Juntamente
com o teatro José de Alencar em Fortaleza, e com o Teatro da Ribeira dos Icós,
o Teatro São João, em Sobral, forma o trio de teatros-monumentos existentes no Ceará.
Obedecendo ao modelo dos teatros à italiana, em estilo neoclássico, seu projeto
foi inspirado no mesmo Teatro Santa Isabel, de Recife,e leva a assinatura de João José de Veiga
Braga. Difere do pernambucano, por ter um pavimento a menos e também por não
constarem as torrinhas ou geral. Situa-se na cabeça de uma ampla e bem
urbanizada praça e seu prédio destaca-se pela beleza de linhas sóbrias e
elegantes.
O teatro
teve iniciada sua construção em 1875, sob os auspícios da União Sobralense,
sociedade cultural organizada especialmente para tal fim. Entre os que tomaram
a frente do empreendimento estão Rodrigues Júnior, Ministro de Estado e os
escritores Domingos Olímpio e João Adolfo Ribeiro da Silva.
Foi preciso
a mão-de-obra dos flageladosda seca de
1877 para que o São João fosse levantado. Mesmo assim, em sua inauguração em
1880, grande parte do edifício ainda estava por ser concluído. As peças
inaugurais foram a Honra de um Taverneiro, drama de Correia Vasquez, e Meia
Hora de Cinismo, comédia de França Junior, ambas encenadas por um grupo de
amadores sobralenses. A programação incluía ainda a apresentação de lindas
sinfonias executadas por uma orquestra sobralense. No ano de 2004 o teatro foi restaurado e inaugurado no dia 29 de dezembro do mesmo ano pelo então ministro da Cultura Gilberto Gil.
Extraído do
livro O Ceará dos anos 90 – Censo Cultural fotos do Diário do Nordeste e O Povo
Aderaldo
Ferreira de Araújo, figura lendária da poesia nordestina e mestre de cantadores
e violeiros, nasceu no Crato em 24 de junho de 1878. Tendo mudado desde cedo
para Quixadá, é identificado com o sertão central cearense. Se para o acidente
que causou sua cegueira existe mais de uma versão, sua carreira de menestrel
popular é lenda do principio ao fim. Cego aos 18 anos, sem saber ler nem
escrever, foi estimulado por sua mãe a cantar para ganhar algum dinheiro, o que
fez depois de um sonho onde fazia os seguintes versos para São Francisco:
Oh Santo de
Canindé
Que Deus deu
cinco chagas
Fazei com
que este povo
Para mim
faça as pagas
Uma sucedendo
as outras
Como o mar
soltando vagas.
imagem: Diário do Nordeste - blog de cinema
Quando faleceu
sua mãe, feito o enterro, Aderaldo pediu que lhe indicassem o lado do nascente.
Tomou o rumo de Serra Azul, iniciando a caminhada pelos sertões em busca de
fama. Cantou para as humildes populações sertanejas e para figuras como o Padre
Cícero (de quem era afilhado), Lampião (de quem ganhou uma pistola de presente)
e políticos como Ademar de Barros e Juscelino Kubitscheck.
imagem: Diário do Nordeste-blog de cinema
Rachel de
Queiroz, que conheceu de perto o cantador, diz que mais que os desafios que o tornaram
afamado, Aderaldo gostava de cantar modinhas, romances sertanejos e velhas
xácaras portuguesas adaptadas ou deformadas. Em suas viagens carregava também
um projetor manual, com o qual encantava as pessoas, mostrando e narrando
velhos filmes mudos.
Um ano antes
de morrer, sem mais poder cantar, teve certo dia um novo apelo:
Voltei de
novo a cantar
Porque esta
é a minha sorte
Minhas cantigas
me dão
Roupa, comida
e transporte
Deixarei este
dever
Quando um
dia receber
O beijo fatal
da morte.
Morreu a 29
de junho de 1967 e foi conduzido ao cemitério por intelectuais, políticos e
principalmente por seus amigos violeiros.
A produção artística cearense teria grande importância na
conjuntura das lutas populares nos anos 1960 e mesmo de resistência à Ditadura
Militar, no período de 1964 a 1985. Em 1963 foi fundado no Ceará o Centro Popular
de Cultura-CPC – da UNE, tendo como um dos organizadores, Augusto Pontes, que
se revelaria um dos mais polêmicos intelectuais cearenses no final do século
XX. O CPC fazia uma cultura politicamente engajada – apresentava peças, fazia
shows enquetes, etc, tudo misturado com discussões sobre problemas da população,como o custo de vida, o ensino público, a carência
de transportes. Com o golpe de 64, o CPC foi desmobilizado, vários de seus dirigentes
foram presos ou processados. Mas a experiência daria margem para o surgimento
de outros grupos culturais nos anos seguintes, como o CACTUS – grupo criado em
1965 por Cláudio Pereira, Iracema Melo, Olga Paiva, Petrúcio Maia, e Rodger
Rogério, que apresentava shows de protesto – e o GRUTA – Grupo Universitário de
Teatro e Arte.
A atuação do Gruta no movimento cultural foi expressiva. No período
correspondente aos anos 66 a 68, ele se direcionou basicamente na organização
das chamadas “Caravanas da Cultura” e na realização dos festivais de música. Tais
caravanas se dirigiam ao interior cearense – Sobral, Crato, Juazeiro, Barbalha,
a estados e cidades vizinhos Teresina, Natal, Mossoró e até ao exterior –
Argentina e Chile. A crítica transmitida pelo Gruta fez com que algumas de suas peças fossem
censuradas pela Ditadura e uma apresentação em Barbalha, proibida.
capa do disco
Os ritmos nacionais das décadas de 50 e 60 (Bossa Nova,
Jovem Guarda e Tropicália) influenciaram os cantores e compositores cearenses,
os quais apresentavam como principais espaços para divulgar seus trabalhos os
festivais de músicas e os programas de auditório em rádio e televisão. Em 1969
o estudante de medicina de Sobral Carlos Belchior, poeta-músico dos mais
expressivos daquela geração, produzia um programa musical na TV Ceará canal 2
especialmente para a revelação de novos talentos.
Em 1971 surgiram os festivais nordestinos da extinta TV Tupi
e o Festival Astra de Música Carnavalesca, que projetaram nomes locais como
Rodger Rogério, Ednardo, Ricardo Bezerra, Petrúcio Maia, Belchior, Fagner, Lauro
Benevides, Jorge Melo, Cirino, Luiz Fiúza, Ribamar, Pretextato Melo, Dedé,
Branquinho, Sérgio Pinheiro e Manassés.
Manassés em desenho de Fausto Nilo (fonte: http://musicadoceara.blogspot.com.br)
No geral eram jovens de classe média com formação
universitária – muitos abandonaram a universidade para seguir a carreira artística,
numa época de grande preconceito contra artistas. Naquele início dos anos 70,
ante a censura, o autoritarismo a repressão da ditadura, a arte assumia uma
forma de comunicar as ideias e as ações reprimidas. Os talentosos
artistas, não obstante, viam-se obrigados a deixar o Estado para alçar voos
mais altos, nacionais. O primeiro a sair foi Belchior, em 1971, ganhando um
festival no Rio de janeiro com a música Na
Hora do Almoço, fato que repercutiu na carreira do sobralense e abriu as
portas para outros cearenses.
Ednardo, Téti e Rodger Rogério no lançamento do disco Pessoal do Ceará
Por essa época, Raimundo Fagner, natural de Orós
e estudante de arquitetura em Brasilia, teve canções premiadas em festivais;
foi outro que ao lado de Rodger Rogério, Téti, Cirino, Jorge Melo tentou a
sorte no Sul do País, ainda em 1971. Ednardo, estudante de química e
funcionário da Petrobrás, seguiu no ano seguinte. O maranguapense Manassés foi
em 1973, passando depois a residir na Europa, alcançando grande sucesso. Com dificuldades,
esforço e apoio de artistas do Centro-Sul, os cearenses conseguiram firmar-se
nacionalmente com propostas estético-musicais
bem definidas – participavam de programas televisivos, faziam shows, gravavam discos.
Surgiu então, em 1972, a ideia de de gravar um disco com todo o grupo de
músicos cearenses, o clássico O Pessoal do Ceará, um verdadeiro marco musical,
do qual Fagner e Belchior não participaram por terem contratos com outras
gravadoras.