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quinta-feira, 27 de março de 2014

Redenção, o Rosal da Liberdade e a Fazenda Gurguri

Em Redenção, três frondosas tamarineiras testemunharam que ali a Vila, então Acarape, antecipou-se ao Brasil na Abolição da Escravatura, exatamente por seis anos. Sob a copa das velhas árvores, onde castigos eram infligidos aos negros, a libertação dos escravos foi comemorada pela primeira vez em terras cearenses e não faltaram discursos, passeatas e festejos. A partir de então, a Vila, depois município, passou a se chamar redenção e ganhou o cognome de “Rosal da Liberdade”.

 
 casa grande da Fazenda Gurguri

Além das árvores centenárias, uma sala no hoje Grupo escolar Pe. Saraiva Leão, situado na mesma praça, guarda a memória de inesquecíveis acontecimentos. Nela eram realizadas as ruidosas reuniões da Sociedade Libertadora Acarapense, nas quais eram urdidos os planos contra os escravocratas.


Histórias verdadeiras ou lendárias correm na cidade, sobre a época em que os negros eram considerados bichos e os brancos seus senhores de vida e morte. Uma delas passou-se na Fazenda Gurguri, situada não muito distante da sede do município. A fazenda ainda existe com algumas modificações, posto que agora é também uma pousada.
Casa-Grande típica, paredes de meio metro de largura, capela, tronco para amarrar escravos, engenho de cana, casa de farinha, no amplo alpendre um sino de bronze para a chamada ao trabalho e um enorme muro de pedras construído pelos escravos lembram que ali o número deles era grande.

 Morro Cabeça de Negro

Conta-se que seu antigo proprietário José Bento, após surrar a mulher de um dos seus escravos, Nego Chico, foi assassinado por ele. Depois de matar o amo, Nego Chico refugiou-se num serrote, atrás da fazenda. Perseguido e na iminência de ser  capturado, decidiu-se pelo suicídio, saltando do alto de um penhasco. Em alusão ao fato, o serrote passou a denominar-se Cabeça de Negro e seu vulto enorme, cercando a fazenda, parece querer lembrar o drama do escravo fugido.  


Do livro: o Ceará dos anos 90 – Censo Cultural
fotos de Rodrigo Paiva - mar/2014

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Comunidade Quilombola de Conceição dos Caetanos

Localizada no município de Tururu, a 119 km de Fortaleza, Conceição dos Negros ou Conceição dos Caetanos é um dos poucos redutos de negros existentes no Ceará. Quase todos os moradores pertencem a uma mesma família, a de Caetano José da Costa, seu fundador. Proveniente do município de Pacoti-Ceará, ele comprou um pedaço de terra em 1887 por 200 mil réis, três anos depois da abolição da escravatura no Ceará.

Comunidade Quilombola Conceição dos caetanos 

No documento do registro das terras consta o seguinte termo: “confrontações e características do imóvel:  uma posse de terra no lugar Conceição, deste termo, extremando para o sul, no oitão da casa de José Martins com terras de João Germano da Silva. Pelo norte com Francisco Gonçalves Marinho em um salgadinho rumo direito a uma imburana que tem a vista da lagoa Timbaúba, pelo nascente o mesmo vendedor e poente com o Rio Mandahú”.
Caetano trabalhou a terra juntamente com a família dentro dos moldes rurais nordestinos. Possuía como únicos bens a terra, a casa, um coqueiro, um tear e um caixão de madeira que comportava 16 alqueires de farinha.

Comunidade Quilombola em Quixadá (foto Diário do Nordeste)

Como fundador do lugarejo, sendo o mais velho do clã, exercia o poder de um patriarca, com ele eram discutidos os problemas e a ele cabiam as decisões. Não permitia que os negros casassem com brancos. No Ceará, é singular um reduto ter resistido por uma geração ao entrosamento com outras comunidades.



Talvez, por ter sido esta discriminação de uma minoria, por originar-se de um clã e pelo fato do Ceará ter sido o primeiro Estado brasileiro a libertar os escravos, o tempo se encarregou de revelar infrutífera tal atitude.
Assim também nas tradições, danças, canções, costumes, ritos e crenças ensinadas pelo velho Caetano José, praticamente nada mais existe, por não guardarem mais nenhum traço da cultura africana. Desconhecem sua origem, fato que nos surpreende, já que nos revela o mestre Luís Câmara Cascudo: “ em qualquer agrupamento a memória coletiva tem duas ordens de conhecimento: o oficial e o não oficial que é o tradicional, oral, anônimo, independente do ensino sistemático”.

fonte: 
O Ceará dos anos 90 - Censo Cultural

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Herança Cultural Africana

O grande destaque dado à abolição, de certo modo ofuscou a importância dos elementos culturais de origem africana presentes na sociedade cearense, que são mais expressivos do que comumente se pensa.
Alguns municípios cearenses tem sua origem ligada a sítios e comunidades negras, a exemplo de Monsenhor Tabosa, antes chamado de Telha, que teve origem numa fazenda chamada Forquilha, pertencente a uma família de negros, os Teles.
Há o caso da comunidade quilombola de Conceição dos Caetanos, no município de Tururu, surgida em terras adquiridas em 1887 pelo forro Caetano José da Costa, saído de Pacoti – naquela comunidade, por décadas, até os anos 70, os negros casavam entre si, mantendo a tradição. 

 foto: Diário do Nordeste
No vocabulário cearense do dia-a-dia, há várias palavras de origem banto: angu, banguela, batuque, bambo, bunda, cabeça, cachaça, cachimbo, candomblé, moleque, e muitas outras.
Tem-se ainda manifestações artísticas, como o  Maracatu, de origem banto. Outras manifestações culturais negras locais perderam-se ao longo do tempo, como o samba de umbigada e a festa do Congo. No primeiro, os brincantes formavam uma roda, na qual um dançarino ficava a sambar no centro, depois de certo tempo ele se dirigia a um dos componentes da roda, dava uma pancada no umbigo como sinal para que o substituísse. 

 foto do site:http://girosdamocoronga.wordpress.com

A festa do Congo consistia num desfile ou procissão que reunia elementos das tradições de Angola e do Congo com influências ibéricas – entidades dos cultos africanos eram identificadas aos santos do catolicismo (daí  o porquê das festas serem aceitas pela igreja, autoridades e senhores proprietários).   
 Animada por danças, cantos e música, a procissão acabava numa igreja, em geral a da Irmandade de negros de Nossa senhora do Rosário, onde, com a presença de uma corte e seus vassalos, acontecia a cerimônia de coroação do Rei Congo e da Rainha Ginga de Angola – uma personagem da história africana. 
foto Diário do Nordeste

Mais recente são as festas em homenagem a Iemanjá, que reúne milhares de adeptos do candomblé, nas praias, no início do ano. Igualmente importantes são os cultos afro-brasileiros, tratados preconceituosamente até os dias atuais, por certos segmentos cristãos conservadores como macumba, e que por décadas foram reprimidos pela polícia.
Há de se ressaltar o papel de Mãe Júlia, líder de um terreiro no Benfica, em Fortaleza, que nos anos 1950 buscou organizar os adeptos de crenças afro-brasileiras em uma associação e negociou com as autoridades a liberdade de culto.

extraído do livro de Airton de Farias
História do Ceará  

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Museu Senzala Negro Liberto – Redenção, Ceará



Situado às margens da CE-060, na entrada do municípios de Redenção, o Sítio Livramento abriga o Museu Senzala Negro Liberto, um canavial, e a unidade de produção da aguardente Douradinha. O sítio foi construído em 1873, pela família Muniz Rodrigues.  
O marco histórico deste engenho é a concessão  de cartas de alforria a todos os negros cativos, em 25 de março de 1883,  cinco anos antes da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel.


O museu, criado em 2003, é composto por casa grande, senzala, canavial, a moageira e uma lojinha (Mercado da Sinhá). Este conjunto arquitetônico colonial é original e encontra-se em boas condições de conservação.
Na área, encontram-se a original casa grande dos senhores do engenho, a senzala, o canavial e o antigo maquinário de fabricar a cachaça Douradinha.
A casa grande possui uma característica especial que a diferencia de outras no Brasil. A casa grande e a senzala encontram-se sob o mesmo teto, sendo que a senzala localiza-se no subsolo desta.
Engenho



Outra atração é o Engenho Grande. Neste há uma máquina de moagem de cana-de-açúcar fabricada na Escócia em 1927. Ele ainda funciona entre os meses de agosto a dezembro, produzindo entre 8 a 15 mil litros de caldo de cana por dia para a produção de cachaça e é ainda ecológico, pois funciona a vapor e utiliza o bagaço da cana-de-açúcar como combustível.

Casa Grande


O casarão foi construído no século XVIII.  Abriga móveis antigos do final do século XIX, utensílios antigos, fotos da família Muniz Rodrigues e histórias da época da escravidão. Nas salas do casarão são conservados objetos doados ou dos antigos donos.



Um deles é uma peça do século passado que servia para engarrafar a cachaça e colocar a tampa de cortiça. Outras peças históricas são um pilão de pedra e um tabuleiro cristalino pertencente à família de Juvenal de Carvalho, um dos donos do casarão, que era usado para descascar e triturar arroz, milho e café. Existem ainda uma coleção de cédulas antigas da época da abolição e documento de compra e venda de escravos. 


Senzala




A senzala era local de descanso e de castigo dos escravos. Aqui eles eram chicoteados e, como eram muito altos - tinham cerca de 1,80 metro - precisavam ficar deitados. Quanto mais rebeldes, mais no fundo ficavam, um cômodo úmido, mas parecido com um túnel, de teto baixo, com uma única e estreita entrada de ar com grades. 
No cubículo escuro, eram colocados cerca de dez escravos que, quando desobedeciam ou se tornavam rebeldes, eram chicoteados e torturados psicologicamente.





Nos pequenos e escuros cubículos da senzala viviam cerca de 100 escravos. Eles eram obrigados a entrar ali às 18 horas e sair às 6 horas. Dormiam no chão, em cima de esteiras de palha. Em cada cômodo, encontram-se os instrumentos de tortura, como as correntes, algemas e gargalheiras. Essas últimas serviam para prender o escravo na parede pelo pescoço. Tinha até para criança e adolescente.

Qualquer barulho ou conversas entre eles era motivo para serem castigados. Muitos ficavam à noite presos em algemas nas paredes, de braços para cima. Na senzala, também foi conservado o tronco onde os negros ficavam imobilizados e apanhavam com chicotes que tinham lâminas de ferro.  


Quando algum tentava fugir, ficava no tronco durante nove noites, quando era chicoteado e depois recebia um banho de água e sal.  Outro tipo de castigo eram as algemas usadas pelo feitor (administrador da fazenda) para prender os escravos na parede. Eles ficavam de braços para cima, e muitos com os pés sem tocar no chão.

A passagem interna da senzala para a casa grande era por dentro do banheiro do senhor do engenho. Era uma porta forte e estreita e paredes muito largas para que os escravos não invadissem o casarão. Na sala da mucama - escrava jovem que era escolhida para auxiliar nos serviços caseiros -, tinha um janelão onde o senhor do engenho apontava a escolhida e uma porta por onde as preferidas entravam para a casa grande.

O Museu Senzala Negro Liberto fica em Redenção, cerca de 60 km de Fortaleza. 

fonte:
Wikipédia
museu senzala negro liberto

fotos: Rodrigo Paiva

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Redenção - Ceará


Localização: Na região do Maciço de Baturité, a 88 metros acima do nível do mar. 
Distância de Fortaleza: 55 kilometros
População: 26.415 habitantes (IBGE 2010)
Área do Município: 225,592km²
Densidade demográfica: 117,09 hab/km²

Histórico




A região do sopé do Maciço de Baturité e ao redor das margens dos Rios Acarape e Pacoti, habitada por diversas etnias como os Potyguara, Jenipapo, Kanyndé, Choró e Quesito, recebeu a partir do século XVII diversas expedições militares e religiosas.
Com a implementação da pecuária no Ceará no século XVII, as terras de Redenção também foram beneficiadas com a agricultura da cana-de-açúcar. A partir do século XIX, os engenhos de Redenção passaram a utilizar a mão de obra de escravos africanos. Desta forma senzalas e pelourinhos vieram a fazer parte da paisagem urbana.


O povoado que deu origem à vila foi um distrito policial criado em 1842, mais tarde, em 1868, desmembrado de Baturité com o nome de Acarape. 



A freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Acarape,  deve sua criação à lei provincial nº 1.242, de 5 de dezembro de 1868, instituída canonicamente por Provisão de 24 de agosto de 1869.
No mesmo dia da criação do município era assinada uma lei autorizando o Presidente da Província a despender, anualmente, a importância de quinze mil réis com a libertação de escravos de preferência do sexo feminino. O fato parece ter influenciado no ânimo da população, que começou a se manifestar em favor da abolição da escravatura. 
No ano de 1871 foi criada a Câmara Municipal da cidade.




Interior da antiga senzala no prédio do Museu Senzala Negro Liberto
Construído em 1873, o sítio Livramento abriga o Museu Senzala negro Liberto,  composto por engenho, casa grande e senzala. Atualmente, lá funciona uma fábrica de aguardente que mantém preservada sua estrutura colonial histórica. O local é aberto à visitação todos os dias.  Fica localizado na Avenida da Abolição

Em 8 de dezembro de 1882, surgiu a Sociedade Redentora Acarapense composta de abolicionistas fervorosos e dirigida por Gil Ferreira Gomes de Farias (presidente), Antônio da Silva Ramos (procurador), R. A. Gomes Carneiro (2º secretário), Henrique Pinheiro Teixeira (1º scretário), Padre Luís Bezerra da Rocha (tesoureiro) e Deocleciano de Menezes(delegado).
Decorridos apenas 23 dias da criação desta Sociedade, o Acarape lançou no Ceará, no dia 1º de janeiro de 1883 a campanha  da Redenção, com protesto solene à existência senzala, bradando para todo o Brasil:  Nesta terra não há mais escravos, um gesto pioneiro, heróico e entusiasta, que lhe valeu a consagração nacional e a admiração do povo brasileiro, expressas no designativo com que então a cidade foi batizada: Rosal da Liberdade.


 Painel instalado no Museu Memorial de Redenção

Painel instalado no Museu Memorial de Redenção
O museu  faz parte do centro cultural que também abriga biblioteca pública e ilha digital, tem, em seu acervo, documentos históricos e raros como livros de compra e venda de escravos, objetos ligados aos escravos – inclusive instrumentos de tortura – peças de antigos engenhos, mobília, objetos sacros, entre outros. Fica na rua José Costa Ribeiro, 102


Em data de 23 de janeiro, a ata de sessão da Câmara registra a solidariedade dos vereadores e a proposta e aprovação de telegrama dirigido pela Comuna ao Imperador D. Pedro II, comunicando-lhe a extinção da Escravatura no município de Acarape.
Pela Lei provincial de 17 de agosto de 1889, o nome do município foi alterado, de Acarape para Redenção.


 Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, concluída em 1868


 Altar mor

Formação Administrativa

O Distrito foi criado com a denominação de Acarape por ato provincial de 1803-1842 e por lei provincial ou Resolução provincial nº 1242, de 05-12-1968.

Elevado à categoria de vila com a denominação de Acarape pela lei provincial nº 1255, de 28-12-1968, desmembrado de Baturité. Sede no núcleo de Acarape. Instalado em 21-08-1871.

Elevado à condição de cidade com a denominação de Redenção pela lei provincial nº 2167, de 17-08-1889.

Em divisão territorial datada de 17 de janeiro de 1991, ficou estabelecido que o município é constituído de 4 distritos: Redenção, Antônio Diogo, Guassi e São Geraldo.


Fotos:
Rodrigo Paiva e Fátima Garcia

Fonte:
IBGE
Wikipédia
Portal Redenção




sábado, 14 de maio de 2011

Escravidão e Abolicionismo no Ceará - Parte 3/3 (Final)

A idéia emancipacionista começou a ganhar corpo a partir de 1879, quando os preços dos escravos estavam em baixa, e os proprietários andavam as voltas com as dificuldades e custos de manter os cativos, em conseqüências da seca que durara até aquele ano.  
Surgiu então uma forte campanha articulada por segmentos médios, intelectuais, burgueses e até oligarquias rurais, todos contagiados pelo ideal liberal e civilizado europeu, onde há décadas o capitalismo condenara o sistema escravagista.
Dessa forma, em 1879, em comemoração ao oitavo ano da Lei do Ventre Livre, surgia uma pequena organização chamada Perseverança e Porvir, fundada por jovens de boa condição financeira, quase todos ligados ao comércio de Fortaleza, como José do Amaral, Manuel Albano Filho, Alfredo Salgado e outros. 
No final de 1880, os membros da Perseverança e Porvir fundaram uma nova entidade a Sociedade Cearense Libertadora, a qual se juntaram como sócios João Cordeiro, Isaac Amaral, Antonio Bezerra, Pedro Artur de Vasconcelos, José Teles Marrocos, Justiniano de Serpa, Pedro Borges e outros. 
A Sociedade Cearense Libertadora lançaria em 1881 o jornal O Libertador, com o objetivo de mobilizar a opinião pública em prol da causa abolicionista. Os periódicos A Constituição, Pedro II e Gazeta do Norte passaram igualmente a simpatizar com a bandeira da abolição, enquanto o jornal O Cearense, a combatia.
O libertador foi fundado em 1° de janeiro de 1881 como órgão da Sociedade Cearense Libertadora. Surge em consequência de uma intensa campanha abolicionista que se desenvolve a partir do inicio da década e torna-se vitoriosa em 25 de março de 1884. Chamava a atenção por ser bem redigido e pela boa aparência gráfica.
 
Jornal Pedro II que representava o Partido Conservador era  simpatizante da causa abolicionista
Em 1882, indivíduos que consideravam as práticas da Libertadora Cearense “radicais” e defendiam explicitamente a abolição “sem perturbação da ordem moral ou econômica no seio da família ou da sociedade”, fundaram o Centro Abolicionista, do qual faziam parte nomes como Guilherme Studart (mais tarde Barão de Studart), Júlio César da Fonseca e João Lopes Ferreira Filho.
Houve também um grupo só de mulheres, fundado em 1883, presidido pela sobralense Maria Tomásia Filgueira Lima. Os caixeiros (empregados do comércio) fundaram naquele mesmo ano o Clube Abolicionista Caixeiral, tendo à frente Antonio Papi Junior. Também em 1883, os estudantes do Liceu, Ateneu Cearense, Instituto Cearense de Humanidades e de outros estabelecimentos organizaram a Libertadora Estudantil.
No geral essas entidades promoviam reuniões as quais não passavam de encontros públicos de setores da sociedade, que através de festas, quermesses, e bailes arrecadavam fundos para alforriar cativos – a maioria mulheres e crianças, enquanto os homens permaneciam escravos em atividades mais pesadas – em pomposas cerimônias sob discursos e efusivos aplausos e pouco resultado prático.
A campanha abolicionista acabou atingindo os segmentos sociais mais humildes. A participação popular ficou evidente nos episódios do ano de 1881.
Sendo a condução dos negros escravos aos navios feita com o uso de jangadas, um grupo de abolicionistas – tendo à frente Pedro Artur de Vasconcelos e José do Amaral, arquitetaram o plano de convencer os jangadeiros a não mais realizar o trabalho. 
Obtiveram de imediato, a adesão do negro alforriado José Luis Napoleão e de Francisco José do Nascimento (o Dragão do Mar), figuras influentes entre os trabalhadores da praia.
Na manhã de 27 de janeiro de 1881, os jangadeiros se negaram a conduzir alguns negros cativos para o vapor Pará. 
Estátua de Francisco José do Nascimento no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
A noticia se espalhou pela cidade e, logo mais de 1500 pessoas de todos os segmentos sociais afluíram ao porto. Os escravocatas, sob vaias, ofensas e muito irritados, usaram de todos os artifícios – desde ameaças até a oferta de dinheiro – para convencer os homens do mar a embarcar as “peças”. 
Mas os jangadeiros permaneceram irredutíveis. Os negociantes chamaram a polícia, mas esta pouco pode fazer, pois não podia obrigar homens livres a trabalhar. 
Três dias depois, em 31 de janeiro de 881, nova luta. O vapor Espírito Santo tenta levar 38 escravos para o Sudeste do Brasil. Mais uma vez os jangadeiros recusaram-se a fazer o embarque. Uma multidão agora de três mil pessoas presta-lhe apoio, com aplausos e incentivos. 
Jangada do Dragão do Mar - neste porto não embarcarão mais escravos - 1881 (arquivo Ah, Fortaleza!) 
Após muitas discussões, ameaças, vaias e palavrões, os negros não foram embarcados. Naquela noite os abolicionistas colocaram fogo onde estavam trancafiados os cativos e os ajudaram a fugir.
Em 30 de abril de 1881, negociantes interessados em reabrir o porto de Fortaleza para o tráfico interprovincial tentam embarcar alguns escravos, contando inclusive com um forte aparato repressor – 210 homens armados. 
Compareceu pessoalmente à praia o recém-nomeado chefe de polícia, Torquato Mendes Viana, o qual teria chegado a afirmar dias antes que ou os escravos embarcariam ou correria sangue!  Os abolicionistas soltaram panfletos intitulados Pois Corra Sangue, incitando os defensores da causa a impedirem o embarque. Cerca de seis mil pessoas se reuniram na praia, gritando o lema de não se embarcam mais escravos no Ceará.
Em outubro de 882, José do Patrocínio, então conhecido nacionalmente como Marechal negro ou Tigre da Abolição, veio do Rio de janeiro visitar o Ceará para incrementar a mobilização. Foi recebido festivamente, sendo dele a autoria da alcunha de Terra da Luz, atribuída à província.
Painel na entrada da cidade de Redenção - CE, primeiro núcleo urbano do país a libertar os escravos
A 1° de janeiro de 1883, com a presença de José do Patrocínio, Acarape, passou para a história do país como o primeiro núcleo urbano a libertar seus escravos. A vila, por isso, mudou seu nome para Redenção.
Desse modo, a 25 de março de 1884, no 60° aniversário da Constituição do Império e no dia da Anunciação da Virgem Maria – realizou-se em Fortaleza, uma grande festa  para celebrar oficialmente o fim da escravidão na província do Ceará. 
Fortaleza Liberta - quadro de autoria do cearense José Irineu de Sousa, retrata a solenidade de libertação dos escravos de Fortaleza em sessão realizada no salão nobre da Assembléia Provincial (acervo Museu do Ceará)
Livro de Prata  oferecido pelos portugueses residentes em Fortaleza e utilizado na sessão da abolição da escravatura (acervo Museu do Ceará)
Estima-se que existiam naquela data cerca de 16 mil escravos. Após os fogos de artifício, gritos, lágrimas e tiros de canhão, a multidão que compareceu à Praça castro Carrera (Praça da Estação), ouviu quando o presidente da província, Sátiro de Oliveira Dias, concluiu seu discurso anunciando que a província do Ceará não possuía mais escravos.  
O pioneirismo cearense teve imensa repercussão no Brasil, influenciando a campanha abolicionista do Amazonas e das fronteiras do Uruguai.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias 
Revista Fortaleza, fascículo 11

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Escravidão e Abolicionismo no Ceará – Parte 2/3


A mais destacada forma de resistência escrava negra no Brasil ocorreu através da formação de quilombos. Há alguns indícios da presença de quilombos ou mucambos no Ceará. Isso fica explícito até em comunicados oficiais, como em uma carta de Jerônimo Paz, intendente das minas de S. José do Cariri, encaminhada ao governador de Pernambuco.
Serra do Pereiro no Ceará - imagem IBGE
Ao que consta a muralha de pedra encontrada em Bastiões, Serra do Pereiro, seria um quilombo no qual se refugiavam escravos do Ceará e de províncias vizinhas. Também existiria outro na Serra Grande, para onde acorriam os negros do Ceará, Piauí e Maranhão. 
Serra Grande no Ceará - imagem IBGE
Vários cativos fugidos foram apreendidos em Viçosa. Muitos outros locais de acoitamento de escravos fugidos existiam na província, inclusive nas proximidades da capital como em Tauape e Parangaba.
Resistiram ainda os negros no Ceará com o assassinato de seus senhores e até em conspirações e revoltas armadas, o que colocava em pânico as elites. Documento da Câmara Municipal de Sobral, de 1821, traz o alerta para prevenir um levante de cativos denunciado ao comandante da vila. O jornal Pedro II, de 11 de dezembro de 1867 dava conhecimento que, em Lavras, comarca de Icó, alguns escravos armados que tentavam ganhar a liberdade, viram frustrados os seus planos pelas medidas de repressão impostas pelo delegado de polícia.
Comunidade Quilombola (blog da educação)
Vários fatores explicam o porquê de o Ceará ter sido o pioneiro na abolição da escravatura no Brasil. O fator principal seria o pequeno número de cativos negros no Ceará – em comparação com outras áreas do País, como a açucareira, a cafeeira e a mineradora – e o pouco peso da mão-de-obra escrava na economia local. A quantidade de escravos negros nunca foi expressiva. 
escravos na atividade cafeeira - quadro de J.B. Debret (imagem blog da educação)
As bases da economia cearense, o algodão e a pecuária não absorviam em larga escala a mão-de-obra escrava. As fazendas de gado empregavam pouca mão-de-obra. O algodão, em virtude do seu ciclo natural – plantado mais ou menos em janeiro e colhido em agosto – não compensava o emprego de muitos escravos numa atividade praticada apenas em determinado período do ano.
Além do mais existiam as secas periódicas, que traziam dificuldades para conseguir alimentos e água, e provocava surtos de doenças, que dizimavam os escravos e dava prejuízos aos senhores. Havia ainda grande quantidade disponível de camponeses sem terra nos sertões, que trabalhavam para os latifundiários por parte da produção, moradia e comida como parceiros ou agregados das fazendas.
O alto preço dos escravos era outro fator que contribuía para o número reduzido de escravos, sobretudo numa região pobre como era o Ceará. Em inventário do século XIX, um negro de 16 anos custava 100$000 (Cem mil Reis), preço equivalente ao de 25 vacas.
Daí por que eram raros proprietários com muitos escravos. A posse destes chegava a ser símbolo de status e indicativo de riquezas.
A venda de escravos negros para fora da província, no chamado tráfico interprovincial, contribuiu igualmente para o declínio da escravatura no Ceará.  Já em 1847, tem-se o registro de vendas de escravos para o atual Sudeste. Tais vendas aumentaram depois de 1850, em virtude da promulgação da Lei Eusébio de Queiroz, que determinava o fim do tráfico negreiro internacional, cessando o fluxo de africanos para o Brasil. A procura do Sudeste por escravos em razão da proibição imposta por lei, aumentou consideravelmente o preço dos cativos, tornando-se a venda um negócio lucrativo, sobretudo em épocas de estiagens, como a seca de 1877-79, quando o senhor de terras vendo o gado minguando, a plantação seca, a propagação de surtos e doenças, e buscava resguardar seu patrimônio em escravos, comercializando-os para outras regiões do Brasil. Não existem dados precisos quanto ao número de negros escravizados exportados pelo Ceará, mas especula-se que em torno de sete mil tenham sido vendidos  entre 1871 e 1881, sendo que em 1877 foram exportados três mil só pelo porto de Fortaleza.
Mercado da Rua do Valongo, no Rio de Janeiro, onde escravos eram vendidos (quadro de J.B. Debret)
Jornais anunciavam ofertas de compras de cativos,  e os mascates – muitos dos quais italianos – que em tempos normais viviam a vender quinquilharias, passaram a comprar e vender escravos no interior e revende-los na capital. Ante os efeitos trágicos da seca, em 1880, o escravo negro virara quase a única moeda em circulação no Ceará.
Um terceiro fator para explicar a iniciativa e o pioneirismo no Ceará, foi a intensa campanha abolicionista local.
Curioso é que até 1879 a província manteve-se em silêncio sobre a questão escravista, enquanto das praias de Fortaleza milhares de cativos eram levados em jangadas, para os navios que aguardavam ao largo.
Somente quando as províncias do centro-sul passaram a decretar leis dificultando o tráfico entre as províncias, e em conseqüência, a procura por escravos diminuiu e os preços despencaram, é que floresceu de fato, o abolicionismo no Ceará.  

fonte: História do Ceará, de Airton de Farias