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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Antônio Villanova e Antônio Conselheiro

Nascido em Assaré, Antônio Villanova decidiu, ainda muito moço, emigrar para o interior da Bahia, no que foi acompanhado por sua esposa e por seu irmão Honório. Uma vez chegado ao destino, estabeleceu-se com pequeno e próspero negócio numa das cidades vizinhas do então florescente arraial de Canudos. O comércio começou a crescer, dando-lhe lucros satisfatórios e larga freguesia.

Arraial de Canudos, reduto de Antônio Conselheiro e seus fanáticos seguidores. Ficava em Belo Monte - BA 

Foi então que começaram a aparecer os fanáticos do Conselheiro, que lhe faziam descrições favoráveis da nova povoação, efetuavam compras vultosas e insistiam com ele para ir se estabelecer por lá. Seduzido pela esperança de fortuna e certo do bom acolhimento, mesmo pelas circunstâncias de ser também cearense o novo ídolo messiânico, Villanova acabou se instalando definitivamente no arraial agitado, onde se erguiam casas todos os dias do ano e onde o comércio era deveras promissor.

Arraial de Canudos

Com o passar do tempo, tornou-se Canudos uma praça de guerra e, como sua ascendência sobre os jagunços já se fizera sentir de modo insofismável sobre ele, bem a seu pesar recaiu o voto dos principais no sentido de assumir o comando de determinado setor das operações militares, além de uma espécie de juizado de paz sobre a cidade rebelde.

Passaram, no entanto, os tempos favoráveis das vitórias espetaculares dos insurretos sobre as forças do Estado, e sucederam-lhe os tempos difíceis de fatal decadência em que, pouco a pouco, foi se apagando a estrela do Conselheiro e da revolução chefiada por ele. Já a maioria das construções de Canudos haviam sido destruídas. O cerco levado a efeito pelas forças legais assumia caráter cada vez mais definitivo, enquanto a fome e a sede completavam os horrores sofridos pelos bravos guerrilheiros, bem dignos de outro ideal.

Quando, ao atravessar o arraial para a igreja nova, recebeu o Conselheiro a bala que o pôs de cama e mais tarde o matou, aos olhos dos demais, morreu ali, a última esperança. A vista do grande dilema – fugir ou esperar pelo próximo ataque – Villanova optou pela primeira alternativa.

Antes, porém, fiel às suas tradições de lealdade, foi conversar com o endeusado profeta. Fez-lhe ver o esgotamento geral; alegou os serviços prestados à revolução, só para não desmerecer da confiança nele depositada, sem o menor ardor messiânico dos outros. Invocou o triste estado da família, literalmente morrendo de fome, sendo ainda de notar que o irmão Honório, ferido e inválido, exigia cuidados especiais. Feita a exposição, pediu-lhe licença para ir embora.

os seguidores do Conselheiro foram feitos prisioneiros, depois do ataque a Canudos

Partiria à meia noite, quando todos estivessem adormecidos. Atravessariam a zona perigosa pelo leito do rio que banhava a cidade; e se a sorte lhe fosse favorável, voltariam ao Ceará, para nunca mais se arriscarem por terras estranhas...– Faça sua viagem, concedeu Antônio Conselheiro, cuja voz de tão alquebrada já parecia sair da eternidade. 

Depois de haver montado o ferido num jumento, partiram os fugitivos, pisando de mansinho e contendo a própria respiração, receosos de ser descobertos pelos soldados do governo, que já ocupavam a margem oposto do rio. Não era pequeno o risco de serem abatidos ali mesmo, como rezes no bebedouro. Viajaram vários, intermináveis dias, na expectativa de um encontro indesejado, caatinga adentro, pelo leito dos córregos ou pelas veredas do gado. Quando se viram fora da zona de perigo e alcançaram o solo pernambucano, tinham as roupas em farrapos e os pés em carne viva.

Assaré em épocas distintas com a Igreja matriz de N. S. das Dores (fotos IBGE-anos 50 e Vânia Dias- atual)

Chegando a Assaré, recolheu-se Antônio Villanova à propriedade onde viviam seus parentes e ali, esquecido do mundo, viveu até 1913. A esse tempo foi lhe bater à porta um emissário de Floro Bartolomeu, levando uma carta do Padre Cícero que pedia sua presença, com urgência em Juazeiro. Achava-se o Juazeiro em véspera de proclamar a inconfidência que apeou do poder o governador Franco Rabelo e dali se alastrou por todo o Estado.

Floro Bartolomeu, no centro da foto 

Queria-o o político baiano para liderança dos sertanejos inexperientes que iam partir para a luta, como também para dirigir o serviço de defesa em que Canudos tanto se havia distinguido. Antônio Villanova foi irredutível. Nunca mais empunharia arma contra o governo, fosse onde fosse. O que fez foi dar, ante os insistentes pedidos, algumas noções práticas do sistema de valados que logo circundaram a cidade rebelada e que admiravelmente a guarneceram naquele instante decisivo da história do Ceará.

Cumprida a missão Villanova regressou à terra natal, incógnito como tinha saído, para nunca mais dar o ar da graça fora de Assaré. Era, todavia, um homem leal, bravo, circunspecto e diligente, à altura, portanto, de uma grande responsabilidade.

Fonte: Villanova e Antônio Conselheiro, do Padre Azarias Sobreira 
Publicado na Revista do Instituto do Ceará – 1948 
fotos da Internet

terça-feira, 4 de julho de 2017

A Queda do Coronel

Nertan Macedo

Esta é a história de um pacto de coronéis sertanejos, celebrados no Juazeiro, do Padre Cícero, no ano longínquo de 1911. O assunto é puxado a rosário, rifle e punhal, temperos de quem gosta e se dispõe a saborear esses componentes da saga nordestina.

Há muitos anos, governava o Ceará um poderoso chefe da oligarquia local, Antônio Pinto Nogueira Accioly, eleito senador nos últimos dias da Monarquia. Com o súbito advento da república no Brasil, o velho Accioly não chegou a ser empossado. Mas, como astuto cacique provinciano, ele  esperou pacientemente, que fossem amainadas as paixões dos primeiros tempos republicanos, para novamente se apoderar das rédeas do situacionismo no Estado.


Nogueira Accioly, no centro, de cartola e camisa clara, em visita ao Rio de Janeiro, ao lado de correligionários e familiares - 1910   

Governando-o longamente, ora sentado ele próprio na cadeira do príncipe, como chefe do executivo, ora através de prepostos por ele indicados, graças ao apoio de um bem montado sistema composto de chefes sertanejos, amigos e parentes caudilhescos.
Mas, como diz o velho ditado, não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. A demorada oligarquia dos Accioly terminou por cansar o povo e a paisagem do Ceará. De resto, em todas as capitais do país, onde esses chefões prosperavam, o descontentamento e a revolta começaram a dar seus primeiros sinais. E onde havia maior liberdade de imprensa e muita surra em jornalistas desabusados, a virada começou a acontecer.

O Governo Federal, a quem não se pode negar certo faro nos momentos de exaustão popular, tomou afinal uma decisão: abandonar momentaneamente os chefões oligarcas à fúria da população. Assim, os terríveis coronéis do sertão, sentindo enfraquecer o apoio do poder central, encolheram-se e adocicaram-se. Mas o Dr. Accioly não era homem de amolecimentos e teve de ser deposto à bala pelos revoltosos de Fortaleza.
Escapando ao tiroteio, retirou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a viver num ameno exílio, tipo belle époque, cercado de correligionários que a ele se vieram juntar e chegando mesmo a usufruir de alguma influência junto ao Presidente da República.

Enquanto isso os coronéis do interior do Ceará, inspirados pelo carismático Padre Cícero, haviam feito um pacto no sentido de manter os ameaçados feudos oligárquicos no Estado. A 14 de julho de 1912, em substituição ao deposto Accioly, assume o governo, o Coronel do Exército Marcos Franco Rabelo, homem culto, de convicções democráticas. Foi recebido com entusiasmo pela população de Fortaleza, que logo o batizou de libertador. Tornou-se em pouco tempo muito estimado na capital.


manifestação popular pela posse do coronel Franco Rabelo, vendo-se a Rua General Sampaio em frente ao prédio do Tiro de Guerra - 1912

Mas o coronel Franco Rabelo, inspirado nos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, exagerou na sua campanha pelo aperfeiçoamento democrático no interior do Estado. Enquanto em Fortaleza o povo cada vez mais se entusiasmava com o Libertador Franco Rabelo, os coronéis, acuados no sertão, rilhavam os dentes, instigados pelo Padre Cícero.

Franco Rabelo decide agir duramente no interior. Manda seus soldados desarmar e prender cangaceiros. Pela primeira vez alguns chefes locais, ricos e cheios de prestigio, foram processados e compareceram a júri. Os coronéis inquietos, organizaram nos bastidores, um pequeno mas decidido núcleo de oposição ao bravo coronel, com fumaças de governante civilizado.


em 1912 foi lançada uma nova marca de cigarros, Libertador, com a imagem do governador Franco Rabelo. 

Acontece, porém, que Franco Rabelo escorrega numa casca de banana. Recusa apoio ao General Pinheiro Machado, candidato do próprio Presidente da República ao Palácio do Catete. E nessa época, o Presidente Hermes da Fonseca diz, abertamente, a um grupo de parlamentares: para o Franco Rabelo eu tenho muito pau, de agora em diante!

A esta altura dos acontecimentos, o ágil Padre Cícero, acolitado pelo médico e caudilho Floro Bartolomeu – seu primeiro ministro da caatinga – e mais os coronéis signatários do pacto de 1911, organizam um temível exército de cangaceiros, com armas contrabandeadas e – pasmem – apoio federal, para marchar sobre Fortaleza à maneira dos invasores visigodos.


Padre Cícero, ao lado de amigos e correligionários.

No Rio, em vão, o senador Rui Barbosa ataca o Padre Cícero, comparando-o a Antônio Conselheiro, e chamando-o de caudilho tonsurado. Os cangaceiros do Padre e dos Coronéis amotinados nem sabem quem é Rui Barbosa e já passeiam, ferozes, pelas ruas de Fortaleza, armados de rifles e punhais – sem esquecer seus rosários, pendurados no pescoço – provocando verdadeiro terror na população. E no meio dessa turba, incrível como pareça, circulavam aventureiros estrangeiros, fantasiados de jagunços nordestinos. 

Componentes do exército de Padre Cícero

Há uma narrativa de Rodolfo Teófilo que diz bem dessa multinacional revolucionária: “A Fortaleza chegaram um alemão, dois italianos, alguns turcos e árabes e um uruguaio, o célebre Dom César, um perito em arrombamentos de cofres”.
Era o Exército Popular do Padre Cicero. Todo o interior do Estado já estava nas mãos da jagunçada do patriarca. Arma-se ainda o povo da capital para defender seu governador. Os marítimos vão ao palácio e juram morrer pelo coronel. Nada assegura mais a legalidade. Franco Rabelo está perdido e sitiado por sertanejos barbudos, bandoleiros que lutam pelo Padre Cícero sob a proteção de Nossa Senhora das Dores.

O epílogo é digno de um romance de Jorge Amado ou Gabriel Garcia Marquez. Franco Rabelo abandona o Palácio do Governo, fardado, sob intensa aclamação do povo da capital. Dispensa, no entanto, a espada que deveria carregar à cinta. Prefere levar na mão um exemplar da Constituição Brasileira, um exemplar anotado pelo erudito João Barbalho. 
Foi-se para sempre o Libertador Franco Rabelo. Ao que tudo indica, não conhecia o Ceará. Nem o Brasil.

Crônica de Nertan Macedo, publicada em jornal de Brasilia.
fotos: arquivo Nirez, livro Memórias do Comércio e jornal O Estado.