ceará

Vista da Barra do Ceará vendo-se à margem do rio o Forte de São Sebastião. Desenho atribuído a Frans Post, 1645 (arquivo Nirez)
Por ordem régia de 13 de fevereiro de 1699, a Coroa determinava a criação de uma vila no Ceará – a de São José de Ribamar – cuja localização foi motivo de muita controvérsia.  Com a instalação da vila, a sociedade civil (basicamente os grandes proprietários de terras) passou a participar da administração da capitania.  
Até a criação da vila a administração da capitania era feita  por três instâncias de poder: o capitão-mor  governador, a ouvidoria e a câmara de vereadores.
Os capitães-mores governadores recebiam instruções verbais de Pernambuco e concentravam todo o poder nas mãos. Eram arbitrários e provocavam inúmeros conflitos ao intervir  e perseguir outras autoridades.  
Os Ouvidores tinham a função de fiscalizar a administração e aplicar a justiça na capitania. O ocupante do cargo deveria ser formado em Direito e era nomeado pelo rei para um período de três anos.  
A Ouvidoria Real da Capitania do Ceará foi criada apenas em 1723, com sede na Vila de Aquiraz. Até então as pendências judiciais e administrativas eram resolvidas pelos Ouvidores de Pernambuco ou da Paraíba. 
As Câmaras detinham funções de ordem econômica, administrativa, econômica, policial e judiciária, como fiscalizar a construção de estradas, pontes e calçadas, regulamentar as feiras, os mercados e o trânsito, a arborização das ruas e praças e outras atividades relacionadas com o bem comum.
Ao contrário de outras vilas criadas no Brasil colônia, a questão da arrecadação de impostos não foi a motivação principal para a instalação da primeira vila no Ceará. O objetivo oficial seria a de amenizar as violências, abusos e arbitrariedades cometidas por capitães-mores e administrar a justiça, já que os ouvidores de Pernambuco e da Paraíba, raramente visitavam a capitania do Ceará, em razão das grandes distâncias que separavam as capitanias, da falta de meios de transporte, de comunicação e de segurança (ataques indígenas).
Enquanto os sertões cearenses permaneceram inexplorados, a guarnição militar do Forte de Nossa Senhora da Assunção, apesar de todas as limitações, pode garantir a ordem na capitania. 
Mas, a medida que as terras foram sendo conquistadas com a pecuária, apareceram as disputas entre fazendeiros pela posse da terra, atritos entre colonos e jesuítas por índios, assaltos, roubos e homicídios, os quais não poderiam ser solucionados apenas por uma tropa militar. 
Assim, foi para solucionar tais atritos, que se instalou na capitania uma vila e respectiva Câmara Municipal, que com seus juízes e vereadores,  serviriam para aplicação os princípios da justiça e como contraponto aos poderes dos capitães-mores.
O documento régio de 1699 dava margem a dúvidas sobre o local exato em que deveria ser instalado o pelourinho, (uma coluna de madeira, ferro ou tijolo que representava a autonomia municipal).  
Em consequência, verificaram-se sérias disputas entre as autoridades da capitania, e uma cômica mudança do pelourinho entre o forte de Nossa Senhora de Assunção, onde residiam as autoridades coloniais e eclesiásticas,  a barra do rio Ceará – no local denominado Vila Velha, onde se estabeleceram as primeiras fortificações portuguesas na capitania, onde viviam basicamente indígenas aculturados, em condições de extrema pobreza,  e Aquiraz (e extensivamente o Iguape, na foz do rio Pacoti), onde residiam os  grandes proprietários de terra, a elite local.
A 25 de janeiro de 1700, os três vereadores eleitos e dois juízes instalaram a vila no arraial do Iguape, alegando que este era o local mais conveniente.  A decisão, entretanto, não agradou as autoridades metropolitanas.
 Consultado sobre o local da instalação da vila, o governador de Pernambuco respondeu que esta deveria ser localizada próxima ao fortim. Assim a 25 de maio de 1700, o capitão-mor Francisco Gil Ribeiro instalou a Vila de São José do Ribamar junto à fortaleza de N.S. de Assunção, apesar dos protestos dos vereadores, que consideram o Iguape um local mais adequado. 
Usavam como argumento a longa distância da Aldeia do Siará e as condições pouco favoráveis desta: porto ruim, terras impróprias para a agricultura, falta de boas fontes de água, etc.
Sucederam-se então, outras mudanças conforme  a pressão dos vereadores e capitães-mores. O capitão-mor Francisco Gil Ribeiro, transferiu o pelourinho, em 1702, para um local mais distante ainda: a barra do Rio Ceará, que ficaria ali até 1706. 
O pelourinho da vila ficou na barra do rio Ceará durante 4 anos
Naquele ano o novo capitão-mor Gabriel da Silva lago levou o pelourinho de volta para o forte, sob protestos dos senhores da terra que insistiam pela escola de Aquiraz como sede da vila. Estes apelando às altas autoridades coloniais e ao próprio rei de Portugal  obtiveram em 1711, Ordem Régia determinando a mudança do pelourinho para Aquiraz. 
A 27 de junho de 1713, agora sob protestos dos moradores da fortaleza, a vila foi definitivamente instalada em Aquiraz. Por esta razão muitos consideram Aquiraz a primeira capital do Ceará.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Patativa do Assaré - Cante lá que eu canto cá

foto: O Globo

Menino de Rua

Menino de Rua, garoto indigente
Infanto Carente,
Não sabe onde vai
Menino de Rua, assim maltrapilho
De quem tu és filho
Onde anda o teu pai?

Tu vagas incerto não achas abrigo
Exposto ao perigo
De um drama de horror
É sobre a sarjeta que dormes teu sono,
No grande abandono
Não tens protetor

Meu Deus! Que tristeza! Que vida esta tua
Menino de Rua,
Tu andas em vão
Ninguém te conhece, nem sabe o teu nome
Com frio e com fome
Sem roupa e sem pão

Ao léu do desprezo dormes ao relento
O teu sofrimento
Não posso julgar,
Ninguém te  auxilia, ninguém te consola,
Cadê tua escola,
Teus pais, teu lar?

Seguindo constante teu duro caminho
Tu vives sozinho
Não és de ninguém
Às vezes pensando na vida que levas
Te ocultas nas trevas
Com medo de alguém

Assim continuas de noite e de dia
Não tens alegria
Não cantas nem ri
No caos de incerteza que o seu mundo encerra
Os grandes da terra
Não zelam por ti

Teus olhos demonstram a dor, a tristeza,
Miséria, pobreza
E cruéis privações
E enquanto estas dores tu vives pensando,
Vão ricos roubando
Milhões e milhões

Garoto eu desejo que em vez deste inferno
Tu tenhas caderno
Também professor
Menino de Rua de ti não me esqueço
E aqui te ofereço
Meu canto de dor


Antônio Gonçalves da Silva mundialmente conhecido como Patativa de Assaré, nasceu em Serra de Santana, em Assaré, uma pequena cidade no sertão do Ceará, no dia 5 de março de 1909. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. 

Os fatos mais determinantes de sua vida aconteceram quando ele ainda era menino, como a perda da visão de um olho aos quatro anos e a morte do pai aos nove.  
Não frequentou mais de seis meses de escola, o que não o impediu de manejar a língua portuguesa com criatividade e sofisticação.

Autodidata, ele aprendeu a dominar seus segredos na leitura de livros, especialmente dos poetas da terra, além de jornais e revistas, mais do que nas gramáticas, que nunca o atraíram.  Agricultor por necessidade de sobrevivência desde tenra idade, Patativa encontrou cedo também a viola, empunhando-a, ainda adolescente, junto com seus versos, em circuitos populares de feiras e festas. 

  
No livro Cante lá que eu canto cá , o poeta dizia que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento. 
A veia política causou-lhe problemas mais de uma vez. 

Em 1943, chegou a ser preso por ter ironizado em versos a frequente ausência no posto do então prefeito de Assaré, sua terra natal. Mas a prisão não demorou mais de 15 minutos, e o poeta foi logo liberado.  

Quando completou 91 anos  de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida,  já tinha dito tudo que tinha de dizer. 

O velho poeta, que soube como ninguém narrar as dores e o sofrimento de um povo marginalizado e oprimido, que viu de perto as agruras de retirantes, fugindo de suas terras por conta de uma secura sem fim, morreu em 8 de julho de 2002, na mesma cidade em que nasceu e que lhe emprestou o nome.  

Livros de Poesias

 Inspiração Nordestina: Cantos do Patativa -1967
 Cante Lá que Eu Canto Cá - 1978
 Ispinho e Fulô - 1988
 Balceiro. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 1991
 Cordéis - 1993
 Aqui Tem Coisa - 1994
 Biblioteca de Cordel: Patativa do Assaré - 2000
 Balceiro 2. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 2001
 Ao pé da mesa – 2001
Antologia Poética (Org. Gilmar de Carvalho) - 2002
Cordéis e Outros Poemas (Org. Gilmar de Carvalho) - 2008 

Poemas

A Triste Partida;
Cante Lá que eu Canto Cá;
Coisas do Rio de Janeiro;
Meu Protesto;
Mote/Glosas;
Peixe;
O Poeta da Roça;
Apelo dum Agricultor;
Se Existe Inferno;
Vaca estrela e Boi Fubá;
Você se Lembra?
Vou Vorá;
Caboclo Roceiro 

A vida do  Patativa do Assaré foi retratada em Concerto de Ispinho e Fulô, da Cia. do Tijolo, peça que deu a William Guedes o Prêmio Shell de Teatro em 2009 na categoria de melhor música.  A mesma companhia também retratou o poeta na peça Cante Lá que Eu Canto Cá.
O poeta também foi retratado no filme documentário Patativa do Assaré - Ave Poesia, realizado pelo cineasta Rosemberg Cariry, que estreou nos cinemas em 2009. 


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Escravidão e Abolicionismo no Ceará – Parte 2/3


A mais destacada forma de resistência escrava negra no Brasil ocorreu através da formação de quilombos. Há alguns indícios da presença de quilombos ou mucambos no Ceará. Isso fica explícito até em comunicados oficiais, como em uma carta de Jerônimo Paz, intendente das minas de S. José do Cariri, encaminhada ao governador de Pernambuco.
Serra do Pereiro no Ceará - imagem IBGE
Ao que consta a muralha de pedra encontrada em Bastiões, Serra do Pereiro, seria um quilombo no qual se refugiavam escravos do Ceará e de províncias vizinhas. Também existiria outro na Serra Grande, para onde acorriam os negros do Ceará, Piauí e Maranhão. 
Serra Grande no Ceará - imagem IBGE
Vários cativos fugidos foram apreendidos em Viçosa. Muitos outros locais de acoitamento de escravos fugidos existiam na província, inclusive nas proximidades da capital como em Tauape e Parangaba.
Resistiram ainda os negros no Ceará com o assassinato de seus senhores e até em conspirações e revoltas armadas, o que colocava em pânico as elites. Documento da Câmara Municipal de Sobral, de 1821, traz o alerta para prevenir um levante de cativos denunciado ao comandante da vila. O jornal Pedro II, de 11 de dezembro de 1867 dava conhecimento que, em Lavras, comarca de Icó, alguns escravos armados que tentavam ganhar a liberdade, viram frustrados os seus planos pelas medidas de repressão impostas pelo delegado de polícia.
Comunidade Quilombola (blog da educação)
Vários fatores explicam o porquê de o Ceará ter sido o pioneiro na abolição da escravatura no Brasil. O fator principal seria o pequeno número de cativos negros no Ceará – em comparação com outras áreas do País, como a açucareira, a cafeeira e a mineradora – e o pouco peso da mão-de-obra escrava na economia local. A quantidade de escravos negros nunca foi expressiva. 
escravos na atividade cafeeira - quadro de J.B. Debret (imagem blog da educação)
As bases da economia cearense, o algodão e a pecuária não absorviam em larga escala a mão-de-obra escrava. As fazendas de gado empregavam pouca mão-de-obra. O algodão, em virtude do seu ciclo natural – plantado mais ou menos em janeiro e colhido em agosto – não compensava o emprego de muitos escravos numa atividade praticada apenas em determinado período do ano.
Além do mais existiam as secas periódicas, que traziam dificuldades para conseguir alimentos e água, e provocava surtos de doenças, que dizimavam os escravos e dava prejuízos aos senhores. Havia ainda grande quantidade disponível de camponeses sem terra nos sertões, que trabalhavam para os latifundiários por parte da produção, moradia e comida como parceiros ou agregados das fazendas.
O alto preço dos escravos era outro fator que contribuía para o número reduzido de escravos, sobretudo numa região pobre como era o Ceará. Em inventário do século XIX, um negro de 16 anos custava 100$000 (Cem mil Reis), preço equivalente ao de 25 vacas.
Daí por que eram raros proprietários com muitos escravos. A posse destes chegava a ser símbolo de status e indicativo de riquezas.
A venda de escravos negros para fora da província, no chamado tráfico interprovincial, contribuiu igualmente para o declínio da escravatura no Ceará.  Já em 1847, tem-se o registro de vendas de escravos para o atual Sudeste. Tais vendas aumentaram depois de 1850, em virtude da promulgação da Lei Eusébio de Queiroz, que determinava o fim do tráfico negreiro internacional, cessando o fluxo de africanos para o Brasil. A procura do Sudeste por escravos em razão da proibição imposta por lei, aumentou consideravelmente o preço dos cativos, tornando-se a venda um negócio lucrativo, sobretudo em épocas de estiagens, como a seca de 1877-79, quando o senhor de terras vendo o gado minguando, a plantação seca, a propagação de surtos e doenças, e buscava resguardar seu patrimônio em escravos, comercializando-os para outras regiões do Brasil. Não existem dados precisos quanto ao número de negros escravizados exportados pelo Ceará, mas especula-se que em torno de sete mil tenham sido vendidos  entre 1871 e 1881, sendo que em 1877 foram exportados três mil só pelo porto de Fortaleza.
Mercado da Rua do Valongo, no Rio de Janeiro, onde escravos eram vendidos (quadro de J.B. Debret)
Jornais anunciavam ofertas de compras de cativos,  e os mascates – muitos dos quais italianos – que em tempos normais viviam a vender quinquilharias, passaram a comprar e vender escravos no interior e revende-los na capital. Ante os efeitos trágicos da seca, em 1880, o escravo negro virara quase a única moeda em circulação no Ceará.
Um terceiro fator para explicar a iniciativa e o pioneirismo no Ceará, foi a intensa campanha abolicionista local.
Curioso é que até 1879 a província manteve-se em silêncio sobre a questão escravista, enquanto das praias de Fortaleza milhares de cativos eram levados em jangadas, para os navios que aguardavam ao largo.
Somente quando as províncias do centro-sul passaram a decretar leis dificultando o tráfico entre as províncias, e em conseqüência, a procura por escravos diminuiu e os preços despencaram, é que floresceu de fato, o abolicionismo no Ceará.  

fonte: História do Ceará, de Airton de Farias

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Escravidão e Abolicionismo no Ceará – Parte1/3

O tráfico de escravos era uma forma de comércio, altamente lucrativa, já exercida pelos mercadores fenícios. Nas sociedades mediterrâneas grega e romana, os escravos constituíam um importante produto comercial.
Os indivíduos eram capturados em incursões em outros territórios, nas guerras ou vendidos pela aristocracia tribal. Os seres humanos, incluindo crianças, eram negociados nos mercados como animais ou qualquer outra mercadoria. 
Em alguns centros de comércio havia mercados especiais de escravos.
navio negreiro sendo abordado por barco da marinha britânica
imagem: slavery image search
No Ceará existem alguns indícios da presença negra já no inicio da conquista do território.
Com o capitão-mor Álvares de Azevedo Barreto, em 1654, vieram quatro companhias de soldados, duas de índios e vários negros.
Africanos foram trazidos para servir os governadores do período colonial, outros para combater os índios.
De modo geral, não havia tráfico negreiro direto para o Ceará. Os cativos que chegavam à capitania chegavam, sobretudo, pelos portos de São Luis e Recife, e em menor grau, por Salvador e Rio de Janeiro. Não obstante, vez ou outra ancorava algum navio negreiro no Ceará, em virtude de dificuldades de navegação.
No final do século XVIII, com a separação do Ceará de Pernambuco e a expansão da cotonicultura, os vereadores de Fortaleza tentaram estabelecer o tráfico direto, mas Portugal não consentiu. Mesmo assim, parece ter havido na segunda década do século XIX uma pequena importação de negros diretamente da África.
O tráfico era quase sempre organizado através de “contratos” entre parceiros comerciais europeus e africanos. O recrutamento era confiado a “contratadores”, que adquiriam este direito mediante o pagamento de licenças. 
Os europeus não se envolviam diretamente na caça aos escravos e preferiam comprá-los aos africanos que se encarregavam de os capturar. Os mercadores europeus permaneciam junto à costa onde os seus parceiros comerciais acorriam para entregar escravos capturados em guerras ou em ataques organizados, em troca dos mais variados objetos, em geral de pouco valor. 
O grande desenvolvimento do tráfico de escravos negros, na segunda metade do século XVI, foi impelido pela necessidade mão-de-obra para as plantações tropicais americanas principalmente de cana-de-açúcar e de algodão.
Para o Ceará vinham predominantemente africanos da etnia banto, embarcados em Angola. Existia também reduzida quantidade de sudaneses. Por volta da terceira década do século XIX os negros africanos de nações já eram escassos, e predominavam os crioulos e mestiços na importação.
No Ceará havia na relação entre senhores e escravos, uma espécie de negociação do cotidiano. Os primeiros não puniam os segundos por qualquer coisa – os negros eram um patrimônio a ser preservado, sem falar que podiam se rebelar – e faziam algumas concessões ou relevavam algumas vezes, o eu poderia ser classificado como desobediência ou ociosidade dos cativos. 
No entanto, isso não significa que os escravos fossem bem tratados, ou que não fossem vítimas de violências e crueldades. Os jornais cearenses do século XIX, ao tratarem das fugas e vendas de escravos, descreviam as marcas e mutilações impostas pelos senhores.
(Cearense, 16/03/1865) 
Jerônimo, moleque ladino tem o dedo cortado da mão direita...
(Cearense, 29/07/1865) 
José, vai-se de seu senhor com o olho perdido...
(O Comercial, 17/04/1856)
 Francisco, escravo de 25 anos, com cicatrizes de chicote nas costas...
(O Comercial 14/06/1856) 
Crioula de 22 a 23 anos, com as costas marcadas por sevícias, de propriedade do padre Vicente da Rocha Mota...
Os cativos, por sua vez, poderiam submeter-se aos ditames dos senhores em troca de vantagens e espaços sociais: 
a possibilidade de lazer e congraçamento social; 
a participação em irmandades e festas religiosas; 
o estabelecimento de relações pessoais e familiares; 
 a obtenção de recompensas materiais (plantar e vender algum produto na vila, criar algumas cabeças de gado, roupas...) e; 
 a promessa maior, a de receber alforria.
imagem: slavery image search
Quando as negociações do cotidiano falhavam ou nem aconteciam, a resistência era declarada, através de fugas e  revoltas. Havia um temor permanente entre as elites quanto a revoltas escravas – a qualquer momento, por qualquer motivo, um cativo, por mais obediente que fosse poderia tentar fugir ou reagir a um castigo.
Entre os mecanismos de controle dos escravos estavam os Códigos de Postura das cidades, como o de Fortaleza, de 1879, que vedava a reunião de escravos, filhos, famílias e criados nas lojas, tavernas e calçadas, por mais de 15 minutos, para qualquer fim, sob pena de multa de 20$000 (vinte mil Reis) ao dono da casa em que se fizer a reunião.
Outra forma de controle estava nos calçados: 
sandálias, sapatos e tamancos eram proibidos aos escravos, os quais deveriam andar sempre descalços, como estava explícito no Código de Posturas de Icó do ano de 1872,  no qual os escravos, exceto pajens e criados, não poderiam usar calçados. Os donos que consentissem ficavam sujeitos a multa de 1$000 (mil Réis). 
Uma das primeiras providências dos escravos ao fugirem, era arranjar ou furtar sapatos, para passarem por libertos.

gargantilhas, algemas e outros instrumentos de tortura utilizados no tempo da escravidão (acervo do Museu do Ceará)
A fuga era um risco para o escravo, devido a possibilidade deste ser recapturado e castigado. A perspectiva de voltar ao cativeiro era trágica, fosse para os fugidos, fosse para os alforriados.
Os escravos eram bens importantes para seus senhores. Passavam de pais para filhos e eram alvos de acirradas disputas nos casos de separações e heranças. Em alguns casos os escravos eram a razão da separação dos casais. 
Quando visitou o Ceará, em 1893, o bispo de Pernambuco D. Diocesano, documentou o caso de José dos Santos, a quem o bispo teve de advertir para que deixasse o trato ilícito com uma escrava, já que era casado com uma mulher exemplar. 
No ano de 1837, em Quixeramobim, o escravo Francisco, tendo uma relação adúltera com sua senhora Joaquina, a pedido da amante matou a machadadas o marido desta, o português José de Azevedo. O escravo foi preso e condenado à morte na forca.  
Figura de proa da barca Laura II, cenário de um levante de escravos que culminou com a morte de toda a tripulação da embarcação, que seguia para São Luis. 
Os rebeldes foram capturados e trazidos para Fortaleza, onde foram julgados, condenados e enforcados em outubro de 1839 no Campo da Pólvora (atual Passeio Público).
 a peça pertence ao acervo do Museu do Ceará.

fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
Museu do Ceará
Biblioteca Virtual de Derecho, Economía y Ciencias Sociales 
disponível em
http://www.eumed.net/libros/2008a/372/TRAFICO%20DE%20ESCRAVOS.htm 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Água Recurso Renovável, mas Limitado


O planeta terra costuma ser chamado de planeta água. Pudera: cerca de 2/3 do planeta é coberto pelas águas. Os oceanos ocupam em torno de 70% da superfície e os continentes ficam com o resto. 
Desse fabuloso estoque, 97,5% é água salgada, está nos oceanos, imprópria para consumo; 2,493% estão nas geleiras ou são subterrâneas, estão indisponíveis ou são de difícil acesso e apenas 0,007% é água doce, disponível para o consumo. A distribuição dessa fração de 0,007% de água doce no planeta é bastante irregular e o Brasil detém quase 12% de toda água doce do mundo.
A água é um recurso natural renovável, devido ao processo de circulação no planeta, que realimenta o estoque, conhecido por Ciclo Hidrológico: 
Evaporação – a água evaporada dos diferentes ecossistemas, das atividades humanas é transportada até as  regiões mais altas da atmosfera e onde se condensa pela ação das baixas temperaturas; 
Precipitação – a água condensada cai em forma de chuva, neve ou granizo, dependendo da temperatura da atmosfera local; Parte da água infiltra-se no solo, formando corpos de água subterrâneos (poços rasos, artesianos, semi-artesianos, minas, fontes e drenos). 
Assim, na continuidade dessas fases, é que se garante a renovação do estoque de água doce utilizável no planeta.
É preciso observar que não há síntese de água que poderia aumentar gradativamente a sua quantidade; o que existe, é a reposição da quantidade estabelecida.
Mas o consumo no mundo é sempre crescente: nenhuma atividade se desenvolve sem água. A agricultura é a que mais demanda, em volume, os recursos hídricos. 
imagem: o globo
A produção de alimentos responde por 70,2% do consumo de água que provém dos mananciais. Em seguida os maiores usos são a produção industrial (22%)  e  o abastecimento humano (8%). Estes valores percentuais representam uma média mundial e variam muito de um país para outro. Nos países desenvolvidos, por exemplo, que tem ¾ de todas as terras irrigadas, o consumo na agricultura chega a 90%. 
Se as projeções da ONU sobre o crescimento populacional estiverem corretas, em 2030, o planeta terá uma população de 8,1 bilhões de pessoas. Isso implica que a oferta de alimentos terá que aumentar em cerca de 55%, o que elevará o volume de água usada na irrigação a níveis insustentáveis.
imagem: o globo
Depreende-se, portanto, que se não forem adotadas medidas urgentes contra o desperdício, e contra a poluição ambiental, e adotados modelos racionais de uso nas diversas atividades, poderemos em um futuro próximo, enfrentar sérios problemas de desabastecimento.
Hoje, cerca de 1,1 bilhões de pessoas sofrem com a dificuldade de acesso a mananciais de água potável. Anualmente 500 mil pessoas morrem na Índia devido ao consumo de água contaminada. O ritmo de consumo de água aumentou duas vezes mais que o crescimento da população, segundo dados da ONU.  
Atualmente, vários países enfrentam problemas com a falta de água, como
Kuwait, Israel, Jordânia, Arábia Saudita, Líbia, Iraque, Bélgica, Argélia, Cabo Verde, Etiópia, Iraque, Hungria, México, Estados Unidos, França, Espanha e outros, ou seja, em 26 países do planeta a seca é crônica.
seca na África
 Organismos internacionais alertam para o fato de que nos próximos 25 anos cerca de  2,8 bilhões de pessoas poderão viver em regiões com extrema falta de água, inclusive para o próprio consumo. Se a escassez de água atinge preferencialmente os mais pobres, mas não se deve ignorar o fato de que países desenvolvidos já figuram nessa lista, a exemplo dos Estados Unidos, França e muitos outros países da Europa, onde a quase totalidade dos rios está contaminada.
Muitos acreditam que os países podem entrar em guerra por causa dos recursos hídricos, pois estudos indicam que o consumo mundial de água dobra a cada 20 anos. A água tem sido considerada, no final deste século, um recurso escasso e estratégico, por questão de
segurança nacional e por seus valores social, econômico e ecológico.

Situação do Brasil

O Brasil é o grande reservatório de água do mundo, pois possui a maior reserva do planeta – 11,6% da água doce disponível estão no Brasil, que perfazem 53% dos recursos hídricos da América do Sul. 
Em média cada brasileiro possui 34 milhões de litros ao ano à sua disposição. Mas essa água é mal distribuída, uma vez que 80% encontram-se na Amazônia, onde vivem apenas 5% da população brasileira. Os 20% restantes abastecem 95% dos brasileiros.
Nos centros urbanos, os problemas de abastecimento estão diretamente relacionados ao crescimento da demanda, ao desperdício e à urbanização descontrolada – que atinge regiões de mananciais.
trecho navegável do Rio São Francisco entre os estados de Sergipe e Alagoas
 Na zona rural, os recursos hídricos também são explorados de forma irregular, além de parte da vegetação protetora da bacia (mata ciliar) ser destruída para a realização de atividades como agricultura, pecuária e maricultura. 
Não raro, agrotóxicos e dejetos utilizados nessas atividades também acabam por poluir a água. A baixa eficiência das empresas de abastecimento se associa ao quadro de poluição: as perdas na rede de distribuição por roubos e vazamentos atingem entre 40% e 60%, além de 64% das empresas não coletarem o esgoto gerado. 
bancos de areia no Rio São Francisco
O saneamento básico não é implementado de forma adequada, já que 90% dos esgotos domésticos e 70% dos afluentes industriais são jogados sem tratamento nos rios, açudes e águas litorâneas, o que tem gerado um nível de degradação nunca imaginado.
Mas a região do Brasil mais afetada pela escassez de água, é o Nordeste, onde os regimes pluviais são irregulares e grande parte de rios da região são temporários.
Esse é nosso próximo assunto.  

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Padre Cícero, 167 anos de nascimento

foto do blog Fortaleza em Fotos e Fatos

O dia 24 de março é o dia do aniversário do Padre Cícero Romão Batista, o patrono de  Juazeiro do Norte, e de toda a região do Cariri. 
Nascido no Crato, no ano de 1844, o padre está sendo festejado desde o último dia 18, quando teve inicio a semana de comemoração. A data tem também a marca especial do primeiro centenário de juazeiro. O tema da semana foi Juazeiro o Centenário, Terra de Oração e Trabalho.
Padre Cícero estudou no seminário da Prainha em Fortaleza, e foi ordenado sacerdote em 1870.  No ano seguinte foi convidado por colegas para passar uns dias em Juazeiro, uma vez que a localidade estava sem celebrante residente.  
A partir daí começou a história do padre e da futura cidade, uma história que mistura no mesmo caldeirão, fanatismo religioso, acusações de fraudes, milagres, proibições de exercer funções religiosas, perseguições, preconceitos, poder político, excomunhão, devoção.
Até hoje o milagre de Juazeiro gera polêmicas. 
Para os devotos de padre Cícero, não pairam dúvidas sobre sua autenticidade. A Igreja o recusa fortemente. 
Padre Cícero chegou a viajar para Roma, onde tentou recuperar suas funções na Igreja. Depois de uma longa espera, que durou nove meses, saiu a decisão do Santo Ofício: estavam mantidas as proibições de pregar, ministrar a confissão, aconselhar fiéis, etc. Mas lhe permitiram que voltasse para a sua cidade e  – dependendo do bispo cearense – poderia voltar a celebrar missa, menos em Juazeiro. 
Era uma tentativa para convencer o padre a sair da cidade, o que não aconteceu: Padre Cícero nunca abandonou o Juazeiro e a cidade nunca abandonou o Padre Cícero.
Nos últimos anos de vida o Padre vivia obcecado em recuperar os plenos poderes do sacerdócio, o que jamais conseguiu.
Oficialmente banido das hostes da Igreja Católica, que até hoje reluta em reabilitá-lo, a festa em comemoração ao 167° aniversário de nascimento, conta com a participação da igreja local, com missa e procissão em louvor ao santo de Juazeiro.

Para os milhões de fiéis devotos do Padre Cícero, provenientes de todo o Ceará e até de outros estados do Nordeste,  que inundam Juazeiro nessas ocasiões, não parece fazer muita diferença a questão hamletiana – do ser ou não ser – que há anos atormenta a alta cúpula da  Igreja Católica.
Para o povo nordestino, o Padim Padre  Cícero é um Santo.
 Vox populi, Vox Dei.