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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O Assassinato do Juiz de Vila Nova D’El Rei

Tudo começou numa corrida de cavalos. O do juiz ordinário da Vila Nova D’El Rei, depois Campo Grande, atual Guaraciaba do Norte, na serra da Ibiapaba, Ceará, ganhou um páreo contra o do poderoso coronel Manuel Martins Chaves, mandachuva da região do Acaraú. O coronel quis comprar ali mesmo o animal vencedor. O dono recusou-se a vende-lo. Discutiram, com os ânimos exaltados. E dois sobrinhos do mandachuva mataram o animal. Não podiam admitir, no seu orgulho semifeudal, fosse o tio, homem de vasta influência, ligado à celebre família Feitosa, dona daquelas terras, contrariado em seus desejos. Para eles, aquela recusa era uma afronta.

Manuel Martins Chaves fizera de sua vontade a lei daqueles sertões e, para exercê-la, não hesitava em cometer quaisquer atos, por violentos, arbitrários ou reprováveis que fossem. Sob seu patrocínio, grandes grupos de malfeitores viviam a depredar e a perseguir a população, prontos ao serviço, submissos as determinações do despótico patrono.

Rua Duque de Caxias - anos 50

A questão do cavalo rematava uma velha rixa entre o coronel e o juiz ordinário Barbosa Ribeiro, motivada pelo favor que a este dispensara, em detrimento do coronel, o então governador Cláudio Montaury durante sua gestão, e ainda pela eleição do magistrado, que contrariava os desejos de Manuel Martins. Estava, pois condenado à morte, e foi barbaramente executado no dia 3 de março de 1795. 

Um grupo composto de cerca de 30 indivíduos, alguns usando máscaras, invadiu a casa, nos fundos da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, arrombando as portas e ferindo-o a tiros e golpes de espada.
O juiz correu, todo ensanguentado, a abraçar-se com o cruzeiro do templo, suplicando que lhe permitissem confessar-se ao vigário, que, impotente e estarrecido, assistia a chacina. Mas os matadores não lhe deram ouvidos e o assassinaram com estocadas no lombo, facadas no estômago, e quase lhe decepando a cabeça a foiçadas. Seu afilhado João do Nascimento tentou defendê-lo e também foi morto. Outros dois que tentaram defende-lo, saíram feridos.

Igreja Matriz de N. Senhora dos Prazeres, fundada em 1761, em estilo barroco

Por essa época, governava a Capitania do Ceará, Luis da Mota Feo e Torres, a quem o crime deixou muito indignado. Abriu-se rigorosa devassa que o Ouvidor José Vitorino da Silveira concluiu em setembro de 1796. Apurou-se no inquérito que os mandantes tinham sido o coronel Manuel Martins Chaves e seu sobrinho, o capitão-mor Bernardino Gomes Franco, e os mandatários Felipe Néri, inimigo do juiz pela morte de seu irmão, seus filhos Sebastião e Manuel, seus sobrinhos Vitor e Raimundo; os cabras Teodósio, João Pereira, Manuel Ferreira, João Fernandes, Felipe Marçal, seu irmão Antônio, João Martins, João de Araújo, José Dias, Francisco Ribeiro, Luis Antônio, Domingos Ferreira, o crioulo Simeão e o africano Pedro.

Desde o ano de 1796, o governo da Colônia se empenhou em prender Martins Chaves e seus principais colaboradores. Mas foram vãos todos os esforços dos governadores, ouvidores, capitães-mores e juízes ordinários, durante muitos anos, até que realizou a prisão do potentado um jovem governador do Ceará, João Carlos Augusto Ulrico Oyenhausen e Grevenburgh (1803-1807), da nobreza lusa e austríaca, que seria Marquês de Aracati, por Decreto de 12 de outubro de 1826.

prédio da antiga Cadeia de Guaraciaba do Norte 

De acordo com relatos do Barão de Studart, o governador João Carlos anunciou uma revista geral nas tropas de Vila Nova D’El Rei. Martins Chaves, com alguns membros mais importantes de sua clientela, quis ser agradável ao governador, decidiu-se a acompanha-lo até certa altura do trajeto. No Sítio Barriga, o proprietário, um padre, insinuou-lhe que se escondessem, por ter motivos para desconfiar das intenções do governador.

Martins Chaves e o sobrinho Francisco Xavier desprezaram o aviso e seguiram com a comitiva do governador até Ibiapina, onde já havia um plano traçado. Para o local já seguira com 400 índios, Manuel da Silva Sampaio, diretor dos índios de Viçosa. Ali chegados, encontraram um barracão onde o governador deveria descansar, e em cujo centro havia uma mesa. Dentro do barracão, João Carlos retirou de dentro de uma das malas uma coroa real, colocou-a sobre a mesa, e dirigindo-se a Martins Chaves perguntou se conhecia de quem era aquela coroa. Respondeu o interpelado que era de sua majestade, sua soberana.

O governador afirmou – pois em nome dela se considere preso! Martins Chaves tirou a espada da cinta e entregou-a ao governador, considerando-se assim, prisioneiro. Francisco Xavier, vendo a cena, convidou João Carlos para um particular, que retorquiu:  – não tenho particulares, siga o exemplo de seu tio!

A comitiva, com os presos sob custódia, cumpriu o seguinte percurso: de Ibiapina a Sobral sob a guarda do capitão de cavalaria Alexandre Neri Pereira; de Sobral a Acaraú e daí a Fortaleza. Da capital passaram a Aracati, onde foram embarcados para Recife. De Recife a Lisboa foram conduzidos pelo ajudante de cavalaria Alexandre José Leite Chaves.

Cadeia do Limoeiro em Lisboa, entrada principal
imagem:http://lisboadeantigamente.blogspot.com.br

Da cadeia de Limoeiro, Manuel Martins Chaves e Francisco Xavier de Araújo Chaves requereram ao príncipe regente o seu livramento, historiando a maneira como foram presos. Nada conseguiram, pois Oyenhausen, foi bastante elogiado pelo feito. Os presos ainda tiveram seus bens confiscados.

Manuel Martins Chaves faleceu na cadeia de Limoeiro, a 27 de maio de 1809, de febre maligna, e Francisco Xavier voltou ao Brasil, ignorando-se a data de sua soltura. Sua filha Antônia, casou com Antônio Ferreira Sampaio, e desse casamento nasceu Antônio Sampaio, o herói cearense notável pelos seus feitos militares.


Assim, o General Sampaio, patrono de nossa infantaria, era sobrinho-neto do coronel Manuel Martins Chaves.

Extraído do livro
A Margem da História do Ceará
De Gustavo Barroso
Fotos IBGE
Fortaleza em Fotos


sábado, 2 de março de 2013

Imagens do Poder: entre o Sagrado e o Profano




Quando Padre Cícero foi eleito para o cargo de prefeito de Juazeiro, em 1911, o evento foi marcado por uma fotografia em forma de medalhão. Feita a partir de um close, o retrato apresenta a imagem oficial de um padre que havia assumido significativo lugar na política. Trata-se do rosto emoldurado que foi colocado nas paredes da prefeitura. Ao mesmo tempo foi um dos retratos que mais despertaram a vaidade do Padre Cícero. A partir dessa matriz, ele mandou imprimir uma infinidade de cartões-postais. Seguindo a moda de então, o padre desenvolveu o hábito de oferecer a própria imagem como prova de amizade e estima. 

No centro Presidente  do Estado Moreira da Rocha; a esquerda, Padre Cícero e à direita, Floro Bartolomeu

Grande parte das fotos nas quais o Padre Cícero aparece ao lado de políticos é composta por registros das visitas de três presidentes de Estado a Juazeiro: João Thomé de Saboya, em 1917, José Moreira da Rocha, em 1925 e José de Mattos Peixoto, em 1929.
Os envolvidos nas tramas da política dos coronéis sabiam que o apoio de Padre Cícero tinha inestimável importância. As poses programadas diante do flash constituíam ritos de sacralização dos interesses que caracterizavam as classes dominantes.

Presidente joão Thomé e Padre Cícero em 1917

Aos 80 anos, Padre Cícero serviu de modelo para uma estátua de bronze em tamanho natural. Seguindo as orientações de Floro Bartolomeu. O escultor Laurindo Ramos fez uma imagem que procurava ser a mais realista possível, com grande riqueza de detalhes. O rosto, as mãos, o caimento da batina, foram esculpidos de modo a reproduzir, com perfeição os traços físicos do padre. Como previsto, a estátua do Padre Cícero foi colocada na praça mais importante de Juazeiro.  O lugar, antes chamado de Praça da Independência, ganhou outro nome: Praça Almirante Alexandrino. A inauguração da praça em 1925 assumiu ares de cerimônia oficial e patriótica, contou com a presença de várias autoridades e desfiles de um destacamento da Escola de Aprendizes Marinheiros da Capital. 

Praça Almirante Alexandrino
foto: http://historiadejuazeiro.blogspot.com.br

A estátua de bronze transformou-se em um dos símbolos do progresso da cidade. Para as classes dominantes de Juazeiro, Padre Cícero não poderia ser visto como um santo de fanáticos. A exaltação que muitos membros das classes média e alta desenvolveram em torno do Padre Cícero, até mesmo chamando-o de santo, construiu-se com a preocupação de não apresentar manifestações de ignorância religiosa. É um culto racionalizado, que coloca em destaque as virtudes pessoais do patriarca: o padre virtuoso, perseguido pela igreja junto com a imagem do prefeito, honesto, caridoso, trabalhador e que promoveu o desenvolvimento da cidade.  

extraído do artigo de Francisco Régis Lopes Ramos
Juazeiro e Caldeirão: espaços de sagrado e profano
publicado no livro uma Nova História do Ceará 
 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Governadores Cearenses entre 1919 e 1930

Palácio da Luz, residência oficial dos governadores do Ceará entre 1809 e 1963 (foto do arquivo Nirez)


Entre 1914 até 1930 nenhuma das oligarquias tradicionais dominou monoliticamente o Ceará. Ao contrário, com a fragilidade estrutural das classes dominantes cearenses, houve um equilíbrio oligárquico, levando à formação constante de alianças e coalizões na escolha da maioria dos governadores desse período. Isso fica evidente na escolha do sucessor de Liberato Barroso (eleito em 1914 para os dois anos restantes do mandato de Franco Rabelo). 
Diante do impasse na indicação de um nome, as diversas facções políticas acabaram por realizar um acordo, escolhendo um governante técnico, sem vínculo direto com nenhum dos grupos políticos, o então pouco conhecido João Tomé Sabóia e Silva (1917-1920), engenheiro, empresário e rico fazendeiro do norte do estado.
Outras vezes, era grande a influência do governo federal na indicação do “candidato de consenso”, como se deu no ano de 1919, quando o presidente Epitácio Pessoa impôs o nome de Justiniano de Serpa, à época deputado federal pelo Pará – tal indicação não foi aceita pelo Partido Marreta, que optou por lançar um candidato de oposição, Belisário Fernandes Távora. 
Essa ação dos Marretas, custou-lhes a demissão imediata de vários dos seus correligionários, funcionários públicos federais e estaduais, numa clara demonstração de que o poder público não admitia quem não seguisse a orientação oficial. 

Governador Justiniano de Serpa

Contando com o apoio da máquina estatal, Justiniano de Serpa (1920-23) venceu tranquilamente a Belisário Távora nas eleições de 1920, a única, aliás, no período pós-sedição de Juazeiro que teve alguma disputa. Novamente houve interferência da do Governo Federal na escolha do sucessor de Justiniano de Serpa, que por motivos de saúde, renunciou em junho de 1923, falecendo um mês mais tarde. O seu vice, Idelfonso Albano, assumiu o poder e cumpriu o restante do mandato. Perante a falta de consenso, entre democratas e conservadores, o presidente Artur Bernardes indicou para o executivo cearense o desembargador José Moreira da Rocha (do Partido Conservador), ficando na vice  Manoelito Moreira (vulgo Mané Onça) político cujo reduto se encontrava em Caucaia e era líder do Partido Democrata, e saindo para o senado, o mesmo João Tomé (Partido Democrata).
Acontecia igualmente das coligações vitoriosas nas urnas não serem mantidas durante o mandato do governador. Caso exemplar disso deu-se na gestão de José Moreira da Rocha (1924-1928), mais conhecido como Desembargador Moreira (Moreirinha para os mais íntimos), uma das mais desastrosas da história cearense. Eleito como candidato de consenso, entregou-se de corpo e alma ao Partido Conservador de José Accioly e promoveu brutal perseguição aos democratas e demais setores oposicionistas.


Inicialmente denominado de Pelotão de Bombeiros, o Corpo de Bombeiros do Ceará foi criado oficialmente em 08 de agosto de 1925 pela Lei no 2.253, pelo então Governador  Desembargador José Moreira da Rocha.


Naquele momento, final dos anos 20, o País todo passava por profundas agitações políticas, com revoltas feitas por jovens militares (tenentes) e manifestações das classes média e populares. Em sua gestão foram rotineiros os espancamentos, assassinatos, saques, incêndios, invasões de domicílios, empastelamento de jornais, demissões arbitrárias de funcionários públicos, além das práticas de nepotismo, clientelismo e corrupção.
Mas como ficar longe do poder e dos cargos da máquina pública era um pesadelo para as oligarquias, não surpreende que as mesmas acabassem se entendendo para as eleições seguintes. Foi o que aconteceu em 1928: em maio daquele ano, o desembargador José Moreira da Rocha, por motivos de saúde, renunciou ao poder e dirigiu-se para a capital da república, falecendo logo depois. 

governador José Carlos de Matos Peixoto

Assumiu interinamente o presidente da Assembleia Legislativa Eduardo Henrique Girão, que administrou o Estado por quase dois meses, tempo suficiente para reaproximar os Partidos Democrata e Conservador, os quais, mais uma vez coligados, elegeram para o governo o jurista, advogado e professor José Carlos de Matos Peixoto (1928-1930). Ligado aos conservadores de Accioly, Peixoto foi o último governador cearense da República velha, deposto pela revolução de 30.  

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
      

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Interventoria de Menezes Pimentel (1937-1945)

Com o golpe do Estado Novo, as Casas Legislativas foram fechadas. O Governo Federal escolhia os governadores do Estado, e estes, nomeavam os prefeitos. Fachada da antiga Câmara Municipal, onde hoje funciona o Museu do Ceará  
(foto do arquivo Nirez)

Menezes Pimentel, professor, diretor da Faculdade de Direito do Ceará, político extremamente conservador, foi eleito - em 1935 - pela maioria dos deputados da LEC – Liga Eleitoral Católica – na Assembleia Legislativa para governador constitucional do Estado, derrotando por 16 votos contra 14, o candidato do PSD – Partido Social Democrata – José Accioly, filho de Nogueira Accioly, numa eleição por via indireta. 
Seu governo foi marcado pelo autoritarismo, perseguição aos adversários políticos do PSD, destituição de prefeitos e funcionários públicos que não apoiassem o seu grupo político. Cerca de duas mil pessoas foram presas em Fortaleza neste período. 
A eclosão da Intentona Comunista em 1935, em Natal, Recife e Rio de Janeiro, foi usada como pretexto por Menezes Pimentel para perseguir adversários que foram considerados subversivos. 


Palácio da Luz, sede do Governo do Estado e residência do governador até 1963. Na mesma  década de 1960 o palácio perdeu parte de sua fachada e o jardim interno, visto na segunda foto (Arquivo Nirez) 


O golpe do Estado Novo (10/11/1937) implantou uma ditadura em nível nacional, e contribuiu para aumentar o poder dos governadores dos Estados. Menezes Pimentel foi mantido no cargo por Getúlio Vargas, agora na condição de Interventor Federal. Seu autoritarismo foi, portanto fortalecido, já que o país se encontrava sob regime ditatorial. 



 atual prédio da Polícia Civil na Praça do Voluntários, sede do DOPS durante o Estado Novo (foto Panorâmio) 

A Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) passou a ter poderes para perseguir tantos quantos não se enquadrassem na política instituída pelo interventor.  Em nome da fé, das tradições familiares, da Pátria, se instituiu a delação, a perseguição política, as prisões arbitrárias, a tortura. Muitos intelectuais foram detidos, presos e humilhados pelo crime de pensar, de desenvolver o senso critico, de ansiar uma visão social humanista.  Entre os muitos perseguidos pelo interventor no Ceará – merecem destaque, pelo legado intelectual que deixaram para o Brasil – estavam Rachel de Queiroz  e Jáder de Carvalho.


a escritora Rachel de Queiroz foi presa incomunicável no Quartel do Corpo de Bombeiros em Fortaleza, pela polícia de Menezes Pimentel e Getúlio Vargas. Seu romance Caminho das Pedras foi apreendido e queimado junto com seus dois livros anteriores, O Quinze e João Miguel

Com Menezes Pimentel a Igreja continuou firme, influenciando a sociedade civil, em nome da moral e dos bons costumes. O regime instaurado fechou as lojas maçônicas, os centros espíritas e os terreiros de candomblé na capital e no interior do Estado; as livrarias tiveram os estoques revisados para apreensão de livros e de revistas portadoras de ideias amorais ou subversivas. Instalou-se um serviço de controle de pensões e hotéis no sentido de controlar os hóspedes. Até os aparelhos de rádio deveriam ser registrados na polícia.

Interventor Francisco de Menezes Pimentel

Menezes Pimentel permaneceu no poder até 27 de outubro de 1945, quando Getúlio Vargas baixou um decreto, exonerando o Interventor, fiel aliado na implantação da ditadura do Estado Novo no Ceará. Os motivos da demissão nunca foram completamente esclarecidos, mas especulou-se na época que Pimentel não estava empenhado na campanha de manutenção de Getúlio Vargas no poder.


Sobre o Estado Novo


Getúlio Dorneles Vargas governou o Brasil entre os anos 1930 e 1950, como presidente e como ditador

Instituído por Getúlio Vargas na segunda metade da década de 1930, centraliza o sistema político brasileiro. O governo federal passa a escolher os governadores dos Estados, que por sua vez, nomeiam os prefeitos. 
O getulismo também fecha as casas legislativas - federal, estaduais e municipais. Foi um período em que o discurso do progresso e da civilidade, tentou minimizar os problemas sociais da cidade, que já apresentava problemas decorrentes do crescimento populacional.
Apesar de o Estado Novo terminar em 1945, a nomeação dos gestores municipais perdura até o final de 1947. A época foi marcada pela quebra de continuidade administrativa. Em apenas três anos, Fortaleza conheceu nada menos de seis prefeitos.
Em 1948, com a volta das eleições diretas para prefeito, Fortaleza assiste à surpreendente vitória do candidato Acrísio Moreira da Rocha (PR). A imprensa da época dava como certo que a disputa se restringiria aos candidatos dos dois principais grupos políticos nacionais da época: Diogo Vital de Siqueira, da UDN, e Stênio Gomes da Silva, do PSD. 

Fontes:
História do Ceará, de Nelson Campos
Revista Fortaleza, Fascículo 4, de 30 de abril de 2006.

sábado, 5 de novembro de 2011

Clarindo de Queiroz, o governador deposto.

Clarindo de Queiroz governador do Ceará (1891-1892)

José Clarindo de Queiroz (28/04/1891-16/02/1892) foi indicado para o cargo de governador do Ceará pelo Marechal Deodoro da Fonseca  através de decreto federal de 4 de abril de 1891. No período inicial da República, o marechal Deodoro mobilizou forças na tentativa de aplicar um golpe de estado, fechando o congresso nacional e decretando estado de sítio. 

A maioria dos governos estaduais apoiou a iniciativa, pois tinham sido nomeados pelo próprio presidente.  Ao dissolver o congresso em 3 de novembro de 1891, Deodoro pegou praticamente de surpresa as lideranças civis e militares. O vice-presidente Floriano Peixoto, com a ajuda do almirante Custódio José de Melo, reagiu ao golpe. 

Com a saúde debilitada e sob criticas por parte da oposição, Deodoro renunciou vinte dias depois, passando a presidência para Floriano Peixoto.  Este iniciou o novo governo mandando destituir todos os que se solidarizaram com o antecessor.

Clarindo de Queiroz passou a sofrer sistemática pressão do Governo Federal, apesar de ter o apoio do congresso do Estado, da maioria da imprensa, dos oficiais do 11° Batalhão do Exército e do povo.  A princípio chamaram o governador, com urgência, ao Rio de Janeiro, sob a alegação de necessitarem de seus serviços militares ali; depois o intimaram a abandonar a presidência do Estado.

Em 16 de fevereiro de 1892, estrategicamente, havia sido mandado para Maranguape o 11° Batalhão, a pretexto de realizar treinamento; na tarde desse mesmo dia, a Escola Militar e o restante da força federal dirigida pelo major Manuel Bezerra de Albuquerque, iniciou o bombardeio ao Palácio do Governo. 

Contava o governador tão somente com o corpo de segurança pública, constituída de soldados recrutas, e com a Guarda Cívica pouco numerosa e também sem treinamento,  afora alguns civis que se encontravam na ocasião.  

Dia da deposição do governador Clarindo de Queiroz, com os cadetes da Escola Militar do Ceará munidos de canhão e outros armas menores (arquivo Nirez)

O autor de História do Ceará R. Batista Aragão, narra o início das hostilidades: 
Forças da Escola Militar e do Exército bombardeiam o Palácio num ataque  repentino e decisivo, objetivando a deposição do governo. Reage o general Clarindo, protegido apenas por forças estaduais e consequentemente desaparelhadas para suportar o ataque. Contudo, resiste bravamente e a batalha se intensifica. Anoitece. Pouco a pouco o Palácio se esvazia. A resistência enfraquece.

Às seis da manhã do dia 17 de fevereiro de 1892, cercado por tropas fortemente armadas, o velho general, sem saída, sela os destinos do seu governo.  Coloca na ponta de uma baioneta um lenço branco, chega à janela do Palácio e exibe a mensagem de rendição. Os agressores silenciam. Bezerril Fontenele, comandante da Escola Militar e principal responsável pelo ato de sublevação, assume o governo, recebendo o cargo das mãos do solitário governante. 

Apenas o conselheiro Antônio Rodrigues Júnior, fiel aos seus princípios de solidária honradez, testemunha o melancólico desfecho. Não desertara.  Como saldo negativo, além da intranquilidade causada pelo levante, treze vítimas fatais, colhidas acidentalmente em diversos locais. 

No mesmo dia Clarindo de Queiroz embarcou para o Rio de janeiro, onde explicou os motivos da deposição através de um manifesto à nação, escrito por  Farias Brito. Por ordem, de Floriano Peixoto, foi preso e desterrado para Cucui, juntamente com outros doze generais. O seu estado de saúde agravou-se e veio a falecer no Rio de janeiro, em 28 de dezembro de 1893.

José Clarindo de Queiroz nasceu a 22 de janeiro de 1841, em Fortaleza, filho de Inácio Lopes de Queiroz e de Ana Lopes de Queiroz. Depois de se alistar no Exército, com pouco mais de quatorze anos, partiu em 1865 para lutar na Guerra do Paraguai. Pela destacada atuação, ascendeu ao posto de tenente-coronel. Passou depois para coronel (1880), brigadeiro (1883) e general de divisão (1890). Ainda durante a monarquia, presidiu a província do Amazonas a partir de 1879. Recebeu em reconhecimento pela vida de soldado o “Hábito de Cristo” e as Grã-Cruzes de Avis e Cruzeiro.

estado em que ficaram o Largo e o Palácio da Luz depois dos ataques que culminaram com a deposição do governador Clarindo de Queiroz (acervo Marciano Lopes)

No livro História Política do Ceará – 1889-1930 – Aroldo Mota explica os acontecimentos principais que influíram na deposição de Clarindo de Queiroz. Segundo este autor, o golpe de Estado de Deodoro da Fonseca encontrou a classe política desinformada. O Secretário  da Fazenda do Ceará, Waldemiro Moreira, em artigo assinado no Jornal O Libertador, de 5 de novembro, concitou a que todos pegassem em armas contra o golpe.  Convocou uma reunião do Centro Republicano para o mesmo dia, a fim de eleger nova Comissão Executiva, e resistir em defesa da democracia republicana. Foi eleito presidente da Comissão Executiva,  o Secretário de Justiça, Waldemiro Cavalcante. Enquanto isso, o governador Clarindo de Queiroz telegrafava a Deodoro se solidarizando com o golpe.

Em vista dos acontecimentos contraditórios dentro do governo, o Senado Estadual enviou ao governador Clarindo de Queiroz, um requerimento, no qual era solicitado que o governador  esclarecesse quais as providências adotadas com relação ao artigo publicado no O Libertador, incitando o povo a revoltar-se e questionando o posicionamento dos seus dois secretários, autores e redatores do mencionado jornal.

O governador não respondeu ao Senado. Ordenou ao promotor público de Fortaleza que apurasse as responsabilidades pela publicação, especialmente quanto ao editorial, concebido em linguagem sediciosa, que injuriara os membros do Governo Provisório.  

Floriano Peixoto

O juiz Abel Garcia, em artigo no mesmo Libertador, assumiu a responsabilidade do editorial do dia 5, isentando os secretários da Fazenda e da Justiça. O secretário de Justiça pediu demissão. O governo central, já com Floriano Peixoto no comando,  encampou a crise e derrubou Clarindo de Queiroz.

Fonte:
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho