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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Missão Velha

Em fins do século XVII o vale do Cariri era povoado por indígenas da nação homônima, oriundos do planalto da Borborema, refugiados da guerra da repressão que os portugueses moviam contra a coligação de tribos indígenas nordestinas, impropriamente denominada de 'Confederação dos Cariris' (1683-1713); efeito tardio da indisciplina e rebelião implantada durante o domínio holandês. Em defesa e, para a pacificação dos indígenas, ocorreram missionários de diversas ordens religiosas. Os jesuítas, agrupando-os sob sua autoridade eclesiástica em aldeias ou missões, criaram, entre outras no sítio Cachoeira, a de São José, que seria a célula-mãe do Município de Missão Velha.

Praça São José - imagem IBGE s/data

Nestas terras veio estabelecer-se, em 1707, um baiano emissário da Casa da Torre chamado João Correia Arnaud (descendente do Caramuru), com mulher, nove filhos, parentes e escravos, dando início à colonização da região. Em 28 de janeiro de 1748, sob a invocação de Nossa Senhora da Luz,
foi criado, desmembrado do curato de Icó, na região dos Cariris Novos, o Curato Amovível das Minas dos Cariris Novos. Por provisão do bispo de Olinda, de 3 de maio de 1760, foi autorizada a criação da Matriz de São José, no sítio da antiga capela do aldeamento indígena, passando o curato a denominar-se desde então, 'São José da Missão Velha do Cariri'.

Por volta de 1750, espalhou-se por todo o Nordeste, a notícia da suposta riqueza aurífera do vale do Cariri. A fim de que os serviços de mineração tivessem maior eficiência, foi organizada, em 1756, a Companhia do Ouro das Minas de São José dos Cariris, dois anos depois dissolvida, em vista da 'pouca utilidade que poderiam dar as ditas minas a quem as cultivasse'.

Feira da Rua D. Pedro II - foto IBGE s/data

Desaparecido o interesse do ouro, voltaram-se os habitantes para a agricultura. A fertilidade do solo caririense, suas fontes e rios quase perenes, a fartura de frutos silvestres. foram importantes fatores, que provocaram a afluência de renovadas ondas de povoamento.

Seus habitantes tomaram parte ativa na Confederação do Equador (1824) e na revolta de 1831, consequência da abdicação de D. Pedro I. Na crônica histórica de Missão Velha figuram vários e emocionantes episódios, inclusive a luta pela sua posse entre as tropas chefiadas por Pinto Madeira, o Padre Antônio Manuel de Souza, o célebre "benze cacetes" e as do Presidente da Província, José
Mariano de Albuquerque Cavalcante. Durante os combates, a então vila de Missão Velha mudou de mãos algumas vezes, culminando com a derrota das forças de Pinto Madeira, que era o líder da rebelião denominada "abrilada", porque defendia o retorno de Dom Pedro I, que abdicara no dia 7 de abril de 1831.

O Município de Missão Velha surgiu, desmembrado do de Barbalha, em 1864. Segundo alguns historiadores, o nome do município é devido ao fato de os jesuítas terem fundado outras missões na região, passando a primeira delas a ser denominada de Missão Velha.

Distrito criado com a denominação de Missão Velha em 1748 e elevado à categoria de vila com a denominação de Missão Velha, em 1864, desmembrado de Barbalha. Elevado à condição de cidade com a denominação Missão Velha, pelo decreto, nº 262, de 28 de julho de 1931. Atualmente o município é constituído de 4 distritos: Missão Velha, Jamacaru, Missão Nova e Quimami.


vista aérea - imagem Câmara Municipal de Missão Velha

Limita-se ao Norte com os municípios de Aurora e Caririaçu; ao Sul: Brejo Santo, Porteiras e Jardim; a Leste: com as cidades de Milagres e Abaiara; e a Oeste, com Juazeiro do Norte e Barbalha. Localizada na região do Cariri cearense, fica a cerca de 535 km da capital Fortaleza.
População do último Censo (2010) - 34.274 habitantes; 
População estimada (para 2018) - 35.662 habitantes.

Atrativos Naturais

Balneário Dr. João de Castro
Cachoeira de Missão Velha
Bica de Jamacaru
Gameleira do Pau
Fonte da Pendência
Recanto da Divina Misericórdia

Igreja Matriz de São José


foto IBGE-1983

Por provisão do bispo de Olinda, de 3 de maio de 1760, foi autorizada a construção da Matriz de São José, no sítio da antiga capela do aldeamento indígena passando a denominar-se desde então, “São José da Missão Velha do Cariri”.
O surgimento do povoado aconteceu primeiramente com a criação de uma pequena capela, ao redor da qual iam se instalando casas e fazendas, que atraíam novas moradores. E assim nasceu a maioria das cidades do Ceará, à sombra das igrejas católicas, sob o signo da cruz dos colonizadores e dos padres jesuítas que aqui chegavam pregando o catolicismo. Uma igreja e uma praça era regra geral nas povoações antigas. Os templos, seculares ou regulares, raramente eram sobrepujados em importância por qualquer outro edifício.

Cachoeira de Missão Velha

foto: g1-globo.com

Localizada no Sitio Cachoeira, a 3 km da cidade de Missão Velha, a região abriga uma das paisagens mais exuberantes do Cariri, com quedas d’água de até 12 m, formadas pelas águas do Rio Salgado. Considerado como a porta de entrada da colonização do Cariri, esse ecossistema, possui elementos históricos e culturais muito importantes. Próximo à cachoeira, encontra-se uma trilha que leva aos restos da casa de pedra do século XVII. Além disso, tal cenário já foi palco de encontros entre cangaceiros, no início do século XX. 

Foto Diário do Nordeste

A história do Geosítio Cachoeira de Missão Velha é relacionada ao contexto da escassez da água no Sertão, pois lá era um dos poucos lugares onde se podia encontrar água durante todo o ano. Como todo bom sitio turístico e cultural que se preza, o lugar, guarda consigo muitas lendas que foram passadas de geração a geração. Contam os mais velhos da existência de uma mãe d’água,  de voz misteriosa e mágica, que atraia os banhistas para locais perigosos, levando-os assim a morte. É raro o ano em que pessoas não morrem afogadas na Cachoeira de Missão Velha. 

Estação Ferroviária


foto do site estações ferroviárias

A Estação Ferroviária de Missão Velha foi inaugurada em 1925. Dali estava prevista uma ligação ferroviária que ligava a região a Petrolina, na divisa de Pernambuco com a Bahia, onde terminava a concessão da linha da antiga Leste Brasileiro. Atualmente está desativada.

A Missão Velha dos dias atuais apresenta 9.7% de domicílios com esgotamento sanitário adequado, 85.6% de domicílios urbanos em vias públicas com arborização e 2.2% de domicílios urbanos em vias públicas com urbanização adequada (presença de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio). Quando comparado com os outros municípios do estado, fica na posição 135 de 184, 118 de 184 e 120 de 184, respectivamente. Já quando comparado a outras cidades do Brasil, sua posição é 4388 de 5570, 1930 de 5570 e 4039 de 5570, respectivamente.

fontes:
IBGE
Anuário do Ceará
Prefeitura de Missão Velha
Geopark Araripe
Turismo no Cariri





segunda-feira, 9 de março de 2015

A Execução de Joaquim Pinto Madeira


Joaquim Pinto Madeira foi político caririense, com serviços prestados ao Ceará, que caiu nas malhas da lei ao promover uma rebelião que lançaria a Província em meses de atropelos e revoltas. Preso no Cariri, por acordo feito com o General Labatut, foi conduzido para o Recife, a pretexto de segurança, seguiu depois daquela província para o Maranhão, onde permaneceu até ser oportunamente julgado no Ceará.

O seu retorno a esta Província se deu a 15 de outubro de 1834, onde preso na cadeia do crime e permaneceu na Capital até 19 de novembro de 1834. No dia seguinte, foi transferido para a Vila do Crato com a finalidade de ser submetido a julgamento. Chegou ao Crato no dia 23 de dezembro de 1834, depois de viajar 33 dias e teve como recepção o Conselho de Sentença que decidiu que o réu seria fuzilado.

O júri havia se reunido extraordinariamente a 19 de dezembro, já na expectativa de receber o réu e dar andamento ao processo. O crime pelo qual seria julgado seria o de rebelião, conforme os precedentes de guerra e os motivos de sua prisão e confinamento na Província do Maranhão. No entanto, no momento de ser lida a pauta do julgamento, o que figurava na ordem dos trabalhos foi o crime ocorrido contra a pessoa de Joaquim Pinto Cidade. Neste crime Pinto Madeira aparecera como mandante, mas por ele já havia sido devassado e pronunciado.


Crato 

Inquirido e reinquirido durante o curso dos interrogatórios, Pinto Madeira negou categoricamente não só a autoria do crime a ele imputado, como por qualquer forma a coautoria, limitando-se a comentar que, segundo havia sido informado, Pinto Cidade morrera em combate, quando do encontro do Buriti.

Quanto às testemunhas de defesa, somente três foram admitidas e duas não tiveram os depoimentos escritos, enquanto que a terceira, por haver falado mais do que convinha ao tribunal, foi posta fora do recinto a peso de bordoadas, no caso o cidadão de nome João Martins do Nascimento.

Tudo, portanto, conspirou grosseiramente contra as chances de defesa do réu, até que, no fechar do dia, caiu-lhe sobre os ombros a seguinte sentença:
“a vista destes autos e da interrogação feita ao réu, Joaquim Pinto Madeira e na conformidade da lei, art. 192, pelas circunstâncias estabelecidas no art. 16 do mesmo Código, itens 11 e 17, e o mais que se acha escrito nos mesmos autos, que tudo foi por mim lido e examinado, assim de muitos outros crimes horrorosos, de que se acha o réu acusado, confirmo o parecer do 2° Conselho de Jurados, e condeno o mesmo réu Joaquim Pinto Madeira no máximo das penas do mencionado Código, Art. 192. O Escrivão intime a presente sentença ao réu e apresente ao Juiz Criminal para cumprir na forma da lei. Cumpra-se. Vila do Crato, 26 de novembro de 1834. (ass.) José Vitoriano Maciel”.


casa onde ocorreu o julgamento de Pinto Madeira

Lida a sentença e inconformado com o veredito, Pinto Madeira valeu-se das prerrogativas que lhe eram asseguradas pelo Código de Processo Criminal, apelando em voz alta para o Juiz Presidente. Em vão, porém, foi o seu protesto. Arrogante, este respondeu em tom autoritário:   – não tem apelo nem agravo, Sr. Coronel, prepare-se que o senhor morre sempre. 

Estava selada a sorte de Pinto Madeira. Conduzido imediatamente para o calabouço, ali pernoitaria, quando no dia seguinte seria cumprido o ritual de execução. Antes de chegar à cadeia, onde inúmeros curiosos se acotovelavam, ouviu-se com insistência o dobre dos sinos. Pinto Madeira, então indagou do carcereiro por quem dobravam os sinos, visto como às execuções criminais não se antecipava esse tipo de aviso fúnebre, e obteve como resposta: “é pelo senhor que vai morrer amanhã de manhã”.

A partir das seis da tarde, quando defronte ao presídio crescia a multidão, redobrou-se o dispositivo de segurança, medida com a qual se pretendia evitar qualquer tentativa de sequestro. Não faltaram, entretanto, em meio aos que maldosamente espreitavam o réu, aqueles que se serviram do momento para escarnecê-lo.

Às 8 horas da manhã do dia 27 de novembro de 1834, Pinto Madeira deixou o presídio e subiu diretamente rumo ao morro do Barro Vermelho, onde no topo de uma elevação, a forca já o aguardava, formada por três linhas reforçadas de aroeira. Na frente do cortejo marchava o pregoeiro, porteiro Antônio Alves da Silva, anunciando em altas vozes a sentença em seus pormenores. Calmo e silencioso, a caminhar em passo firme, vinha o réu logo em seguida, trajando calças de brim branco e jaqueta de riscado. Ostentava no pescoço a corda com a qual seria enforcado e nas pontas da qual segurava com as duas mãos o carrasco Cosme Pereira da Silva, também conhecido por Cavaco. Ladeavam o réu, dois confessores.

Diante da figura espectral da forca, Pinto Madeira dirigiu-se aos seus confessores  e pediu deles a intervenção no sentido de que a pena por enforcamento fosse comutada em fuzilamento, justificando não ser um bandido comum e sim, um ex-coronel, e por conseguinte, digno de morte menos vergonhosa. Levado o assunto a José Vitoriano Maciel, este levou a questão aos demais que com ele deveria decidir. Houve discordância por parte de um dos juízes, com a alegação de que se feria a lei, mas o comandante José Francisco Pereira Maia contra-argumentou com ameaças: ou o réu é fuzilado ou volta para a cadeia, para apelar, como também é expresso em lei.

Com isso deu-se por encerrada a querela, desfeito o cenário da forca e colocado o réu em posição de fuzilamento. De mãos atadas e presas a um dos mourões da forca, Pinto Madeira viu-se diante do pelotão, formado por cinco soldados e sob o comando do cabo de esquadra a quem competia dirigir a execução. No momento decisivo, quando os gatilhos foram acionados, ele teve tempo apenas de deixar escapar a seguinte expressão: “valha-me o sacramento!”. As carabinas ecoaram, ele caiu moribundo e o tiro de misericórdia estourou-lhe o ouvido, dando por finda a tragédia.


Extraído do livro Pena de Morte, de R. Batista Aragão
fotos do acervo do IBGE