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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os caminhos Primitivos do Ceará Colonial

Vários caminhos foram abertos na capitania do Ceará nos tempos remotos de sua conquista e povoação pelos colonizadores europeus. Essas estradas foram a porta de entrada para as glebas sertanejas, mesmo as mais remotas, e foram utilizadas pelos pioneiros da truculenta civilização ocidental.

Com relação as estradas de ribeiras, cada riacho possuiu a sua, desde tempos imemoriais. O caminho seguia de perto o leito do curso d’água, ora por uma margem, ora pela outra margem, da foz às cabeceiras, e ao longo da qual de hábito se edificavam os currais, as casas dos vaqueiros e até casas senhoriais.


Para o historiador Pompeu Sobrinho, a origem reside no povoamento de sesmarias, que eram concedidas sucessivamente rio acima. Por esses caminhos andavam cavaleiros que percorriam os sertões comprando equídeos para os engenhos de Pernambuco e as boiadas que procuravam as grandes estradas que conduziam aos centros consumidores do litoral.

O mesmo autor defende que as estradas das ribeiras já existiam ao tempo em que estas terras estavam sob domínio apenas dos indígenas. É certo que os tapuias do sertão desciam às praias quando os cajueiros frutificavam; além disso, outras necessidades determinavam uma certa circulação dos sertões para o litoral e vice-versa. Este movimento se fazia ao longo das referidas estradas, cujo traçado, evitando o recesso das caatingas desprovidas de água fácil, se acostava aos leitos dos cursos de d’água onde o líquido precioso era encontrado com facilidade.    

Estrada Velha


A mais antiga alongava-se pelo litoral desde 1611, ligando o fortim de São Sebastião aos mais civilizados centros do Nordeste brasileiro. Percorrendo ora a praia, ora os tabuleiros, era a princípio, uma vereda mal definida, perceptível apenas aos olhos perscrutadores dos índios tupis, aos quais servira de trilha quando algumas de suas malocas haviam sido deslocadas para o Norte.


 Forte de São Sebastião - 1613 

Pela Estrada Velha transitavam certamente os mercadores portugueses, que já ao final do século XVI, acompanhados de nativos amistosos, percorriam nossas praias em busca do precioso âmbar gris (substância produzida pelas baleias cachalotes, de grande valor na Europa); também passou por ali Pero Coelho e os jesuítas Figueira e Francisco Pinto no rumo da Ibiapaba.

Transpondo o Jaguaribe pouco acima de sua foz, a estrada demandava Natal, passando por Amargoso e Guamoré nas costas de Macau; depois, costeando o Atlântico, alcançava a Paraíba. Até 1625, a estrada ainda não chegava à ilha de São Luiz, no Maranhão. Nas praias de Lençoes, a meio caminho entre a ilha e o forte de São Sebastião, viviam os Tremembés, exímios nas emboscadas, e cujas terras não se atravessava impunemente.

Nos primórdios da conquista do Meio Norte, chegava-se ao Maranhão através da Ibiapaba. Para atingir aquele distante platô, seguiam-se rudes itinerários traçados por Francisco Pinto ou pela bandeira afoita do primeiro capitão-mor do Ceará. Dessas veredas que durante anos serviram à intercomunicação das missões jesuíticas ali estabelecidas, não restaram registros do seu traçado. Entre a serra e a costa do Maranhão existiam ligações constantes e mais ou menos conhecidas, utilizadas pelos franceses no século XVI.

Os primeiros europeus que se encaminharam ao Maranhão pela zona marítima, foram os holandeses. Ávidos sempre de dilatar os domínios da Companhia das Índias Ocidentais, os batavos, senhores da fortaleza de S. Sebastião, contaram com a ajuda dos indígenas da região que atraíram com promessas e presentes.  
Estrada da Taquara


Foram os holandeses, novamente senhores do Ceará em 1649, que levados pela cobiça, estenderam rumo ao Monte da Itarema, uma das veredas de acesso às povoações indígenas da vizinhança do forte Schoonemborch. A lenda referia ali ter estado, anos antes, o capitão-mor Martins Soares em busca de minérios preciosos, e era isso quanto bastava para aguçar a avidez dos agentes da Companhia das Índias Ocidentais. 

Mapa elaborado pelos holandeses em 1649, com o forte Schoonemborch e o caminho que levava a Itarema 

Partindo da praia na direção sul, o caminho da Taquara cortava o Rio Pajeú, então denominado Marajaik, transpunha os ribeirões do Tipoig (Jacarecanga) e Piraoba, tangenciava as lagoas de Imboduaponga (Parangaba) e Monduig (Mondubim) para se bipartir pouco adiante do córrego de Itapoba. O braço oriental seguia para a Serra de Maranguape, onde naqueles sombrios tempos se fizeram escavações e sondagens; o braço ocidental, depois de cortar várias vezes o riacho Itarema Igevab, alcançava a Serra de Itarema, hoje Taquara.

Era uma simples picada traçada nas matas ralas do litoral, picada que o trânsito continuado dos artífices estrangeiros alarga e melhora. Jamais teve esse caminho valor histórico ou comercial. Muito frequentado durante a ocupação holandesa, ficou em completo abandono quando o Ceará se viu livre dos invasores pelo tratado de 1654.

Nosso solo, revolvido febrilmente pelas mãos dos estrangeiros, mostrou-se pouco generoso. A percentagem de prata contida no material extraído das minas era diminuta e não correspondia aos esforços e materiais empregados, deixando portanto, aos portugueses o trabalho de prosseguir com a mineração.

O tráfego da Estrada da Taquara só recomeçou muitos anos depois, em 1662, quando a pedido do padre Joacob Cochleo, as diferentes malocas tupis foram reunidas numa grande povoação situada perto da lagoa do Arronches e que tomou o nome de Aldeia do Bom Jesus de Porangaba.

A partir daí o movimento da Estrada da Taquara cresceu dia a dia no trecho Fortaleza-Porangaba. Por ela marcharam levas de prisioneiros de guerra, encaminhados ao fortim de N.S. da Assunção, pelos primeiros colonizadores lusitanos. Ecoam também por sobre seu leito, os passos apressados dos soldados do presidio, no desenrolar das sucessivas expedições guerreiras contra o elemento nativo.

Com o progressivo aumento da colonização, o ramal de Maranguape superou em importância o caminho da Taquara. De Porangaba partiria mais tarde a estrada tronco para Monte-Mor (atual Baturité) e sertões de Quixeramobim. 
  

Estrada Camocim-Ibiapaba


Aos Tabajaras que estabeleceram ligações numerosas entre seus domínios serranos e os costões arenosos do Atlântico, deve-se atribuir a abertura da estrada Camocim-Ibiapaba, uma das mais remotas vias de acesso rasgadas através das regiões setentrionais do Ceará.

Percorrida amiúde por bandos de nativos em seus deslocamentos periódicos, do platô para as praias, era sem dúvida, vereda já batida e tradicional no início do século XVII, quando marchou em demanda da Ibiapaba a expedição desbravadora de Pero Coelho de Sousa.

Brancos e índios dela se serviram para encaminhar ao embarcadouro da barra do rio da Cruz as madeiras e algodões de que se abasteciam os barcos piratas estrangeiros ali fundeados. Cada vez mais frequentada, à medida que novos colonos iam se fixando na bacia do Coreaú, a estrada Camocim-Ibiapaba atingiu o ápice de sua importância comercial com a fundação dos Saladeiros de Granja, a cujos produtos dava vazão. Seu tráfego decresceu notavelmente depois da seca de 1792.

Embora desconhecido, presume-se que seu traçado seguisse os mesmos rumos da estrada Viçosa-Granja, reconstruída no governo de Bernardo Manuel de Vasconcellos, e que de Granja para o norte, serpenteasse entre os carnaubais que acompanham o curso de Camocim, realizando assim o mais curto e seguro trajeto entre a serra e o litoral. 

Estrada Geral do Jaguaribe


Uma outra estrada foi constituída quando a bacia do Jaguaribe cobriu-se de fazendas e currais. Partindo da região do Aracati, rio acima, transpunha o Jaguaribe em Passagem das Pedras, atravessava os lugares onde hoje estão as cidades de Russas e Icó, subindo depois o Salgado até quase suas nascentes. 

Rio Jaguaribe - IBGE - anos 50 

Trilhada em alguns dos seus trechos já no tempo dos primeiros exploradores seiscentistas, que não dispondo de rios navegáveis, margeavam de preferência os leitos das ravinas, onde poços e cacimbas lhe forneciam água sofrível, a estrada atingiu cedo as terras meridionais da capitania.

Galgando o platô do Araripe e vencendo a caatinga rala dos sertões pernambucanos, chegou ao Rio São Francisco no início do século XVIII. Embora sujeita na última parte do seu curso, aos solos irregulares da serra, com suas longas travessias sem água e sem pastagem, a estrada avultou rapidamente em importância na economia do interior nordestino. Serviu de passagem ao gado e aos cavalos do sertão para a zona do médio São Francisco, de onde seguiam para os centros de mineração das Gerais.

Foi a mais notável via de penetração de todo o Ceará colonial. Por ela recebeu o Cariri os colonizadores vindos do baixo Jaguaribe, que foram os primeiros ocupantes daqueles rincões fronteiriços e também gente oriunda das margens do São Francisco. Foi também, até o advento da Ferrocarril, a mais importante via de intercâmbio entre o litoral e o interior cearense. Por ela entraram durante todo o período colonial os gêneros de primeira necessidade de que se abastecia o nosso interior e os distantes sertões do Piauí.

Estrada Nova das Boiadas



Da bacia do Jaguaribe chegava-se aos campos criadores do Piauí pela estrada nova das boiadas, caminho difícil e alongado, que hoje, graças as indicações deixadas nos textos das sesmarias, pode ser reconstituído em grande parte.

Vinda de Pau dos Ferros pelo Pereiro, transpunha o Jaguaribe pouco acima da villa de Jaguaribe-mirim; ia em seguida pelo riacho do Sangue no rumo Nordeste; passava ladeando os campos de Uriá, cruzava o rio das Pedras, atingindo  Banabuiú em Laranjeiras; depois de beirá-lo algum tempo, serpenteava junto as margens do seu tributário mais importante, o Quixeramobim, até embocar na cidade do mesmo nome, onde se bipartia.

Um ramal seguia pelo Cavallo-Morto (Boa Viagem), Independência e Crateús, caminhava para o Piauí através do boqueirão do Poti. O outro, indo para o noroeste ia até Sobral, prolongando-se até a capital de Pernambuco, por Barriguda, e Tabuleiro Formoso.

Encurtando distância e desviando o trânsito do litoral para o sertão, a Estrada Nova das Boiadas concorreu grandemente para o isolamento em que muito tempo ficou a sede administrativa da Capitania, pequena e insignificante, enquanto outras vilas se desenvolviam. 
Estrada das Boiadas


Sua origem remonta ao início do século XVIII. Já em 1731 a via é citada em texto das sesmarias cearenses como “a estrada que passa para o Piauí”. Sete anos antes era denominada “caminho dos Inhamuns” ; Icó, Iguatu, São Matheus, Saboeiro, Arneiroz e Tauá balizam hoje em enorme trecho desse velho caminho de acesso às terras do médio Parnaíba.


De Tauá, antiga fazenda de José Alves Feitosa, seguia para o centro do Estado do Piauí pelo antigo riacho dos Camaleões (atual Carrapateiras), atingindo Vertentes e Crateús. Simples picada de tropeiros, a via Tauá-Piauí constitui-se m breve um caminho tradicional, que seguindo o riacho de Trici, encostas meridionais da serra da Joaninha, rumava Valença. Conhecida nas crônicas do Rio Grande do Norte e Paraíba, pelo nome de Estrada das Boiadas, aparece nos documentos cearenses do início do século XIX com a simples designação de “Estrada para Pernambuco”.

Em seu traçado primitivo a estrada passava pelos lugares hoje denominados S. João do Rio do Peixe, Sousa, Pombal e Patos, ia depois margeando o rio Pinharás, galgava a encosta oriental da Borborema, encontrando seis léguas adiante a lagoa do Batalhão, seguia as sinuosidades do rio Taperoá até a povoação de Milagres; alcançava a pequena ribeira do Santa Rosa para chegar a Campina Grande.

Dentre os complexos e numerosos fatores que influíram na formação e distribuição de núcleos povoados do interior cearense, as chamadas estradas das boiadas tiveram papel de maior relevância. 
Estrada da Caiçara


Varando os tabuleiros agrestes, por onde na estação das chuvas corriam para o mar as águas barrentas do Acaraú, alongava-se a Estrada da Caiçara. Ao tempo do desbravamento da zona norte do Ceará, era a única via de comunicação entre o litoral e os povoados da ribeira do Acaraú. Com o passar do tempo e a necessidade de intercâmbio comercial com outras localidades, as contingências geográficas da circulação orientam as ligações do interior cearense com Pernambuco e Paraíba.

O caminho da Caiçara prolonga-se assim pelas caatingas de Santa Quitéria atingindo Quixeramobim, onde passava a estrada nova das boiadas. Tomando essa antiga trilha, podiam os estancieiros das ribeiras do norte, transportar cavalos, boiadas ou tropas carregadas de couro ao Recife, com maior rapidez e sem o ônus dos pesadíssimos fretes marítimos. 

No início do século XIX construíram-se no Ceará novas vias de comunicação, e muitas das velhas estradas tradicionais foram melhoradas. Os caminhos, mesmos os mais utilizados na realidade não passavam de sendas, estreitas e tortuosas, traçadas pelos viajantes em peregrinação. Mal podiam vencê-las cavaleiros e peões. Excetuando talvez a Estrada Geral do Jaguaribe e a do Acaraú, nenhuma permitia a passagem de veículos de roda.   
  
Extraído do texto:
Vias de Comunicação do Ceará Colonial, de Carlos Studart Filho 
Revista do Instituto do Ceará - 1937
imagens da Comissão Científica do Império 1859-1861(meramente ilustrativas)             

sábado, 28 de maio de 2016

Os Fundadores do Ceará - Parte II (Final)

A Estrada Geral do Jaguaribe partia de Aracati, um antigo porto de barcos, que se tornaria o mais destacado empório comercial da Capitania. Cortando inúmeras fazendas e currais, dirigia-se à região meridional do Ceará, na Chapada do Araripe, continuando até as terras pernambucanas. Essa estrada tornou-se a mais importante via de acesso aos sertões do Ceará colonial.

A progressiva conquista dos sertões fez-se de espaço a espaço, à força bruta, com as famílias seguindo os rastros do gado vacum. Os colonos adentravam regiões ainda virgens – os sertões de fora – nas zonas litorâneas, vindos do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, e nos – sertões de dentro – aqueles mais interiorizados, oriundos da Bahia e Sergipe. 

Os primeiros desbravadores das terras na ribeira do Jaguaribe foram os sesmeiros de 1681. Quinze nomes dos chamados “Homens do Rio Grande do Norte”, provavelmente parentes entre si, obtiveram sesmarias ao longo do Rio Jaguaribe, indo do Aracati ao Boqueirão do Cunha, no alto sertão. 

Rio Jaguaribe na cidade do mesmo nome 

Entre essa gente, dotada de “civilidade e polidez” estava a família Gracismã, cujo patriarca, o Comissário-de-Cavalaria, Teodósio de Gracismã é tido como um dos primeiros povoadores da ribeira do Jaguaribe, já residindo nessa região em 1683. Alguns historiadores consideram Teodósio de Gracismã descendente e provavelmente, filho do holandês Joris Garstman que na ocupação flamenga desempenhou relevante papel no Nordeste brasileiro. 

O tenente-coronel Garstman foi em seu tempo, a maior autoridade holandesa do Castelo de Keulen, depois Forte dos Reis Magos, no Rio Grande do Norte. Por ordem de Mauricio de Nassau, conquistou o Ceará na campanha de 1637. Era de sua propriedade o Engenho do Cunhaú, comprado por 60 mil florins em 1637, em terras potiguares e que marcou a história colonial pelo hediondo massacre nele realizado contra seus moradores, pelos índios comandados por Jacob Rabi. Garstman deixou descendência no Brasil, de seu casamento com uma portuguesa, possivelmente da família Abreu, antes de 1640.

Aracati - início do século XX 

São os Gracismã ascendentes dos Costa Lima – fundadores do Aracati – dos Pontes Vieira, dos Nogueira Borges da Fonseca, dos Dias da Rocha, dentre outros. Entre Aracati e Icó outras sesmarias foram doadas aos descendentes de Jerônimo de Albuquerque, o Adão Pernambucano, pai de 35 filhos conhecidos e cadastrados como ascendentes da maior parte das antigas famílias nordestinas. 

Os Albuquerque, os Cavalcante, os Holanda, e outros se encontram registrados desde aqueles primeiros tempos, no maior documento genealógico do Nordeste brasileiro, a Nobiliarquia Pernambucana de Borges da Fonseca. Destacam-se velhos troncos coloniais: Porto Saboia – de origem italiana, Figueiredo, Caminha, Castro e Silva, Barbosa, Alves Ribeiro, Antunes de Oliveira, Fidelis Barroso, Pamplona, Amorim Garcia, Costa Barros, Nogueira, Ribeiro, Bessa, Maciel, Gurgel do Amaral, Barreto, Ferreira, Pereira de Brito, Pinheiro, Bezerra de Menezes, Uchoa, Carvalho, Lira, Pereira, e muitos outros ligados ao povoamento daqueles territórios. Segundo o historiador Carlos Xavier Paes Barreto, a família Bandeira de Mello é uma das mais antigas do Brasil. “Com Duarte Coelho, 1º Donatário de Pernambuco, vieram seus primos, Felipe e Pedro Bandeira de Melo”.

No Boqueirão dos Cunha estabeleceu-se no final do século XVII, a família do fidalgo português Pereira da Cunha, mais tarde ligado aos Alencar. Luciano Cardoso de Vargas, deixou incontável descendência espalhada pelas terras jaguaribanas. A esta se vincularam os Vidal de Negreiros, e os Leitão Arnoso, que constituem a linhagem materna da família Gadelha.

Exercendo a medicina, na qual era licenciado, dono de botica e de colégio em que estudavam os rapazes ricos do sertão, Luciano Cardoso de Vargas residiu com sua mulher Maria Maciel de Carvalho, no arraial de São João, na zona jaguaribana. Este casal foi ascendente da família Sombra – de Russas e Maranguape – Vieira da Costa, Ramalho, Maia, Alarcon, Monteiro de Oliveira, Gondim, Nascimento, Caracas, Fiuza Pequeno, Campos, Cabral, Monteiro do Nascimento, Almeida e Castro, Pires e Maia – de Russas, Pinto Lopes, Guerreiro, Chaves, Lessa e Paula Pessoa. 

Região de caatinga esparsa com casas de adobe na margem da estrada e, ao fundo, a Serra de Camará que faz divisa entre Jaguaribe e Icó. 

Os Távora descendem do sargento-mor Manoel Peixoto da Silva Távora, que obteve sesmaria nas adjacências do Rio Jaguaribe em 1723, deixando numerosa linhagem. O sargento-mor, alcunhado de Peixotão por sua compleição física avantajada, figura na citação de Gustavo Barroso, ao lado do Domingão de Guaiuba, como os gigantes do Ceará Antigo, “tão avantajados no físico quanto no moral”.
 
Na região de Morada Nova, radicaram-se os Ferreira, os Correia Vieira, os Gomes Barreto, os Rodrigues Machado, os Girão, os Pimenta de Aguiar, os Rocha Pitta, os Carneiro de Souza. 

Os Feitosas foram os primeiros habitantes do médio Jaguaribe e ficaram famosos no tempo do Ceará Colonial por suas contendas com os Montes. Essas duas famílias, a primeira originária de Pernambuco e a segunda de Alagoas, passaram a morar no Ceará nos 10 últimos anos do século XVII, nas imediações de Icó – nesse tempo um arraial quase despovoado. A disputa entre os dois poderosos clãs dividiu a administração da capitania, quando a Câmara era sustentada pelos Montes e a Ouvidoria pelos Feitosas. 

No Icó radicaram-se também os Ferreira Lima, os Mendonça, os Fernandes Vieira, os Leal, os Fiuza, os Bastos de Oliveira, os Pinto Bandeira, os Pinto Accioly, e os Pinto Nogueira. Conforme registro de Raimundo Girão, esses últimos Pinto eram os irmãos José Vitorino e Joaquim Pinto Nogueira, portugueses, moradores em Olinda, que atraídos por interesses comerciais vieram para o Icó e ali enriqueceram. Seu estabelecimento viria a ser a melhor loja de fazendas e armarinhos, ferragens e louças que já se conheceu nos sertões do Ceará.

No Cariri se estabeleceram as famílias Alencar, Gonçalves, Sampaio, Arnault, Figueiredo Pereira e Bezerra de Menezes. Entre os representantes da corrente baiana cita-se Antônio de Sousa Goulart bisavô da heroína Bárbara de Alencar, bandeirante que servia à poderosa casa dos Garcia D’Ávila. A família dos Garcia D’Ávila, uma das mais poderosas do Brasil colonial, desbravou o sertão nordestino por mais de dois séculos.

Para o Cariri a cana de açúcar veio logo com os primeiros povoadores, dentre esses, Antônio de Sousa Goulart, que desde 1718, moía cana em seu engenho, no Sitio Salamanca, certamente o primeiro engenho plantado no Cariri. Composto na época pelas terras dos sítios Lambedor, Lama e Brito, Salamanca deu origem à cidade de Barbalha.

Cortando a bacia do Jaguaribe, a Estrada Nova das Boiadas estendia-se do Piauí até Pernambuco. Era a corda de um imenso arco formado pelo velho caminho que beirando o mar, unia Camocim ao Recife. Essa Estrada Nova concorreu para povoar a zona interiorana cearense, com moradores das capitanias vizinhas, reforçando assim, o isolamento, por muito tempo, da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Este longo percurso bipartia-se em Quixeramobim: o caminho do Cavalo Morto levava a Crateús e daí para o Piauí; o outro, tomando o rumo noroeste, chegava-se a Sobral.

Em Quixeramobim estabeleceram-se os Ferreira Santiago, os Ramalho, os Souza Pimentel, os Araújo, os Maciel, os Saraiva Leão, e mais tarde, os Câmara, vindos do Rio Grande do Norte. Em Quixadá floresceram as famílias Lemos de Almeida e Queiroz, Facó, Barreiras, Marinho Falcão, Barreira Nanan, e Ferreira da Mota.

Na zona sobralense salientou-se a descendência de Manoel Vaz Carrasco, pai das lembradas sete irmãs, origem das famílias Montenegro, Góes, Gomes de Sá, Vasconcelos, Aguiar Oliveira, Porto, Ferreira da Ponte, Alves Linhares, Araújo Costa, Uchoa, Prado e Parente. Nessa zona fixaram-se os Monte, os Xerez, os Lopes Freire, os Frota, os Filgueiras de Melo, os Furtado de Mendonça e os Rodrigues Lima.

Varando os tabuleiros agrestes, aqui e ali reverdecidos pelos aluviões dos riachos, a Estrada da Caiçara levava à orla marítima os moradores da ribeira do Acaraú, projetando-se também para o interior, em direção às terras ressequidas de Santa Quitéria. Deixou grande descendência no Vale do Acaraú, Manoel Ferreira Fonteles. 

Em Santa Quitéria vicejou o clã dos Pinto de Mesquita. Nos sertões de Crateús, residiam os Mello – apoiados pelos Feitosas – e os Mourão – aliados aos Carcará, disputando o poder da região. Também ali residiam outras famílias que povoaram as fronteiras do Ceará com o Piauí, gerando guerreiros e pastores, vaqueiros, políticos e intelectuais.

 Carta Geográfica do Seara. Fonte: Arquivo Histórico do Exército – Divisão de História
Praça e Igreja Matriz de Quixeré

As missões dos padres jesuítas tiveram importante papel na colonização dos silvícolas. O aldeamento das vizinhanças do Forte se deu em missões situadas no Arronches (Parangaba), Paupina (Messejana), Monte-Mor, o Velho (Pacajus) e Soure (Caucaia). Outras se formaram mais para o interior. Cada aldeamento ocupava espaçosa praça diante de uma igreja. Essas praças ainda podem ser identificadas em muitas cidades, como Baturité, Quixeré, Parangaba, Messejana, Caucaia, Iguatu, Viçosa, Crato, Barbalha, Missão Velha, Missão Nova e outras.

Fonte:

Ideal Clube – história de uma sociedade: memórias, documentos e evocações, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do acervo do IBGE