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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Teatro São João

 
Juntamente com o teatro José de Alencar em Fortaleza, e com o Teatro da Ribeira dos Icós, o Teatro São João, em Sobral, forma o trio de teatros-monumentos existentes no Ceará. Obedecendo ao modelo dos teatros à italiana, em estilo neoclássico, seu projeto foi inspirado no mesmo Teatro Santa Isabel, de Recife,  e leva a assinatura de João José de Veiga Braga. Difere do pernambucano, por ter um pavimento a menos e também por não constarem as torrinhas ou geral. Situa-se na cabeça de uma ampla e bem urbanizada praça e seu prédio destaca-se pela beleza de linhas sóbrias e elegantes.

 
O teatro teve iniciada sua construção em 1875, sob os auspícios da União Sobralense, sociedade cultural organizada especialmente para tal fim. Entre os que tomaram a frente do empreendimento estão Rodrigues Júnior, Ministro de Estado e os escritores Domingos Olímpio e João Adolfo Ribeiro da Silva.


Foi preciso a mão-de-obra dos flagelados  da seca de 1877 para que o São João fosse levantado. Mesmo assim, em sua inauguração em 1880, grande parte do edifício ainda estava por ser concluído. As peças inaugurais foram a Honra de um Taverneiro, drama de Correia Vasquez, e Meia Hora de Cinismo, comédia de França Junior, ambas encenadas por um grupo de amadores sobralenses. A programação incluía ainda a apresentação de lindas sinfonias executadas por uma orquestra sobralense. No ano de 2004 o teatro foi restaurado e inaugurado no dia 29 de dezembro do mesmo ano pelo então ministro da Cultura Gilberto Gil. 

Extraído do livro O Ceará dos anos 90 – Censo Cultural
fotos do Diário do Nordeste e O Povo

sábado, 23 de novembro de 2013

Cego Aderaldo


Aderaldo Ferreira de Araújo, figura lendária da poesia nordestina e mestre de cantadores e violeiros, nasceu no Crato em 24 de junho de 1878. Tendo mudado desde cedo para Quixadá, é identificado com o sertão central cearense. Se para o acidente que causou sua cegueira existe mais de uma versão, sua carreira de menestrel popular é lenda do principio ao fim. Cego aos 18 anos, sem saber ler nem escrever, foi estimulado por sua mãe a cantar para ganhar algum dinheiro, o que fez depois de um sonho onde fazia os seguintes versos para São Francisco:


Oh Santo de Canindé
Que Deus deu cinco chagas
Fazei com que este povo
Para mim faça as pagas
Uma sucedendo as outras
Como o mar soltando vagas.


imagem: Diário do Nordeste - blog de cinema

Quando faleceu sua mãe, feito o enterro, Aderaldo pediu que lhe indicassem o lado do nascente. Tomou o rumo de Serra Azul, iniciando a caminhada pelos sertões em busca de fama. Cantou para as humildes populações sertanejas e para figuras como o Padre Cícero (de quem era afilhado), Lampião (de quem ganhou uma pistola de presente) e políticos como Ademar de Barros e Juscelino Kubitscheck.


imagem: Diário do Nordeste-blog de cinema

Rachel de Queiroz, que conheceu de perto o cantador, diz que mais que os desafios que o tornaram afamado, Aderaldo gostava de cantar modinhas, romances sertanejos e velhas xácaras portuguesas adaptadas ou deformadas. Em suas viagens carregava também um projetor manual, com o qual encantava as pessoas, mostrando e narrando velhos filmes mudos.
Um ano antes de morrer, sem mais poder cantar, teve certo dia um novo apelo:


Voltei de novo a cantar
Porque esta é a minha sorte
Minhas cantigas me dão
Roupa, comida e transporte
Deixarei este dever
Quando um dia receber
O beijo fatal da morte.

Morreu a 29 de junho de 1967 e foi conduzido ao cemitério por intelectuais, políticos e principalmente por seus amigos violeiros.


extraído do livro
O Ceará dos Anos 90 - Censo Cultural

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Arte em tempos de Repressão e o Pessoal do Ceará



A produção artística cearense teria grande importância na conjuntura das lutas populares nos anos 1960 e mesmo de resistência à Ditadura Militar, no período de 1964 a 1985. Em 1963 foi fundado no Ceará o Centro Popular de Cultura-CPC – da UNE, tendo como um dos organizadores, Augusto Pontes, que se revelaria um dos mais polêmicos intelectuais cearenses no final do século XX. O CPC fazia uma cultura politicamente engajada – apresentava peças, fazia shows enquetes, etc, tudo misturado com discussões sobre problemas da população,  como o custo de vida, o ensino público, a carência de transportes. Com o golpe de 64, o CPC  foi desmobilizado, vários de seus dirigentes foram presos ou processados. Mas a experiência daria margem para o surgimento de outros grupos culturais nos anos seguintes, como o CACTUS – grupo criado em 1965 por Cláudio Pereira, Iracema Melo, Olga Paiva, Petrúcio Maia, e Rodger Rogério, que apresentava shows de protesto – e o GRUTA – Grupo Universitário de Teatro e Arte.
A atuação do Gruta no movimento cultural foi expressiva. No período correspondente aos anos 66 a 68, ele se direcionou basicamente na organização das chamadas “Caravanas da Cultura” e na realização dos festivais de música. Tais caravanas se dirigiam ao interior cearense – Sobral, Crato, Juazeiro, Barbalha, a estados e cidades vizinhos Teresina, Natal, Mossoró e até ao exterior – Argentina e Chile. A crítica transmitida pelo Gruta  fez com que algumas de suas peças fossem censuradas pela Ditadura e uma apresentação em Barbalha, proibida.

 capa do disco
 
Os ritmos nacionais das décadas de 50 e 60 (Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicália) influenciaram os cantores e compositores cearenses, os quais apresentavam como principais espaços para divulgar seus trabalhos os festivais de músicas e os programas de auditório em rádio e televisão. Em 1969 o estudante de medicina de Sobral Carlos Belchior, poeta-músico dos mais expressivos daquela geração, produzia um programa musical na TV Ceará canal 2 especialmente para a revelação de novos talentos.
Em 1971 surgiram os festivais nordestinos da extinta TV Tupi e o Festival Astra de Música Carnavalesca, que projetaram nomes locais como Rodger Rogério, Ednardo, Ricardo Bezerra, Petrúcio Maia, Belchior, Fagner, Lauro Benevides, Jorge Melo, Cirino, Luiz Fiúza, Ribamar, Pretextato Melo, Dedé, Branquinho, Sérgio Pinheiro e Manassés.


Manassés em desenho de Fausto Nilo (fonte: http://musicadoceara.blogspot.com.br)


No geral eram jovens de classe média com formação universitária – muitos abandonaram a universidade para seguir a carreira artística, numa época de grande preconceito contra artistas. 
Naquele início dos anos 70, ante a censura, o autoritarismo a repressão da ditadura, a arte assumia uma forma de comunicar as ideias e as ações reprimidas.   Os talentosos artistas, não obstante, viam-se obrigados a deixar o Estado para alçar voos mais altos, nacionais. O primeiro a sair foi Belchior, em 1971, ganhando um festival no Rio de janeiro com a música Na Hora do Almoço, fato que repercutiu na carreira do sobralense e abriu as portas para outros cearenses.


Ednardo, Téti e Rodger Rogério no lançamento  do disco Pessoal do Ceará

Por essa época, Raimundo Fagner, natural de Orós e estudante de arquitetura em Brasilia, teve canções premiadas em festivais; foi outro que ao lado de Rodger Rogério, Téti, Cirino, Jorge Melo tentou a sorte no Sul do País, ainda em 1971.
Ednardo, estudante de química e funcionário da Petrobrás, seguiu no ano seguinte. O maranguapense Manassés foi em 1973, passando depois a residir na Europa, alcançando grande sucesso. 
Com dificuldades, esforço e apoio de artistas do Centro-Sul, os cearenses conseguiram firmar-se nacionalmente com propostas  estético-musicais bem definidas – participavam de programas televisivos, faziam shows, gravavam discos. Surgiu então, em 1972, a ideia de de gravar um disco com todo o grupo de músicos cearenses, o clássico O Pessoal do Ceará, um verdadeiro marco musical, do qual Fagner e Belchior não participaram por terem contratos com outras gravadoras.




extraído do livro de Aírton de Farias
História do Ceará