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terça-feira, 2 de julho de 2024

O Forte Holandês

 

O comandante holandês Mathias Beck, tendo desembarcado na enseada do Mucuripe, decidiu estabelecer-se à margem esquerda de um riacho, que alguns nomeavam de Marajaitiba, outros chamavam de Pajeú, ali construindo um forte que chamou de Schoonenborch, em homenagem ao então governador de Pernambuco. O desenho do forte coube ao engenheiro Ricardo Caar, que tendo examinado as condições do forte levantado na Barra do Ceará, optou pela construção de um novo, em novo local, levando em conta que, em caso de cerco, o riacho próximo asseguraria o suprimento de água, o que não acontecia no forte da Barra do Ceará, que, ficando a alguma distância do rio, seria facilmente interceptável em caso de ataque.


 Forte de São Sebastião. Fonte: Montanus, 1671

A segunda ocupação holandesa no Ceará durou cinco anos, retirando-se em os invasores em 1° de junho de 1654, dando cumprimento ao tratado de paz celebrado entre Portugal e Holanda. Antes, o comandante Matias Beck fez a entrega do Schoonenborch ao capitão português Álvaro de Azevedo Barreto, no dia 20 de maio daquele ano.


planta do forte Schoonenborch depois Nossa Senhora da Assunção (imagem Internet)

O forte foi aproveitado pelos portugueses apenas com a modificação do nome e algumas obras de reparo, passando a ter o patrocínio de Nossa Senhora da Assunção. A nomeação do comandante Álvaro de Azevedo Barreto, fora confirmada por Ordem Régia de 23 de novembro de 1654, mas, em 13 de setembro do ano seguinte, o rei Dom João IV expediu patente a Domingos de Sá Barbosa para capitão da Fortaleza do Ceará, de onde se presume que tenha sido específica a nomeação de seu antecessor, restringindo-se a executar o tratado de paz com a Holanda, ao recebimento do forte Schoonenborch.

Depois o forte passou pelo comando de diversos capitães. Por essa época, os direitos sobre a Capitania do Ceará foram reclamados por João de Melo Gusmão, que se prontificou a povoá-la, e o rei Dom Afonso IV o nomeou para comandar o forte em 1660. Pode assumir o posto somente depois de três anos, e faleceu logo depois. Tendo sido o primeiro a trazer sua família, composta de mulher e três filhas para o Ceará, provavelmente com o propósito de aqui permanecer.

Para suceder ao capitão falecido, foi nomeado João Tavares de Almeida, que reconstruiu o forte, que se encontrava quase que em ruínas, atribuída à inexistência de comandante durante alguns anos; exerceu o cargo duas vezes , antes e depois de Jorge Correia da Silva, a quem coube combater , em princípios de 1672, os índios Paiacus.

Com a vacância devido ao falecimento de João Tavares de Almeida, o forte sofreu grandes avarias, sendo reedificado por Bento Correia de Figueiredo, comandante nomeado pelo governador e capitão-general de Pernambuco, mas preterido na escolha real, pelo homônimo Bento de Macedo de Faria, sobre quem recairiam acusações de conivência com contrabandistas holandeses, e por Sebastião de Sá, , este aliás, anteriormente, porém outra vez investido no comando, coube reconstruir o forte do Pajeú, inclusive a ermida.

Em seguida exerceu o comando Tomás Cabral de Olival, de cuja passagem pelo Ceará, pouco ou nada existe a assinalar. Merecendo, no entanto, maior relevância que Pedro Lelou, nomeado após ele, mas impedido de tomar posse, por estar sendo processado. Interinamente, Fernão Carrilho se saiu muito bem, vencendo os Paiacus e aldeando Anacés, e Jaguaribaras nas proximidades do forte.

Depois de empossado, Pedro Lelou não tardou que os moradores representassem contra ele, por excessos cometidos, e foi repreendido pelo próprio rei por ter criado postos no distrito do Ceará contra as ordens existentes. O maior serviço prestado por esse governante, foi ter escrito ao monarca em 1696 sugerindo a criação da primeira vila em território cearense.

Comandaram ainda o forte de Nossa Senhora da Assunção, em fins do século XVII, Fernão Carrilho e Francisco Gil Ribeiro. Os holandeses ao preferirem localizar o forte à margem do Marajaig, sobre o barranco ali existente, anteciparam-se aos portugueses no cumprimento de uma recomendação que o governador do Maranhão, Francisco Coelho fizera em carta de 6 de fevereiro de 1627, ao rei Felipe IV.


Extraído do livro “A Capital do Ceará”, de Geraldo da Silva Nobre.      

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os caminhos Primitivos do Ceará Colonial

Vários caminhos foram abertos na capitania do Ceará nos tempos remotos de sua conquista e povoação pelos colonizadores europeus. Essas estradas foram a porta de entrada para as glebas sertanejas, mesmo as mais remotas, e foram utilizadas pelos pioneiros da truculenta civilização ocidental.

Com relação as estradas de ribeiras, cada riacho possuiu a sua, desde tempos imemoriais. O caminho seguia de perto o leito do curso d’água, ora por uma margem, ora pela outra margem, da foz às cabeceiras, e ao longo da qual de hábito se edificavam os currais, as casas dos vaqueiros e até casas senhoriais.


Para o historiador Pompeu Sobrinho, a origem reside no povoamento de sesmarias, que eram concedidas sucessivamente rio acima. Por esses caminhos andavam cavaleiros que percorriam os sertões comprando equídeos para os engenhos de Pernambuco e as boiadas que procuravam as grandes estradas que conduziam aos centros consumidores do litoral.

O mesmo autor defende que as estradas das ribeiras já existiam ao tempo em que estas terras estavam sob domínio apenas dos indígenas. É certo que os tapuias do sertão desciam às praias quando os cajueiros frutificavam; além disso, outras necessidades determinavam uma certa circulação dos sertões para o litoral e vice-versa. Este movimento se fazia ao longo das referidas estradas, cujo traçado, evitando o recesso das caatingas desprovidas de água fácil, se acostava aos leitos dos cursos de d’água onde o líquido precioso era encontrado com facilidade.    

Estrada Velha


A mais antiga alongava-se pelo litoral desde 1611, ligando o fortim de São Sebastião aos mais civilizados centros do Nordeste brasileiro. Percorrendo ora a praia, ora os tabuleiros, era a princípio, uma vereda mal definida, perceptível apenas aos olhos perscrutadores dos índios tupis, aos quais servira de trilha quando algumas de suas malocas haviam sido deslocadas para o Norte.


 Forte de São Sebastião - 1613 

Pela Estrada Velha transitavam certamente os mercadores portugueses, que já ao final do século XVI, acompanhados de nativos amistosos, percorriam nossas praias em busca do precioso âmbar gris (substância produzida pelas baleias cachalotes, de grande valor na Europa); também passou por ali Pero Coelho e os jesuítas Figueira e Francisco Pinto no rumo da Ibiapaba.

Transpondo o Jaguaribe pouco acima de sua foz, a estrada demandava Natal, passando por Amargoso e Guamoré nas costas de Macau; depois, costeando o Atlântico, alcançava a Paraíba. Até 1625, a estrada ainda não chegava à ilha de São Luiz, no Maranhão. Nas praias de Lençoes, a meio caminho entre a ilha e o forte de São Sebastião, viviam os Tremembés, exímios nas emboscadas, e cujas terras não se atravessava impunemente.

Nos primórdios da conquista do Meio Norte, chegava-se ao Maranhão através da Ibiapaba. Para atingir aquele distante platô, seguiam-se rudes itinerários traçados por Francisco Pinto ou pela bandeira afoita do primeiro capitão-mor do Ceará. Dessas veredas que durante anos serviram à intercomunicação das missões jesuíticas ali estabelecidas, não restaram registros do seu traçado. Entre a serra e a costa do Maranhão existiam ligações constantes e mais ou menos conhecidas, utilizadas pelos franceses no século XVI.

Os primeiros europeus que se encaminharam ao Maranhão pela zona marítima, foram os holandeses. Ávidos sempre de dilatar os domínios da Companhia das Índias Ocidentais, os batavos, senhores da fortaleza de S. Sebastião, contaram com a ajuda dos indígenas da região que atraíram com promessas e presentes.  
Estrada da Taquara


Foram os holandeses, novamente senhores do Ceará em 1649, que levados pela cobiça, estenderam rumo ao Monte da Itarema, uma das veredas de acesso às povoações indígenas da vizinhança do forte Schoonemborch. A lenda referia ali ter estado, anos antes, o capitão-mor Martins Soares em busca de minérios preciosos, e era isso quanto bastava para aguçar a avidez dos agentes da Companhia das Índias Ocidentais. 

Mapa elaborado pelos holandeses em 1649, com o forte Schoonemborch e o caminho que levava a Itarema 

Partindo da praia na direção sul, o caminho da Taquara cortava o Rio Pajeú, então denominado Marajaik, transpunha os ribeirões do Tipoig (Jacarecanga) e Piraoba, tangenciava as lagoas de Imboduaponga (Parangaba) e Monduig (Mondubim) para se bipartir pouco adiante do córrego de Itapoba. O braço oriental seguia para a Serra de Maranguape, onde naqueles sombrios tempos se fizeram escavações e sondagens; o braço ocidental, depois de cortar várias vezes o riacho Itarema Igevab, alcançava a Serra de Itarema, hoje Taquara.

Era uma simples picada traçada nas matas ralas do litoral, picada que o trânsito continuado dos artífices estrangeiros alarga e melhora. Jamais teve esse caminho valor histórico ou comercial. Muito frequentado durante a ocupação holandesa, ficou em completo abandono quando o Ceará se viu livre dos invasores pelo tratado de 1654.

Nosso solo, revolvido febrilmente pelas mãos dos estrangeiros, mostrou-se pouco generoso. A percentagem de prata contida no material extraído das minas era diminuta e não correspondia aos esforços e materiais empregados, deixando portanto, aos portugueses o trabalho de prosseguir com a mineração.

O tráfego da Estrada da Taquara só recomeçou muitos anos depois, em 1662, quando a pedido do padre Joacob Cochleo, as diferentes malocas tupis foram reunidas numa grande povoação situada perto da lagoa do Arronches e que tomou o nome de Aldeia do Bom Jesus de Porangaba.

A partir daí o movimento da Estrada da Taquara cresceu dia a dia no trecho Fortaleza-Porangaba. Por ela marcharam levas de prisioneiros de guerra, encaminhados ao fortim de N.S. da Assunção, pelos primeiros colonizadores lusitanos. Ecoam também por sobre seu leito, os passos apressados dos soldados do presidio, no desenrolar das sucessivas expedições guerreiras contra o elemento nativo.

Com o progressivo aumento da colonização, o ramal de Maranguape superou em importância o caminho da Taquara. De Porangaba partiria mais tarde a estrada tronco para Monte-Mor (atual Baturité) e sertões de Quixeramobim. 
  

Estrada Camocim-Ibiapaba


Aos Tabajaras que estabeleceram ligações numerosas entre seus domínios serranos e os costões arenosos do Atlântico, deve-se atribuir a abertura da estrada Camocim-Ibiapaba, uma das mais remotas vias de acesso rasgadas através das regiões setentrionais do Ceará.

Percorrida amiúde por bandos de nativos em seus deslocamentos periódicos, do platô para as praias, era sem dúvida, vereda já batida e tradicional no início do século XVII, quando marchou em demanda da Ibiapaba a expedição desbravadora de Pero Coelho de Sousa.

Brancos e índios dela se serviram para encaminhar ao embarcadouro da barra do rio da Cruz as madeiras e algodões de que se abasteciam os barcos piratas estrangeiros ali fundeados. Cada vez mais frequentada, à medida que novos colonos iam se fixando na bacia do Coreaú, a estrada Camocim-Ibiapaba atingiu o ápice de sua importância comercial com a fundação dos Saladeiros de Granja, a cujos produtos dava vazão. Seu tráfego decresceu notavelmente depois da seca de 1792.

Embora desconhecido, presume-se que seu traçado seguisse os mesmos rumos da estrada Viçosa-Granja, reconstruída no governo de Bernardo Manuel de Vasconcellos, e que de Granja para o norte, serpenteasse entre os carnaubais que acompanham o curso de Camocim, realizando assim o mais curto e seguro trajeto entre a serra e o litoral. 

Estrada Geral do Jaguaribe


Uma outra estrada foi constituída quando a bacia do Jaguaribe cobriu-se de fazendas e currais. Partindo da região do Aracati, rio acima, transpunha o Jaguaribe em Passagem das Pedras, atravessava os lugares onde hoje estão as cidades de Russas e Icó, subindo depois o Salgado até quase suas nascentes. 

Rio Jaguaribe - IBGE - anos 50 

Trilhada em alguns dos seus trechos já no tempo dos primeiros exploradores seiscentistas, que não dispondo de rios navegáveis, margeavam de preferência os leitos das ravinas, onde poços e cacimbas lhe forneciam água sofrível, a estrada atingiu cedo as terras meridionais da capitania.

Galgando o platô do Araripe e vencendo a caatinga rala dos sertões pernambucanos, chegou ao Rio São Francisco no início do século XVIII. Embora sujeita na última parte do seu curso, aos solos irregulares da serra, com suas longas travessias sem água e sem pastagem, a estrada avultou rapidamente em importância na economia do interior nordestino. Serviu de passagem ao gado e aos cavalos do sertão para a zona do médio São Francisco, de onde seguiam para os centros de mineração das Gerais.

Foi a mais notável via de penetração de todo o Ceará colonial. Por ela recebeu o Cariri os colonizadores vindos do baixo Jaguaribe, que foram os primeiros ocupantes daqueles rincões fronteiriços e também gente oriunda das margens do São Francisco. Foi também, até o advento da Ferrocarril, a mais importante via de intercâmbio entre o litoral e o interior cearense. Por ela entraram durante todo o período colonial os gêneros de primeira necessidade de que se abastecia o nosso interior e os distantes sertões do Piauí.

Estrada Nova das Boiadas



Da bacia do Jaguaribe chegava-se aos campos criadores do Piauí pela estrada nova das boiadas, caminho difícil e alongado, que hoje, graças as indicações deixadas nos textos das sesmarias, pode ser reconstituído em grande parte.

Vinda de Pau dos Ferros pelo Pereiro, transpunha o Jaguaribe pouco acima da villa de Jaguaribe-mirim; ia em seguida pelo riacho do Sangue no rumo Nordeste; passava ladeando os campos de Uriá, cruzava o rio das Pedras, atingindo  Banabuiú em Laranjeiras; depois de beirá-lo algum tempo, serpenteava junto as margens do seu tributário mais importante, o Quixeramobim, até embocar na cidade do mesmo nome, onde se bipartia.

Um ramal seguia pelo Cavallo-Morto (Boa Viagem), Independência e Crateús, caminhava para o Piauí através do boqueirão do Poti. O outro, indo para o noroeste ia até Sobral, prolongando-se até a capital de Pernambuco, por Barriguda, e Tabuleiro Formoso.

Encurtando distância e desviando o trânsito do litoral para o sertão, a Estrada Nova das Boiadas concorreu grandemente para o isolamento em que muito tempo ficou a sede administrativa da Capitania, pequena e insignificante, enquanto outras vilas se desenvolviam. 
Estrada das Boiadas


Sua origem remonta ao início do século XVIII. Já em 1731 a via é citada em texto das sesmarias cearenses como “a estrada que passa para o Piauí”. Sete anos antes era denominada “caminho dos Inhamuns” ; Icó, Iguatu, São Matheus, Saboeiro, Arneiroz e Tauá balizam hoje em enorme trecho desse velho caminho de acesso às terras do médio Parnaíba.


De Tauá, antiga fazenda de José Alves Feitosa, seguia para o centro do Estado do Piauí pelo antigo riacho dos Camaleões (atual Carrapateiras), atingindo Vertentes e Crateús. Simples picada de tropeiros, a via Tauá-Piauí constitui-se m breve um caminho tradicional, que seguindo o riacho de Trici, encostas meridionais da serra da Joaninha, rumava Valença. Conhecida nas crônicas do Rio Grande do Norte e Paraíba, pelo nome de Estrada das Boiadas, aparece nos documentos cearenses do início do século XIX com a simples designação de “Estrada para Pernambuco”.

Em seu traçado primitivo a estrada passava pelos lugares hoje denominados S. João do Rio do Peixe, Sousa, Pombal e Patos, ia depois margeando o rio Pinharás, galgava a encosta oriental da Borborema, encontrando seis léguas adiante a lagoa do Batalhão, seguia as sinuosidades do rio Taperoá até a povoação de Milagres; alcançava a pequena ribeira do Santa Rosa para chegar a Campina Grande.

Dentre os complexos e numerosos fatores que influíram na formação e distribuição de núcleos povoados do interior cearense, as chamadas estradas das boiadas tiveram papel de maior relevância. 
Estrada da Caiçara


Varando os tabuleiros agrestes, por onde na estação das chuvas corriam para o mar as águas barrentas do Acaraú, alongava-se a Estrada da Caiçara. Ao tempo do desbravamento da zona norte do Ceará, era a única via de comunicação entre o litoral e os povoados da ribeira do Acaraú. Com o passar do tempo e a necessidade de intercâmbio comercial com outras localidades, as contingências geográficas da circulação orientam as ligações do interior cearense com Pernambuco e Paraíba.

O caminho da Caiçara prolonga-se assim pelas caatingas de Santa Quitéria atingindo Quixeramobim, onde passava a estrada nova das boiadas. Tomando essa antiga trilha, podiam os estancieiros das ribeiras do norte, transportar cavalos, boiadas ou tropas carregadas de couro ao Recife, com maior rapidez e sem o ônus dos pesadíssimos fretes marítimos. 

No início do século XIX construíram-se no Ceará novas vias de comunicação, e muitas das velhas estradas tradicionais foram melhoradas. Os caminhos, mesmos os mais utilizados na realidade não passavam de sendas, estreitas e tortuosas, traçadas pelos viajantes em peregrinação. Mal podiam vencê-las cavaleiros e peões. Excetuando talvez a Estrada Geral do Jaguaribe e a do Acaraú, nenhuma permitia a passagem de veículos de roda.   
  
Extraído do texto:
Vias de Comunicação do Ceará Colonial, de Carlos Studart Filho 
Revista do Instituto do Ceará - 1937
imagens da Comissão Científica do Império 1859-1861(meramente ilustrativas)             

sábado, 8 de abril de 2017

O Ceará Holandês

Desde 1632 os holandeses, que já dominavam Pernambuco, tentavam se apossar do Ceará, onde existia um pequeno contingente português na barra do rio Ceará; mas só conseguiram seu intento em 1637, no governo do Príncipe Maurício de Nassau.
Com a ajuda de Algodão, chefe dos tapuias estabelecidos em Arronches (atual Parangaba), e sob o comando de Joris Gartsman, se apoderaram do fortim, em poder dos portugueses desde o tempo de Pero Coelho, sob a denominação de Forte de Nossa Senhora do Amparo (Souza, 1885) ou Forte de São Sebastião (Studart, 1937).


Expulsos dali em 1644, os invasores holandeses voltaram ao Ceará no Governo de Schoonemborch, de sorte que em 1649 era fundado por Matias Beck o forte de nome desse governador, no local que após a capitulação do Recife, os portugueses fundaram o Forte de N. S. da Assunção.

forte de N. S. da Assunção

A expedição ancorando no Mucuripe, tentou desembarcar em dois pontos diversos da hoje praia do Meireles, e não conseguindo por causa da arrebentação, veio fazê-lo em frente à embocadura do pequeno regato designado por Marajaitiba (Pajeú).

O terreno da hoje moderna cidade estava dividido em duas lombadas, uma onde assenta agora o quartel, o Passeio Público, etc.e outra, onde ficava a Rua Formosa, desde a Travessa Municipal até a Rua das Trincheiras. 
Havia um aldeamento de índios no sitio localizado na extremidade norte da rua do Chafariz, quase na embocadura do Marajaitiba. Na planta de Mathias Beck, o riacho Jacarecanga aparece com o nome de “Tipoig”, e a barra do Ceará ou Itarema para os holandeses, apresenta do lado direito um velho fortim português denominado São Sebastião e as casas de dois indígenas.

Mapa de Mathias Beck

As edificações feitas pelos holandeses no monte Marajaik consistiam no forte de 5 pontas, cercado de parapeitos e paliçadas. No recinto do forte, construíram um armazém guarnecido com paliçadas e, junto ao portão, um alojamento para Mathias Beck. Para receberem mantimentos, que vinham por mar, procedentes de Pernambuco, os invasores fizeram um acesso que punha a fortificação em comunicação com o mar.

Do fortim descrito no mapa se projetava uma estrada para o interior em direção à Itarema (Serra da Taquara), onde os holandeses acreditavam haver minas de prata, que teriam sido exploradas, com sucesso ou não – por Martim Soares e outros portugueses.
Nessa linha encontra-se, sem designação o riacho do Tauape; mais além do ribeiro que denominavam “Pirdo-Çai”, adiante quase 2 léguas da costa, a Lagoa do Arronches, ao ocidente da qual corria o caminho, bifurcando-se nele, o que conduzia à Barra do Ceará.

trecho do Rio Ceará em 1925 (imagem: blog do Iba Mendes)

Entre a lagoa do Arronches e a de Mondubim corria um regato que não traz nome. Cerca de uma légua além de Mondubim a estrada era cortada por um pequeno regato sem identificação, e duas milhas adiante, deparava-se com o rio Itapeba, uma légua além do qual o caminho se dividia em dois ramais, um ao ocidente, conduzindo a Itarema, e outro ao oriente, conduzindo a Pirapora, no sopé da serra de “Maraguá”, conforme ali designado.

Toda esta extensão era deserta. Em meio a Serra da Taquara (Itarema) havia um quartel do comissário Hendrick Van Ham, incumbido da exploração e mineração de prata, que os mineiros diziam existir ali em duas fendas, maior e menor, já no vértice da montanha, ficando-lhe de permeio o pico, a que se dava o nome de Itarema.

Do alto da serra corria um riacho que vem designado sob o nome de Itarema Igeoab, o qual deve ser o riacho Taquara. Já os colonos das duas nações, estabelecidos precedentemente na barra do Ceará frequentavam esta região, pois nesta planta ou carta, que os holandeses chamavam da Capitania do Ceará, se veem traçados, um pouco abaixo de Taquara, dois caminhos que conduziam ao rio Ceará. Tudo quanto existia na região propriamente de Pirapora (Pirapedoba) consistia em quatro roças de milho e de mandioca pertencentes aos índios.


Extraído do livro Ceará (homens e fatos) de João Brígido  

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Ocupação Holandesa no Ceará


os fortes foram construídos para vigiar o oceano e defender o local de invasores estrangeiros

Entre 1630 e 1654 os holandeses dominaram o Nordeste. 
Seus objetivos, formulados pela Companhia das Índias Ocidentais eram, sobretudo, de controlar a região produtora de cana-de-açúcar, além de, explorar a terra em busca de outras riquezas. 
Assim, após fracassarem  na conquista da Bahia (1624-25), dominarem Pernambuco (1630), estenderam seus domínio para outras capitanias como Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. 
A ocupação do Ceará pelos flamengos visava igualmente ao estabelecimento de um posto de apoio logístico para conquista do Maranhão (que também despertava interesse dos holandeses), bem como a manutenção da capitania de Pernambuco, à medida que se afastavam cada vez mais os portugueses dos centros produtores de açúcar. 
Havia, ainda, interesses na extração de produtos minerais, principalmente sais, âmbar e especialmente prata, que supunham, fosse abundante no Ceará. 

enseada do Mucuripe, local de desembarque dos holandeses

Em outubro de 1637, 126 homens, comandados  por George Gartsman desembarcaram no Mucuripe, dirigindo-se para o forte do Siará em companhia de diversos índios, em plena animosidade com brancos portugueses.  
Os indígenas buscaram essa aliança com os holandeses como uma tática, para manterem suas terras, e se livrarem das opressões impostas pelos lusitanos. O forte português ocupado por apenas 33 soldados sob as ordens de Bartolomeu Brito, logo caiu, ante a força do ataque dos holandeses. 
Estava desfeito o império luso no Ceará, ainda que temporariamente.  
No forte conquistado, ficaram 45 homens liderados por Hendrick Van Ham, enquanto Gartsman conduzia os portugueses prisioneiros para o Rio Grande do Norte. Posteriormente, em 1640, o comando do forte passou para Gedeon Morris de Jorge, um dos grandes estrategistas da ocupação holandesa no Ceará. 

Barra do Ceará, local da construção do Forte de São Sebastião

Os holandeses, no entanto, logo perceberam a inexistência de atrativos econômicos na terra, ainda que tenham explorado áreas salineiras – usando mão-de-obra indígena escrava.  A reação indígena foi contundente diante dos maus tratos: em 1644 invadiram e destruíram o Forte de São Sebastião, trucidando todos os holandeses.
 Cinco anos depois os holandeses retornaram ao Ceará, agora sob o comando de Matias Beck. Essa segunda invasão ocorreu num momento de decadência  do domínio flamengo no Nordeste, verificando-se mesmo em Pernambuco, violenta insurreição. 
Portanto, necessitando de recursos, trataram de reconquistar o Ceará, novamente em busca das ricas minas de prata.
Matias Beck buscou uma reconciliação com os indígenas, dando-lhes muitos presentes. Mandou erguer na Colina Marajaitiba, às margens do Riacho Pajeú o Forte de Shoonenborch, cujo nome era uma homenagem ao governador do Brasil-Holandês. 
Os holandeses passaram os cinco anos seguintes procurando minérios em terras cearenses – em Itarema, na Ibiapaba e em Maranguape, mas não obtiveram sucesso com essa empreitada. 
Com a seca de 1651-54 e, principalmente, com a rendição holandesa em Pernambuco, o forte cearense ficou quase esquecido.  Os índios locais, incitados por nativos fugidos de Pernambuco, passaram a se indispor com os holandeses e a não mais aceitar a presença de qualquer branco na terra. 

Mapa de Matias Beck "Planta do Forte Schoonenborch da Bahia de Mucuriba e do Monte Itarema, situados no Ceará, aos 28 de abril de 1649. (arquivo Nirez) 

Por esse motivo, chegaram a matar alguns soldados e a sitiar o Forte Schoonenborch.  Finalmente, conforme o acordo de rendição entre flamengos e lusitanos, em 1° de junho de 1654, Matias Beck e seus soldados deixaram pacificamente o Ceará.  
Ao mesmo tempo os portugueses, através de um novo capitão-mor, Álvaro de Azevedo Barreto, retomaram a colonização, começando por mudar o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.
Em 1656, o Ceará foi desligado do Estado do Maranhão, ao qual estivera sujeito desde 1621 e passou a ser subordinado a Pernambuco, situação que se manteria por 143 anos, até 1799, quando a capitania ganhou autonomia.  

fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão