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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Frei Tito

 Tito de Alencar Lima nasceu em Fortaleza no dia 14 de setembro de 1945, filho de Ildefonso Rodrigues de Lima e Laura de Alencar Lima. Foi o último dos onze filhos do casal, que já estavam com idade avançada quando ele nasceu, e cresceu entre o afeto, e os cuidados das irmãs mais velhas.

Começou a mostrar interesse pela política a partir dos 12 anos de idade, participando da Juventude Estudantil Católica (JEC), movimento de Ação Católica voltado para estudantes secundaristas, que unia a fé cristã ao compromisso social e à transformação política, influenciado por uma de suas irmãs.

Entre 1961 e 1962, estudou no Liceu do Ceará, participando da União Cearense de Estudantes Secundaristas. Nessa época, também se tornou congregado mariano, atuando nas comunidades pobres de Fortaleza, atuando na favela do Dendê, em Fortaleza.

Casa onde nasceu em Fortaleza, à Rua Rodrigues Júnior, 364

Em 1963 assumiu a direção da JEC e foi morar no Recife. Em 1966, ingressou no noviciado dos dominicanos em Belo Horizonte, e sendo ordenado sacerdote em 1967. A vivência na JEC moldou a trajetória religiosa e militante de Tito, aproximando-o de pautas de direitos humanos e da resistência contra o regime militar instaurado em 1964.

Mudou-se para São Paulo para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Em outubro de 1968, foi preso por participar do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna (SP). A reunião foi interrompida por uma operação policial, e Tito foi um dos 719 estudantes detidos. Fichado pela polícia, tornou-se alvo de perseguição pela repressão militar.

Preso em novembro de 1969, em São Paulo, acusado de oferecer infraestrutura a Carlos Marighella, político, escritor e guerrilheiro comunista, considerado um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura militar brasileira. Tito foi submetido à palmatória e choques elétricos, no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Em fevereiro do ano seguinte, quando já se encontrava em mãos da Justiça Militar, foi retirado do Presídio Tiradentes e levado para a sede da Operação Bandeirantes (Oban).


Durante três dias, bateram sua cabeça na parede, queimaram sua pele com brasa de cigarros e deram-lhe choques por todo o corpo, em especial na boca, “para receber a hóstia”. As autoridades queriam que Tito denunciasse quem o ajudara a conseguir o sítio em Ibiúna para o congresso da UNE e assinasse depoimento atestando que dominicanos haviam participado de assaltos a bancos. Tito tentou o suicídio e foi socorrido a tempo no hospital militar, no bairro do Cambuci.

Na prisão, escreveu sobre a sua tortura. O documento correu pelo mundo e se transformou em símbolo da luta pelos direitos humanos. Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Tito foi banido do Brasil pelo governo Médici e seguiu para o Chile. Sob a ameaça de novamente ser preso, fugiu para a Itália. De Roma, foi para Paris, onde recebeu apoio dos dominicanos. Traumatizado pela tortura, Frei Tito submeteu-se a um tratamento psiquiátrico. Nas ruas da capital francesa, ele “viu” o espectro de seus torturadores e cometeu suicídio.

No dia 10 de agosto de 1974, um morador dos arredores de Lyon encontrou o corpo de Frei Tito suspenso por uma corda pendurada em uma árvore. Foi enterrado no cemitério dominicano do Convento Sainte-Marie de La Tourette, em Éveux.


Convento dos Dominicanos, na França, onde Tito viveu seus últimos dias

Em 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil. Cercado por bispos e um numeroso grupo de sacerdotes, Dom Paulo Evaristo Arns repudiou a tragédia da tortura em missa de corpo presente, acompanhada por mais de 4 mil pessoas. A atuação de Frei Tito, como padre dominicano, foi predominantemente de caráter político. 


Fontes: 

https://memoriasdaditadura.org.br/personagens/frei-tito-de-alencar-lima/

https://mpce.mp.br/pagina-personalizada/especial-80-anos-de-frei-tito/   

jornal O Povo - Fotos Internet

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Paula Ney, poeta e boêmio

 



Paula Ney foi aluno do Liceu e do Seminário da Prainha. Mas nunca gostou de estudar, era um aluno rebelde. Enquanto estudava no Seminário, costumava fazer discursos contra os antigos métodos de violência empregado para o aprendizado das matérias. Como resultado, foi expulso por mau comportamento. No Liceu, a história se repetiu, sendo reprovado por conta de grande desentendimento com um professor de inglês.

Por causa de sua inadaptação, foi mandado pelo pai para o Rio de Janeiro, para estudar Direito; a mãe preferia que estudasse Medicina; no final, Paula Ney não seguiria nenhuma dessas profissões. Iniciou-se no jornalismo na “Gazeta de Notícias”, participou de comícios pela abolição da escravatura ao lado de José do Patrocínio, além de escrever em favor da liberdade. Mas, para atender as expectativas da mãe, matriculou-se na Escola de Medicina, que pouco frequentava. Comparecia apenas para realizar exames orais, conseguindo sucesso pelas amizades com os professores e gozações nas respostas:

- Diga ao menos quantos ossos tem o crânio de um homem ... – não me recordo professor... mas tenho-os todos aqui na cabeça. Fica satisfeito o primeiro examinador. Vai para avaliação do segundo:

- vou fazer a primeira pergunta. Se o senhor responder nada mais lhe perguntarei, dar-me-ei por satisfeito. “Diga-me quantos fios de cabelo tem o senhor?”

- duzentos e sessenta e cinco mil oitocentos e novecentos e quatro...

- mas como o senhor chegou a essa conclusão?

- caro professor, não se esqueça que o senhor garantiu que só faria uma pergunta. Trato é trato.

E é aprovado em Anatomia. No exame de Cirurgia teve de se haver com o Visconde de Saboia. Nada sabe do ponto sorteado. Resolve então fazer literatura.

- a mentalidade humana vive num oceano de hipóteses e de dúvidas... os sábios vão ao fundo, na ânsia das pesquisas, com o peso da inteligência...

- e a ignorância? Pergunta-lhe o Visconde.

- essa boia.

Mas essa vida fácil na Faculdade de Medicina não podia continuar eternamente. E foi ao prestar exame de Obstetrícia, com o professor Feijó Junior, que o fez dar por encerrada sua futura profissão de médico. Ao ser sabatinado, não conseguiu articular uma resposta, o que fez com que o professor dissesse: 

- “senhor Paula Ney... então não sabe isso? É incrível, uma coisa tão fácil...olhe que o que estou lhe perguntando é coisa que sei desde que nasci..."

Ney então compreende que está perdido. E quebra o silêncio fazendo a sala explodir numa gargalhada: - se o senhor sabe isso desde que que nasceu, então a senhora sua mãe devia ter uma biblioteca dentro do ventre”

Estava terminada a sabatina, e encerrado o curso para o aluno. Paula Ney nunca mais voltaria à Escola.

Francisco de Paula Ney, nascido em Aracati, no dia 2 de fevereiro de 1858, representa uma geração de poetas boêmios, despreocupada com a vida e com o futuro. Somente o prazer dos amigos, as rodas literárias e as serenatas faziam sentido nessa existência alegre e poética. Fazia versos nas mesas dos cafés, na primeira folha de papel que lhe viesse as mãos. Gostava de dar asas a imaginação, comentando os mais diversos fatos, passando de literatura para a política, da política para as artes, das artes para a prisão do último ladrão. Era um orador de alta classe, porque de pequenas coisas sabia extrair grandes motivos.

Em seu "Dicionário Bibliográfico", o Barão de Studart afirma que Paula Ney foi nomeado diretor da Hospedaria de Emigrantes pelo marechal Floriano Peixoto, e foi destituído do cargo pelo governo de Prudente de Morais. A trajetória de Paula Ney foi interrompida no dia 13 de outubro de 1897, quando faleceu vítima de tuberculose. Tinha 39 anos.






Os cafés da Praça do Ferreira, que Paula Ney provavelmente frequentou, e foto ilustrativa da Praia de Iracema dos anos 90.


Ao longe, em brancas praias embalada

Pelas ondas azuis dos verdes mares

A Fortaleza – a loura desposada

Do sol – dormita à sombra dos palmares


Loura de sol e branca de luares,

Como uma hóstia de luz cristalizada

Entre verbenas e jardins pousada

Na brancura de místicos altares


Lá canta em cada ramo um passarinho

Há pipilos de amor em cada ninho

Na solidão dos verdes matagais...


É minha terra, a terra de Iracema,

O decantado e esplêndido poema

De alegria e beleza universais

 

Extraído dos livros “A História do Ceará Passa Por esta Rua”, de Rogaciano Leite Filho e Fortaleza 1910, Imprensa Universitária/UFC. Publicação FortalezaemFotos. Fotos Wikipédia, Arquivo Nirez e acervo particular. 

 

domingo, 25 de março de 2012

Senador Pompeu – político no ofício da cultura

Thomaz Pompeu de Souza Brasil (1818-1877) mais conhecido como Senador Pompeu, destacou-se pela inteligência e cultura, no exercício de várias atividades: professor, bacharel em Direito, escritor, político, orador.  Fundador e primeiro diretor do Liceu do Ceará. Estabelecimento de ensino que serviu de base cultural para várias gerações de personalidades importantes do Ceará. Motivou através da análise social e de estudos específicos, o aprimoramento intelectual.  Graças a seus esforços, o Liceu tornou-se núcleo gerador de futuros estudiosos, atraindo até mesmo estudantes de outras províncias.

Prédio do Liceu do Ceará, instituição de ensino criada pelo Senador Pompeu (arquivo Nirez)

A primeira providência de Pompeu depois de assumir as funções no Liceu, como Inspetor-Geral da Instrução, foi fazer uma longa excursão pelo interior do estado, visitando as escolas primárias existentes nas diversas localidades da província.
Ao regressar do sertão, apresentou ao presidente, longo relatório no qual ressaltou as condições precárias daquele estabelecimento de ensino, sugerindo ao mesmo tempo uma indispensável reforma do sistema escolar dominante.  Acentuava que a simples escola de instrução, transmitindo apenas noções imperfeitas de cálculos, leituras e escrita, como vinha ocorrendo nas escolas primárias daquele tempo, estavam longe de atingir o ideal de verdadeira escola popular.
Para Thomaz Pompeu, a  escola deveria instruir, preparar o aluno, despertando-lhe as aptidões para o exercício de uma profissão útil no meio em que vivia. Achava o futuro senador do Império que o ponto básico da reforma estava antes de tudo, na preparação profissional do mestre, o qual a par de novos conhecimentos deveria possuir também condições para fazer da escola primária, estática e monótona, uma escola de trabalho, de atividades pré-vocacionais, que transformasse o estudante num homem do futuro, adestrado para viver e vencer no seu meio.  
Mas Pompeu não se restringiu apenas aos assuntos educacionais. Em 1864, na tribuna do Senado, falava sobre a defesa dos recursos naturais, exigindo a preservação das florestas, como também a construção de açudes para se vencer as consequências climáticas. Tal pronunciamento foi feito alguns anos antes da terrível seca de 1877 que se abateu sobre o Ceará, provocando a morte de milhares de sertanejos.
Entre seus trabalhos publicados destacam-se: Compêndio de Geografia Geral (1857);  Memória sobre o Clima e secas no Ceará (1877);
Sistema ou Configuração Orográfica do Ceará (1877), além de outros importantes estudos que servem até hoje como fontes de pesquisas.


Sede da Via-Férrea de Baturité, na atual Praça Castro Carrera, antigo Campo da Amélia (arquivo Nirez)

O Senador Pompeu participou da organização e criação da Companhia Cearense Via-Férrea de Baturité, em 1870, destinada à construção da estrada de ferro que se estenderia, muitos anos depois, até a cidade do Crato. Os maiores acionistas, além de Pompeu, foram os barões de Ibiapaba e Aquiraz, além de José Pompeu de Albuquerque Cavalcante e Henrique Brockehurst.
Estação Ferroviária de Maracanaú

Os trabalhos de construção do leito da estrada tiveram inicio no dia 20 de janeiro de 1872, pelo empreiteiro Jerônimo Luiz Ribeiro. Em novembro do ano seguinte, era iniciado o tráfego da estrada, com a inauguração da Estação de Arronches (atual Parangaba), e em 14 de janeiro de 1875, foi inaugurada a estação de Maracanaú.  Foi a última festa que contou com a presença do Senador Pompeu. A Estrada de Ferro de Baturité foi a primeira a ser construída na província.

Thomaz Pompeu de Souza Brasil nasceu em Santa Quitéria, Ceará, a 6 de junho de 1818, filho do capitão de milícias Thomaz de Aquino de Souza. Aos dezesseis anos de idade foi para Sobral, estudar Latim com o tio Gregório Francisco Torres e Vasconcelos. Interessou-se pelos estudos, pois a família queria que seguisse a vida sacerdotal. Em 1841, recebeu as ordens sacras no Seminário de Olinda. Dois anos depois bacharelou-se em direito.
Em 1844, candidatou-se a deputado, sem conseguir ser eleito. É bem sucedido em 1846, logo se destacando no Partido Liberal, sendo depois seu grande líder no Nordeste.  Nas eleições gerais para a Câmara Geral em 1845, fica como primeiro suplente do padre José da Costa Barros, assumindo o cargo no ano seguinte com a morte do titular.  Ao mesmo tempo, Pompeu dirige o Liceu do Ceará.
Thomaz Pompeu projetou-se também no jornalismo, principalmente no “O Cearense”, dirigido por Tristão de Alencar Araripe (Conselheiro Tristão) e Frederico Augusto Pamplona. Com a saída dos diretores para ocupar cargos públicos, Pompeu assumiu o jornal, que serviu para projetar suas ideias políticas.
Faleceu em 2 de setembro de 1877, aos 59 anos de idade, em consequência de uma lesão cardíaca de que era portador.  Até seu falecimento, Pompeu residiu na Rua Senador Pompeu (que à época era a Rua Amélia), n° 98, vendida pelos herdeiros para nela se instalar a Padaria Palmeira. Em 1896, em homenagem ao ilustre político, a povoação de Humaitá passou a denominar-se Senador Pompeu, que em 1901, passou a categoria de cidade.
Thomaz Pompeu foi sem dúvida, um dos políticos mais atuantes de sua época. 

extraído do livro
A história do Ceará passa por esta rua, 
de Rogaciano Leite Filho