quinta-feira, 27 de junho de 2024

Paula Ney, poeta e boêmio

 



Paula Ney foi aluno do Liceu e do Seminário da Prainha. Mas nunca gostou de estudar, era um aluno rebelde. Enquanto estudava no Seminário, costumava fazer discursos contra os antigos métodos de violência empregado para o aprendizado das matérias. Como resultado, foi expulso por mau comportamento. No Liceu, a história se repetiu, sendo reprovado por conta de grande desentendimento com um professor de inglês.

Por causa de sua inadaptação, foi mandado pelo pai para o Rio de Janeiro, para estudar Direito; a mãe preferia que estudasse Medicina; no final, Paula Ney não seguiria nenhuma dessas profissões. Iniciou-se no jornalismo na “Gazeta de Notícias”, participou de comícios pela abolição da escravatura ao lado de José do Patrocínio, além de escrever em favor da liberdade. Mas, para atender as expectativas da mãe, matriculou-se na Escola de Medicina, que pouco frequentava. Comparecia apenas para realizar exames orais, conseguindo sucesso pelas amizades com os professores e gozações nas respostas:

- Diga ao menos quantos ossos tem o crânio de um homem ... – não me recordo professor... mas tenho-os todos aqui na cabeça. Fica satisfeito o primeiro examinador. Vai para avaliação do segundo:

- vou fazer a primeira pergunta. Se o senhor responder nada mais lhe perguntarei, dar-me-ei por satisfeito. “Diga-me quantos fios de cabelo tem o senhor?”

- duzentos e sessenta e cinco mil oitocentos e novecentos e quatro...

- mas como o senhor chegou a essa conclusão?

- caro professor, não se esqueça que o senhor garantiu que só faria uma pergunta. Trato é trato.

E é aprovado em Anatomia. No exame de Cirurgia teve de se haver com o Visconde de Saboia. Nada sabe do ponto sorteado. Resolve então fazer literatura.

- a mentalidade humana vive num oceano de hipóteses e de dúvidas... os sábios vão ao fundo, na ânsia das pesquisas, com o peso da inteligência...

- e a ignorância? Pergunta-lhe o Visconde.

- essa boia.

Mas essa vida fácil na Faculdade de Medicina não podia continuar eternamente. E foi ao prestar exame de Obstetrícia, com o professor Feijó Junior, que o fez dar por encerrada sua futura profissão de médico. Ao ser sabatinado, não conseguiu articular uma resposta, o que fez com que o professor dissesse: 

- “senhor Paula Ney... então não sabe isso? É incrível, uma coisa tão fácil...olhe que o que estou lhe perguntando é coisa que sei desde que nasci..."

Ney então compreende que está perdido. E quebra o silêncio fazendo a sala explodir numa gargalhada: - se o senhor sabe isso desde que que nasceu, então a senhora sua mãe devia ter uma biblioteca dentro do ventre”

Estava terminada a sabatina, e encerrado o curso para o aluno. Paula Ney nunca mais voltaria à Escola.

Francisco de Paula Ney, nascido em Aracati, no dia 2 de fevereiro de 1858, representa uma geração de poetas boêmios, despreocupada com a vida e com o futuro. Somente o prazer dos amigos, as rodas literárias e as serenatas faziam sentido nessa existência alegre e poética. Fazia versos nas mesas dos cafés, na primeira folha de papel que lhe viesse as mãos. Gostava de dar asas a imaginação, comentando os mais diversos fatos, passando de literatura para a política, da política para as artes, das artes para a prisão do último ladrão. Era um orador de alta classe, porque de pequenas coisas sabia extrair grandes motivos.

Em seu "Dicionário Bibliográfico", o Barão de Studart afirma que Paula Ney foi nomeado diretor da Hospedaria de Emigrantes pelo marechal Floriano Peixoto, e foi destituído do cargo pelo governo de Prudente de Morais. A trajetória de Paula Ney foi interrompida no dia 13 de outubro de 1897, quando faleceu vítima de tuberculose. Tinha 39 anos.






Os cafés da Praça do Ferreira, que Paula Ney provavelmente frequentou, e foto ilustrativa da Praia de Iracema dos anos 90.


Ao longe, em brancas praias embalada

Pelas ondas azuis dos verdes mares

A Fortaleza – a loura desposada

Do sol – dormita à sombra dos palmares


Loura de sol e branca de luares,

Como uma hóstia de luz cristalizada

Entre verbenas e jardins pousada

Na brancura de místicos altares


Lá canta em cada ramo um passarinho

Há pipilos de amor em cada ninho

Na solidão dos verdes matagais...


É minha terra, a terra de Iracema,

O decantado e esplêndido poema

De alegria e beleza universais

 

Extraído dos livros “A História do Ceará Passa Por esta Rua”, de Rogaciano Leite Filho e Fortaleza 1910, Imprensa Universitária/UFC. Publicação FortalezaemFotos. Fotos Wikipédia, Arquivo Nirez e acervo particular. 

 

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Porto Canoa o Resort abandonado de Aracati

 



A promessa é que seria um megaempreendimento à beira-mar, no aprazível litoral de Aracati, nível internacional, com capacidade para receber até 1.100 pessoas. O projeto contava com salão de convenções, auditório com capacidade para 130 pessoas, salas de apoio para a realização de eventos, dois restaurantes, parque aquático, piscinas, lojas, um hotel resort 5 estrelas com 166 apartamentos, uma pousada com 20 apartamentos e três condomínios num total de 96 apartamentos.

O local denominado Porto Canoa foi inaugurado em 1996, com boa parte construída, iniciativa do empresário Clodomir Girão e aporte de capital de sócios estrangeiros. Seria o primeiro grande empreendimento hoteleiro de Canoa Quebrada, mais próximo, porém, da Praia de Majorlândia.  O projeto se arrastou por 10 anos, sem se estabilizar. Os investimentos ficaram escassos e houve debandada dos investidores estrangeiros. O resort nunca chegou aos 100% de ocupação e decaiu mais ao longo do tempo. O Porto Canoa mostrou-se um retumbante fracasso.

Hoje quem passa no sentido Leste a partir de Canoa Quebrada em direção a praia de Majorlândia se depara com os restos da construção: a parte do empreendimento que corresponde ao condomínio de apartamentos adquiridos por particulares, ainda está lá. São três blocos de apartamentos de tamanhos variados, regularmente ocupados, geralmente no sistema de aluguel por temporada, em local isolado, com praia privativa, mas sem acesso, sem infraestrutura por perto, e bem longe dos atrativos da famosa Vila de Canoa Quebrada.

O resto é abandono. As únicas vizinhas são as ruínas e a solidão. A começar pelo acesso pela praia ao resort, uma via em mau estado, cheia de mato, deserta e solitária. À noite, é de se esperar que a escuridão tome de conta. (tem acesso também pela CE 371). As ruínas das construções ficam dos dois lados da estrada, prédios, piscinas, colunas, pisos, azulejos, testemunhas do enorme desperdício de recursos empregados no malogrado projeto hoteleiro, que pretendia ser o maior da região.

De bom e bonito, restam a paisagem natural, o mar verde esmeralda de Aracati, as belas praias e alguns coqueiros, que felizmente não dependem nem dos recursos nem da (falta de) competência de nenhum empreendedor, e continuam formosas. Apesar deles.  


 






Fotos e vídeos: Fortaleza em Fotos nov/2023

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Os Casarões do Centro de Fortaleza

  

A maioria foi demolido, virou estacionamento. Casarões em perfeito estado, carentes de manutenção, é fato, mas perfeitamente recuperáveis. Uma mão de tinta, um remendo no piso, uma correção na fiação elétrica, uma atualizada nas instalações sanitárias, a conservação correta do teto, e pronto. A maioria dos poucos sobreviventes foram construídos em fins do século XIX/primeira metade do século XX. Os materiais empregados, eram importados (louças, pisos, telhas, madeiras, sacadas de ferro, azulejos etc.), e já não são mais empregados nas construções modernas. Tampouco existem peças de reposição disponíveis no mercado. As tintas também eram escassas pelo menos nas cores. Usava-se o cinza nas residências e amarelo nos prédios públicos.  


casarão da Família Gondim: demolido

segunda sede da Fênix Caixeiral: demolida 

Casarão da família de Joaquim Miranda, ultimamente Casarão dos Fabricantes: destruído num incêndio


Esses materiais de acabamento não eram produzidos no Ceará, daí a necessidade de importação deles. Aqui se fabricavam tijolos em quase todo o Estado, enormes, bem-feitos, ligados com massa de areia, cal de ostras e óleo de baleia quando em zonas de praia. Nessa arquitetura do tijolo, entretanto, verificou-se insistência do emprego da argamassa de barro e areia, cujos resultados tantas vezes negativos, punham em risco boa parte das obras, que se rachavam, ora sob o peso dos telhados, ora por acomodação do solo, ocado por formigueiros. Essa particularidade construtiva, comum em outras regiões do País, era notada pelos visitantes, que denunciavam as condições aparentemente pouco estáveis de igrejas, edifícios públicos e moradas de gente importante. Essa técnica de fabricação pode ter sido responsável pela perda de muitos imóveis antigos.  

A arquitetura também é típica daquele período, fachadas rebuscadas, com entalhes, relevos, pórticos, soleiras, lajes com pedra de lioz, importada de Lisboa. Os construtores eram verdadeiros artesãos, com figuras e acabamentos feitos à mão, caprichosamente desenhados, reproduzidas de plantas adquiridas no Velho Mundo. Os ornamentos internos falavam de seus moradores: políticos (sim, sempre foram ricos) ou homens em sua maioria enriquecidos com os lucros do algodão, das fazendas de café, e do comércio, portadores de títulos de nobreza, com título e brasão assinalados nas portas das residências.

Os belos casarões estão sumindo do centro de Fortaleza. O esvaziamento e a falta de novos empreendimentos ou propostas para requalificação da área, contribuem fortemente para essa cultura de apagar o passado. Para incentivar a recuperação e a ocupação, o governo municipal poderia conceder algum incentivo fiscal como a isenção de IPTU ou oferecer parceria na recuperação por um determinado período. Mas sem incentivo, sem interesse, sem valor comercial, muitas vezes produtos de heranças, com vários herdeiros, os imóveis acabam sendo demolidos. Mais fácil, mais barato, menos complicado.

Dos que ainda sobrevivem, ainda que só restem os traços da fachada está a antiga mansão da família Távora, em pleno centro da cidade na esquina das ruas Sena Madureira e Visconde de Saboia. Construído pelo coronel José Pacífico, rico cafeicultor da Serra de Baturité para sua filha Cândida. No velho casarão cinzento da Praça dos Leões nasceu o ex-governador Virgílio Távora, no dia 29 de setembro de 1929, filho de Carlota Augusta de Moraes (filha de Cândida) e do Dr. Manuel do Nascimento Fernandes Távora, militante do movimento tenentista do final da República Velha e plantador de café do Maciço de Baturité.


imagem Marciano Lopes
fachada do Solar dos Távora
a frente do imóvel é parcialmente encoberta por essa estrutura preta que piora a aparência e enfatiza o ar de decadência. 


A fachada como era comum às construções de fins do século XIX/início dos XX exibia inúmeras janelas guarnecidas de sacadas e portas de ferro. As linhas arquitetônicas eram exuberantes com figuras em relevo e arcos de meia volta.  A decoração interior do solar era das mais requintadas, com a utilização de objetos importados da Europa e do Oriente. Hoje, totalmente descaracterizado é utilizado em parte por uma loja de materiais de construção. A outra parte, inclusive a parte que contém um primeiro andar, está desativada e com a fachada preservada. As portas do andar inferior foram fechadas, talvez para evitar ocupações ilegais do imóvel.    

Outro imóvel de grande relevância histórica é o Palacete Carvalho Mota, na esquina das ruas Pedro Pereira com General Sampaio. O casarão foi construído em 1907 para residência da família do coronel Antônio Frederico de Carvalho Motta, comerciante ligado ao comércio de exportação presidente do Banco do Ceará, mais tarde Deputado Estadual; ocupou o cargo de 3° vice-presidente do Estado e chegou o ocupar o cargo de governador de 24 de janeiro a 12 de julho de 1912.



Palacete Carvalho Mota - imagem IPHAN




O palacete está situado na antiga Rua da Cadeia, atual General Sampaio esquina com a Pedro Pereira, em terreno medindo cerca de 700 m². Possui estilo eclético, numa mistura de elementos neoclássicos e art nouveau. Tem dois andares com janelas e portas em arco batido. A família ficou pouco tempo no local em razão de uma tragédia familiar.


Ao longo dos anos o palacete abrigou as instalações da IFOCS, posteriormente DNOCS, vindo a ser desocupado, apenas, ao final da década de 70 com a construção da nova sede da Diretoria Regional no Ceará. Em 1983, o imóvel foi restaurado com base em projeto elaborado pelo IPHAN, para a instalação do Museu das Secas, o qual abrigaria o acervo da instituição. Sem a devida manutenção o Museu das Secas que viria a ocupar uma área relativamente pequena do prédio, terminou por não ter condições de atender ao público que buscava visitá-lo. Ainda sobreviveu entre 1985 e 2004. Depois disso o prédio ficou desocupado, e desde então, está fechado. Hoje é um casarão triste e degradado.  

 

Fontes:

Mansões, Palacetes, Solares e Bangalôs de Fortaleza, de Marciano Lopes. ABC. Fortaleza.2000.

História Abreviada de Fortaleza e Crônicas sobre a Cidade Amada. Mozart Soriano Aderaldo. Fortaleza;/ UFC/Casa de José de Alencar, 1998.  

Virgílio Távora e a transição para o desenvolvimento do Ceará, de Juarez Leitão. Revista do Instituto do Ceará – 2013

Arquitetura no Ceará. O século XIX e algumas antecedências. José Liberal de Castro. Revista do Instituto do Ceará – 2014

http://www.fortalezaemfotos.com.br/2020/01/carvalho-mota-o-homem-por-tras-do.html

fotos acervo Fortaleza em Fotos


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

A Primitiva Sociedade Sertaneja

 

Basicamente a sociedade do século XVIII se dividia em duas classes sociais: de um lado, os senhores proprietários de terras, grandes latifundiários detentores do gado, escravos e principalmente, de terras; do outro lado, os “cabras”, constituídos de pequenos proprietários, arrendatários, médios e pequenos comerciantes, funcionários públicos, artesãos, agregados das fazendas, índios escravizados, negros, miseráveis, em diferentes níveis de relação ou dependências com relação aos proprietários de terras.

Casa grande do Umbuzeiro, construída no primeiro quartel do século XVIII, localizada na atual cidade de Aiuaba


Apesar da posse das riquezas e das relações de poder, o modo de vida dessas elites não se se diferenciava muito do restante da população, em virtude da fragilidade econômica local, com secas periódicas, solos ruins, baixa produtividade da terra etc. A diferença entre as casas grandes de fazendeiros e as dos vaqueiros e agregados, não eram tão grandes. Caracterizavam-se pela simplicidade da arquitetura e singeleza das mobílias. Todos tinham os mesmos hábitos alimentares e vestiam roupas simples.

Com a contínua expansão da pecuária e especialmente com os lucros vindos do comércio do charque no século XVIII, tornou-se comum dos fazendeiros com mais posses terem casas nas vilas, onde passavam temporadas como o Natal, a festa da padroeira e as eleições. Contudo, o local de residência do fazendeiro e de sua família, continuava sendo a fazenda de criar gado.

Na terra imperava a violência. As famílias frequentemente mobilizavam seus recursos contra ameaças vizinhas: ataques de outros latifundiários, roubo de gado, disputa por terras, fontes de água ou por razões morais, defesa da honra ofendida. Igualmente havia violência entre as camadas mais humildes. A pobreza, a fome e a escassez de recursos. Os bens eram reduzidos à propriedade de instrumentos de trabalhos, como enxadas, machados e foices, que a dificuldade de os obter os tornavam valiosos, e eram motivo de roubos e assassinatos.

Casa grande do Sitio São Romão, em Orós, construída há mais de 200 anos, com 40 cômodos. Antiga fazenda de exploração agrícola, criação de gado e engenho de cana de açúcar 
imagem DN 


O uso corriqueiro de armas era uma constante preocupação das autoridades que tentavam limitá-las sem muito sucesso. Dessa forma, em qualquer atrito, havia a possibilidade de os envolvidos usarem suas armas e provocarem vítimas.

A autoridade do homem predominava e as mulheres e crianças viviam sob grande opressão, situação ainda mais grave para as mulheres pobres, discriminadas também pela condição social. A mulher deveria ser obediente, submissa e cuidar casa, do homem e da criação dos filhos. O adultério era a maior das afrontas ao marido, punível com derramamento de sangue da adúltera, no chamado “crime de honra”.  

No período colonial eram comuns nas camadas mais pobres da população, os concubinatos (amantes) e amasiamentos (união consensual e estável) considerados crimes pelas autoridades civis e religiosas. Para as camadas dominantes o casamento oficializado era fundamental, por motivos religiosos e manutenção das aparências. Nessas classes sociais os casamentos eram maneiras de reafirmar relações de amizade e manutenção de patrimônio, o interesse dos noivos não era levado em consideração, daí que, muitas vezes estes tinham laços de parentesco e eram prometidos desde o nascimento; ou se conheciam já como noivos, em datas próximas ao casamento.

Entre os proprietários geralmente os casamentos ocorriam entre pessoas da mesma condição social. Contudo, o concubinato poderia quebrar essa regra, pois acontecia de fazendeiros ou autoridades se sentirem atraídos de moças solteiras, pobres, que em troca, ganhavam um certo status, desde que se mantivessem discretas e não afrontasse a boa moral da sociedade. Eram as chamadas “cunhãs” ou a “teúda e manteúda”, que viam na condição de amante uma forma de obter melhores condições de sobrevivência.

Na colônia era crime grave a “alcoviteria”, ou seja, explorar a prostituição. Haviam as chamadas casas de alcouce, um prostibulo eventual, onde o alcoviteiro propiciava o encontro entre homens e mulheres. Tal atividade garantia certa renda para o alcoviteiro que arranjava os encontros, não foram poucos os homens que exploravam seus familiares e senhores que alcovitaram suas escravas.

A sociedade sertaneja caracterizava-se ainda por extremo misticismo e religiosidade, sendo sobretudo, católica, apesar de o catolicismo ter sofrido um processo de sincretismo misturando-se a símbolos religiosos africanos e indígenas.

 

Fonte:

História do Ceará, de Airton de Farias

  

sábado, 16 de setembro de 2023

As Centenárias Igrejas do Centro

 O nosso centro da cidade, que perdeu importância econômica, financeira, política e social nos últimos tempos, ainda detém as construções mais representativas de uma época em que os templos católicos refletiam o status e a fé da população, e atingiam todas as classes sociais: As Igrejas Católicas. A maioria construída com donativos, enfrentando os desafios dos tempos atuais, as igrejas resistem: cercadas de grades, fechadas em boa parte do tempo, enfrentando a concorrência de igrejas evangélicos, mas ainda acolhedoras e receptivas aos homens e mulheres de boa vontade.

Estas são cinco primeiras igrejas de Fortaleza, que já foram fundadas nos mesmos locais onde se encontram até os dias atuais. Algumas foram reconstruídas com características totalmente diferentes dos modelos originais, como as Igrejas do Coração de Jesus, de São Benedito e a de São José (Catedral Metropolitana); a maioria, no entanto, sofreu ampliações e adaptações, no entanto, foram poucas as modificações em relação a construção original.      


1 – Igreja do Rosário - 1730




A Igreja do Rosário foi construída por volta de 1730, pelos negros da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, em uma época em que havia separação de raças e classes sociais em templos religiosos. Era uma pequena capela de taipa e palha, erguida com donativos ofertados pelos fiéis, num arrabalde da vila, que muitos anos mais tarde se tornaria a atual Praça General Tibúrcio.

Em 1753, a capela foi reconstruída com pedra e cal, porque ameaçava desabar. A capela mor ficou pronta em 1755. No período de 1821 a 1854, Igreja do Rosário serviu de matriz enquanto a Catedral Metropolitana passava por reformas. Construído em estilo barroco, é o mais antigo templo de Fortaleza, tombada pelo Estado em 1983. Fica na Rua do Rosário, s/n, Praça General Tibúrcio, Centro.



2 – Igreja do Patrocínio – 1852



A pedra fundamental da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, e ficaria pronta dois anos mais tarde. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto à Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção.

No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja, ao norte da atual Praça José de Alencar. O oficial teve que deixar Fortaleza e os trabalhos de construção passaram a ser muito lentos, apesar da ajuda de muitos fiéis que apoiaram a ideia do militar. A planta do templo foi feita pelo mestre Antônio de Rosa e Oliveira.

As obras iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, que contou com o auxílio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos, e dos materiais foram doados pelo governo nos períodos de secas. Situada na Rua Guilherme Rocha, 536, Praça José de Alencar.



3 – Igreja de São Bernardo – 1854



Em 1854 o Tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena capela de taipa e palha, em honra de Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, com a força das chuvas que caíram, a capela foi ao chão. Graças ao seu prestígio, o tenente Bernardo conseguiu um empréstimo do governo, e com esse dinheiro construiu a atual Igreja de São Bernardo. A igreja sofreu um único acréscimo em relação a construção original: a sacristia, feita por Monsenhor Quinderé, durante os anos 40.

Inicialmente o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo, que com o tempo mudou para São. Ficou sendo a Igreja de São Bernardo, embora a devoção maior fosse em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. Para justificar o batismo da igreja o Tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma imagem de São Bernardo, que passou a ser o titular da igreja.

A Igreja de São Bernardo conta com dois altares herdados da antiga Igreja da Sé, demolida em 1938: o Altar de São José e o de N. S. do Bom Parto.  Fica na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira.



4 - Igreja do Pequeno Grande – 1903

imagem: https://www.tiagoguedes.com.br/post/igreja-para-casar-em-fortaleza

imagem: https://www.tripadvisor.com.br

A história da Igreja do Pequeno Grande está intimamente ligada à história do Colégio da Imaculada Conceição.  A pedra fundamental foi lançada em 1898, pelo padre Chevalier, reitor do Seminário e capelão do Colégio da Imaculada.  As obras, mal iniciadas, sofreram paralisação no ano seguinte, sendo retomadas em 1898 até a sua conclusão em 1903, quando se verificou a benção do templo.

Para que o templo ficasse concluído, a Irmã Chambeaudrie doou à igreja uma herança de família. Por sua vez, os membros de diversas associações – Filhas de Maria, Senhoras de Caridade e as próprias freiras se dedicaram a missão de angariar recursos para a obra. Situada na Avenida Santos Dumont, 55.


5 – Igreja de Nossa Senhora do Carmo – 1906


imagem UOL

Originalmente era a capela de Nossa Senhora do Livramento, um pequeno templo erigido pela Irmandade dos Pardos, administrada pela Paróquia do Patrocínio, erguida em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. No início do século XX, foi decidida a construção de uma igreja em substituição à capela, que se encontrava em péssimas condições. Ainda na construção, foi permitido que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo.

O templo foi inaugurado em 25 de março de 1906, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral. A imagem que ocupa o centro do altar-mor tem uma história de desencontro: o Padre Dantas tinha encomendado a imagem de Nossa Senhora do Carmo em Portugal. Quando a efígie da santa chegou a Fortaleza, ele foi avisado de que deveria pagar os direitos alfandegários para que pudesse recebê-la, o que ele não fez por esquecimento.

Então a imagem foi a leilão, tendo sido arrematada pelo Sr. José Rossas, que procurado pelo padre negou-se a cedê-la por qualquer preço. Dias depois José adoeceu gravemente, e fez uma promessa de entregar a imagem à Igreja caso ficasse curado. Alguns dias depois, mandou que sua esposa procurasse o Pe. Dantas para entregar-lhe a imagem da Virgem Maria, sem qualquer compensação.  A Igreja do Carmo fica na Avenida Duque de Caxias, s/n.




Foram totalmente reconstruídas:


Igreja do Sagrado Coração de Jesus – 1886/1961

imagem Instituto do Ceará
imagem Pinterest

Inaugurada em 25 de março de 1886, a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi uma iniciativa do casal José Francisco da Silva Albano e Liberalina Angélica da Silva Albano (Barão e Baronesa de Aratanha), com o apoio do bispo Dom Luís Antônio dos Santos. Ficou conhecida como Igreja dos Albanos. O templo era simples, em linhas neoclássicas e neogóticas, se assemelhava à Igreja do Carmo.

Em 1952, os engenheiros Luciano Pamplona e Valdir Diogo aumentaram a altura da torre e colocaram um imenso relógio trazido de Roma na fachada. Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas. Ao invés de reconstruir a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem um templo maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.  A nova igreja foi inaugurada em 1961. Localizada na Avenida Duque de Caxias,135, Centro.



Igreja de São Benedito – 1885




                                                     imagem Arquidiocese de Fortaleza

A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu na manhã do dia 8 de abril de 1885.  Era uma igrejinha pequena, original, com quatro frentes para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada, situada ao lado oriental do Boulevard do Imperador, atual Avenida do Imperador. No dia 27 de julho de 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua, na Igreja de São Benedito. Depois nos anos 1960 foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queirós, que fica ao lado, e o antigo templo foi transformado em uma livraria, e foi demolido em 1974.


Catedral Metropolitana – 1795/1978

imagem Arquivo Nirez


A primeira Igreja da Sé, que tem São José como patrono, foi concluída em 1795 e demolido em 1820.

Em 1854 teve início a construção da segunda igreja de São José, em estilo colonial, o espaço em frente passou a ser chamado de Largo da Matriz; Hoje é conhecida por Praça da Sé. Essa segunda igreja foi demolida em 1938.

A Catedral Metropolitana atual foi inaugurada no dia 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente de suas obras e como Arcebispo Metropolitano, Dom Aloísio Lorscheider. Fica na Rua Conde D' Eu. entre as ruas General Bezerril, Dr. João Moreira, Castro e Silva e Rufino de Alencar.

As nossas igrejas são bastante modestas se comparadas aos imponentes templos construídos na Bahia, Pernambuco e Minas Gerais,  sob os ciclos da cana de açúcar e do ouro. A arte do Ciclo do Gado é a mais humilde, toda a sua arquitetura se faz, pela falta da pedra apropriada para a obra, em simples alvenaria, na qual se executa uma ornamentação própria. Nem esculturas, nem cinzeladuras, nem obras de talha, nem ouro, nem mármore e só algumas exibem azulejos.    

 

Fontes:

FONTES, Eduardo. As Pouco Lembradas Igrejas Fortaleza: subsídio à história dos templos católicos de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.

BEZERRA DE MENEZES, Antonio. Descrição da Cidade de Fortaleza. Introdução e Notas de Raimundo Girão. UFC/Prefeitura Municipal de Fortaleza, 1992

BARROSO, GUSTAVO. À Margem da História do Ceará. Imprensa Universitária do Ceará,  1962