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sábado, 14 de julho de 2012

Assaré, a Terra do Patativa

Vista parcial da cidade de Assaré (foto do site férias tur,  por Vânia Dias)

Até o ano de 1775, o local onde se assenta a cidade de Assaré era totalmente despovoado  num raio de 3 léguas, consistindo apenas em um campo nu de vegetação, à exceção de algumas carnaubeiras e moitas de "pereiros", uma ou outra oiticica às margens de pequenos regatos que sulcam o terreno e correm no inverno; e mais uma infinidade de pequenos olhos-d'água, nas encostas da serra, várias cachoeiras e a soberba pastagem nas várzeas e "escalvados", que tornavam-no apropriado para a criação em geral.
Naquele ano Alexandre da Silva Pereira,  adquirindo as terras do local e adjacências, veio estabelecer-se com a família, criação e escravatura, à margem do regato mais volumoso da região.


 Casa da Várzea
Construída por Alexandre Silva Pereira, passando depois para o coronel Francisco Gomes,  advogado e político do Assaré. O Cel. Gomes era também grande proprietário de terras do século passado. Pertencia às famílias Braga e Gomes de São Mateus dos Inhamuns.
A Casa da Várzea pertenceu em seguida ao Dr. Manuel Paiva, o primeiro juiz a fixar residência no Assaré. (foto: Assaré Net)

O fazendeiro logo se tornou  conhecido e respeitado, mesmo em zonas distantes, dada a facilidade de comunicação, porque ali  se cruzavam as mais movimentadas estradas da época: a Cariri-Inhamuns com a Piauí - Sertões do Baixo (Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), resultando em pouso certo  e confortável para os transeuntes que aproveitavam a ocasião para transações, transformando a fazenda em entreposto comercial.
Visando o povoamento da região, o proprietário fez diversas doações de terras em torno da fazenda, tendo o cuidado de reservar uma parte para o patrimônio do orago da futura freguesia.


Igreja Matriz Nossa Sra. das Dores (foto de Vânia Dias) 
originalmente foi construída uma capela em terreno doado pelo fazendeiro  Alexandre Pereira da Silva, em 1775.  Esta permaneceria inalterada até a conclusão das obras da igreja matriz.  As obras da matriz foram iniciadas em 1842 e concluídas em 1850 , não no mesmo local da capela, mas na Fazenda Várzea, localizada um pouco ao Norte.

Em 1823, os independentes do Ceará Grande, organizando a expedição que foi conhecida por "Marcha de Caxias", a fim de sufocar os rebeldes do Piauí, transformaram o povoado em campo de concentração, ficando aí aquartelados, o que concorreu para melhorar as condições locais.



Açude Canoas (fotos do blog de Assaré e álbum picasa,  de Giseli Barros)
Concluído em 1999 o Açude Canoas é um lago artificial formado pela barragem do Riacho São Gonçalo, pertencente a bacia Hidrográfica do Alto Jaguaribe. Tem capacidade para armazenar 69 milhões de m³ de água. Fica no município de Assaré 

Em 1831 ia ser elevado a distrito de paz, quando a revolução de Joaquim Pinto Madeira irrompeu no Cariri, vindo estas terras a ser teatro de lutas entre liberais e corcundas.
A construção da igreja matriz começou em 1842 no local da primitiva capelinha. Em 1844, foi construído, a expensas da padroeira, o açude "Banguê", depois denominado "Açude de Nossa Senhora".
Assaré passou a sede de freguesia em 1850, com a nova denominação de Nossa Senhora das Dores.
Distrito criado com a denominação de Assaré, pela lei provincial nº 520, de 04-12-1850.
Elevado à categoria de vila com a denominação de Assaré, pela provincial nº1152, de 19 de julho de 1865, desmembrado de Saboeiro. Sede na povoação de Assaré. Constituído do distrito sede. Instalado em 11-01-1869.
Em divisão territorial datada de 17-I-1991, o município é constituído de 3 distritos: Assaré, Amaro e Aratama.

Imagem de Nossa Sra. das Dores no Bairro Moeda (foto do site férias tur)   

Memorial Patativa do Assaré (foto wikipédia)


População – Censo demográfico do IBGE/2010 – 22.445 habitantes
Área da unidade territorial –  1.116,325 km²
Densidade demográfica – 20,11 hab/km²
Limites –  Norte - Antonina do Norte e Tarrafas;
 Sul - Potengi e Santana do Cariri; 
Leste - Altaneira;  
Oeste- Campos Sales.
Distância de Fortaleza – 520 km
Localização –  mesorregião Sul Cearense
Microrregião Chapada do Araripe

Patativa o filho mais ilustre do Assaré

estátua de Patativa do Assaré no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza
Casa do Patativa na Serra de Santana (foto do blog poeta pernambucano)
Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré nasceu no dia 5 de março de 1909 e faleceu em 8 de julho de 2002. Foi um dos maiores poetas populares do Brasil. Cearense de Assaré, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, em discos e livros. Aos 16 anos comprou sua primeira viola e começou a cantar de improviso. Com uma linguagem simples porém poética retratava a vida sofrida e árida do povo do sertão. Se projetou com a música "Triste Partida" em 1964, uma toada de retirantes, gravada por Luiz Gonzaga. Seus livros, traduzidos em vários idiomas, foram tema de estudos na Sorbonne, na cadeira de Literatura Popular Universal.

pesquisa:
IBGE
Wikipédia
blog paróquia de Assaré
site e-biografias net

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Patativa do Assaré - Cante lá que eu canto cá

foto: O Globo

Menino de Rua

Menino de Rua, garoto indigente
Infanto Carente,
Não sabe onde vai
Menino de Rua, assim maltrapilho
De quem tu és filho
Onde anda o teu pai?

Tu vagas incerto não achas abrigo
Exposto ao perigo
De um drama de horror
É sobre a sarjeta que dormes teu sono,
No grande abandono
Não tens protetor

Meu Deus! Que tristeza! Que vida esta tua
Menino de Rua,
Tu andas em vão
Ninguém te conhece, nem sabe o teu nome
Com frio e com fome
Sem roupa e sem pão

Ao léu do desprezo dormes ao relento
O teu sofrimento
Não posso julgar,
Ninguém te  auxilia, ninguém te consola,
Cadê tua escola,
Teus pais, teu lar?

Seguindo constante teu duro caminho
Tu vives sozinho
Não és de ninguém
Às vezes pensando na vida que levas
Te ocultas nas trevas
Com medo de alguém

Assim continuas de noite e de dia
Não tens alegria
Não cantas nem ri
No caos de incerteza que o seu mundo encerra
Os grandes da terra
Não zelam por ti

Teus olhos demonstram a dor, a tristeza,
Miséria, pobreza
E cruéis privações
E enquanto estas dores tu vives pensando,
Vão ricos roubando
Milhões e milhões

Garoto eu desejo que em vez deste inferno
Tu tenhas caderno
Também professor
Menino de Rua de ti não me esqueço
E aqui te ofereço
Meu canto de dor


Antônio Gonçalves da Silva mundialmente conhecido como Patativa de Assaré, nasceu em Serra de Santana, em Assaré, uma pequena cidade no sertão do Ceará, no dia 5 de março de 1909. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. 

Os fatos mais determinantes de sua vida aconteceram quando ele ainda era menino, como a perda da visão de um olho aos quatro anos e a morte do pai aos nove.  
Não frequentou mais de seis meses de escola, o que não o impediu de manejar a língua portuguesa com criatividade e sofisticação.

Autodidata, ele aprendeu a dominar seus segredos na leitura de livros, especialmente dos poetas da terra, além de jornais e revistas, mais do que nas gramáticas, que nunca o atraíram.  Agricultor por necessidade de sobrevivência desde tenra idade, Patativa encontrou cedo também a viola, empunhando-a, ainda adolescente, junto com seus versos, em circuitos populares de feiras e festas. 

  
No livro Cante lá que eu canto cá , o poeta dizia que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento. 
A veia política causou-lhe problemas mais de uma vez. 

Em 1943, chegou a ser preso por ter ironizado em versos a frequente ausência no posto do então prefeito de Assaré, sua terra natal. Mas a prisão não demorou mais de 15 minutos, e o poeta foi logo liberado.  

Quando completou 91 anos  de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida,  já tinha dito tudo que tinha de dizer. 

O velho poeta, que soube como ninguém narrar as dores e o sofrimento de um povo marginalizado e oprimido, que viu de perto as agruras de retirantes, fugindo de suas terras por conta de uma secura sem fim, morreu em 8 de julho de 2002, na mesma cidade em que nasceu e que lhe emprestou o nome.  

Livros de Poesias

 Inspiração Nordestina: Cantos do Patativa -1967
 Cante Lá que Eu Canto Cá - 1978
 Ispinho e Fulô - 1988
 Balceiro. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 1991
 Cordéis - 1993
 Aqui Tem Coisa - 1994
 Biblioteca de Cordel: Patativa do Assaré - 2000
 Balceiro 2. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 2001
 Ao pé da mesa – 2001
Antologia Poética (Org. Gilmar de Carvalho) - 2002
Cordéis e Outros Poemas (Org. Gilmar de Carvalho) - 2008 

Poemas

A Triste Partida;
Cante Lá que eu Canto Cá;
Coisas do Rio de Janeiro;
Meu Protesto;
Mote/Glosas;
Peixe;
O Poeta da Roça;
Apelo dum Agricultor;
Se Existe Inferno;
Vaca estrela e Boi Fubá;
Você se Lembra?
Vou Vorá;
Caboclo Roceiro 

A vida do  Patativa do Assaré foi retratada em Concerto de Ispinho e Fulô, da Cia. do Tijolo, peça que deu a William Guedes o Prêmio Shell de Teatro em 2009 na categoria de melhor música.  A mesma companhia também retratou o poeta na peça Cante Lá que Eu Canto Cá.
O poeta também foi retratado no filme documentário Patativa do Assaré - Ave Poesia, realizado pelo cineasta Rosemberg Cariry, que estreou nos cinemas em 2009.