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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mestre Noza, o Imaginário


Travessa estreita próxima ao centro de Juazeiro. Do alto da janela a imagem do Padre Cicero observa o movimento da rua. Sob seus pés, uma escadinha quase vertical se balança atada a uma corrente de ferro, e por ela, o mestre galga todas as manhãs o pequeno sobrado. No andar de cima, móveis desgastados, alguns instrumentos de trabalho, toras e lascas de madeira brigam por espaço entre as paredes volumosas de onde pendem um grande relógio e o retrato de Lampião. Aproveitando a réstia de luz que entra pela janela, Inocêncio da Costa Níck, o Mestre Noza, trabalha.

Veias de sangue mouro e índio, cortando calos e músculos. Noza encalca a ponta dos dedos na banda cega do gume do canivete, e com sua lâmina abre dois vincos profundos no rosto de Padre Cícero. Em seguida, levanta os olhos e pega outra peça de imburana de espinho, arrancada da Serra de São Pedro, ali perto.

Padre Cícero por Mestre Noza (imagem: antiguinho.blogspot.com.br)

No Cariri chama-se de imaginário quem fabrica imagens. Noza é um deles, como um velho bruxo de mãos desmesuradas que trabalharam no cabo da enxada desde os dez anos. Em 1912 virou romeiro do Padim Ciço. De ofício experimentou a funilaria e a marcenaria, mas não deu certo. Até que, com 22 anos, um velho imaginário que tinha fama de louco lhe ensinou a esculpir imagens. Sua primeira escultura foi uma Santa Luzia. Trocou-a por um carneiro.

Um dia, contou Noza, um padre italiano chegou e viu um São Sebastião, disse – esse santo não existe, foram vocês que inventaram. Desde então, todos os santos são inventos do imaginário e Noza foi o primeiro a fazer uma estátua de Padre Cicero. Um dia, escolheu a mais bonita e foi mostrar para o Padim. O “santo” pegou a imagem e fez uma cara de quem está achando esquisito. Disse: “menino, eu já tenho essa corcunda assim?”

Juazeiro - 1911

Aprendeu Noza a fazer xilogravuras e abriu muitas capas de cordel, como a do homem do maxixe e a dos cantadores. “Eu faço Lampião, Maria Bonita e Antônio Conselheiro, nunca fui empregado de homem nenhum. Noza bate nos peitos e sorri meio sem jeito, e tenta explicar seus passeios noturnos “penso que na outra encarnação eu era um bicho da noite. Um bicho branco e muito bonito reluzindo no escuro, andando nos caminhos sem fim da mata e entrando pelas ruas esquecidas da cidade”.

Mestre Noza morreu em 1983, aos 86 anos de idade. 

fonte: O Ceará dos Anos 90 - Censo Cultural

         

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Antônio Villanova e Antônio Conselheiro

Nascido em Assaré, Antônio Villanova decidiu, ainda muito moço, emigrar para o interior da Bahia, no que foi acompanhado por sua esposa e por seu irmão Honório. Uma vez chegado ao destino, estabeleceu-se com pequeno e próspero negócio numa das cidades vizinhas do então florescente arraial de Canudos. O comércio começou a crescer, dando-lhe lucros satisfatórios e larga freguesia.

Arraial de Canudos, reduto de Antônio Conselheiro e seus fanáticos seguidores. Ficava em Belo Monte - BA 

Foi então que começaram a aparecer os fanáticos do Conselheiro, que lhe faziam descrições favoráveis da nova povoação, efetuavam compras vultosas e insistiam com ele para ir se estabelecer por lá. Seduzido pela esperança de fortuna e certo do bom acolhimento, mesmo pelas circunstâncias de ser também cearense o novo ídolo messiânico, Villanova acabou se instalando definitivamente no arraial agitado, onde se erguiam casas todos os dias do ano e onde o comércio era deveras promissor.

Arraial de Canudos

Com o passar do tempo, tornou-se Canudos uma praça de guerra e, como sua ascendência sobre os jagunços já se fizera sentir de modo insofismável sobre ele, bem a seu pesar recaiu o voto dos principais no sentido de assumir o comando de determinado setor das operações militares, além de uma espécie de juizado de paz sobre a cidade rebelde.

Passaram, no entanto, os tempos favoráveis das vitórias espetaculares dos insurretos sobre as forças do Estado, e sucederam-lhe os tempos difíceis de fatal decadência em que, pouco a pouco, foi se apagando a estrela do Conselheiro e da revolução chefiada por ele. Já a maioria das construções de Canudos haviam sido destruídas. O cerco levado a efeito pelas forças legais assumia caráter cada vez mais definitivo, enquanto a fome e a sede completavam os horrores sofridos pelos bravos guerrilheiros, bem dignos de outro ideal.

Quando, ao atravessar o arraial para a igreja nova, recebeu o Conselheiro a bala que o pôs de cama e mais tarde o matou, aos olhos dos demais, morreu ali, a última esperança. A vista do grande dilema – fugir ou esperar pelo próximo ataque – Villanova optou pela primeira alternativa.

Antes, porém, fiel às suas tradições de lealdade, foi conversar com o endeusado profeta. Fez-lhe ver o esgotamento geral; alegou os serviços prestados à revolução, só para não desmerecer da confiança nele depositada, sem o menor ardor messiânico dos outros. Invocou o triste estado da família, literalmente morrendo de fome, sendo ainda de notar que o irmão Honório, ferido e inválido, exigia cuidados especiais. Feita a exposição, pediu-lhe licença para ir embora.

os seguidores do Conselheiro foram feitos prisioneiros, depois do ataque a Canudos

Partiria à meia noite, quando todos estivessem adormecidos. Atravessariam a zona perigosa pelo leito do rio que banhava a cidade; e se a sorte lhe fosse favorável, voltariam ao Ceará, para nunca mais se arriscarem por terras estranhas...– Faça sua viagem, concedeu Antônio Conselheiro, cuja voz de tão alquebrada já parecia sair da eternidade. 

Depois de haver montado o ferido num jumento, partiram os fugitivos, pisando de mansinho e contendo a própria respiração, receosos de ser descobertos pelos soldados do governo, que já ocupavam a margem oposto do rio. Não era pequeno o risco de serem abatidos ali mesmo, como rezes no bebedouro. Viajaram vários, intermináveis dias, na expectativa de um encontro indesejado, caatinga adentro, pelo leito dos córregos ou pelas veredas do gado. Quando se viram fora da zona de perigo e alcançaram o solo pernambucano, tinham as roupas em farrapos e os pés em carne viva.

Assaré em épocas distintas com a Igreja matriz de N. S. das Dores (fotos IBGE-anos 50 e Vânia Dias- atual)

Chegando a Assaré, recolheu-se Antônio Villanova à propriedade onde viviam seus parentes e ali, esquecido do mundo, viveu até 1913. A esse tempo foi lhe bater à porta um emissário de Floro Bartolomeu, levando uma carta do Padre Cícero que pedia sua presença, com urgência em Juazeiro. Achava-se o Juazeiro em véspera de proclamar a inconfidência que apeou do poder o governador Franco Rabelo e dali se alastrou por todo o Estado.

Floro Bartolomeu, no centro da foto 

Queria-o o político baiano para liderança dos sertanejos inexperientes que iam partir para a luta, como também para dirigir o serviço de defesa em que Canudos tanto se havia distinguido. Antônio Villanova foi irredutível. Nunca mais empunharia arma contra o governo, fosse onde fosse. O que fez foi dar, ante os insistentes pedidos, algumas noções práticas do sistema de valados que logo circundaram a cidade rebelada e que admiravelmente a guarneceram naquele instante decisivo da história do Ceará.

Cumprida a missão Villanova regressou à terra natal, incógnito como tinha saído, para nunca mais dar o ar da graça fora de Assaré. Era, todavia, um homem leal, bravo, circunspecto e diligente, à altura, portanto, de uma grande responsabilidade.

Fonte: Villanova e Antônio Conselheiro, do Padre Azarias Sobreira 
Publicado na Revista do Instituto do Ceará – 1948 
fotos da Internet

terça-feira, 4 de julho de 2017

A Queda do Coronel

Nertan Macedo

Esta é a história de um pacto de coronéis sertanejos, celebrados no Juazeiro, do Padre Cícero, no ano longínquo de 1911. O assunto é puxado a rosário, rifle e punhal, temperos de quem gosta e se dispõe a saborear esses componentes da saga nordestina.

Há muitos anos, governava o Ceará um poderoso chefe da oligarquia local, Antônio Pinto Nogueira Accioly, eleito senador nos últimos dias da Monarquia. Com o súbito advento da república no Brasil, o velho Accioly não chegou a ser empossado. Mas, como astuto cacique provinciano, ele  esperou pacientemente, que fossem amainadas as paixões dos primeiros tempos republicanos, para novamente se apoderar das rédeas do situacionismo no Estado.


Nogueira Accioly, no centro, de cartola e camisa clara, em visita ao Rio de Janeiro, ao lado de correligionários e familiares - 1910   

Governando-o longamente, ora sentado ele próprio na cadeira do príncipe, como chefe do executivo, ora através de prepostos por ele indicados, graças ao apoio de um bem montado sistema composto de chefes sertanejos, amigos e parentes caudilhescos.
Mas, como diz o velho ditado, não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. A demorada oligarquia dos Accioly terminou por cansar o povo e a paisagem do Ceará. De resto, em todas as capitais do país, onde esses chefões prosperavam, o descontentamento e a revolta começaram a dar seus primeiros sinais. E onde havia maior liberdade de imprensa e muita surra em jornalistas desabusados, a virada começou a acontecer.

O Governo Federal, a quem não se pode negar certo faro nos momentos de exaustão popular, tomou afinal uma decisão: abandonar momentaneamente os chefões oligarcas à fúria da população. Assim, os terríveis coronéis do sertão, sentindo enfraquecer o apoio do poder central, encolheram-se e adocicaram-se. Mas o Dr. Accioly não era homem de amolecimentos e teve de ser deposto à bala pelos revoltosos de Fortaleza.
Escapando ao tiroteio, retirou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a viver num ameno exílio, tipo belle époque, cercado de correligionários que a ele se vieram juntar e chegando mesmo a usufruir de alguma influência junto ao Presidente da República.

Enquanto isso os coronéis do interior do Ceará, inspirados pelo carismático Padre Cícero, haviam feito um pacto no sentido de manter os ameaçados feudos oligárquicos no Estado. A 14 de julho de 1912, em substituição ao deposto Accioly, assume o governo, o Coronel do Exército Marcos Franco Rabelo, homem culto, de convicções democráticas. Foi recebido com entusiasmo pela população de Fortaleza, que logo o batizou de libertador. Tornou-se em pouco tempo muito estimado na capital.


manifestação popular pela posse do coronel Franco Rabelo, vendo-se a Rua General Sampaio em frente ao prédio do Tiro de Guerra - 1912

Mas o coronel Franco Rabelo, inspirado nos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, exagerou na sua campanha pelo aperfeiçoamento democrático no interior do Estado. Enquanto em Fortaleza o povo cada vez mais se entusiasmava com o Libertador Franco Rabelo, os coronéis, acuados no sertão, rilhavam os dentes, instigados pelo Padre Cícero.

Franco Rabelo decide agir duramente no interior. Manda seus soldados desarmar e prender cangaceiros. Pela primeira vez alguns chefes locais, ricos e cheios de prestigio, foram processados e compareceram a júri. Os coronéis inquietos, organizaram nos bastidores, um pequeno mas decidido núcleo de oposição ao bravo coronel, com fumaças de governante civilizado.


em 1912 foi lançada uma nova marca de cigarros, Libertador, com a imagem do governador Franco Rabelo. 

Acontece, porém, que Franco Rabelo escorrega numa casca de banana. Recusa apoio ao General Pinheiro Machado, candidato do próprio Presidente da República ao Palácio do Catete. E nessa época, o Presidente Hermes da Fonseca diz, abertamente, a um grupo de parlamentares: para o Franco Rabelo eu tenho muito pau, de agora em diante!

A esta altura dos acontecimentos, o ágil Padre Cícero, acolitado pelo médico e caudilho Floro Bartolomeu – seu primeiro ministro da caatinga – e mais os coronéis signatários do pacto de 1911, organizam um temível exército de cangaceiros, com armas contrabandeadas e – pasmem – apoio federal, para marchar sobre Fortaleza à maneira dos invasores visigodos.


Padre Cícero, ao lado de amigos e correligionários.

No Rio, em vão, o senador Rui Barbosa ataca o Padre Cícero, comparando-o a Antônio Conselheiro, e chamando-o de caudilho tonsurado. Os cangaceiros do Padre e dos Coronéis amotinados nem sabem quem é Rui Barbosa e já passeiam, ferozes, pelas ruas de Fortaleza, armados de rifles e punhais – sem esquecer seus rosários, pendurados no pescoço – provocando verdadeiro terror na população. E no meio dessa turba, incrível como pareça, circulavam aventureiros estrangeiros, fantasiados de jagunços nordestinos. 

Componentes do exército de Padre Cícero

Há uma narrativa de Rodolfo Teófilo que diz bem dessa multinacional revolucionária: “A Fortaleza chegaram um alemão, dois italianos, alguns turcos e árabes e um uruguaio, o célebre Dom César, um perito em arrombamentos de cofres”.
Era o Exército Popular do Padre Cicero. Todo o interior do Estado já estava nas mãos da jagunçada do patriarca. Arma-se ainda o povo da capital para defender seu governador. Os marítimos vão ao palácio e juram morrer pelo coronel. Nada assegura mais a legalidade. Franco Rabelo está perdido e sitiado por sertanejos barbudos, bandoleiros que lutam pelo Padre Cícero sob a proteção de Nossa Senhora das Dores.

O epílogo é digno de um romance de Jorge Amado ou Gabriel Garcia Marquez. Franco Rabelo abandona o Palácio do Governo, fardado, sob intensa aclamação do povo da capital. Dispensa, no entanto, a espada que deveria carregar à cinta. Prefere levar na mão um exemplar da Constituição Brasileira, um exemplar anotado pelo erudito João Barbalho. 
Foi-se para sempre o Libertador Franco Rabelo. Ao que tudo indica, não conhecia o Ceará. Nem o Brasil.

Crônica de Nertan Macedo, publicada em jornal de Brasilia.
fotos: arquivo Nirez, livro Memórias do Comércio e jornal O Estado.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Benjamin Abraão – O Polêmico Secretário do Padre Cícero



Ele foi tido como conterrâneo de Jesus e, por isso mesmo, um segundo enviado de Deus quando chegou a Juazeiro do Norte, no Ceará, e se apresentou como o homem que nasceu em Belém, na Terra Santa. O nome? Benjamin Abrahão. O sírio caiu nas graças do religioso mais famoso do Nordeste, o Padre Cícero, e logo se tornou seu secretário pessoal. Daí em diante, Abrahão se fez na vida. Pois, apesar de ter sido considerado um santo, soube aproveitar as oportunidades para colocar em prática as malandragens dos homens de carne e osso, chegando a ser fotógrafo particular de Lampião para ganhar uns tostões.



Esse sírio – chamado de turco pelos inimigos – chegou ao Brasil com 14 anos, em 1915. Veio fugido das perseguições do Império Otomano pela qual passava a Síria, e da ação sanguinária do general Jamal Pachá, que alistava jovens como Benjamin no Exército. Foi morar com uns parentes distantes, os Elihimas, no Recife, que por sua vez faziam a vida vendendo miudezas no comércio. Virou caixeiro-viajante e começou a explorar a credulidade do povo: contava sua vida na Terra Santa e, entre uma história e outra, vendia os produtos. 

Depois de dois anos perambulando pelo sertão, ele se deparou com um grupo de  romeiros indo a Juazeiro para receber a bênção de Padre Cícero. Decidiu se juntar a eles e, quando chegou, o padre reconheceu Abrahão como diferente em meio a tantos caboclos. Porque era um indivíduo branco, meio alourado e bem mais alto que a média. 

A beata Mocinha (Joana Tertuliana de Jesus, secretária e tesoureira do padre Cícero) se aproximou, a mando do padre, para saber de onde vinha o forasteiro. O sotaque estrangeiro o denunciou e foi aclamado por todos quando disse que vinha da Terra Santa. “Padre Cícero se dirige aos fiéis e diz: meus amiguinhos, Benjamin que está aqui é conterrâneo de Jesus”, afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello.



Bastaram 15 dias para Abrahão se converter e ser nomeado secretário pessoal do padre. A beata Mocinha era chefe de uma ordem que tinha por objetivo arrecadar donativos para mandar aos padres que cuidavam do Santo Sepulcro na Terra Santa. A presença de Abrahão ali, então, era como uma purificação para a casa. 

O sírio foi esperto. Já no início, ele se declarou ourives e passou a cuidar das joias do religioso. Não demorou a prosperar na vida: comprou ternos de casimira inglesa e gravata de seda pura. Algumas testemunhas contavam que ele cuidava de joias belíssimas que deviam ser de Padre Cícero.


Rua de Juazeiro na década de 1920
 
Para Benjamim Abraão, os anos de 1917 a 1934 – tempo em que viveu ao lado do padrinho – nunca mais seriam os mesmos. Abrahão virou um homem da sociedade.A morte do Padre Cícero, aos 90 anos, fez com que Benjamin caísse em desespero. O padre era o ganha pão do sírio. Para salvar o bolso, então, ele filmou o enterro do padre para a Aba film e, malandro, abriu as portas para depois oferecer à mesma Aba film uma película (e fotos) de Lampião e de seu bando – já que desde 1930 o jornal New York Times noticiava as muitas façanhas de Lampião.

Abrahão tinha, estranhamente, uma credencial de jornalista quando chegou ao Brasil, escrita em francês. Em certa ocasião conheceu o pioneiro do cinema no Brasil, Ademar Albuquerque, que mais tarde criou a Aba Film. Conseguiu filmadora, tripé e uma máquina fotográfica e foi atrás do grupo, pois já conhecia Lampião de uma visita que o cangaceiro fez ao Padre Cícero em 1926, no Juazeiro.




Lampião não apenas fez pose para a foto como chamou o bando de todo o Nordeste para se reunir na filmagem. O resultado:  Noventa fotos de qualidade heterogênea e um filme de 35 mm (hoje restam 15 minutos dele na Cinemateca Brasileira) em que Lampião é transformado em garoto propaganda da Bayer, que patrocinou o filme. Alegremente agitado, ele diz na gravação que até Lampião usa cafiaspirina quando tem dor de cabeça...

Abraão morreu em 1938, em Serra Talhada (PE), assassinado com quarenta e duas punhaladas, sem que o crime jamais viesse a ser esclarecido, tanto na autoria como na motivação, donde se especula ter sido mais uma das mortes arquitetadas pelo Estado Novo uma vez que o sírio teve seus trabalhos apreendidos pela ditadura de Getúlio Vargas, que nele viu um antagonista do regime. Mas também existe a versão de que o fotógrafo sírio-libanês teria sido vítima de um ladrão, apesar de com este nada de valor haver. 


fontes:
Benjamin Abrahão, Entre Anjos e Cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello. Ed. Escrituras. 352 páginas.
wikipédia 
fotos Aba Film

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Beata Maria Araújo e o Milagre de Juazeiro


Sertão cearense, 1889. A angústia marcava o rosto da população com a chegada de março e sem sinal de chuva. Temia-se que aquele seria mais um ano de seca – que foi de fato. Em Juazeiro do Norte, beatas varavam noites clamando aos céus para livrar o povo de mais uma estiagem. Entre as mulheres, havia uma,  humilde, de 28 anos, frágil, solteira, mestiça com predominância do negro, estatura mediana, analfabeta, chamada Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo. 

 Casa onde morou o Padre Cícero 

Por volta das 5 horas da manhã do dia 1° de março de 1889, Padre Cícero, com pena das beatas cansadas, resolveu lhes dar logo a comunhão, a fim de que pudessem retornar às suas casas e repousar um pouco antes da missa matutina. A primeira a comungar foi Maria de Araújo. Quando o padre colocou a hóstia sobre a língua da beata, esta veio ao solo de forma inexplicável, em transe. Socorrida, verificou-se que a hóstia vertia sangue na boca da mulher. Era um milagre! 

Maria de Araújo

O fenômeno se repetiu várias vezes nas semanas seguintes. O Padre Cícero calou-se  e manteve o ocorrido em segredo. Mas a notícia logo se espalhou e chegou ao conhecimento do reitor do Seminário do Crato, monsenhor Francisco Monteiro, que resolveu organizar em julho de 1889, uma romaria com mais de três mil pessoas com a intenção de observar o fenômeno. O milagre de Juazeiro tornara-se público. 

Dom Joaquim José Vieira, bispo do Ceará entre 1884 e 1912

Dada a enorme repercussão do fato, o bispo Dom Joaquim, de Fortaleza, convocou Padre Cícero com urgência e, após interroga-lo, rejeita a ideia de que a hóstia se transformara no sangue de Cristo. Determina que o sacerdote e outros padres, igualmente  crentes no milagre, neguem em público a existência do fenômeno e que cessassem imediatamente com a veneração dos panos manchados de sangue, os quais haviam sido colocados dentro de uma urna de vidro no altar da capela de Juazeiro. 

Rua de Juazeiro nos anos 50

Por conta do milagre, tanto o Padre Cícero quanto a beata foram duramente combatidos pela cúpula da igreja que não reconhecia a autenticidade do fenômeno. A beata foi deslocada para a cidade de Barbalha e Padre Cícero, foi denunciado e julgado pelo Santo Ofício, em Roma que manteve as sanções que já haviam sido aplicadas ao sacerdote pelo bispo local: condenação do milagre, proibição de pregar, ouvir confissões, aconselhar fiéis, ministrar comunhão, etc; mas lhe permitiu regressar para Juazeiro e, dependendo da concordância do bispo cearense, voltar a celebra missa. Padre Cícero retornou a Juazeiro em dezembro de 1898. O bispo D. Joaquim temendo uma revolta popular, concedeu licença para o padre celebrar missas, menos em Juazeiro e nas vizinhanças. O sacerdote jamais conseguiria se reconciliar com a igreja.


Rua Padre Cícero, onde morou e ficou isolada em sua própria casa, por ordem do bispo Dom Joaquim, a beata Maria de Araújo

A beata Maria de Araújo ficou a partir de 1892, por ordem de Dom Joaquim, o bispo da época, segregada dentro de sua própria casa, sem poder receber visitas.  Era também proibida de falar sobre as suas visões e estigmas. Passou por julgamentos, exames de cientistas, e não deixou de negar as suas convicções em relação ao sangue que expelia de sua boca, ser algo sobrenatural. Ela dizia conversar com Jesus. Até o final de sua vida, a mulher negra, pobre, costureira, beata, permaneceu em sua casa no final da rua Padre Cícero, no Centro de Juazeiro, antiga rua do Arame.

 Capela do Socorro em 1941 

Quando faleceu, em 1914, foi sepultada em um túmulo branco à direita da entrada da capela do Socorro, mas devido a movimentação constante de romeiros no local, a igreja foi fechada por ordem do bispo. Quando foi reaberta, veio a surpresa: o túmulo da beata fora violado e seus restos mortais desapareceram. O mistério do desaparecimento perdura até os dias atuais. 


Monumento ao Romeiro

Ainda hoje o milagre de Juazeiro provoca polêmica. Para os milhares de devotos do padre Cícero, não restam dúvidas sobre a autenticidade;  já a Igreja Católica, o recusou fortemente. Há quem afirme ser o chamado milagre um fenômeno paranormal, fruto da fé exacerbada da beata Maria Araújo. Levantou-se ainda hipótese da beata ser portadora de alguma doença (infecção bucal ou no estômago), o que não tem fundamento, tendo em vista que a mulher foi examinada por vários médicos, que nada  encontraram. 

João Teles Marrocos

No entanto, o argumento mais forte contra o milagre de Juazeiro envolve João Teles Marrocos, primo do Padre Cícero. Marrocos nasceu no Crato em 1849, filho do Pe. João Marrocos Teles com uma escrava negra. Professor e jornalista, foi um dos mais destacados participantes da campanha abolicionista de 1884. Teve na vida uma grande frustração: não ter se ordenado padre, expulso do seminário em razão de sua origem “escandalosa”. Apesar disso, manteve-se como católico fervoroso, dedicando-se às orações, auxílios aos pobres e assuntos da Igreja. Colocou todo seu talento jornalístico a serviço da propaganda e defesa dos fatos de Juazeiro, escrevendo vários artigos na imprensa nacional. 

Acusam Marrocos de ser o autor intelectual do milagre. Fora ele, de fato, quem furtara uma urna de vidro no Crato, contendo os restos da hóstia e os panos manchados de sangue. Guardou esses bens como uma verdadeira relíquia sagrada, enfrentando a excomunhão da Igreja. Com o seu falecimento em 1910, a urna foi encontrada no espólio pelo juiz Raul de Sousa Carvalho, junto com um livro escrito em francês ensinando a fazer tinturas químicas, o qual teria sido utilizado pelo falecido, para transformar as hóstias em sangue. 

Ao que parece, Marrocos haveria forjado o milagre para unir os fiéis em torno da igreja naqueles tempos conturbados de seca e de passagem para a República, laica e positivista. Os defensores do milagre reagem contra essa versão. Observam que a notícia da descoberta da urna só se tornou pública em 1953, quando o juiz Carvalho publicou artigo em um jornal de Fortaleza. O jurista não informou, porém, o nome do livro de química. Especula-se que poderia ser D’Analyse Chimique. Mas este livro só seria publicado em 1903, depois, portanto, do fenômeno. Para os adeptos do Padre Cícero, Marrocos usava o livro apenas para saber se era possível fazer a transformação pela ciência e escondeu os paninhos não por temer a descoberta de uma possível farsa, mas por temer que a prova da santidade fosse destruída ao cair em mãos inimigas. 

Dia de Feira

Não estava longe de fato da verdade. A urna acabou sendo passada para Padre Cícero que a guardou na casa de uma beata de Juazeiro. Em 1948, a professora Amália Xavier, na expectativa de mostrar Juazeiro como uma terra obediente ao Clero, entregou os panos ao monsenhor Joviniano Barreto, então vigário da cidade. Este religioso imediatamente mandou queimar a urna, como se tentasse jogar o milagre nas malhas do esquecimento, o que obviamente, não aconteceu.  

extraído do livro de Aírton de Farias
História do Ceará 
fotos: IBGE e jornal O Nordeste