quinta-feira, 24 de maio de 2012

As Guerras entre Famílias: Macieis x Araújos

Quixeramobim - Ceará (foto Francisco Garcia)

A família Maciel que formava nos sertões entre Quixeramobim e Tamboril um numeroso clã, de homens trabalhadores e bravos, vivendo de vaqueirice e pequena criação, vieram a fazer parte dos registros criminais do Ceará, por causa de uma guerra de família.
Seus êmulos foram os Araújos, família rica e filiada a outras das mais antigas do norte do Ceará, a qual vivia na mesma região, tendo como sede principal a povoação de Boa Viagem, distante cerca de dez léguas de Quixeramobim. Foi uma das lutas mais sangrentas a que se envolveram esses dois grupos de homens desiguais pela fortuna, ambos numerosos e embrutecidos na prática das violências.


Tamboril - Ceará, avenida principal. (foto: http://www.turismopelobrasil.net/turismo/cidade_index.asp?cidade=Tamboril-CE  

Por esse tempo, os Macieis ou Carlos, como também eram chamados,  foram acusados da autoria de uns roubos sofridos por Silvestre Rodrigues Veras, morador de Vila Nova, e por Antônio de Araújo Costa, parente deste e morador em Boa Viagem, do termo de Quixeramobim.  Eram ambos criadores ricos, e segundo o costume em voga, lhes era permitido fazer justiça com as próprias mãos. 
Filhos e genros de Silvestre declararam guerra à família Maciel e, juntando um grupo de matadores, dirigiram-se a Quixeramobim, onde alguns dos suspeitos, acossados em Vila Nova, acabaram mortos pelos rivais.
De sua parte os Macieis reunidos a parentes e amigos de Quixeramobim, se prepararam  para a chegada dos agressores. Fortificaram-se e revidaram, derrotando  os filhos e genros de Silvestre Rodrigues. Vencidos nesta primeira tentativa, o bando de Silvestre Rodrigues pediu ajuda a José Joaquim de Menezes, conhecido na região pela valentia. Este veio acompanhado de Vicente Lopes, a quem fora pedir auxilio em Aracatiaçu. Menezes fazia-se acompanhar também de alguns ex-praças que tinham servido em Montevidéu.
José Joaquim de Menezes muito hesitou em atender ao pedido de ajuda dos Araújos e Veras, por não querer se envolver com a questão, e por não estar convicto da culpa dos acusados, mas acabou concordando, e partiu com seu séquito, para render os Macieis. 
Chegando a casa destes, negociou para que se entregassem, garantindo-lhes a vida, sob sua palavra de honra. De fato, os conduziu até o Serrote, tratando a todos muito bem. Dali, porém, partiu para o Piauí e passou os prisioneiros ao domínio dos Araújos e dos Veras, recomendando-os à sua lealdade.


Centro de Sobral, data não especificada (acervo IBGE)

Eles, no entanto, logo depois da partida de Menezes, algemaram todos e se puseram a caminho, supostamente para a cadeia de Sobral. Mas depois de um dia de viagem, simularam  um tiroteio com um inimigo invisível escondido no matagal, e mataram a todos cruelmente, amarrados como estavam.  
Somente dois dos Macieis escaparam, um deles, de nome  Miguel Carlos, conseguiu se evadir, algemado e com as penas amarradas por baixo da barriga do cavalo que montava.  Da chacina foram vítimas dois velhos chefes de família – Antônio Maciel e Manoel Carlos, que segundo diziam, nem os próprios inimigos, que acusavam seus filhos,  acreditavam na participação deles. 
A notícia do massacre encheu de indignação a quantos sabiam do empenho feito por Menezes para efetuar a captura e da garantia de vida prometida por ele. Sobretudo, escandalizava as gentes do sertão, o assassinato dos dois pobres velhos. 


Posição do municipio de Quixeramobim no mapa do Ceará
 
Miguel Carlos surgiu algum tempo depois nos sertões de Quixeramobim, num lugar chamado Passagem. Ali foi surpreendido por uma grande escolta dirigida em pessoa por Pedro Martins Veras. Estava de cama, doente com um ferimento no pé, em companhia apenas de uma irmã. 
Mesmo surpreendido, atirou no primeiro homem que se adiantou, de nome Teotônio, deixando-o caído sobre o batente. A irmã procurou tirá-lo para fechar a porta, e recebeu um tiro no peito desferido por Pedro Martins Veras, que a matou. Miguel Carlos, já tendo novamente carregado sua arma, acertou-lhe um tiro na barriga, que obrigou o bando a recuar. 
Fechada a porta e continuando a resistir, atirando contra os agressores, estes se colocaram a distância e recorreram a um expediente menos perigoso para eles: juntaram lenha e atearam fogo à casa, que era de palha de oiticica. Quando a casa já ardia, Miguel Carlos aproximou-se de um pote, derramou a água que ali estava em direção ao fundo da casa, e desse modo, a salvo do fogo,  abriu uma porta, passou rápido, sem ser vistos pelos assassinos ali postados, e embrenhou-se na selva. Estava gravemente ferido, mas logrou escapar dos matadores e procurou novo abrigo entre seus parentes dentro da vila de Quixeramobim. 


Estação de Uruquê, antiga Francisco Sá em Quixeramobim -CE. Início do século XX. (foto do site estações ferroviárias)

Meses depois, Miguel Carlos mandou matar Luciano Domingos de Araújo, um dos chefes da  família Araújo.  Luciano tinha contratado casamento com uma filha de Ignácio Lopes Barreira, criador rico, morador de Tapuiará, algumas léguas abaixo de Quixeramobim. Chegando o dia das núpcias, o noivo passou com uma comitiva, dirigindo-se à casa da noiva.  Miguel Carlos mandou Estácio José da Gama, emboscar-se no lugar chamado Uruquezinho, ao lado da estrada, que ele obstruiu com galhos de árvores. 
Quando o noivo apontou no caminho, um tiro o feriu mortalmente. Os companheiros o colocaram numa rede e o conduziram até Tapuiará, onde casou e expirou quase imediatamente.
A tradição é que a morte de Luciano fora obra de Miguel Carlos, mas Estácio confessou ser o autor e por isso, foi condenado à morte e fuzilado no dia 14 de março de 1834. Os últimos episódios dessa luta sangrenta foram dentro da vila de Quixeramobim, meses depois da execução de Estácio.


área rural de Quixeramobim (foto Francisco Garcia)

Uma manhã, saindo de casa de Antônio Caetano de Oliveira, Miguel foi banhar-se em um poço do rio que corre por trás dessa casa, situado quase no extremo da praça principal da vila. Nos fundos da casa indicada estava a embocadura do riacho da Palha. Miguel Carlos estava no riacho com alguns companheiros, quando surgiu um grupo de inimigos que o esperavam escondidos por entre o denso matagal. Estranhos e parentes de Miguel Carlos tomando as roupas depostas na areia e vestindo-as ao mesmo tempo em que corriam, puseram-se em fuga.
Com a faca em punho, Miguel Carlos também correu na direção dos fundos de uma casa próxima, chegou a abrir o portão, mas quando quis fechá-lo foi abatido com um tiro partido dos inimigos que o perseguiam.  
Enquanto agonizava, caído com sua faca na mão, Manoel de Araújo, chefe do bando e irmão do noivo assassinado, pegando-o por uma perna, lhe cravou uma faca. O moribundo reagiu no mesmo instante, com outra facada na carótida, morrendo os dois, quase instantaneamente.  
Inúmeras outras vítimas fez essa guerra sertaneja, vítimas anônimas, colhidas no serviço dos dois grupos.   

extraído do livro
Ceará (homens e fatos) de João Brígido  

4 comentários:

  1. Meu Pai era Araújo por parte do meu avô e Maciel por parte de Minha vó

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  2. Amaro de Araújo Sousa, segundo ele as famílias Maciel e Araujo acabaram se envolvendo depois da morte dos lideres das duas famílias, pois Maciel tinha muitas mulheres, pois a Família Maciel era de origem pernambucana e tinha vindo para o Ceará por conta de um conflito com a família Mourão. Meu pai narrava essa saga desde a origem do conflito com os Mourões e Macieis.

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  3. Helenice Araújo Costa Como o post em que você me marcou sobre a guerra entre Maciel e Araújo não me permite comentar, comento aqui. A guerra entre famílias era algo "comum" naqueles tempos, segundo tenho visto. No caso Maciel e Araújo, sempre tenho ouvido dizer que o "roubo" foi pura calúnia. Como sempre, os poderosos querendo manchar a honra dos mais humildes. Pior é que somos herdeiros dos dois lados. Mas, sinceramente, como sempre sou contrária ao jugo de alguém sobre outrem, sempre tive mais antipatia pela arrogância dos Araújo. Se agora, em pleno século XXI, os plutocratas inventam crimes para condenar os pobres, imagine naquele tempo de voto censitário, né? E que os Araújo não me entendam mal. Meus dois avôs eram Maciel e Araújo. Obrigada, Anésio Mendes.

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  4. muito oportunos seus comentários, Professor Anésio

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