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domingo, 18 de dezembro de 2011

Padre Ibiapina o Apóstolo do Nordeste



José Antônio Pereira Ibiapina, nasceu em 1806, no povoado de São Pedro de Ibiapina, região de Sobral, filho de Miguel Ibiapina, um dos participantes da Confederação do Equador, fuzilados no Passeio Público. Após os acontecimentos de 1825, Ibiapina, órfão, recebeu ajuda de José Martiniano de Alencar e se dirigiu a Pernambuco, onde se bacharelou em direito. 

Cidade de Sobral, região onde em 1806 nasceu o Padre Ibiapina (foto IBGE)  

Na década de 1830, foi eleito pelo Ceará deputado geral do Império (1834-37) e juiz de direito em Quixeramobim (1834-35). Sofreu, contudo, uma grande desilusão amorosa: a noiva, Carolina Clarence (filha de Tristão Gonçalves), com que planejava casar-se, o abandonou e fugiu com um primo.

Ibiapina começou a se desentender com o então presidente cearense, senador José Martiniano de Alencar, ao recusar-se a promover, como juiz, as perseguições políticas e pessoais pretendidas pelos liberais. Posteriormente, Antônio Ibiapina abandonou a magistratura e a política, decepcionado com as injustiças que presenciava.

Em 1938 passou a residir em Recife, dedicando-se à advocacia. Em pouco tempo se notabilizou na profissão, ganhando fama de defensor dos pobres. Levava uma vida reservada, profundamente católica.

Em 1853, aos 47 anos de idade, o sobralense decidiu dar novo rumo à sua vida e ordenou-se padre pelo Seminário de Olinda, trocando o sobrenome Pereira pelo nome de Maria, em homenagem à Virgem Mãe de Deus. Sensibilizado com o sofrimento dos humildes, passou a percorrer os sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí, como missionário e realizando obras em mutirão – açudes, poços, cacimbas, capelas, igrejas, cemitérios – para atenuar o sofrimento e o abandono do povo do sertão nordestino.

Multidões escutavam e seguiam o pregador, os sertanejos consideravam Ibiapina um homem santo, atribuindo-lhe milagres e curas.

Uma das Casas de Caridade criadas pelo Padre Ibiapina, localizada no Crato, ao lado da Rádio Educadora do Cariri. Uma estátua homenageia e lembra o seu fundador (foto do Diário do Nordeste)
  
O padre construiu as famosas Casas de Caridade, que se destinavam a servir de escolas para as filhas de famílias ricas, de orfanato para as crianças mais pobres,   e ainda de centro profissional e hospital.  Criou também a Irmandade da Caridade, composta por mulheres leigas, beatas vestidas com hábitos e que faziam votos de castidade e pobreza, renunciando aos prazeres do mundo. Essas beatas trabalhavam nas casas de Caridade. Ibiapina acabaria entrando em rota de colisão com a alta cúpula da Igreja Católica.

Casa de Caridade de Santana do Acaraú 
foto http://memorialdasenhorasantana.blogspot.com

As mudanças operadas na organização eclesiástica em decorrência da romanização afetaram o relacionamento entre os padres e os paroquianos no Nordeste. A igreja aumentou o número de dioceses, colocando-as sob a administração de sacerdotes paulistas, mineiros ou estrangeiros, elementos estranhos ao universo cultural e social dos sertões. 

O Ceará foi uma área marcada profundamente pela romanização. A criação da diocese local em 1854 coincidiu com o período inicial de tal processo.  No ano de 1861 foi nomeado o primeiro bispo da província, Dom Luís Antônio dos Santos.  Este se voltou totalmente para a doutrinação romântica dos novos clérigos. Em 1864 fundou o Seminário da Prainha, em Fortaleza, chefiado pelos padres lazaristas franceses, uma ordem confiável e obediente ao Vaticano,  que tinha entre outras funções, o controle do misticismo popular, que tinha então como figura máxima o padre Ibiapina.

Seminário da Prainha em 1905 (arquivo Nirez)

Este acabou advertido pelo bispo D. Luís, sendo obrigado a entregar as Casas de Caridade e as Irmandades da Caridade ao controle episcopal,  e a deixar o Ceará. Ibiapina foi para a Paraíba, onde continuou seus trabalhos missionários pelo Nordeste, até falecer naquela província, em 19 de fevereiro de 1883.

Suas práticas marcaram profundamente os corações sertanejos e influenciaram outras importantes lideranças religiosas, como Padre Cícero e Antônio Conselheiro.

Fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias

segunda-feira, 30 de maio de 2011

As Irmandades Religiosas no Ceará

 
Foto do livro Ceará Terra da Luz 

No período colonial, as irmandades religiosas tinham uma grande influência na vida da população. Tendo origem nas confrarias da Europa medieval, consistiam em associações religiosas de leigos, cujo propósito era cultuar um santo através de procissões, festas, construção de templos, prática de caridade. 
Também se responsabilizavam pela assistência social e pelos enterros dos seus associados – que se davam no interior das igrejas.

procissão das candeias em Juazeiro do Norte 
(foto do livro Ceará Terra da Luz)
Uma das maiores preocupações do homem no período colonial era com a morte, pois as pessoas sem posses acabavam sendo sepultadas nos campos e areais, enquanto os membros das confrarias eram assistidos por seus pares, que davam assistência a órfãos e viúvas, cuidavam do funeral e rezavam pela alma do falecido.
Existiam irmandades apenas de brancos, as de brancos e pretos, outras de pardos e algumas, mais raras, só de pretos, compostas quase sempre de escravos e de ex-escravos. As reuniões das confrarias, contudo, acabavam sendo também espaço de congraçamento social, pois possibilitavam contatos entre as pessoas para conversar, rever e fazer amigos, inteirar-se das novidades, e praticar outras ações, que fugiam a rotina do dia a dia. 
As irmandades, em razão da escravidão e das diferenças sócio-econômicas, funcionavam como entidades de classe, no sentido do termo. Congregando de inicio, pessoas da mesma cor, havia as Irmandades nobres como a do Carmo, a de homens pretos como a do Rosário, e uma de São Francisco para os mulatos.


As Igrejas do Rosário e do Carmo são algumas da igrejas de Fortaleza construídas por Irmandades religiosas

No que tange às irmandades no Ceará, era também objetivo de quase todas, a assistência aos irmãos mal sucedidos nos negócios ou com problemas financeiros. Destas, a mais preocupada com a assistência social, teria sido a Irmandade do Santíssimo Sacramento da cidade de Aracati, que recomendava insistentemente a aquisição de meios para instituição de um Montepio que teria por fim socorrer de preferência as famílias dos confrades que venham a cair em indigência.
Algumas irmandades como a dos Homens Pretos eram abertas à participação de mulheres, enquanto outras, a exemplo da Irmandade do Santíssimo eram formadas apenas por homens. A devoção ao Rosário da Virgem Maria possivelmente chegou ao Ceará com os negros vindos com os primeiros colonizadores. Entre os templos erguidos por essas irmandades está a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Fortaleza.
A Irmandade mais antiga do Ceará, seria a da cidade de Russas, fundada em 1728.

Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias
As Irmandades Religiosas no Ceará Provincial, de Eduardo Campos