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domingo, 18 de março de 2012

Sobre Cangaço e Cangaceiros

De acordo com folcloristas, cangaço vem da palavra canga, o conjunto de arreios usados para amarrar o boi ao carro – é provável que o termo tenha sido utilizado porque os bandoleiros usavam espingardas a tiracolo ou com correias cruzadas  no peito, lembrando o boi no jugo. Já em 1834, são registradas as primeiras descrições dos bandos que ficaram conhecidos por cangaceiros: chapéu de couro, clavinotes, cartucheiras de pele de onça pintada, longas facas enterçadas, batendo nas pernas, praticamente a mesma indumentária de Lampião.

 Virginio Fortunato vulgo Moderno (no centro) era cunhado de Lampião e liderou seu próprio grupo. Era casado com Durvinha, com quem teve dois filhos. 

Bandidos errantes sempre existiram por todo o país, desde o período Colonial – grupos de assaltantes de estradas que intranquilizavam os viajantes  e eram sistematicamente combatidos pelas autoridades. O cangaço, contudo, foi um fenômeno típico da região Nordeste. A expressão designava os grupos armados sob a liderança de um chefe, que se mantinham nômades e autônomos, vivendo de assaltos e saques e não se ligando permanentemente a nenhuma liderança politica ou latifundiário.

no furo das balas ou no corte das lâminas, vários foram o poder das armas. Serviram a cangaceiros, e coronéis do sertão, a pistoleiros e policiais. Acervo do Museu do Ceará (foto Fátima Garcia)

Há quem veja os cangaceiros como espécies de Robin Hood dos sertões, tirando dos ricos e dando aos pobres. Bandoleiros como Antônio Silvino, que se autoproclamava o “governador dos sertões”, quando assaltava uma localidade, na maioria das vezes dava um passeio  de braços dados com o prefeito ou o delegado de polícia, fazendo depois a bolsa, ou seja, coletava dinheiro entre os proprietários e comerciantes, ficando com a quantia da qual necessitavam e distribuindo o restante entre os populares.
Os cangaceiros obtinham apoio também pela coação e medo. Para os populares e coronéis as únicas alternativas eram ajudar os bandoleiros, ou então sofrer perseguições. Os bandos do cangaço eram extremamente brutais com quem os traía ou ajudava os inimigos. A simples suspeita já bastava para os atos de crueldade. Puniam não só os faltosos, mas também a família destes e até mesmo o povoado onde por acaso residisse. 

 O Punhal que pertenceu a Virgulino Ferreira, O Lampião, hoje faz parte do acervo do Museu do Ceará (foto Fátima Garcia)
punhais que pertenceram a cangaceiros, recuperados pelas volantes. Acervo do Museu do Ceará (foto Fátima Garcia)

Os cangaceiros eram mestres em sangrar pessoas, enfiando-lhes longos punhais entre  a clavícula e o pescoço. Marcavam mulheres com ferro quente, arrancavam os olhos, cortavam línguas, orelhas, castravam homens, violências iguais às cometidas pelos policiais e as volantes. Estes, na ânsia de saber o rumo dos cangaceiros, realizavam crimes hediondos contra a população rural. Muitos policiais, no entanto, chegavam a vender armas e munição  para cangaceiros ou se corrompiam, protegendo ou facilitando suas fugas. Sobre o comandante da expedição que matou Lampião em 1938, capitão João Bezerra, pesavam acusações desse tipo. 

 Cartaz do governo oferecendo 50 contos de reis de recompensa pela captura de Lampião. Uma pequena fortuna, na época. imagem do Blog do Nogueira disponível em 

Os grupos de cangaceiros eram, em geral, pequenos, com três a dez homens no máximo, embora  houvesse bandos maiores, como o do próprio Lampião, que chegou a reunir 100 componentes. Os grupos eram conhecidos pelo nome do chefe. Este selecionava os homens que entrariam no bando, armava-os, atribuía-lhes apelido e determinava as normas de comportamento. A palavra do chefe era inquestionável, sendo ele chamado de patrão. O chefe monopolizava os contatos com os coronéis, coiteiros,  e fornecedores, era quem ficava com a maior parte dos recursos produzidos nas ações criminosas.
Entrando para o cangaço, o individuo  dificilmente saía dele vivo. Mesmo o que se entregava, acabava morto por desafetos, parentes de suas vítimas ou pelos antigos companheiros, os quais temiam que os segredos do grupo fossem  revelados. Quando capturados os cangaceiros eram sumariamente fuzilados, só conduzia-se para a cadeia um ou outro nome mais conhecido, como aconteceu com jararaca – José Leite Santana – baleado e preso no dia seguinte ao assalto malogrado à cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Depois de prestar minucioso depoimento, é levado para o cemitério e ali morto pela polícia. 
Os cangaceiros não deixavam que a polícia avaliasse o resultado dos combates. Conduziam os mortos ou, na impossibilidade, cortavam-lhes as cabeças, dificultando a identificação. Quando assassinados pela polícia, esta igualmente decapitava os mortos, para comprovar o fato e receber as recompensas pagas pelas autoridades. 
Foi o que ocorreu com o bando de Lampião. As cabeças do rei do cangaço e de mais onze companheiros foram colocadas em latas de querosene, cheias de sal grosso para conservá-las. Os corpos foram atirados num riacho seco. Mumificadas, as cabeças ficaram expostas no museu Nina Rodrigues, de Salvador, até 1969, quando familiares conseguiram autorização para fazer o sepultamento. 

Dadá e Corisco. 
Corisco sequestrou Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, quando ela tinha apenas treze anos. Usou da força bruta para que a moça permanecesse com ele, e mais tarde o ódio se transformou em  um grande afeto. Corisco ensinou Dadá a ler, escrever e usar armas, e permaneceu com ela até no dia de sua morte. Os dois tiveram sete filhos, mas apenas três deles sobreviveram. 

Após a morte de Lampião em Angicos, em 1938, Corisco – Cristiano Gomes da Silva Clero – que não se encontrava naquela localidade e ocasião, assumiu a tarefa de vingar a morte do ex-chefe e amigo. Matou várias pessoas suspeitas de terem traído Virgulino Ferreira. Corisco chegou a enviar cinco cabeças num saco para o prefeito de Piranhas-AL.  No ano de 1940, Corisco foi ferido e morto pela polícia – a sua mulher Dadá, sobreviveu, perdendo uma perna – A morte do Diabo Louro simbolicamente significou o fim do cangaço.


Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias   
wikipédia      

domingo, 26 de dezembro de 2010

As Mulheres no Cangaço



Um dos aspectos mais relevantes do cangaço foi a participação feminina. Antes do bando de Virgulino Ferreira, O Lampião, não se tem noticias de que mulheres tenham vivido ou participado do cangaço. Quando um cangaceiro se envolvia com uma mulher, procurava deixá-la em lugar seguro, sob a proteção de alguém de sua confiança, visitando-a quando tinha oportunidade.
A principio, o bando tinha por regra não violentar mulheres e assumir uma postura de repúdio frente a prostituição, mas pouco a pouco os bandos se afastaram dessas regras morais do cangaço. Em 1923 na cidade de Bonito da Santa-Fé – PB, Lampião deu inicio ao estupro coletivo da esposa de um delegado. Passou, então, a fazer parte da normalidade, nas festas e fazendas onde chegavam, os cangaceiros se apropriarem das mulheres, casadas ou não, para se distraírem. 

 Maria Bonita ainda em trajes normais ao lado de Lampião, já cangaceiro famoso
Imagem: http://serratalhadaa.blogspot.com/2008/08/70-anos-da-morte-de-lampioo-rei-do.html

Um novo comportamento frente ao sexo feminino, só se verificaria a partir de 1930, quando Lampião decidiu levar Maria Bonita para viver no bando. 
O nome verdadeiro da moça era Maria Gomes de Oliveira, conhecida por Maria de Déa. Morava em Santa Brígida – BA, onde tinha uma relação de muitos desentendimentos com o marido. Bonita, morena, cabelos longos, inteligente, Maria foi levada por  Lampião quando este visitava a fazenda dos pais dela,  no norte da Bahia. Ela tinha 20 anos, Lampião 33.  Os cangaceiros chamavam-na de Dona Maria ou “a mulher do capitão”.  Mais tarde, recebeu o sugestivo apelido de Maria Bonita. Depois outras mulheres se juntaram aos cangaceiros:  

Dada (de Corisco), Neném (de Luiz Pedro), Durvalina (de Moreno), 
Sila (de Zé Sereno), Lídia (de Zé Baiano), Inacinha (de Gato), Adília (de Canário), 
Cristina (de Português), Maria Jovina (de Pancada), Dulce (de Criança), 
Moça (de Cirilo Engrácia), Otília (de Mariano), Maroca (de Mané Moreno), 
Mariquinha (de Labareda), Maria Ema (de Velocidade), Enedina (de Cajazeira), 
Rosalina (de Chumbinho), Estrelinha (de Cobra Viva), Hortênsia (de Volta Seca), 
Lacinha (de Gato Preto), Iracema (de Lua Branca), Eleonora (de Azulão), 
Lili (de Moita Braba), Catarina (de Sabonete), Mocinha (de Medalha), 
Maninha (de Gavião), Maria Juriti (de Juriti), Dora (de Arvoredo), 
Marina (de Laranjeira), Dinha (de Delicado).



Uma das mais famosas, além de Maria Bonita foi Dadá, mulher de Corisco, o diabo loiro. De acordo com Dadá, a “sertaneja achava bonito era bandido, todo enfeitado, todo perfumado, todo cheio de coisas”. Além desse fascínio, a vida de cangaço permitia às mulheres escaparem das árduas tarefas diárias da vida no campo. 
A presença de mulheres no bando serviu também para reduzir a violência dos criminosos – as vitimas apelavam a sensibilidade feminina e não raro as mulheres intervinham junto aos homens. Além disso, a presença delas entre os bandoleiros significava uma garantia de respeito para as mulheres e filhas dos sertanejos surpreendidos por um ataque dos cangaceiros.
O cangaceiro Sebastião Pereira da Silva, o famoso Sinhô Pereira, o único que chefiou Lampião, declarou que ficou admirado quando soube que fora admitida a presença de mulheres entre os cangaceiros, coisa que ele próprio jamais permitiria, afinal Padre Cícero já havia profetizado que Lampião seria invencível enquanto não houvesse mulheres no bando. 

 retrato de Maria Bonita exposto na casa onde ela viveu no povoado de Malhada do Caiçara, em Paulo Afonso (g1.globo.com)

A chegada das mulheres também impôs novas regras de convivência dentro do grupo:  exigia-se respeito para com as mulheres dos companheiros; a ninguém do bando era dado o direito de ter mais de uma companheira, e estas, na maioria das vezes eram esposas devotadas e fiéis; os casos de adultério eram punidos com a morte – foi o caso de Lídia, mulher do cangaceiro Zé Baiano, morta por ele a cacetadas, por tê-lo traído com o companheiro Besouro, que teve o mesmo destino sob os olhares de aprovação de Lampião. Quando morria um companheiro, a viúva tinha que arranjar um novo parceiro. Quando isso não acontecia, as viúvas eram executadas para que não falassem muito ou não tentassem abandonar o bando, ameaçando assim a  segurança do grupo. 
As mulheres não eram guerreiras e tinham somente armas curtas de defesa. As crianças nascidas dessas uniões eram dadas a compadres, gente que tinha residência fixa, padres ou coronéis que pudessem dar-lhes uma vida tranquila e digna. 



O cangaceiro Zé Baião declarou em uma entrevista ao um jornal de São Paulo que, enquanto não havia mulheres entre eles, o cangaceiro brigava até enjoar. 
Depois disso passaram a evitar os tiroteios, e os bandos batiam logo em retirada para que fossem resguardadas a integridade física das companheiras. As mulheres tinham resistência e a valentia dos homens, mas muitas vezes atrapalhavam nas fugas por ficarem doentes ou grávidas.
De todas as mulheres, a que mais passou tempo no cangaço foi Maria Bonita, que morreu ao lado de Lampião em 1938, em Angicos. 

pesquisa:
História do Ceará, de Airton de Farias
Mulheres no cangaço. Disponível em http://tudonahora.uol.com.br/noticia/artigos/2009/03/08/47667/mulheres-no-cangaco 
As mulheres do cangaço. Disponível em