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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Icó - A 3a. Vila do Ceará


No limiar do século XVIII, entre 1700 e 1710, eram profundas as divergências entre colonos e indígenas, principalmente às margens das ribeiras e dos grandes rios do Ceará colonial. Como era natural, os nativos se opunham aos desbravadores, fazendo-lhes guerra constante.
Das proximidades da Serra do Pereiro aos vastos sertões do Cedro se estende vasta planície, fértil e apropriada à agricultura, dada a excelência de suas terras. Formada de camadas aluvionais, amplia-se em pleno sertão, numa extensão de 20 quilômetros por 10 de largura. Este foi o local escolhido pelo então capitão-mor Gabriel da Silva Lago, para erguer uma paliçada que defenderia os moradores da ribeira do Rio salgado e que mais tarde seria transformada em Arraial Novo e, posteriormente, depois de lutas memoráveis, na cidade de Icó, sede do município e centro comercial de grande importância.

 Largo do Theberg - 1930

O padre João Matos Serra, ligado à história da colonização cearense, foi uma das figuras exponenciais na formação histórica de Icó, por isso que, como prefeito das Missões, coube-lhe a tarefa de pacificar os ânimos e restabelecer  a  concórdia entre sesmeiros, colonizadores, agregados e os indígenas, todos sob a proteção de Nossa Senhora do Ó, padroeira do pequeno arraial.
Das lutas que celebrizaram a vasta planície, cumpre ressaltar a dos Montes e Feitosas, famílias numerosas que desfrutavam de imenso prestígio na época, e que dominaram a ferro e a fogo vastas regiões.  Os Montes residiam nas cercanias do Icó e os Feitosas faziam moradia nos sertões dos Inhamuns. Numa das lutas registradas nas proximidades de Icó, o coronel Francisco Monte perdeu uma filha. A esposa do coronel sertanejo ficou penalizada em ver sua filha ser sepultada em pleno campo. Fez então doação de meia légua de terra e mandou erigir uma capelinha sob a invocação de Nossa Senhora da Expectação, a mesma que seria sede da matriz da freguesia, criada aos 6 de abril de 1764. 

 Igreja matriz de n. S. da Expectação, fundada em 1764

Cessadas as lutas iniciais, conquistada e dominada a terra, logo prosperou o novo Arraial, vendo-se aumentar rapidamente sua população. Efetivamente, a evolução de Icó se processou de maneira de maneira rápida e impressionante, tendo em vista os fatos ali verificados ao correr de mais de um século.
A Ordem Régia de 17 de outubro de 1735 elevou o povoado à vila, mediante proposta do governador de Pernambuco. A instalação da vila ocorreu aos 4 de maio de 1738, com sede na Vila de Icó. Foi a terceira vila criada no Ceará.  Em 1742 tomou posse o primeiro capitão-mor de ordenanças do Icó, que foi Bento da Silva e Oliveira. 

Teatro Ribeira dos Icós - com características neoclássicas, construído no século XIX (1860), pelo médico francês Dr. Pedro Theberge, então radicado no Icó. (foto de 1980, de Marcos Guilherme)

Ao tempo da República do Equador, em 1824, Icó foi teatro de lutas que tingiram de sangue as ruas da cidade. Aos 11 de julho de 1824, em agitada sessão, a Câmara recusou obediência à constituição. No mesmo dia, as mulheres de Icó dirigiram uma conclamação ao povo do Ceará, que está inscrita no n° 15 do Jornal “Diário do Governo do Ceará”, único que se publicava na província. 
Aos 25 de outubro é jurada a Constituição, ato que seria seguido de grande perseguição aos partidários de Tristão Gonçalves. Instalou-se então um governo provisório do qual faziam parte: Presidente – vigário Felipe Benicio Mariz;  Secretário – padre Manuel Felipe Gonçalves; Comandante das Armas – Amorim; e vogais João de Araújo Chaves, Henrique Luis Pedro de Almeida, e João André Teixeira Mendes. Este governo teve vida efêmera. A lei n° 244 de 25 de outubro de 1842, elevou a vila à categoria de cidade. 

 Centro da cidade - 1945

Um dos eventos mais curiosos de Icó foi o combate ali registrado ao tempo da abdicação de D. Pedro I. O padre Manuel Antônio de Sousa aliciou cerca de 5000 homens e juntou-se às tropas de Joaquim Pinto Madeira que fazia parte do Partido Restaurador e que dominara o Crato. Pretendiam os dois chefes a tomada da capital da província que tinha como presidente Francisco Xavier Torres. Uma destas colunas veio a Icó sob as ordens do padre conhecido por “Benze-Cacete”, pois costumava benzer suas tropas antes da luta. Houve muitas  lutas e muitas mortes em plenas ruas de Icó.
Atualmente o município é constituído de 6 distritos: Icó, Cruzeirinho, Lima Campos, Pedrinhas, São Vicente e Icózinho.


 Igreja N. S. do Monte - construída no alto de uma pequena elevação, no século XVIII.

Limites: 
Norte: Jaguaribe e Pereiro; Sul: Umari, Lavras da Mangabeira e Cedro;
Leste: Rio Grande do Norte (São Miguel, Venha-Ver) e Paraíba (Bernardino Batista e Poço Dantas);  Oeste: Iguatu e Orós
Localização: Sertão do Salgado e do Alto Jaguaribe
Distância até Fortaleza:  375 km
População:  66.855 habitantes  (IBGE/2013)

fotos do IBGE e do Arquivo Nirez
fontes:
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros - IBGE - 1959
Wikipédia              

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Museu Sacro São José de Ribamar


O Museu Sacro São José de Ribamar destina-se à preservação da arte da religiosidade no Ceará e à sua divulgação na forma sistemática da museologia.
O acervo compõe-se de peças de caráter sacro, como imagens talhadas em madeira, castiçais, cruz processional, turíbulos, navetas, missais e prataria do século XVIII.  
Foi criado em junho de 1967 e inaugurado em setembro do mesmo ano.  O fato de Aquiraz ter sido a Primeira Vila definitivamente instalada na então Capitania do Siará Grande por Ordem Régia de 1711, executada em 1713, e a instalação da freguesia religiosa por volta de 1756 sob a invocação de São José de Ribamar, favoreceu a escolha da localização do museu.








Instalado no velho sobradão construído por volta de 1880, onde funcionava, na parte superior, a Câmara Municipal e, na parte térrea a Cadeia Pública, tendo recebido as necessárias e adequadas adaptações, o museu, com seu valioso acervo exposto à visitação pública, incentiva o cultivo do espírito no reviver da memória da crença dos antigos.


fonte:
O Ceará dos anos 90 - Censo Cultural
fotos: Rodrigo Paiva - julho/2011


domingo, 8 de setembro de 2013

Os Primeiros Ouvidores da Capitania do Ceará


Até a criação da vila a administração da capitania era feita  por três instâncias de poder: o capitão-mor  governador, a ouvidoria e a câmara de vereadores. Os capitães-mores governadores recebiam instruções verbais de Pernambuco e concentravam todo o poder nas mãos. Eram arbitrários e provocavam inúmeros conflitos ao intervir  e perseguir outras autoridades.  Os Ouvidores tinham a função de fiscalizar a administração e aplicar a justiça na capitania. O ocupante do cargo deveria ser formado em Direito e era nomeado pelo rei para um período de três anos.

Casa da Câmara e Cadeia de Aquiraz (foto Fátima Garcia)

A Ouvidoria Real da Capitania do Ceará foi criada apenas em 1723, com sede na Vila de Aquiraz. Até então as pendências judiciais e administrativas eram resolvidas pelos Ouvidores de Pernambuco ou da Paraíba. As Câmaras detinham funções de ordem econômica, administrativa, econômica, policial e judiciária, como fiscalizar a construção de estradas, pontes e calçadas, regulamentar as feiras, os mercados e o trânsito, a arborização das ruas e praças e outras atividades relacionadas com o bem comum.
Nos primórdios da Capitania do Ceará, subordinada à de Pernambuco, como a da Paraíba e a do Rio Grande do Norte, havia um ouvidor para as três. Por decisão do Conselho Ultramarino de 8 de janeiro de 1823, essa Ouvidoria foi desmembrada, criando-se uma magistratura exclusiva para o Ceará.
O primeiro desses juízes foi José Mendes Machado, conhecido por Tubarão, personagem como outros de sua ordem, ávidos de dinheiro, bacharéis de Coimbra antes da reformulação da sua universidade por ato do Marquês de Pombal.
Tomou posse do cargo em 23 de agosto de 1723. Sua posse foi seguida de sérias desordens. Seus primeiros atos desagradaram e surgiu em Aquiraz, então sede da capitania, um partido de descontentes que pretendia seu impedimento do cargo, querendo que continuasse o ouvidor da Paraíba. Logo em 1724 houve grandes desordens na capitania, estando no governo o capitão-mor Manuel Francês. Parte dos habitantes de Aquiraz, tendo à frente o juiz ordinário Zacarias Vital Pereira, opôs-se ao exército do ouvidor Mendes que o mandou prender. Retirando-se Mendes para o Acaraú, de onde ordenou várias outras prisões, exacerbando os descontentes.
Por este tempo havia um conflito entre as famílias Monte e Feitosa, por questões de terras no alto Jaguaribe. O Ouvidor Mendes Machado dirigiu-se ao Cariri e expediu ordem de prisão contra os Montes, incumbindo da diligência o capitão João Ferreira da Fonseca, que se reunindo a Francisco Alves Feitosa, chegado ali dos Inhamuns com 800 índios, cometeu inúmeras violências.


casa do capitão-mor localizada em Aquiraz , construída em meados do século XVIII para servir de residência para as autoridades da capitania, sendo seu primeiro morador o capitão-mor Manuel Francês, fundador da vila de fortaleza.  foto do site 

Os adversários do ouvidor se declararam a favor dos perseguidos e o senado da câmara e o capitão-mor Manuel Francês exigiram que Mendes se retirasse da capitania. Não sendo atendidos, os aliados dos Montes se reuniram, a título de representarem contra a violência do ouvidor, ocorrendo um conflito em que morreram 30 pessoas. Continuando as desordens e com receio da volta que o ouvidor Mendes voltasse ao Aquiraz, a Câmara exigiu do capitão-mor Manuel Francês, que o mandasse prender. O ouvidor Mendes, em vista dessa resolução, deixou  a capitania do Ceará. Após esse fato, o capitão-mor Manuel Francês empregou todos os meios a seu alcance para desarmar as duas famílias combatentes e seus partidários.

Fonte:
Ceará (Homens e fatos)  de João Brígido       
História do Ceará, de Airton de Farias

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Das Vilas às Cidades e a Emergência de Fortaleza

Fortaleza, Rua Floriano Peixoto, início do séc. XX (arquivo Nirez)

A passagem de Fortaleza de pequena vila sem importância funcional, desprovida de um porto equipado e localizada em um sítio desfavorável à condição de grande cidade com extenso espaço regional e expressivo papel de comando se confirma na extrapolação dos limites estaduais favorecendo a conquista de imensa área de influência  e mesmo a hinterlândia do seu porto que, na condição de importador, distribui mercadorias para toda a região. Fortaleza, hoje de porte metropolitano, guarda muito do seu passado, com vestígios de cidade provinciana. Entretanto, não é negligenciável a intensa e acirrada competição urbana que ela estabelece com tradicionais metrópoles brasileiras, especialmente as do Norte e Nordeste.

 centro de Sobral (acervo IBGE data não especificada)

Se Fortaleza foi aos poucos conquistando essa posição que ocupa hoje no sistema urbano brasileiro, no interior, por sua vez, apenas Sobral e o aglomerado urbano de Crato – Juazeiro do Norte se destacavam como centros comerciais e industriais. Como já foi visto anteriormente,  criação de gado foi marcante no processo de povoamento e ocupação do espaço cearense. A predominância da criação extensiva impediu em parte, o surgimento e o crescimento de cidades, haja vista o papel da atividade pecuária na dispersão da população.

 Igreja Matriz de Aquiraz (foto do blog)

Foi Aquiraz a primeira vila criada no Ceará. Hoje esta é cidade–sede do município com o mesmo nome, contido na Região Metropolitana de Fortaleza, que só foi elevada à categoria de vila em 1726. As demais vilas criadas no Estado, ainda no século XVIII foram: Icó (1738), Aracati (1748), Caucaia (1759), Crato (1764), Baturité (1764), Sobral (1778), Granja (1776), Quixeramobim (1789) e Guaraciaba do Norte (1796). 

 Baturité, em data não especificada (arquivo Nirez)

No início do século XIX começaram as primeiras atividades de exportação pelo Ceará, como capitania emancipada (desmembrada em 1799 da Capitania de Pernambuco), e em 1826, a Vila de Fortaleza chega à condição de cidade.
Após Fortaleza foram elevadas à condição de cidade, ainda no século XIX, somente as vilas de Sobral (1841), Icó e Aracati (1842), Crato (1843) Quixeramobim (1856) e Baturité (1858). Das cidades cearenses, aquelas originárias de vilas criadas no século XVIII, ainda hoje se constituem, com raras exceções, as mais importantes do estado. Poucas mudanças ocorreram na hierarquia urbana cearense, se for considerado o tempo transcorrido entre a fundação da primeira vila (Aquiraz-1713) e o quadro atual da realidade urbana estadual.  

 Cidade de Icó, anos 1910/20

Icó e Aracati assumiram importante papel enquanto centros urbanos no interior. Aracati, antiga São José do Porto dos Barcos, mais tarde Santa Cruz de Aracati, expandiu-se pouco a pouco, chegando a estender sua influência sobre todo o território do Ceará. Sua condição de porto de entrada e saída de mercadorias, principalmente carne-de-sol, muito contribuiu para o seu crescimento. O advento das charqueadas no Ceará influenciou a pujança de Aracati, que se tornou o mais movimentado e rico centro da capitania do Ceará.  Em face dessa atividade, Aracati tornou-se o grande centro urbano cearense do passado. Hoje sua influência restringe-se ao litoral, nas imediações da foz do Jaguaribe. 


Praia de Canoa Quebrada, em Aracati 

O turismo enquanto atividade econômica intensifica o uso do potencial paisagístico do litoral do município e tira vantagens da localização da cidade nas imediações da foz do rio. A combinação de turismo e lazer associados à exploração da conjunção de águas doces e salgadas do mar e do rio Jaguaribe favorece o desenvolvimento do setor hoteleiro, inclusive aquele voltado aos esportes náuticos. 

extraído do artigo José Borzachiello da Silva
A Cidade Contemporânea no Ceará
publicado no livro Uma Nova História do Ceará

 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Separação da Capitania do Ceará de Pernambuco


A partir das últimas décadas do século XVIII a economia do Ceará sofreu um processo de dinamização, sobretudo com o desenvolvimento da agricultura algodoeira de exportação. Tal surto econômico influenciou nas alterações da estrutura administrativa da capitania – como a criação de vilas – e levou igualmente ao fim da antiga vinculação a Pernambuco.

colheita de algodão (foto IBGE) 

A submissão a Pernambuco era prejudicial à Capitania do Ceará. Recife não dava muita assistência ao desenvolvimento material do Ceará e muitas vezes as modestas riquezas locais eram escoadas tanto para Lisboa como para Pernambuco. Eram comuns os ancoradouros precaríssimos, as estradas rudimentares, a penúria das vilas. A falta de dinheiro era uma preocupação constante nas localidades do interior do Ceará, e impressionava a situação de miséria da maioria da população.

Aracati em 1960 (foto O Povo)

Sendo Capitania secundária, o Siará Grande não podia comercializar diretamente com Portugal – suas exportações eram feitas através do porto de Recife, o que era um empecilho à economia local. Com a expansão do plantio do algodão no final do século XVIII, essa intermediação obrigatória por Pernambuco tornou-se alvo das críticas dos cotonicultores e comerciantes cearenses, sobretudo os de Fortaleza e áreas próximas.
Coincidem com o início do cultivo comercial do algodão os apelos feitos por capitães-mores, produtores, vereadores e os comerciantes de Fortaleza para que o Ceará ganhasse autonomia administrativa e o direito de comercializar diretamente com Portugal. Contra isso iriam se posicionar os comerciantes de Aracati e Icó, pois eram beneficiados com a intermediação e transações que mantinham com Pernambuco.
Os pernambucanos eram igualmente contra a emancipação cearense – perderiam lucros e impostos, além de verem diminuída sua área de jurisdição. As autoridades, porém, apoiaram a ideia, pois com o Ceará ganhando autonomia administrativa, gozariam de mais poderes, sem obrigação de se submeter às decisões de Recife.

Icó entre os anos 1910/20

Portugal, dentro da nova estrutura administrativa que tentava implantar no Brasil, lucraria com a separação das duas capitanias. Com um governo autônomo, imbuído de mais poderes, o Ceará talvez conhecesse um maior desenvolvimento da administração e  da economia agrícola, possibilitando inclusive um aumento da arrecadação tributária – necessidade real para um Reino que passava por apertos financeiros e cada vez mais dependente de outras potências.
Também seria interessante para Portugal porque, com o desmoronar do sistema colonial no Continente americano naquele final de século XVIII, seria mais uma forma de controlar os latifundiários locais, os quais poderiam também abraçar as “ideias iluministas” e pensar em independência das colônias.

Dona Maria I - "amor e delícia do seu povo, guiada pela sua inata beneficência" separou oficialmente O Ceará de Pernambuco, em 1799

Assim pela Carta-Régia de 17 de janeiro de 1799, a rainha Dona Maria I (a louca), separou  o Ceará oficialmente de Pernambuco, possibilitando a navegação direta da capitania com o Reino.
De início a permissão para comercializar diretamente com Portugal  não livrou a capitania da intermediação de Pernambuco – muitos comerciantes locais, especialmente os de Aracati, continuaram a negociar através de Pernambuco, mesmo porque o Ceará não possuía ancoradouros adequados para receber os novos navios a vapor, de maior calado. A separação oficial, portanto, não significou o fim da influência política e econômica de Pernambuco sobre o Ceará. Também por afinidades familiares e contiguidade territorial, estava muito ligado aos interesses de Recife, o que ajuda a compreender o envolvimento cearense em movimentos armados, como a “Revolução de 1817” e a “Confederação do Equador, 1824”.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
  

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Criação da Vila de Sobral


foto do site: http://forquilhaportaldenoticias.blogspot.com.br/2

Situado à margem esquerda do Rio Acaraú, o núcleo urbano de Sobral tem suas origens no começo do século XVIII, em torno da sede da fazenda Caiçara, de propriedade de Antônio Rodrigues Magalhães, localizada estrategicamente num movimentado cruzamento  dos caminhos que cortavam a capitania – Estrada das Boiadas e Estrada da Caiçara.
As excelentes condições de clima, a fertilidade do solo e o espírito liberal desse mesmo Antônio Rodrigues Magalhães contribuíram para que se desenvolvesse no local um povoado que se tornou o mais populoso dentre os seus vizinhos.

Igreja de N.S. da Conceição, a padroeira de Sobral 
(foto: http://sobralnahistoria.blogspot.com.br)

No Brasil colônia, muitos povoados surgiram ou cresceram em torno de igrejas. Em 1742, iniciou-se no povoado que se formava em torno da Fazenda Caiçara a construção de um templo – Igreja de N.S. da Conceição – para o que foi de vital importância a ação do padre João de Matos Monteiro (Padre Matinhos). Criou-se assim um ciclo de crescimento socioeconômico: a igreja atraía os fiéis e novos moradores, aumentando a população, o que por sua vez, estimulava ainda mais o comércio e outras atividades.  
De início, as boiadas sobralenses, da mesma maneira que as demais regiões cearenses, eram levadas por terra para os mercados consumidores da zona da mata nordestina. Depois, porém, os sobralenses também aderiram à técnica e aos lucros das charqueadas, ocupando o segundo lugar nas exportações da capitania.

cidade de Sobral (IBGE)

centro de Sobral (IBGE)

Logo, os ricos de Sobral  verificaram as vantagens de montar suas industrias de abate próximo aos embarcadouros, e com isso, transferiram as indústrias para o porto de Acaraú, que a partir de então, desenvolveu-se com o nome de Oficinas.

Ponte Otto de Alencar, sobre o rio Acaraú (foto: site do Ministério dos Transportes)

Sobral funcionava como entreposto exportador da produção do norte cearense e até do Piauí, como centro importador e distribuidor de gêneros para aquelas áreas. A saída e a chegada dos produtos, no caso, se realizavam pelo Porto de Acaraú, que dessa forma, conheceu certa prosperidade também. Conta-se que era intenso o intercâmbio entre Sobral e Acaraú, a ponto de, nos períodos de safra, existir ano no qual trafegavam entre os dois núcleos até 900 carros de bois, cheios de carne, couros e solas.
As sumacas que levavam os produtos do porto de Acaraú regressavam trazendo as grandes novidades em pratarias, porcelanas, cristais, móveis de jacarandá, escravos e materiais de construção. No século XIX, com a construção da ferrovia, Camocim ocupou o lugar de Acaraú na parceria com Sobral.

Estação Ferroviária de Sobral, em 1956 
(foto:http://www.estacoesferroviarias.com.br)
   
O povoado seria elevado à condição de vila em 1773, com o nome de Vila Distinta e Real de Sobral.  Por lei provincial n.º 229, de 12-I-1841, a vila tomou foros de cidade com a denominação de Fidelíssima Cidade Januária de Acaraú, sendo que a designação Januária seria uma homenagem a Princesa Januária, irmã do Imperador D. Pedro II.
A denominação definitiva atual deve-se a Lei provincial n.º 244, de 25-X-1842. O nome Sobral – atribui-se a Carneiro de Sá, ouvidor do Ceará, português, oriundo do Distrito de Sobral, pertencente à Freguesia de Vizeu, ao norte de Portugal.
Em divisão territorial datada de 2005, o município é constituído de 13 distritos: Sobral, Aprazível, Aracatiaçu, Bonfim, Caioca, Caracará, Jaibaras, Jordão, Patos, Rafael Arruda, Patriarca, São José do Torto e Taperuaba.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias  
IBGE

terça-feira, 15 de maio de 2012

A Pecuária e a Conquista dos Sertões


Os sertões cearenses foram conquistados em função da pecuária, a partir da segunda metade do século XVII e, sobretudo, no começo do século seguinte, num processo de extrema violência e que levou ao assassinato de milhares de indígenas.
Os povos nativos da América não conheciam os gados trazidos pelos colonizadores europeus para o Brasil ainda no século XVI. Nos engenhos de açúcar da zona da mata de Pernambuco e Bahia, a pecuária constituía atividade secundária e complementar – o boi fornecia alimentação e força de trabalho. No entanto, depois o gado passou a ser conduzido para o interior da atual região Nordeste, possibilitando, assim a conquista deste território, particularmente dos sertões cearenses.

Essa conquista foi motivada por fatores como a crise político-econômica portuguesa, aumentada com a União Ibérica, que fez diversos portugueses emigrarem para o Brasil, em direção ao Nordeste, uma vez que inexistiam terras na zona da mata de Pernambuco e Bahia para atender a todos. Essa disputa por terras se agravava ainda com o próprio crescimento populacional natural da região açucareira. Outro fator estaria na necessidade crescente de terras na zona da mata para o plantio e exploração de cana-de-açúcar, e muitas destas terras estavam ocupadas pela pecuária.  Além disso, havia o aumento do número dos rebanhos, os quais invadiam os canaviais, dando prejuízos aos senhores de engenho.
O desbravamento no sertão nordestino pelos colonos pecuaristas teria acontecido, conforme o historiador Capistrano de Abreu, a partir de duas rotas: a do Sertão de Fora, dominada por pernambucanos, que se deslocando pela faixa mais próxima ao litoral, seguiram pela Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará em direção ao Maranhão, e a do Sertão de dentro, controlada por baianos, que vinham pelo interior nordestino abrangendo a região que vai do médio São Francisco ao rio Parnaíba, no Piauí, ocupando o sul da capitania cearense. No Ceará, aquelas duas correntes de interiorização se confluem.
Até então a presença do invasor europeu na capitania cearense estava restrita ao fortim de Nossa Senhora da Assunção, no litoral, onde uma guarnição militar composta por brancos, negros e mestiços provava simbolicamente o domínio português em companhia de índios aliados. Todos pobres e miseráveis, quase sem mantimentos, munições e ferramentas agrícolas. Foi exatamente para os membros do forte, por serviços militares prestados à Coroa Portuguesa, que foram doadas as primeiras sesmarias  na foz dos rios Pacoti, Choró e Piranji. A seguir, terras foram doadas para colonos vindos de capitanias vizinhas – Pernambuco, Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte. Datam essas primeiras concessões do período entre 1678 e 1682.

Ponte sobre o Rio Jaguaribe, em Aracati (arquivo Nirez)

Do litoral os conquistadores passaram a ocupar definitivamente o interior, se apossando, no principio, das terras próximas ao curso dos rios de maior volume d’água, fundamental numa área seca como o Ceará, como o Acaraú, o Jaguaribe e os maiores afluentes destes. Os rios além de servirem de caminhos naturais aos colonos no desbravamento dos sertões, possibilitavam a pesca e a caça de animais que ali matavam a sede. Na porção oeste do Ceará os pecuaristas também ocuparam rapidamente as ribeiras de rios como o Aracatiaçu e Coreaú, enquanto os jesuítas procuravam catequizar os índios da serra da Ibiapaba.

Ponte sobre o Rio Coreaú (foto Skyscrapercity)

Para a Coroa portuguesa, a partir do descobrimento do Brasil, todas as áreas da Colônia lhe pertenciam, como terras devolutas, podendo ser distribuídas como melhor entendesse.  Não havia nenhum reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, habitantes daquelas áreas há tempos. Dessa maneira, as terras no sertão seriam obtidas gratuitamente pelos colonos, bastando serem requisitadas as chamadas cartas de sesmarias às autoridades coloniais. Normalmente, se tomava posse das terras antes mesmo da concessão das cartas – os colonos erguiam moradias, currais e iniciarem a criação de gado para depois pedir a propriedade legal. Surgiam assim as fazendas de gado.
Concedendo sesmarias o governo estimulava a ocupação dos sertões, uma vez que estaria garantido não só seu domínio sobre as terras não ocupadas, mas também o entesouramento, com a cobrança de impostos sobre o gado, o couro, a carne e tudo o mais que pudesse ser gerado com a ocupação produtiva da região.

Mapa do Ceará com a localização das diversas nações indígenas 

Na conquista dos sertões, o grande perdedor foi o indígena, escravizado, submetido e expulso da terra ou exterminado impiedosamente, pois não havia necessidade de preservar muitos nativos porque as fazendas absorviam pouca mão-de-obra. Com efeito, fez-se instantânea a reação do nativo como na chamada Guerra dos Bárbaros, quando por mais de 30 anos (do final do século XVII à segunda década do século XVIII) os povos indígenas lutaram contra a presença do europeu invasor, até serem chacinados ou condenados à aculturação nos aldeamentos.
Outro fenômeno ligado ao avanço da pecuária no Ceará foi a formação de povoados e vilas. Ao longo do século XVIII, a expansão do gado correspondeu a criação de vilas em diversos pontos da capitania, como Icó (1738), Aracati (1748), Sobral (1773) e Quixeramobim (1789), sem falar nos aldeamentos indígenas transformados em vilas, como Messejana, Soure, e Parangaba (1758), Viçosa (1759), Baturité e Crato (1764). A formação dessas vilas estavam ligadas ao interesse da coroa em controlar os habitantes, impor a presença do governo e estimular a produção agrícola.

Extraído do livro
História do Ceará, de Aírton de Farias